
VIOLINO
Allegro ma non troppo
Estava ansioso quando se apresentou ao Director logo que conseguiu ser recebido. Estava muito tenso. Passara o fim de semana, fechado no escritório, revendo os dados que tinha coligido sobre o trabalho que lhe sido pedido, passando para um disco rígido toda a informação delicada.Guardou o disco no cofre, e limpou o computador, como aprendera a fazer, sem deixar rastros.
Olhava-se e não se sentia bem; bem parecia que estar a trair alguém. Talvez a si mesmo?
Ricardo, entrou no gabinete onde tantas vezes estivera como amigo, mas desta vez,de uma forma distante.
E disse:
- Senhor Director Nacional
Quando no início de 2007, me escolheu para chefiar um departamento inexistente mas a que era dada importância relevante, julguei que a organização me tivesse escolhido por reunir qualidades e não ser um deixa andar. Mas, agora verifico que alguém se enganou. Ou eu sou um incompetente e ninguém mo dizia ou sou alguém que procurando fazer o trabalho da melhor forma, incomodou quem não devia ser incomodado. Assim, sem esta dúvida ficar esclarecida, decidiram que eu merecia uma prateleira dourada, colocada lá bem no alto, mas onde não estorve ninguém. Desta maneira evitam que eu ande a mexer onde não devo, não é assim?
O Director Nacional que o conhecia muito bem, agitou-se na cadeira incomodado. Ignorou a insinuação, dizendo que Ricardo, também devia entender a situação como um novo desafio. Vai ficar disponível para investigar as situações mais difíceis e ficará dependente apenas de mim.
-Oh, senhor Director , agradeço a promoção, mas o que eu fazia antes de me calarem era também investigação de situações delicadas, envolvendo dinheiro de corrupção, tráfico de influências, fuga aos impostos, enriquecimento ilícito, eu sei lá que mais. É como bem sabe uma praga, que tem alastrado a uma velocidade constante,e hoje assume proporções de desastre nacional. Ou estarei errado?
Mas tudo bem. As pessoas que se sentiram mal, podem dormir descansadas eu vou parar a minha investigação e calo-me, porque apesar da náusea que sinto, a palavra trair, não entra no meu léxico.
Mas não quero, nem posso, deixar de sublinhar ar a minha profunda mágoa. Acreditei, desde o meus primeiros dias, que tinha uma missão. Agora, reconhecer, que ao fim de trinta de trabalho estava enganado, é uma dor muito profunda e os danos são irreparáveis. Foi a gota que extravasou do copo.
Para aqueles que foram ocupar o meu lugar, e que eu bem vi, a tentarem vasculhar no meu antigo gabinete, procurando os segredos que eu lá teria escondido, deixo um sorriso de escárnio. Eu foi ingénuo muitas vezes, mas aprendi a lição.
Por amizade e consideração, quero informá-lo, em primeira mão, que vou pedir a renúncia a todos os cargos da Polícia e, logo que em ordem, apresentarei o pedido da reforma. Acredite Senhor Director, que a minha saída é o mais aconselhável para todos.
Ia abandonar as instalações. Mas foi surpreendido, pois ao passar num corredor, ouviu
dos colegas que com ele tinham trabalhado,um forte aplauso.
Enquanto caminhava numa Lisboa triste e suja, o sol rompeu as nuvens e toda a cidade recebeu a luz que a fazia única.
Também ele, com o desgosto e desilusão, precisava de um raio de sol na sua vida.
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