sábado, 8 de janeiro de 2011

DUETO IMPREVISTO



VIOLINO

Allegro ma non troppo

Estava ansioso quando se apresentou ao Director logo que conseguiu ser recebido. Estava muito tenso. Passara o fim de semana, fechado no escritório, revendo os dados que tinha coligido sobre o trabalho que lhe sido pedido, passando para um disco rígido toda a informação delicada.Guardou o disco no cofre, e limpou o computador, como aprendera a fazer, sem deixar rastros.
Olhava-se e não se sentia bem; bem parecia que estar a trair alguém. Talvez a si mesmo?
Ricardo, entrou no gabinete onde tantas vezes estivera como amigo, mas desta vez,de uma forma distante.
E disse:
- Senhor Director Nacional
Quando no início de 2007, me escolheu para chefiar um departamento inexistente mas a que era dada importância relevante, julguei que a organização me tivesse escolhido por reunir qualidades e não ser um deixa andar. Mas, agora verifico que alguém se enganou. Ou eu sou um incompetente e ninguém mo dizia ou sou alguém que procurando fazer o trabalho da melhor forma, incomodou quem não devia ser incomodado. Assim, sem esta dúvida ficar esclarecida, decidiram que eu merecia uma prateleira dourada, colocada lá bem no alto, mas onde não estorve ninguém. Desta maneira evitam que eu ande a mexer onde não devo, não é assim?
O Director Nacional que o conhecia muito bem, agitou-se na cadeira incomodado. Ignorou a insinuação, dizendo que Ricardo, também devia entender a situação como um novo desafio. Vai ficar disponível para investigar as situações mais difíceis e ficará dependente apenas de mim.
-Oh, senhor Director , agradeço a promoção, mas o que eu fazia antes de me calarem era também investigação de situações delicadas, envolvendo dinheiro de corrupção, tráfico de influências, fuga aos impostos, enriquecimento ilícito, eu sei lá que mais. É como bem sabe uma praga, que tem alastrado a uma velocidade constante,e hoje assume proporções de desastre nacional. Ou estarei errado?
Mas tudo bem. As pessoas que se sentiram mal, podem dormir descansadas eu vou parar a minha investigação e calo-me, porque apesar da náusea que sinto, a palavra trair, não entra no meu léxico.
Mas não quero, nem posso, deixar de sublinhar ar a minha profunda mágoa. Acreditei, desde o meus primeiros dias, que tinha uma missão. Agora, reconhecer, que ao fim de trinta de trabalho estava enganado, é uma dor muito profunda e os danos são irreparáveis. Foi a gota que extravasou do copo.
Para aqueles que foram ocupar o meu lugar, e que eu bem vi, a tentarem vasculhar no meu antigo gabinete, procurando os segredos que eu lá teria escondido, deixo um sorriso de escárnio. Eu foi ingénuo muitas vezes, mas aprendi a lição.
Por amizade e consideração, quero informá-lo, em primeira mão, que vou pedir a renúncia a todos os cargos da Polícia e, logo que em ordem, apresentarei o pedido da reforma. Acredite Senhor Director, que a minha saída é o mais aconselhável para todos.
Ia abandonar as instalações. Mas foi surpreendido, pois ao passar num corredor, ouviu
dos colegas que com ele tinham trabalhado,um forte aplauso.
Enquanto caminhava numa Lisboa triste e suja, o sol rompeu as nuvens e toda a cidade recebeu a luz que a fazia única.
Também ele, com o desgosto e desilusão, precisava de um raio de sol na sua vida.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

DUETO IMPREVISTO








VIOLONCELO

PRESTO
Naquele dia, parecia que tudo se iria passar com a mesma rotina. Parecia, mas não foi assim. Um temporal, chuva intensa e vento com rajadas muito fortes, começou logo à saída do comboio.
Para ajudar, o carro decidiu não colaborar e ficou imóvel. O telemóvel, por descuido, estava sem carga.
Sofia ficou parada, sem saber o que fazer. Decidiu que, mesmo debaixo da chuva, teria de ir andando até à estação e procurar um táxi. Não era perto o lugar onde tido estacionado o carro e quando chegou à porta da estação, ficou desanimada. De táxi nem sinal e o que encontrou foi uma extensa fila de pessoas, espreitando a sua vez .
Que mais me falta acontecer? Voltou para junto do carro e tentou mais uma vez colocá-lo a trabalhar. Sem resultado, os nervos cederam de vez, colocou a cara no volante e chorou lágrimas de desespero.
Estava na naquele sofrimento, quando um homem lhe bateu no vidro da janela. Sofia era uma pessoa muito cautelosa e sabia não deveria abrir o vidro a um estranho. Mas abriu e fez bem.
Quando o desconhecido lhe perguntou se precisava de ajuda, quase desfeita em lágrimas contou o seu drama. O carro não pegava, com o telemóvel sem bateria não podia pedir ajuda e estava muito preocupada com a filha mais nova, que já devia ter voltado da escola e estaria à porta à sua espera. Não fosse tão longe, lamentava-se, mesmo com a chuva que não abranda, eu já me teria metido a caminho, marchando a pé.
O desconhecido recomendou-lhe calma porque tudo se iria resolver. Olhe, sirva-se do meu telefone e fale com a sua filha para a tranquilizar. Entretanto eu vou colocar o meu carro ao lado do seu, passo os cabos da minha bateria e o seu automóvel vai pegar. Fique dentro do carro enquanto eu faço a ligação. Quando eu tocar a buzina, ligue o motor.
Assim e após uma ou duas tentativas o motor do carro de Sofia começou a trabalhar.
Pronto, assim pode seguir mas tenha cuidado para não deixar o motor parar. Para onde é que vai, perguntou o simpático socorrista?
- Vou para perto do Parque dos Poetas, respondeu Sofia, enxugando as lágrimas.
Então siga na minha frente, porque eu também moro numa praça ali perto e se algum problema surgir durante a viajem, estarei por perto. Amanhã, com calma, preocupe-se então com a viatura.
Eu nem sei como lhe agradecer, caro senhor.
Caro senhor, não diga isso, afinal somos quase vizinhos e que eu fiz foi uma coisa normal. A propósito o meu nome é Ricardo e sinto-me feliz por a ter ajudado.
Eu chamo-me Sofia e depois de um dia difícil, obrigado por o ter encontrado. Sorriu, arrancou, viu pelo retrovisor as luzes do carro que a seguia e, à porta de casa ,conseguiu um lugar para estacionar. O outro carro, deu meia volta, acenou e seguiu o seu caminho.
Sofia, fez uma carícia na filha que a aguardava, abriu a mala para tirar a chave da porta e só nesse momento se apercebe que havia guardado o telemóvel que Ricardo lhe tinha emprestado.
Então e agora ou que vou fazer?
Oh mãe não te preocupes, eu estou cheia de frio e fome e não tarda nada, chega a carrinha da Carolina. Depois falamos.
Ao jantar Sofia contou às filhas a aventura daquele dia.
Lamentou o descuido, por ter guardado o que lhe não lhe pertencia. Ricardo até pode pensar que o fiz com segunda intenções.
A Mãe, tem que nos contar tudo, diz Carolina. Então ficaram assim, Ricardo, Sofia e depois?
Olha Mãe, um encontro do meio da tempestade, entre dois desconhecidos, pode ser o principio de um belo romance de amor. Temos de conhecer o teu admirador

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

DUETO IMPREVISTO










VIOLINO

"Andante"

Hoje, primeiro fim de semana de Setembro, recomeçara a acariciar, afinar e finalmente tocar alguns acordes de violino.
Porém estava inquieto, demasiado, não se concentrava e por isso resolveu parar de tocar. Hoje não dá, Paganini, amanhã vamos tentar, está bem? E o cão abanava a cauda.
Ricardo Ferreira era Inspector da Polícia Judiciária, no activo. Sempre gostara do que fazia e entendia que não podia ter tido outra ocupação. Nos momentos difíceis, que também tivera e quando se sentia mais perdido, a mulher sugeria-lhe que deixasse a Polícia e seguisse outro caminho. Mas ele sempre recusara e dizia que sair seria como perder um pouco da sua vida.
Mas hoje, trinta anos após, sentia-se mal, verdadeiramente mal. Não era o sabor amargo do fracasso mas era algo parecido com a derrota por meios escusos. Sim fora vencido e mandado estar quieto, disso não tinha dúvidas. Voltar era doloroso e nunca sentira aquele desconforto de ir fazer um trabalho em que já não se acredita. Precisava de repensar a vida.
A última gota, aquela que mais o ferira deu-se num final de Julho. Quando voltasse iria deixar de se ocupar com o trabalho para que tinha sido escolhido no principio do ano.
Seis meses, foi quando durou o que, com toda força, lhe tido sido pedido.
Quando as autoridades competentes, decidiram começar a combater o crime financeiro, um assunto muito delicado, por ser associado a muita gente poderosa, empresários, políticos, advogados e até mesmo instituições de crédito, a polícia precisava de alguém para arrancar com o projecto.
O Director Nacional, não teve dúvidas que Ricardo era a pessoa certa para o lugar.
Foi assim que, no início de 2007, o inspector Ricardo Ferreira assumiu as funções de chefia.
O mundo da finança não lhe era inteiramente estranho. Sabia que em Portugal a corrupção começa com o lançamento de uma empreitada pública. A propósito de um grande projecto, recentemente anunciado nos jornais, Ricardo preocupou-se em seguir os movimentos dos estados maiores das grandes empresas, pois sabiam que eles se organizavam em “cartel”.
Depois eram os almoços, sempre em lugares diferentes, dos Presidentes e do Advogados que lhe davam assessoria.
Por fim acertavam as comissões a pagar, em dinheiro ou em futuras nomeações para os Conselhos de Administração. Ricardo optou por estar atento a movimentos de capitais oriundos ou enviados para sociedades “offshore”.
O verdadeiro trabalho era feito à noite, depois do jantar, utilizando os meios informáticos que fora instalando no escritório e aplicando o que aprendera com o consultor, que já em tempos o aconselhara, quando ele percebeu que para combater o crime organizado, era necessário chegar às fontes de financiamento e aos movimentos do dinheiro. O resto era irrelevante.
Encontrara o rastro do dinheiro e agora só precisava de ligar o puzzle.
E, nesse momento, fora mandado parar.



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

DUETO IMPREVISTO





















VIOLONCELO

PRELUDE

Eram a hora de saída do emprego e como, geralmente acontece, as nuvens que durante o dia se foram acumulando no céu, transformaram-se em chuva forte e batida pelo vento. Sofia, saíra a correr do ensaio porque não queria perder o Metro do costume. Não era longe, mas a chuva persistente tinha feito com que o guarda-chuva tivesse servido de fraca protecção.Não obstante a incomodidade da roupa molhada, valera a pena o esforço da corrida, porque iria chegar à Estação do Cais do Sodré, a tempo de apanhar o comboio, e de preferência encontrar um lugar livre.
Sentia-se cansada. A orquestra preparava uma série de concertos e o maestro pedia sempre mais um esforço. Sofia, percebia e dava sempre tudo o que podia. Porém havia dias em que os tons do violoncelo não eram tão puros como a partitura exigia. Bach, era sempre um desafio.Sentada no lugar da janela, ia relembrando os dois últimos da sua vida. O divórcio, que lhe deixara marcas que só o tempo faria esquecer.
Tinha duas filhas; Carolina, com quinze anos de idade, boa aluna no liceu mas já com uma personalidade bem vingada e, pois isso, tendo já alguns assomos de independência. Carolina era fruto de uma ligação imatura, e que durara o sopro do vento. Sofia soubera conduzir a infância da filha, fazendo de Mãe e Pai e Carolina, nem uma vez sequer perguntou pelo Pai.
Catarina, jovem de oito anos de idade, doce e terna, tinha nascido do seu casamento com Artur. Tinha sido um casamento feliz, feito de partilha e cumplicidade. Artur adorava a filha e para ele, Carolina merecia-lhe o mesmo carinho. Foram oito anos felizes.
Encontrara Artur, num almoço de antigos alunos do colégio. Tinham tido uma paixoneta de liceu mas a vida afastou-os. Sofia apaixonou-se pela primeira vez na sua vida. Dali ao casamento foi um passo.
Mas a vida tem, como uma peça musical, vários andamentos. E ela não soube interpretar alguns cambiantes. Artur tinha mudado de trabalho, passava muitos dias ausentes no País e do Estrangeiro. Nunca se esquecia de telefonar às garotas e para ela havia sempre um longa conversa por telemóvel ou pela Internet.
E o destino pregou-lhe uma partida. Quando julgava Artur em Espanha, encontrou-o a passear com uma outra mulher, num local onde não tinha por habito ir.
Depois, foi a dúvida a desconfiança e por final o divórcio. Faz hoje dois anos, pensou.
Agora aos trinta e oito anos de idade, a sua vida era a orquestra, a correria de todos os dias, sair da Estação de Oeiras, pegar no carro lá estacionado, passar pelo super mercado e ir para casa. Ali com as duas filhas estava, finalmente, em paz.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DUETO IMPREVISTO












VIOLINO
ADAGIO

Era sábado, entardecer num dia de fim de verão de 2007. Ainda fazia algum calor mas o Outono já estava a bater à porta.
Na casa que habitava nos arredores de Lisboa, Ricardo, tinha um pequeno jardim e um recanto junto da garagem, que mandara arranjar, impermeabilizar e forrar em madeira, para dele fazer o seu estúdio musical. Era ali que costumava passar algumas horas durante os fins de semana, tocando violino. Reconhecia que não era um grande executante, tinha alguma escola, mas durante muito tempo não teve tempo ou paciência para se dedicar ao treino. Conseguia ainda assim arrancar daquele instrumento que adorava, sons que lhe enchiam a alma.
Era viúvo há cinco anos, e tinha prometido à mulher que nunca deixaria de tocar porque a música subiria até ela ouvir. Tinha, todavia, um ouvinte atento. Era capaz de passar horas sentado a olhar para ele quase sem se mexer, o que para um cão não é tarefa fácil.
O cão que recolhera na rua, pobre rafeiro escanzelado e abandonado, tinha-se tornado no amigo fiel e companheiro e parecia gostar dons sons que ouvia. E por isso o dono lhe pusera o nome de Paganini.
Naquele dia, ia começar o que chamava o período da tranquilidade, introspecção, memória e naturalmente música. Para o primeiro dia, Ricardo, escolhera uma partitura do concerto para violino e orquestra n.1 de Mozart, e concentrou-se nos primeiros andamentos. Não gostou, voltou atrás e tentou de novo com mais ternura nas mãos. E o som, melhorou. Olhou para o cão e riu-se porque lhe pareceu que o animal estava de acordo com ele.
Não percebia a razão porque muitos dos seus amigos se sentiam deprimidos com as primeiras chuvas e com o vento que se encarregava de atapetar com folhas os jardins e as ruas e alamedas. Porque ele gostava particularmente daquele período do ano. Era o período em que acabavam as correrias pela casa, as idas a praia, os gritos dos netos, as discussões, etc. e em que tudo voltava à normalidade. O mês de Agosto era para ele um mês para esquecer.
Na realidade gostava de receber a visita da filha, que vivia e trabalhava na Suíça. De seu nome, Leonor como a mãe, mas tão diferente, tão diferente. O que a Mãe tinha de doce tinha ela de frívola e distante. Vinha primeiro com os três filhos, um rapaz de 9 anos, Pedro, cheio de borbulhas e viciado em computadores, Luís de 7 anos, cuja principal actividade era andar aos gritos e à bulha com o irmão, e uma rapariga de 3 anos, Margarida, que era da família a única pessoa que gostava de estar com o Avô. Era ela que lhe fazia companhia quando saía a passear o cão, era ele que a ia deitar e contar histórias para adormecer. O Avô dava-lhe carinho e ela retribuía com um sorriso que lhe iluminava o coração. Para ele estar com a neta, era como atenuar a dor que havia sofrido. E como a Avo iria gostar daquela criança que não conhecera!
O genro era alemão, professor de física. Parecia e agia como um extra terrestre. Decididamente, as férias para ele em casa do sogro eram um sacrifício. Não tinham nada em comum, pelo que as conversas entre ambos eram apenas de circunstância. Por isso arranjava sempre maneira de vir apenas na última semana. E a parva da filha acreditava nas desculpas do Werner, mesmo quando saltava à vista, que não eram verdade. Isso incomodava-o, e por mais de uma vez esteve tentado a contradizer o genro, mas lembrou-se que chegara por mais de uma vez a comentar com a mulher aquela situação e esta, mesmo doente, sempre lhe recomendara para não se intrometer.
Ele prometera, mas que lhe custava, lá isso custava.
Mas agora, que eles tinham partido, tinha o trabalho de, com a ajuda da mulher a dias, que trabalhava lá em casa, nem se lembrava há algum tempo,limpar e arrumar a casa, porque ficava tudo de pernas para o ar. Só depois abria o armário, fechado à chave que guardava no bolso, onde escondia a mala do violino e as partituras. Assim os mantinha a salvo daquela horda de bárbaros, que eram os dois netos.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A PROPÓSITO

Todos, em qualquer momento da vida, se sentiram desagradados com o que fizeram e como.
A mim aconteceu-me, algumas vezes.
A última das quais foi a publicação de um folhetim, em nove capítulos, desconchavados e “chatos” e a que chamei, “Uma Aventura noutra cidade”.
Tomara não ter escrito esta historieta; Tomara ter eliminado todos os nove capítulos, o que em algum momento pensei fazer, e assim não sei, porque o não fiz.
Possivelmente, penso eu neste momento, porque podia haver alguém a ler, em noite de insónias ou, para distrair o sono, quando a TV estivesse a apresentar os debates entre os candidatos à Presidência.
Este desabafo, e não é mais do que isto, não é impelido por alguma sobranceria face aos textos já publicados neste blog, porque também sei reconhecer os meus limites, mas porque a historieta não faz, definitamente, o meu género.
Embora as personagens tiverem tido criadas pelo “autor”, a parte final, Paris, foi- me contada,com aventuras rocambolescas à mistura, por alguém que nada tinha de ingénuo e acabou, quase, vítima como o protagonista.
Sinto que estou em dívida para com os meus leitores. As desculpas não servem de nada. O mal está feito e é com os erros que tenho de conviver.
Para amenizar deixo-me uma sugestão. Cantar Paris na voz de Frank Sinatra. Vale a pena.

domingo, 2 de janeiro de 2011

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – IX – PARIS

Como não conseguia dormir, desceu e saiu para rua. Já não chovia, foi andando sem destino. Quando reparou que tinha chegado à rotunda da Concórdia, apercebeu-se que tinha descido os Campos Elísios. Já estava cansado, não teve coragem para subir a Avenida, tomou um táxi e regressou ao hotel.
Continuou o trabalho, já sem a mesma alegria e boa disposição. Esteve a trabalhar até tarde. Como só lhe faltava redigir o relatório, e completar alguns pequenos pormenores, que faria na sexta-feira, tentou alterar a data de regresso. Pretendia o último voo de Paris para Lisboa, mas resultado. O avião estava lotado.
Ainda não tivera coragem de ver o correio electrónico. Receava não ter tido uma resposta ao seu mail para Maria Teresa, mas antes de sair para jantar resolveu abrir. Desilusão, não tinha recebido resposta.
Quando da recepção pediu a chave do quarto foi-lhe entregue um envelope com o timbre da Casa Dior, com o seu nome escrito à mão.
Abriu, e encontrou um convite, personalizado, para um cocktail oferecido pela casa Dior, às 20 horas de sexta-feira, no Café le Pavillion, e indicava o respectivo endereço. Assinava, "Muriel Devernois, Rélations Publiques."
Olhou e remirou o convite e não teve dúvidas que o seu nome teria de ter sido indicado por Maria Teresa. Só não sabia, se tinha antes ou depois de ser ter zangado.
Sexta-feira, terminou o trabalho no Banco. Despediu-se dos colegas e foi para o hotel completar o relatório.
Apercebeu-se que tinha demorado mais tempo do que inicialmente havia previsto, porque ao fechar o computador, reparou que já eram 20 horas. Hesitou entre aproveitar o convite ou ficar a descansar. Já estava farto de permanecer fechado no quarto e ir todos os dias comer ao mesmo restaurante, a mesma comida sem sabor, pelo decidiu ir espreitar o local. Depois, logo decido.
Foi de táxi, e antes de mostrar o convite, estudou o tipo de pessoas que via entrar. Uma série de jovens, altas e magras, devem ser os modelos, pensou, vestidas com alguma extravagância. Homens jovens, calculou serem também modelos, de físico e indumentaria semelhantes.
Ah, isto não é para mim e ia voltar as costas, quando verificou que muitos dos convidados, que iam entrando, vestiam com elegância mas sem cerimónia. Assim não me sentirei um intruso e por isso vou entrar.
Da bandeja que o criado lhe apresentou logo à entrada, escolheu beber uma taça de champagne e com ela na mão, foi percorrendo o salão principal, já bastante cheio de grupos ruidosos, que evitou, acabando por encontrar um recanto com um confortável sofá de dois lugares e sem ninguém por perto. Sentou-se, pousou a taça na mesa de apoio e espreitou a assistência.
Com um ar propositadamente convidativo, sentou-se a seu lado, uma senhora carregada de adereços e camadas de cosmética , dizendo : -Monsieur, est que je pouvait arrête mon champagne avec toi? Fingiu que não percebia francês e bocejou. Foi o suficiente, a senhora que acabara de se sentar, olhou-o com desdém, levantou-se e foi procurar companhia noutro lado. Respirou fundo. Desta estou livre. Com tanta mulher bonita que aqui se encontra só a matrona deu por mim.
Foi dar uma volta pelo salão, circulou entre os grupos de pessoas que se tinham formado, olhando com atenção, na esperança de ver Maria Teresa. Andava entretido a passear quando as luzes foram reduzidas e o dj colocou a tocar música de dança, começando com um tango.
Paulo adorava dançar o tango clássico e tinha-se na conta de um excelente dançarino.
Sentiu um toque no ombro e uma voz feminina que lhe murmura: “Voulez vous danser avec moi? Oui, avec plaisir,” respondeu. A mulher que o abordara era bonita, rosto sardento, cabelo ruivo, alta e elegante. Ao enlaça-la para dançar aspirou o odor do perfume inebriante. Dançavam bem e, naturalmente os corpos foram-se moldando colados de uma forma desafiante. Ela segredou-lhe ao ouvido, num sussurro “ Je m’apelle Natalie et vous? Moi, je suis Paulo. Paulo, c’est un nom Portugais, vrai ? Oui je suis de Lisbonne. »
« Oh, j’adore votre pays et je pense que les hommes sont vraiment audaces. Vous aussi ? - Moi? Je ne sais pas. Mais je peux vous dire que danser avec toi, c’est en plaisir étonnant »
A música mudou, para um ritmo que lhe não agradava e sugeriu fossem conversar e tomar mais uma bebida. Natalie acenou que sim, pegou-lhe na mão e conduziu-o a uma outra sala mais pequena e confortável onde se sentaram juntos.” Ici c’est bien, on peut bavarder un petit peut et décider quoi faire »
Cruzaram os braços com uma taça de champagne na mão e beberam, aproximando a boca.
O beijo foi prolongado e húmido. A respiração tornou-se ofegante e acariciaram-se com a volúpia do desejo.
Ao ouvido, Natalie murmura entre pequenos beijos: « Je veux faire de l’amour avec toi. Cette nuit nous appartient et je te promis d’aller jusqu'à la fin du monde. »
Mois aussi, et mon hôtel nés pas lois de ici.
C’est bien, pour ton hôtel. Paulo n’oublie pas d’acheter une bouteille de champagne, et vérifier si vous avez disponible le montant ou s’il faut aller a la caisse.
“Mais, l’hôtel est dejá reglé, pourquoi l’argent”, perguntou Paulo com cara de caso.
Pourquoi ? Parce qu’il faut me payer chéri, et le montant, pour une nuit c’est de mille euros ».
Paulo olhou para ela com surpresa. Só me faltava mais esta, pensou. És mesmo um ingénuo, julgavas que em meia hora conquistavas uma bela mulher, só com meia dúzia de palavras e já estarias na cama com ela. Ora toma lá, se a quiseres larga mil euros.
Virou-lhe as costas, caminhou na direcção da saída e nem quis perceber os insultos com que ela o tratava. Ia tão desaustinado, não via nada à sua frente e chocou com uma mulher que conversava em grupo, fazendo-a tropeçar e entornar o copo com a bebida. Apressava-se a ajudar a senhora a levantar-se, quando reparou que se tratava de Maria Teresa. Se houvesse perto um buraco, ter-se-ia atirado para dentro. Assim ficou imóvel e sem saber o que dizer. Maria Teresa, pegou-lhe no braço, afastou-se uns metros e começou a rir, com o riso cristalino, que ele já lhe conhecia.
Paulo, que pena este nosso encontro não ter sido filmado, para mais tarde recordar. Não faça essa cara, imagino o que sucedeu e não lhe vou pedir que conte. Guarde para si, não diga a ninguém, mas não se esqueça que está em Paris. Não foi o primeiro nem será o último a deixar-se seduzir por uma mulher. Vá lá, não fique corado e não se vá embora. Faça um pouco de companhia. Eu já perdoei o mal entendido, e gostaria que entre nós ficasse uma simpática recordação.Tenho a certeza que tão depressa não vai esquecer esta aventura.
Desculpe Maria Teresa, eu prefiro sair e ir beber um copo para esquecer o meu orgulho ferido. Volto amanhã para Lisboa e a vida continua.
Está bem, Paulo.Não se esqueça de que a vida continua mas que o caminho o fazemos nós e ele será o que escolher-mos. Pense no futuro com optimismo, não culpe ninguém, nem a si mesmo.

FIM