segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

OS CRIMES DO X



6º. Episódio
Quinta-feira, 12.11.2009

Frederico tirou 6 cassetes e colocou-as na mesa. Agora é só passar, olhar e tentar encontrar algo. Presumo que o chefe se interesse por uma viatura que de madrugada tenha ficado estacionada na área de serviço, fora do alcance das câmaras de vigilância.
Assim só na filmagem da entrada e da saída poderemos encontrar algum indício.
Não te esqueças, acrescentou o companheiro, que falamos com um dos empregados que estava de serviço na noite de 16 de Outubro, primeiro crime. Ele garante que reparou numa viatura negra, compacta, destas agora em moda, que esteve estacionada durante bastante tempo. Mas não viu ninguém e também sabe que por vezes, são casais de namorados.
Entretanto Frederico ligou o projector começou a passar a cassete do dia16 de Outubro.
O que viram eram imagens de viaturas em reabastecimento, com os condutores e com maior visibilidade no acto de pagamento. Sugeriu que podiam assinalar as matrículas dos carros, com as características que o funcionário disse ter visto, e pedir a DGV a identificação dos proprietários. Mas Frederico, contrapõe o colega, era preciso que o suspeito que procuramos, fosse muito ingénuo para se deixar apanhar numa câmara de vídeo, de uma estação de serviço.
Monteiro recosta-se na cadeira, cruza as mãos na nuca enquanto olha fixamente para o colega.
Oh Chefe o que é que eu tenho para me olhar dessa forma? Pergunta Frederico?
Estremecendo, o Inspector confessa que estava a olhar na direcção mas, na realidade, estava a pensar no desafio que temos pela frente. O homem que perseguimos, deve ter um sangue frio extraordinário e uma mente brilhante. Temos de continuar a seleccionar casos para análise, na verdade esse é o caminho. Temos de encontrar entre as vítimas ou parentes próximos, alguém que corresponda ao perfil. Se encontra-mos um caso ou outro, lá vou ter de andar a pedir autorização para a realização de escutas, porque de outro modo, só com um tiro de sorte o apanhamos.
A não se que ele continue a matar e cometa um erro. Não será o primeiro, lembra o Figueiredo.
Sim é verdade, até porque nestes casos, matar passa a constituir não só um acto de vingança como um desafio. Por isso a tese de “quem mata torna a matar”. Mas se ele for inteligente e parar, ficaremos num beco sem saída.
Estou com dor de cabeça de ver tantas horas de vídeo. Vamos parar porque assim não vamos lá. Vocês aproveitem para descansar porque, hoje a partir da meia-noite, quero que dêem uma volta pela cidade, mas com o carro descaracterizado. Podem ter sorte e se cruzem com o nosso amigo.
Como o Inspector não se mexia da cadeira e enquanto os dois colegas já se preparavam para sair da sala, Figueiredo toca-lhe no braço dizendo:
-Vai também descansar, não te deixes dominar pelo desafio que te colocaram.
O Inspector olhou para o colega e amigo, acenou com a cabeça dizendo que tinha o pressentimento que algo iria acontecer.
Mas não vale a pena pensarmos nisso. O que tiver que acontecer acontecerá.

domingo, 30 de janeiro de 2011

OS CRIMES DO X





5º. Episódio

Quinta-feira, 12 /11/2009
Como receava dormiu mal. Ainda foi à procura do medicamento que o médico que lhe receitara para aquelas ocasiões, não o encontrou e de repente lembrou-se que nem o tinha comprado. Melhor assim, pensou Artur Monteiro, já que mesmo que com dificuldade, quero sentir o pensamento livre e não condicionado por uma droga qualquer. Levantou-se muito cedo, como costume, e foi ao café perto de casa, aberto às sete horas da manhã, para o pequeno-almoço. O senhor Luís, dono do pequeno estabelecimento, já o conhecia e serviu-lhe o habitual. Um café duplo, uma garrafa de água e um pão com manteiga e voltou a resmungar, que o Doutor não tendo juízo ainda vai ter uma surpresa.
Entrou no gabinete, cerca das oito e trinta da manhã, levava dois jornais, que lia de relance, até porque repetiam as mesmas notícias.
Mas naquele dia, reparou numa pequena nota, referindo que a Polícia andava no encalço de alguém, que decidira fazer justiça pelas próprias mãos. Teriam sido encontrados, mortos e torturados, dois conhecidos assaltantes. Uma fonte de confiança, garantira ao jornal que, brevemente, iria ser feita uma detenção.
Acabava de ler o que teria sido uma fuga de informação, na altura em que o Figueiredo e o Frederico entraram na sala.
Figueiredo, olhando para o amigo comentou: - Então Monteiro voltaram as noites sem dormir? Tem cautela e lembra-te que os amigos servem para os momentos difíceis.
Isto é um período que há-de passar, agora olhem e vejam e notícia. Alguém andar a passar informações.
Oh chefe o que aí diz é conversa de corredor, porque a verdade é que quem a escreveu e quem a passou, não sabem de mais nada.
Tudo bem, então contem lá o que ontem me quiseram esconder.
Então é assim, localizamos o ferro velho, tivemos alguns problemas porque o guarda estava armado de caçadeira e não nos queria deixar entrar. Lá o convencemos e ele contou-nos que era assaltado com frequência. Ainda há dias, não soube precisar quando, alguém entrou no recinto, e roubou-lhe uma carrinha. Ainda por cima era a única que andava e que ele utilizava.
Fomos dar uma volta ao recinto, é maior do que supúnhamos, e a rede à volta tem tantos buracos que não guarda nada. Ele foi connosco e lá nos informou que a carrinha era uma “Ford" de caixa fechada.
Porém e quando nos estávamos a despedir, o pobre homem, vira-se para nós de olhos arregalados e aponta uma carrinha, escondida num monte de sucata, jurando que era a que lhe tinham roubado. A surpresa do homem era genuína, e para nós foi uma confirmação que não esperávamos. Chamámos a brigada científica para colher impressões digitais e recomendamos que tivessem particular atenção a vestígios de sangue ou outros fisiológicos. Estivemos com eles até acabarem o trabalho, fechamos e selamos a carrinha que ficou guardada junto à porta do sucateiro. Os colegas da científica não deram grandes esperanças já que, o interior da carrinha tinha sido meticulosamente queimado.
Agora Frederico, conta o resto que eu já estou cansado.
Então andamos um bom bocado a pé, por um caminho de terra batida mas com tantas pegadas que não dava para ver nada em concreto, e fomos ao posto de abastecimento. Eles tinham a funcionar câmaras de vídeo cobrindo a área das bombas, do escritório e uma parte da entrada do parque.
Apreendemos as cassetes desde o dia 15 até ao dia 26 de Outubro. Estão aqui para as visionarmos. Não devemos alimentar grandes esperanças. Quem executou os crimes sabe o que anda a fazer. Não é um amador qualquer, que se lembra de queimar o interior da viatura, dificultando a obtenção de indícios.
Sim, é trabalho de profissional, disso podemos estar certos, concluiu o Inspector Monteiro.
Mas meus amigos, de tarde vamos olhar as cassetes, e depois descansamos. Porque não se esqueçam, hoje é a noite do predador.

sábado, 29 de janeiro de 2011

OS CRIMES DO X




4º. Episódio

Após a saída dos colegas, depois de dar voltas à cabeça, Monteiro lembrou-se que costumava guardar notas que lia na imprensa, relacionadas com crimes. Foi à procura das caixas de arquivo, já eram uma dezena e bem volumosas, começou a ler as notícias.
Muitas estavam desactualizadas, outras por que os crimes relatados não se encaixavam no perfil que ele tinha desenhado. Todavia, encontrou algumas notícias que valeria a pena trabalhar, confrontando-as com a listagem que o Frederico estava ultimando.
Esteve a entretido com a procura e não ouviu o som de uma mensagem no telemóvel.
Já era noite cerrada, decidiu ligar a saber o que se passava. Pegou no aparelho e viu a mensagem curta do Figueiredo, dizendo que estavam de regresso.
Por volta das 22 horas os dois investigadores entraram no gabinete, sentaram-se com evidente alívio, olham um para o outro, como a decidir quem devia falar.
Foi o Figueiredo, dizendo: - Oh Monteiro, creio que nem vale a pena perguntar, mas tu já foste jantar? É que nós não, e o que temos para dizer pode tomar algum tempo. Vamos comer qualquer coisa?
Embora a contragosto, o Inspector aceitou a sugestão, sublinhando que não tinha muito apetite mas faria companhia.
Jantaram e evitaram falar da investigação. Monteiro desconfiava que eles tivessem encontrado qualquer pista e por isso estava ansioso por voltar ao gabinete.
Sentindo isso e como a sua amizade lho permitia, Figueiredo chamou a atenção do chefe:
- Olha Monteiro, nós estamos os três medidos do mesmo barco, quer dizer que daremos o melhor para deslindar o caso. Haverá, certamente, momentos de tensão que nos irão tirar o sono, mas não são estes. Porém eu vejo em ti sinais de muito cansaço e são preocupantes.
Tens as tuas razões para a instabilidade, eu sei, para tens de parar esse teu frenesim ou então acabarás como uma depressão às costas.
Nós confirmámos algumas das nossas suspeitas, é certo, mas também só isso. Vamos deixar o assunto para amanhã, valeu?
Se vocês já combinaram assim, eu espero mas isso não me vai ajudar a descansar. Não vou beber café nem digestivos, vou para casa e não se esqueçam de guardar a factura do jantar. Até amanhã, por voltas da 9 horas.
Frederico surpreendido com a reacção do Inspector comentou que ele parecia ter ficado zangado.
- Ficou mesmo, principalmente, consigo próprio, respondeu o colega.
Sabes Frederico, ele não gosta que eu lhe lembre que, foi por causa da sua obsessão com o trabalho, que o casamento acabou. A Mariana cansou-se, saiu de casa e pediu o divórcio. Vive no Porto e ficou com a tutela dos dois filhos, um rapaz de 17 e uma rapariga com 13 anos. O Inspector só vê os filhos de acordo com a Lei.
Eu sei quanto a reparação lhe doeu, a mais agora, porque a ex-mulher já refez a sua vida com outro homem.
O Monteiro é muito orgulhoso e não é fácil para ele pedir ajuda, por isso a sua terapia é o trabalho, mais trabalho, para não pensar na vida que deixou fugir.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

OS CRIMES DO X




3º. Episódio
Quarta-feira, 11/9/2009
Os três investigadores continuavam reunidos, em silêncio, conjecturando sobre os dados que tinham obtido.
De repente o Inspector Monteiro, sacudiu a cabeça como se quisesse afastar dúvidas, e decidiu:
- Meus amigos, apesar dos relatórios que nos deram, vamos tentar compreender o percurso das vítimas, até ao local onde foram encontradas. Porque não localizar os locais? Frederico, você é capaz de, com o computador, nos ajudar a perceber?
Frederico acena que sim, introduz uma palavra-chave do computador, liga-o ao projector, comentando:
- Como podem ver, estou a projectar o mapa da zona onde os corpos foram encontrados. A marca vermelha identifica o primeiro, a verde o segundo.
No mapa a distância não parece grande e de facto não é. O primeiro estava na beira de uma caminho que dá acesso por viaturas à zona do Meco e o segundo num caminho pouco utilizado para a lagoa de Albufeira. A distância do local para a estrada principal que segue para Sesimbra, é sensivelmente a mesma.
Através do Google tentei analisar com mais detalhe as respectivas zonas do achamento. Nada de especial, não há casas na proximidade. Todavia, saindo por um carreiro da estrada que até certo ponto, foi comum para o transporte, encontramos um sucateiro, numa clareira entre as árvores, sem vedação e onde se aglomeram veículos danificados, eventualmente para posterior amálgama.
Oh Frederico, não sei se a Polícia investigou o sucateiro mas acho que nós o devemos fazer. Eu estou convencido que as vítimas não foram executadas no local onde foram encontradas, e um espaço cheio de sucata é o lugar ideal para cometer um crime. No mapa que nos mostraste, eu também vi uma gasolineira, que sei estar aberta toda a noite. Assim o meu raciocínio, concluíu o Figueiredo, é:
- O criminoso raptou as vítimas, imobilizou-as e utilizou a sua própria viatura para os levar até perto do sucateiro. Aí, transferiu-os ainda vivos para o interior duma carrinha,que previamente teria preparado, aplicou o garrote e foi colocar os corpos no local onde foram encontrados. Só depois, utilizando o que pode ser uma navalha, lhe faz a marca no peito e espetou o papel de aviso. Escondeu a carrinha no meio da sucata e andou a pé, mas por estrada alcatroada, até ao lugar onde tinha o carro parado, ou seja, a estação de serviço de que vos falei.
Embora existam muitos “ses” o cenário que o Figueiredo desenhou é aceitável.
Eu sei que já é um pouco tarde e vão apanhar muito trânsito, por isso não percam mais tempo. Eu vou ficar aqui até tarde, se encontrarem alguma coisa podem dar-me um toque e eu esperarei. Mas antes, Figueiredo, se tu te quisesses vingar e decidisses executar pelas tuas mãos o culpado, como é que farias?
Percebo onde queres chegar Monteiro, mas espero que o nosso justiceiro não pense da mesma forma senão...
Eu mantinha-me longe, deixava passar algum tempo e depois apanhava um ou outro delinquente menos perigoso e matava-o, criando a ideia de alguém andava, indistintamente, a fazer justiça. Quando chegasse a vez de eliminar o meu alvo, já ninguém se lembraria de mim.
Pois é, e essa é a minha dor de cabeça. Vá, vão lá ver o sucateiro.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

OS CRIMES DO X






2º. Episódio
O Subinspector Figueiredo decide abordar um amigo e colega, com um convite para uma cerveja, do sítio do costume. Os dois amigos encontram-se sentados ao balcão, quando Figueiredo, numa forma pretensamente casual, comenta com o amigo que tinha ouvido falar, nos corredores, nos dois indivíduo encontrados mortos, havendo quem falasse de execução. A mim, diz para o colega, custa-me a acreditar nessa teoria. Tanto quanto sei eram dois delinquentes sem ligações.
Rodrigues, olhando para o colega pergunta:
Olha lá, tu convidaste-me para uma cerveja mas afinal, o que queres é falar do assunto do momento. Queres tirar nabos da púcara?
Não é isso, responde Figueiredo, é que eu dei comigo a pensar que falta qualquer coisa. Pelo que eu ouvi, parece que a posição dos corpos foi encenada. Se o foi, deve haver outra razão, quem sabe vingança, só que nestes casos os criminosos costumam deixar uma mensagem.
Rodrigues mexe-se por não se sentir confortável e responde:
- Talvez a mensagem seja a própria posição das vítimas, de mãos atadas, como se estivessem a pedir misericórdia.
Sim, até podia ser, mas para crimes de vingança o criminoso deixa uma marca, ou ou aviso.Para mim havia uma mensagem escrita e alguém ficou com ela.
Oh Figueiredo, como é que tu sabes isso?
Não sabia mas agora já não tenho dúvidas. Arranjas uma cópia e o assunto fica entre nós?
Por essa conversa lá me levaste, reconhece o amigo. Uma cópia não, o que posso é dizer-te o conteúdo, que se resume a duas palavras escritas com letras de carimbo, embebidas em tinta vermelha. O bilhete, cartão pequeno e vulgar dizia Vento Divino. Só isto.
Agora percebo, diz Figueiredo, os investigadores receiam tratar-se de um justiceiro. E quando se fala em fazer justiça pelas próprias mãos, a opinião dos jornais é que é obra da Policia. Faz todo o sentido, a reserva na informação. Obrigado velho amigo, descansa que a minha boca é um túmulo e da equipa a que pertenço não há fugas.
Como ficara acordado, os três investigadores reuniram-se na sala reservada.
Era uma quarta-feira, dia 11/11/2009. O Inspector Monteiro, dirigindo-se aos dois colegas, alertou:
- Como podem ver os painéis na parede, servirão para colocar toda a informação relevante sobre este caso, desenhar cenários e procurar estabelecer padrões. Eu dos meus contactos tive uma confirmação que aliás já esperava. Não se trata de ajuste de contas entre bandos rivais e o assassino não é do meio.
Agora Figueiredo, avança para o quadro e escreve o que está prestes a soltar-se. Descobriste algo importante e isso pode ver-se no teu rosto. O que foi?
O Subinspector Figueiredo, levanta-se, caminha na direcção do painel principal e bem ao meio escreve a palavra : Vento Divino.Afasta-se para o lado, todos lêem e ele comenta:
Os crimes estavam assinados. Por razões que até podemos entender, esta mensagem não foi divulgada. A mensagem é um cartão branco ou parte de uma folha de caderno vulgar que se vende em qualquer lugar, escrita a letras em maiúsculas VENTO DIVINO. Foi previamente escrito, utilizando aqueles carimbos de madeira, que se encontravam em qualquer papelaria.
Queres tu dizer que os crimes foram premeditados, não é assim? Ou são vingança ou pretendem desviar a atenção, baralhando. Preocupa-me esta última hipótese pois isso significa que alguém definiu o objectivo final, e desenvolveu uma estratégia. As vítimas podem ser apenas um ensaio ou, o que é mais provável, servirem de cortina de fumo. Bom trabalho Figueiredo.
Frederico levantou-se do lugar e dirigiu-se ao quadro e transcrevia notas manuscritas,que ia resumindo:
Reparem que a primeira vítima foi morta no período entre as quatro ou cinco horas antes do cadáver ter sido encontrado. Como foi cerca das 9 da manhã, a morte deve ter-se verificado entre as quatro ou cinco horas da madrugada do dia 16 de Outubro.
A segunda vítima, o corpo só foi encontrado perto do meio-dia, e os peritos médicos calculam que a morte tivesse ocorrido cerca das três da manhã. Logo assinalamos como data provável da morte, a madrugada do dia 23 de Outubro.
Podem notar que são sextas-feiras, assim o dia da caça é a quinta-feira.
Já agora, quero dizer-lhe senhor Inspector, que a listagem que pediu ainda não está pronta. Amanhã terminarei se receber algumas participações que não estão na base de dados.
Ok, Frederico, quando concluir prepare, para nós, mais dois exemplares.
O que eu acho estranho é o dia dos crimes. Quinta-feira? Deve ter algum significado!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

OS CRIMES DO X




1º. Episódio

Foi no dia 10 de Novembro de 2009, uma terça-feira pela manhã, que dois operacionais da PJ, se encontraram num gabinete amplo, equipado com uma mesa de reunião, com dois computadores, impressoras e projectores
Não se conheciam, mas o mais velho, homem de ar bonacheirão, mas de olhos muito vivos, comentou que tanto aparato só podia significar um trabalho difícil. Olhando o colega, apresentou-se como subinspector Figueiredo, mas preferia que o tratasse só pelo nome. Eu costumo brincar dizendo, que subinspector é alcunha.
Você, é novo nestas andanças, para aqui estar é porque alguém o conhece bem, não?
- Sinceramente não sei, sou o que vocês costumam chamar de maçarico. O meu nome é Frederico e só sei pelo meu chefe, que ficaria a trabalhar com o Inspector Vítor Monteiro, pessoa que eu nem conheço.
- Tal como eu previa, responde o Figueiredo, o que nos espera é coisa fina, pois o Inspector Monteiro é uma das estrelas cá do circo.
A porta da sala abre-se e entra, com ar decidido, um homem de pouco mais de quarenta anos, alto, de óculos de aros finos. Não parece ser um experiente inspector da PJ. É considerado ter um feitio difícil e os colegas referem-se a ele como o professor.
Saudou com o sorriso o colega Figueiredo, cá estamos nós de novo não é velho amigo, e dirigido o olhar para o Frederico, fez questão de referir que, apesar de irem trabalhar juntos pela primeira vez, sabia com o que poderia contar.
Eu sou o Vítor Monteiro, tenho fama de ser uma pessoa muito exigente e sou. Também sou conhecido porque que sei trabalhar em equipa e dou sobretudo ao valor ao esforço conjunto.
Fui escolhido pelo nosso DG mas só aceitei com duas condições:
A primeira, é que os contactos com os Procuradores do MP não serão da minha responsabilidade. Dei-me mal e não sou bem visto pelos Magistrados.
A segunda é poder escolher duas pessoas para trabalharem comigo nesta investigação. Essas foram vocês.
Levantou-se e entregou a cada um dos presentes um memorando com fotografias e algumas notas, acrescentando:
- A investigação é esta. Vejam e espero a vossa opinião.
O Inspector tamborilava com o lápis no tampo da mesa enquanto os dois colegas liam o extenso documento e viam as fotografias.
Depois perguntou:
- Frederico, você leu o que é público. Não parece nada de especial, ou não? O que me diz?
Frederico, com a voz algo tremida, deu a sua interpretação:
- Segundo eu, tudo indica estarmos na presença de um “serial killer”. As vítimas foram executadas com garrote o que não é habitual entres lutas de “gangs”. O que me perturba, mas pode ser coincidência, é que as vítimas são delinquentes com passagem pela prisão, por assalto à mão armada e violações. Será quem os matou, nos quer empurrar para crimes por vingança?
Perante o olhar interrogativo do Vítor Monteiro, Figueiredo, mais experiente, acrescentou:
– Como sabe Inspector, já nos conhecemos há muitos anos e eu já ando envolvido em investigações de crimes violentos faz muito tempo. Eu vejo ódio como na maneira como eles foram mortos. Receio que o X marcado no peito das vítimas, já cadáveres, utilizando um instrumento cortante, signifique vingança, como referiu o Frederico. Estou convencido que vai haver mais vítimas e que estamos perante executores, frios e com um qualquer plano. Vai ser difícil.
Basicamente, penso o mesmo que vocês, mas interrogo-me por que razão foi decidida a criação de uma equipa especial para este caso? Não gosto disto, leva-me a pensar que alguém, quando nos forneceu os dados sobre os dois crimes, se esqueceu de algum dado relevante.
Figueiredo, você dá-se bem com pessoal das brigadas de investigação da PSP e da GNR. Veja se descobre o que eles esconderam. Por norma estes crimes têm assinatura. O relatório do médico forense indica que na letra X aparece um orifício, provavelmente feito com um alfinete. Será que havia alguma mensagem e que alguém omitiu o facto, para proteger alguma investigação em curso?
- Frederico, agarre-se ao computador e elabore um ficheiro com todos os casos conhecidos já julgados ou por julgar nos três últimos anos. Quero crimes por assalto à mão armada com sequestro e violação. Quero saber os dados sobre os suspeitos ou condenados e principalmente conhecer as vítimas, onde moram, o que fazem, quem são, etc.
Esta sala será daqui em diante o nosso local de trabalho. A porta é fechada e só se abre para limpeza na presença de qualquer um de nós. Reunimo-nos amanhã ao meio-dia.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

QUANDO MORREM OS SONHOS

2 –
Concentrado na decisão que idealizara, parecia ver o mundo com outras cores. Um leve sorriso surpreendeu até os colegas de trabalho, designadamente os mais próximos. Em surdina, comentavam de uns para outros, que ou ele teria ganho a lotaria ou haveria mulher a dar-lhe a volta à cabeça.
Alberto apercebia-se dos murmúrios e ficava feliz. Ter uma aventura amorosa era o tónico que ele precisava, era o renascia das histórias que esquecera.
Mas não sabia como dizer à mulher. Sem mais sem menos não faria sentido e aproveitando uma discussão, podia ser, mas isso era coisa que nem ele se lembrava, de alguma vez ter acontecido.
A melhor seria inventar uma semana de serviço longe do País e daí escrever-lhe uma carta a dizer que o amor morrera, que ele iria procurar outro caminho.
Começou a escrever no portátil, o rascunho da carta. A coisa não estava a sair bem, o texto não lhe agradava, porque ou era de um lamechice pegada ou era tão formal que mais uma carta de negócios. Nunca pensara que escrever uma carta de justificação e despedida, com um texto que traduzisse a angústia e a esperança que lhe iam na alma, lhe fosse tão difícil.
Não conseguira, perdera o jeito de escrever. As frases que agora lhe vinham à memória eram vazias, não tinham vida, eram simples palavras acantonadas num texto mal construído e totalmente desligadas da realidade. Não era assim que ele imaginara uma carta de despedida. Reconhecia que ia ter de reler os seus escritores de culto e os poetas que me encheram a alma, pois talvez voltasse a sentir a emoção e a paixão de uma carta, de amor ou de desamor.
Todos os textos que havia tentado escrever, alguns cheios de algumas palavras frias como o gelo, outros com uma simples declaração “ fim do caminho, já não te amo mais”, ou alguns ensaios para uma carta que fosse a fotografia do passado, com tantos momentos que lhe encheram a vida mas que, num dado tempo, lhe mostraram que tinha renunciado aos sonhos, tudo gravou na memória da máquina, numa pasta a que chamou, adeus.
Relia os textos, eliminava as frases banais e quanto a inspiração ajudou, justificava os seus anseios, o receio que o tempo se esgotasse e ele deixasse fugir os sonhos por viver.
Gostava desta confissão. Não havia recriminações, ele era que assumia a culpa e pedia perdão.
Todavia, tinha dificuldade em encenar a deslocação e o envio da carta. Quanto mais pensava, mais sentia a sensação da fuga dos cobardes.
Na realidade, deu-se conta de que o Alberto que queria partir, que queria fugir porque lhe faltava o ar para respirar, aquele que sonhara sonhos impossíveis, eram uma miragem da adolescência, era o D. Quixote à procura da sua Dulcineia, porque a vida não era governada por sonhos, por oníricos que eles sejam. A vida é dar e partilhar e ele teria recebido, talvez mais do que dera.
O tempo ia passando e Alberto não conseguia o impulso que lhe fugia. O conflito entre o sonho e a realidade, tinha bloqueado a decisão.
Mas o destino encarregou-se de lhe indicar o caminho.
Enquanto conduzia de regresso a casa, relendo, repetindo, mentalmente há exaustão o que havia escrito e pensado, olhando o mar em busca de coragem para partir, cometeu uma distracção e chocou com violência no carro que circulava à frente e que estava parado no semáforo. Acordou na ambulância, deixou fugir uma lágrima, chorando pelos outros mas, principalmente, chorando por ele próprio e pelos seus moinhos de vento.