29 – ÚLTIMO TANGO
Em Londres Pedro queria dar vida a uma personagem adormecida. Tudo iria ser meticulosamente estudado para que a sua estadia na grande cidade, passasse despercebida das autoridades e da legião de agências, mais ou menos suspeitas, que tinham a sua base em Londres.
Tinha decidido que era tempo de mudar. Já não sentia os apelos da aventura e a adrenalina das situações perigosas. Pagara um preço muito alto pelos anos que vivera de forma tão intensa.
Conhecera muitas histórias de extorsão, muita corrupção, muitas operações de branqueamentos de capitais, muitos crimes ligados a negócios com o tráfego de droga e de armas. Em algumas dessas histórias, ele fora o actor principal.
Era certo que ganhara muito dinheiro, conhecera muitos criminosos enriquecidos, que apareciam perante a Sociedade, como cidadãos acima de qualquer suspeita. E se isso funcionava como um seguro era ao mesmo tempo, um risco. Um dia, mais tarde ou mais cedo, alguém decidiria que ele sabia demais e, nessa altura Pedro iria encontrar o seu executor.
Por isso se embriagara na volúpia dos dias de perigo, escolhera viver só.
Até que num dia, um pequeno momento mudara a sua vida. O coração dominara os outros sentidos e quase sem dar por isso, sentira a magia do amor.
Esse dia fora o primeiro dia. Apaixonara-se e tudo o mais ficara esquecido.
Tudo o que a experiência se lhe ensinara, tudo o que o bom senso aconselhava, ficara refém dum olhos negros, dum olhar terno e transbordante de luz. Deu-se e recebeu, tudo fora partilha. E a mulher que lhe trouxera o sol, num triste fim de tarde partiu, dando-lhe a dádiva suprema, a vida.
Pudera ele ter voltado alguns anos atrás e o caminho teria sido outro. Mas este fora o seu fado, o seu destino, a sua sina.
Despertou para a realidade quando o avião tocou a pista. Tomou um táxi que o levou ao pequeno apartamento que tinha em Londres, longe do centro e na quietude de um subúrbio. Era um refúgio, talvez o último.
Resolveu sair, andar pelas ruas sempre atento a qualquer momento estranho. Passou pela estação de correios, onde alugara uma caixa postal. Tinha tanta correspondência acumulada que teve de recorrer a um saco de supermercado para recolher e transportar o amontoado de cartas. Voltou a casa, despejou o saco em cima da cama para poder seleccionar o que lhe poderia interessar.
Deu uma vista de olhos pela correspondência do Banco, oferecendo serviços enquanto acompanhava o envio do extracto da conta. Tinha também inúmeras ofertas de agências de viagens propondo férias em lugares para paradisíacos e mais publicidade sem interesse. Rasgou tudo. Para o final deixara três cartas, sem remetente.
Decidiu que também as iria destruir mas, no último instante, parou e experimentou abrir uma delas. Continha uma pequena mensagem escrita em letras distorcidas dizendo: “Obrigado pelo tango que não esqueci.”
A segunda tinha uma fotografia igual à que ele já tinha recebido via internet, com uma mulher e alguns homens sentados, numa esplanada à beira praia.
A última, um postal turístico, que já sabia ser de Mar de Prata.
Alguém o provocava. Seria “Anne” ou “Jezabel”?
Fez por esquecer, organizou a sua vida, publicando um anúncio no Financial Times oferendo serviços de consultadoria financeira. Era uma actividade que poderia seguir desde que soubesse escolher os clientes.
Alugou um escritório num prédio enorme junto da City. O nome do placard indicava, apenas, “Middle East Financial Advisor”.
Instalou-se naquele espaço préviamente equipado.
Começara tudo de novo, e queria ser diferente. Recebeu algumas consultas, fez recolha de informação, elaborou alguns relatórios e esse trabalho ocupava-lhe o tempo.
Pouco a pouco havia esquecido as três cartas que guardara no fundo da gaveta da nova secretária. Voltou a pensar nelas quando, procurando algo que não encontrava, abriu a gaveta, notou que a mesma tinha sido remexida e que alguém levara as cartas. Só as cartas, mais nada faltava. E fora no novo escritório sinal que alguém o havia localizado.
Foi uma surpresa, afinal aquelas pistas seriam importantes para outrem, que se dera ao trabalho de localizar e assaltar o seu escritório, apenas para levar as cartas.
A campainha soou dentro de si. Não se livrara do seu perseguidor e nem sabia quem ele era. Era um desafio, e ele queria responder. Nada tinha a perder.
Em conversa com o Administrador e de forma casual, disse-lhe que iria fazer um trabalho no Dubai. Estaria fora um mês.
Na primeira oportunidade, levou a bagagem para o escritório, pediu na recepção um táxi para o Aeroporto de Gatwick onde desceu, deu uma volta e voltou a sair para apanhar o Express para Heathrow, destino Lisboa.
O plano era voar para o Brasil, Belo Horizonte, via Rio de Janeiro, mas o seu destino era Mar de Prata na Argentina.
Qualquer coisa lhe dizia que alguém precisava de ajuda. Anne, claro, a referência ao tango era um segredo dos dois.
segunda-feira, 30 de maio de 2011
domingo, 29 de maio de 2011
O EXECUTOR
28 – UM DIA
Ao atravessar Milão em hora de ponta perdeu-se no caminho para o Lago Maggiore. Só deu pelo erro em plena auto-estrada e já rodava na direcção de Verona. Achou que passar algum tempo na cidade de Romeu e Julieta, era também uma forma de recordar o amor. A tragédia de Shakespeare tinha alguma semelhança com a sua. A obra era mais dramática, os dois amantes morreram por amor. Na sua história, ele ficara vivo, agarrado a um sonho que lhe doía mas não queria deixar morrer.
Afinal, Veneza fora uma desilusão. Já lhe tinham dito que isso poderia acontecer, mas Gabriela falara-lhe com tanto entusiasmo, que Pedro percorreu a Praça, navegou numa gôndola, com olhos bem despertos, mirava cada rua, cada palácio, cada ponte mas não sentiu o fascínio que esperava.
Para si, pensara que a cidade teria que ser vivida e partilhada entre dois amantes. Ele sentiu-se perdido e desencantado. Passou apenas uma noite num hotel, antigo, que lhe fizera lembrar o cenário do filme de Luchino Visconti, Morte em Veneza, filme que ele tanto apreciara, quando o vira numa retrospectiva do cinema do grande realizador.
E fora tudo o que guardara.
De volta a Mestre, pegou no automóvel, fez o caminho de regresso de maneira a que em Milão não deixasse fugir a direcção do Lago. Tinha a certeza que passar alguns dias admirando a paisagem bucólica seria mais reconfortante. Ainda, porque não sendo a época do turismo mais intenso, evitara a confusão das multidões, poderia passear e em comunhão com a natureza tão bela, cicatrizar as feridas que ainda permaneciam.
E assim aconteceu. Fez amizade com um casal Alemão, que ali passava uns dias comemorando as suas bodas de prata. Eram muito simpáticos, nunca impuseram a sua presença, nunca procuraram saber o que ali fazia um homem só e melancólico, mas Pedro sentiu que eles lhe estendiam, uma mão amiga. Foi bom, conversaram sobre a vida, a sua vida, os filhos e os netos que tinham começado a aparecer.
Foi uma semana em que Pedro esqueceu as suas penas e os amigos despediram-se com a promessa de um dia voltarem. Pedro sorriu, respondendo que aquela viagem era uma jornada que devia a alguém, que não a pudera fazer.
O tempo de percorrer caminhos sem direcção, fizera bem e mal ao mesmo tempo. Não queria continuar assim, precisava de encontrar qualquer coisa para ocupar o tempo e não se deixar dominar por aquela sensação de vazio e solidão que ele receava.
Regressou a Milão, já conhecia a cidade, foi para o Aeroporto principal, entregou o carro e comprou um bilhete para Londres.
Durante a viajem, cerrou os olhos e deixou desfilar o seu passado. As alegrias, tão poucas foram, a solidão dos dias que corriam sem destino, os momentos difíceis. Reconhecia que chegara a um cruzamento sem saber a direcção a tomar. Não tinha amigos, não tinha família próxima, não tinha objectivos, não tinha vida.
Contudo um dia, um simples dia trouxera-lhe a esperança, o amor e a magia. Nessas vinte e quatro horas, percebera que a vida só vale a pena ser vivida com amor. Tinha recebido o sol e a luz, o prazer dos pequenos gestos e a volúpia da paixão. Mas essa diferença, essa esperança, acabaram numa pequena rua, duma qualquer cidade. E com ele ficaram os dias escuros e sem destino.
Ao atravessar Milão em hora de ponta perdeu-se no caminho para o Lago Maggiore. Só deu pelo erro em plena auto-estrada e já rodava na direcção de Verona. Achou que passar algum tempo na cidade de Romeu e Julieta, era também uma forma de recordar o amor. A tragédia de Shakespeare tinha alguma semelhança com a sua. A obra era mais dramática, os dois amantes morreram por amor. Na sua história, ele ficara vivo, agarrado a um sonho que lhe doía mas não queria deixar morrer.
Afinal, Veneza fora uma desilusão. Já lhe tinham dito que isso poderia acontecer, mas Gabriela falara-lhe com tanto entusiasmo, que Pedro percorreu a Praça, navegou numa gôndola, com olhos bem despertos, mirava cada rua, cada palácio, cada ponte mas não sentiu o fascínio que esperava.
Para si, pensara que a cidade teria que ser vivida e partilhada entre dois amantes. Ele sentiu-se perdido e desencantado. Passou apenas uma noite num hotel, antigo, que lhe fizera lembrar o cenário do filme de Luchino Visconti, Morte em Veneza, filme que ele tanto apreciara, quando o vira numa retrospectiva do cinema do grande realizador.
E fora tudo o que guardara.
De volta a Mestre, pegou no automóvel, fez o caminho de regresso de maneira a que em Milão não deixasse fugir a direcção do Lago. Tinha a certeza que passar alguns dias admirando a paisagem bucólica seria mais reconfortante. Ainda, porque não sendo a época do turismo mais intenso, evitara a confusão das multidões, poderia passear e em comunhão com a natureza tão bela, cicatrizar as feridas que ainda permaneciam.
E assim aconteceu. Fez amizade com um casal Alemão, que ali passava uns dias comemorando as suas bodas de prata. Eram muito simpáticos, nunca impuseram a sua presença, nunca procuraram saber o que ali fazia um homem só e melancólico, mas Pedro sentiu que eles lhe estendiam, uma mão amiga. Foi bom, conversaram sobre a vida, a sua vida, os filhos e os netos que tinham começado a aparecer.
Foi uma semana em que Pedro esqueceu as suas penas e os amigos despediram-se com a promessa de um dia voltarem. Pedro sorriu, respondendo que aquela viagem era uma jornada que devia a alguém, que não a pudera fazer.
O tempo de percorrer caminhos sem direcção, fizera bem e mal ao mesmo tempo. Não queria continuar assim, precisava de encontrar qualquer coisa para ocupar o tempo e não se deixar dominar por aquela sensação de vazio e solidão que ele receava.
Regressou a Milão, já conhecia a cidade, foi para o Aeroporto principal, entregou o carro e comprou um bilhete para Londres.
Durante a viajem, cerrou os olhos e deixou desfilar o seu passado. As alegrias, tão poucas foram, a solidão dos dias que corriam sem destino, os momentos difíceis. Reconhecia que chegara a um cruzamento sem saber a direcção a tomar. Não tinha amigos, não tinha família próxima, não tinha objectivos, não tinha vida.
Contudo um dia, um simples dia trouxera-lhe a esperança, o amor e a magia. Nessas vinte e quatro horas, percebera que a vida só vale a pena ser vivida com amor. Tinha recebido o sol e a luz, o prazer dos pequenos gestos e a volúpia da paixão. Mas essa diferença, essa esperança, acabaram numa pequena rua, duma qualquer cidade. E com ele ficaram os dias escuros e sem destino.
sexta-feira, 27 de maio de 2011
O EXECUTOR
27 – REVIVER
Marselha havia sido a primeira paragem que Pedro programara depois de encerrar os assuntos pendentes em Lisboa. Fora para encerrar o escritório do Fundo de Investimento Privado que ali domiciliara, não era difícil pois apesar do nome pomposo e da placa dourada na porta, o fundo apenas tinha tido um cliente, ele mesmo. Ainda assim e com a discrição aconselhável, procedeu à liquidação da firma, cumprindo as suas obrigações contabilísticas e fiscais. Depois transferiu o saldo da canta bancária que encerrou.
Estava à duas semanas na cidade, não lhe era um lugar muito simpático e partiria logo que tudo em ordem.
Ao fim duma tarde de sexta-feira foi até ao porto. Era a hora de mudança de turno dos operadores portuários e os bares nas redondezas, regurgitavam de gente barulhenta e sequiosa. Como fazia frio, os clientes bebiam calvados, uma aguardente de maçã que era muito apreciada naquela região e por cada rodada o barulho aumentava de intensidade. Pedro escolheu aleatoriamente um bar, conseguiu um lugar ao balcão para beber um cognac. Deu uma espreitadela pela clientela e reconheceu o antigo colega Albert. Custou-lhe muito olhar para aquele homem, que era uma sombra dorida. Bastou olhar para ele para perceber que ele havia deixado o álcool e se transferira para a heroína. E arranjar dinheiro para a droga era a sua exclusiva razão de viver.
Cirandava entre as mesas mendigando umas moedas para matar o vício e era escorraçado pelos antigos companheiros. Quando se encontrava perto, Pedro chamou-o pelo nome. Os olhos dele brilharam, finalmente alguém o reconhecera, olhou em redor cheio de esperança mas não percebeu quem o tinha chamado. Pedro fez um sinal e ele aproveitou para pedir ajuda. Não sabia com quem falava, mas nem isso lhe era importante. Segredou que estava doente, tinha frio e fome, estendeu a mão trémula e descarnada a pedir ajuda.
Pedro abriu a carteira tirou duas notas de cem euros e coloco-as na mão estendida.
Albert olhou para aquela fortuna, murmurou agradecimentos e desapareceu.
Ao sair do bar, Pedro não conseguia esquecer aquele momento. Ele sabia que o dinheiro que dera ao amigo não o iria ajudar. Ele compraria mais umas doses de droga e enquanto ela fizesse efeito, ele fugiria do mundo real e entraria no mundo imaginário. Pouco a pouco, dose a dose, chegaria ao fim, abandonado nalguma ruela escura e enrodilhado nos farrapos em que se tornara.
Sacudiu a cabeça, precisava de sair da cidade, respirar ar puro, ver outra gente mas não havia escolhido o caminho.
Tinha um automóvel alugado num rent-a-car internacional, pelo que podia seguir para onde o acaso o levasse. E partiria à aventura.
E de repente lembrou o fascínio de Gabriela pela Itália. Como ela lhe contara o desejo de percorrer e admirar o Lago Maggiore, a Isola Bela e passear nos canais de Veneza. Pedro decidiu reviver o sonho por ela e para ela.
Marselha havia sido a primeira paragem que Pedro programara depois de encerrar os assuntos pendentes em Lisboa. Fora para encerrar o escritório do Fundo de Investimento Privado que ali domiciliara, não era difícil pois apesar do nome pomposo e da placa dourada na porta, o fundo apenas tinha tido um cliente, ele mesmo. Ainda assim e com a discrição aconselhável, procedeu à liquidação da firma, cumprindo as suas obrigações contabilísticas e fiscais. Depois transferiu o saldo da canta bancária que encerrou.
Estava à duas semanas na cidade, não lhe era um lugar muito simpático e partiria logo que tudo em ordem.
Ao fim duma tarde de sexta-feira foi até ao porto. Era a hora de mudança de turno dos operadores portuários e os bares nas redondezas, regurgitavam de gente barulhenta e sequiosa. Como fazia frio, os clientes bebiam calvados, uma aguardente de maçã que era muito apreciada naquela região e por cada rodada o barulho aumentava de intensidade. Pedro escolheu aleatoriamente um bar, conseguiu um lugar ao balcão para beber um cognac. Deu uma espreitadela pela clientela e reconheceu o antigo colega Albert. Custou-lhe muito olhar para aquele homem, que era uma sombra dorida. Bastou olhar para ele para perceber que ele havia deixado o álcool e se transferira para a heroína. E arranjar dinheiro para a droga era a sua exclusiva razão de viver.
Cirandava entre as mesas mendigando umas moedas para matar o vício e era escorraçado pelos antigos companheiros. Quando se encontrava perto, Pedro chamou-o pelo nome. Os olhos dele brilharam, finalmente alguém o reconhecera, olhou em redor cheio de esperança mas não percebeu quem o tinha chamado. Pedro fez um sinal e ele aproveitou para pedir ajuda. Não sabia com quem falava, mas nem isso lhe era importante. Segredou que estava doente, tinha frio e fome, estendeu a mão trémula e descarnada a pedir ajuda.
Pedro abriu a carteira tirou duas notas de cem euros e coloco-as na mão estendida.
Albert olhou para aquela fortuna, murmurou agradecimentos e desapareceu.
Ao sair do bar, Pedro não conseguia esquecer aquele momento. Ele sabia que o dinheiro que dera ao amigo não o iria ajudar. Ele compraria mais umas doses de droga e enquanto ela fizesse efeito, ele fugiria do mundo real e entraria no mundo imaginário. Pouco a pouco, dose a dose, chegaria ao fim, abandonado nalguma ruela escura e enrodilhado nos farrapos em que se tornara.
Sacudiu a cabeça, precisava de sair da cidade, respirar ar puro, ver outra gente mas não havia escolhido o caminho.
Tinha um automóvel alugado num rent-a-car internacional, pelo que podia seguir para onde o acaso o levasse. E partiria à aventura.
E de repente lembrou o fascínio de Gabriela pela Itália. Como ela lhe contara o desejo de percorrer e admirar o Lago Maggiore, a Isola Bela e passear nos canais de Veneza. Pedro decidiu reviver o sonho por ela e para ela.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
O EXECUTOR
26 – COMEÇAR DE NOVO
Ainda hesitou em seguir o desafio que alguém lhe enviara. A fotografia, a cidade balnear da Argentina.
No seu subconsciente percebia que alguém o continuava a manobrar, arrastando-o para um caminho onde poderia ter de enfrentar consequências imprevisíveis.
O que fizera, os trabalhos que prestara, as ligações que, no final, se tinham tornado evidentes, significavam para alguém que o seu papel na Organização estaria esgotado. Obrigara pessoas a dar a cara e isso teria um preço.
Mas, e Pedro sabia isso desde o início, que uma vez entrando aceitara as regras e isso significava que, sair poderia ser muito complicado, tão difícil e perigoso como tinham sido as suas missões.
Era por temer vir a transformar-se num obstáculo, que ele sempre se rodeara de precauções. Nunca quisera expor ninguém. Ele só decidira o caminho e só ele o teria de percorrer.
Por uma vez, transigiu. Apaixonou-se e o amor transformou-se em tragédia.
Só algum tempo depois de ter voltado, se decidiu a abrir o envelope que recebera no hotel. O dinheiro chegara à sua conta numerada, o nome do Director de Operações da Organização que montara a armadilha em que Gabriela dera a vida, estava indicado, mas nem perdeu tempo. Era de certeza um nome falso.
As explicações sobre o desenrolar da operação de sequestro dos dois traficantes, eram ainda mais vagas. Não teria havido conluio e o desfecho fora exactamente o que a Organização tinha decidido. Só lhe reafirmaram que ele, cumprira a sua missão, e o desenvolvimento posterior da mesma, fora confiado a um outro operacional, cujo nome, naturalmente, omitiram.
Ele tinha ainda trunfos da manga e que já pensara utilizar. Mandar para o Detective de Nova Iorque, cópia da correspondência relacionada com o crime ou transmitir o dossier para um jornal.
Sentia-se pressionado e sob vigilância. Sabia que alguém o estaria seguindo. Mudou todas as chaves de acesso ao computador, alterou passwords, mudou de fornecedor de internet e mesmo assim não estava tranquilo.
Eliminou mais uma pista, fechou a conta numerada nas Ilhas Cayman, mudando-a para outro Banco que foi escolher em Andorra.
E, na verdade, durante algum tempo não recebeu nenhuma mensagem, admitia que tivesse despistado o seu seguidor, muito embora, apenas temporáriamente.
Nunca conhecera a família de Gabriela. Sabia que tinha irmãos mais novos e que os Pais viviam algures na Beira Alta. Queria repartir o valor recebido, ele queimava-lhe as mãos, mas não foi capaz de enfrentar a família. Isso era superior às suas forças. Ao encontrar entre os papéis que Gabriela arrumara no escritório, correspondência com o Pai e uma cópia do extracto bancário duma conta conjunta, respirou de alívio. Foi para essa conta que transferiu uma avultada soma de dinheiro, enviando o comprovativo da operação para o endereço que conhecera, acompanhado por uma simples nota, não assinada, dizendo tratar-se duma ordem de alguém que muito amara Gabriela.
Pouco a pouco foi fechando aquele capítulo da sua vida. Queria distância, perder-se no caminho que tinha trilhado, começar de novo.
Antes de se mudar resolveu cumprir o que a sim mesmo impusera. A morte de Gabriela não devia ficar impune. Organizou um ficheiro com todos os dados que guardara, juntou-lhe cópia do documento da Organização, e aproveitando uma deslocação a Marselha para encerrar o pequeno escritório, fez o seu envio anónimo, para a NYCPD, Lower Manhattan, Chambers street, ao cuidado do Detective Francis Cole.
Ainda hesitou em seguir o desafio que alguém lhe enviara. A fotografia, a cidade balnear da Argentina.
No seu subconsciente percebia que alguém o continuava a manobrar, arrastando-o para um caminho onde poderia ter de enfrentar consequências imprevisíveis.
O que fizera, os trabalhos que prestara, as ligações que, no final, se tinham tornado evidentes, significavam para alguém que o seu papel na Organização estaria esgotado. Obrigara pessoas a dar a cara e isso teria um preço.
Mas, e Pedro sabia isso desde o início, que uma vez entrando aceitara as regras e isso significava que, sair poderia ser muito complicado, tão difícil e perigoso como tinham sido as suas missões.
Era por temer vir a transformar-se num obstáculo, que ele sempre se rodeara de precauções. Nunca quisera expor ninguém. Ele só decidira o caminho e só ele o teria de percorrer.
Por uma vez, transigiu. Apaixonou-se e o amor transformou-se em tragédia.
Só algum tempo depois de ter voltado, se decidiu a abrir o envelope que recebera no hotel. O dinheiro chegara à sua conta numerada, o nome do Director de Operações da Organização que montara a armadilha em que Gabriela dera a vida, estava indicado, mas nem perdeu tempo. Era de certeza um nome falso.
As explicações sobre o desenrolar da operação de sequestro dos dois traficantes, eram ainda mais vagas. Não teria havido conluio e o desfecho fora exactamente o que a Organização tinha decidido. Só lhe reafirmaram que ele, cumprira a sua missão, e o desenvolvimento posterior da mesma, fora confiado a um outro operacional, cujo nome, naturalmente, omitiram.
Ele tinha ainda trunfos da manga e que já pensara utilizar. Mandar para o Detective de Nova Iorque, cópia da correspondência relacionada com o crime ou transmitir o dossier para um jornal.
Sentia-se pressionado e sob vigilância. Sabia que alguém o estaria seguindo. Mudou todas as chaves de acesso ao computador, alterou passwords, mudou de fornecedor de internet e mesmo assim não estava tranquilo.
Eliminou mais uma pista, fechou a conta numerada nas Ilhas Cayman, mudando-a para outro Banco que foi escolher em Andorra.
E, na verdade, durante algum tempo não recebeu nenhuma mensagem, admitia que tivesse despistado o seu seguidor, muito embora, apenas temporáriamente.
Nunca conhecera a família de Gabriela. Sabia que tinha irmãos mais novos e que os Pais viviam algures na Beira Alta. Queria repartir o valor recebido, ele queimava-lhe as mãos, mas não foi capaz de enfrentar a família. Isso era superior às suas forças. Ao encontrar entre os papéis que Gabriela arrumara no escritório, correspondência com o Pai e uma cópia do extracto bancário duma conta conjunta, respirou de alívio. Foi para essa conta que transferiu uma avultada soma de dinheiro, enviando o comprovativo da operação para o endereço que conhecera, acompanhado por uma simples nota, não assinada, dizendo tratar-se duma ordem de alguém que muito amara Gabriela.
Pouco a pouco foi fechando aquele capítulo da sua vida. Queria distância, perder-se no caminho que tinha trilhado, começar de novo.
Antes de se mudar resolveu cumprir o que a sim mesmo impusera. A morte de Gabriela não devia ficar impune. Organizou um ficheiro com todos os dados que guardara, juntou-lhe cópia do documento da Organização, e aproveitando uma deslocação a Marselha para encerrar o pequeno escritório, fez o seu envio anónimo, para a NYCPD, Lower Manhattan, Chambers street, ao cuidado do Detective Francis Cole.
quarta-feira, 25 de maio de 2011
O EXECUTOR
25 – ESTRANHA FORMA DE VIDA
Como é de prever, as duas partes estavam a fazer bluff. Todavia ninguém apostou. Pedro identificou o cadáver de Gabriela, na mesma altura recebeu a informação de que o Procurador autorizava a retirada do cadáver e fez andar o processo para o envio para a família em Portugal.
Quando à noite regressou ao hotel, Richard aguardava-o no vestíbulo.
Entraram no quarto, Pedro aceitou um envelope que o amigo transportava na sua mala de diplomata. Não abriu sequer, preferiu comentar que a entrega que acabara de lhe ser feita respeitava, estava certo disso, o seu pedido.
Acompanhou Richard à recepção levantou o disco de arquivo informático, que lá havia guardado, entregou-o garantindo que, desta vez está aí tudo o que eu sei, incluindo o meu contrato de prestação de serviços que, naturalmente ficará nulo, bem como toda a correspondência entre as partes. Como peça mais importante para a vossa Agência está também o correio que recebi a marcar o encontro para a morte.
Richard, aqui os nossos caminhos separam-se. Lamento que o pedido que te fiz, pensando estar na presença dum amigo, te tivesse causado algum embaraço. Mas, eu precisava de ajuda e tu não foste o amigo que eu supunha e esperava. Passa bem e muito sucesso no teu trabalho.
Ainda ficou mais uns dias em Nova Iorque, porque sem saber como, alguém lhe enviara para o seu computador uma fotografia. Nela Pedro reconheceu “Jezabel”, numa esplanada junto ao mar, tomando uma bebida na companhia de alguns amigos que não conhecia. Com a ajuda do especialista que contratou numa loja de reparação de computadores, discretamente instalada no meio da confusão da “Chinatown”, tentou saber donde teria sido enviada a foto. Mas de concreto nada conseguiu, salvo uma vaga opinião que o remetente estivesse sediado num País da América do Sul, talvez do Brasil.
Regressou a casa, mais velho, mais triste e decidido a terminar a sua aventura. Mas para isso tinha de mudar de País. O Portugal e a sua Lisboa traziam-lhe à memória muitas lembranças e nem todas eram boas. E o amor por Gabriela ainda estava instalado no coração.
Para continuar vivendo precisava de completar uma tarefa. A fotografia que lhe tinham anonimamente enviado mostrava uma “Anne” alegre na companhia dos seus amigos. Possivelmente rindo do golpe do qual ele fora um mero comparsa.
Mas que estranha forma de vida, Pedro queria esquecer o passado mas ele fizera questão de lhe aparecer. E duma forma inesperada. No seu correio encontrou um postal que lhe era dirigido, apenas o seu nome e morada. O postal tinha apenas, impresso “Bienvenido a Mar de Plata”.
Como é de prever, as duas partes estavam a fazer bluff. Todavia ninguém apostou. Pedro identificou o cadáver de Gabriela, na mesma altura recebeu a informação de que o Procurador autorizava a retirada do cadáver e fez andar o processo para o envio para a família em Portugal.
Quando à noite regressou ao hotel, Richard aguardava-o no vestíbulo.
Entraram no quarto, Pedro aceitou um envelope que o amigo transportava na sua mala de diplomata. Não abriu sequer, preferiu comentar que a entrega que acabara de lhe ser feita respeitava, estava certo disso, o seu pedido.
Acompanhou Richard à recepção levantou o disco de arquivo informático, que lá havia guardado, entregou-o garantindo que, desta vez está aí tudo o que eu sei, incluindo o meu contrato de prestação de serviços que, naturalmente ficará nulo, bem como toda a correspondência entre as partes. Como peça mais importante para a vossa Agência está também o correio que recebi a marcar o encontro para a morte.
Richard, aqui os nossos caminhos separam-se. Lamento que o pedido que te fiz, pensando estar na presença dum amigo, te tivesse causado algum embaraço. Mas, eu precisava de ajuda e tu não foste o amigo que eu supunha e esperava. Passa bem e muito sucesso no teu trabalho.
Ainda ficou mais uns dias em Nova Iorque, porque sem saber como, alguém lhe enviara para o seu computador uma fotografia. Nela Pedro reconheceu “Jezabel”, numa esplanada junto ao mar, tomando uma bebida na companhia de alguns amigos que não conhecia. Com a ajuda do especialista que contratou numa loja de reparação de computadores, discretamente instalada no meio da confusão da “Chinatown”, tentou saber donde teria sido enviada a foto. Mas de concreto nada conseguiu, salvo uma vaga opinião que o remetente estivesse sediado num País da América do Sul, talvez do Brasil.
Regressou a casa, mais velho, mais triste e decidido a terminar a sua aventura. Mas para isso tinha de mudar de País. O Portugal e a sua Lisboa traziam-lhe à memória muitas lembranças e nem todas eram boas. E o amor por Gabriela ainda estava instalado no coração.
Para continuar vivendo precisava de completar uma tarefa. A fotografia que lhe tinham anonimamente enviado mostrava uma “Anne” alegre na companhia dos seus amigos. Possivelmente rindo do golpe do qual ele fora um mero comparsa.
Mas que estranha forma de vida, Pedro queria esquecer o passado mas ele fizera questão de lhe aparecer. E duma forma inesperada. No seu correio encontrou um postal que lhe era dirigido, apenas o seu nome e morada. O postal tinha apenas, impresso “Bienvenido a Mar de Plata”.
terça-feira, 24 de maio de 2011
O EXECUTOR
24 – AJUSTE DE CONTAS
Pedro começou a preparar o jogo. Tinha que se preparar para mentir, dissimular, fazer bluff escondendo o que sabia, porque isso era a sua vantagem.
Arranjou maneira de copiar toda a informação que guardara no arquivo escondido e fazer o seu envio postal para o seu endereço, uma caixa postal em Lisboa. O arquivo original guardou no cofre da recepção do hotel.
Recebeu a chamada para o encontro. O local seria um restaurante francês na West 51 street e numa sala reservada para as 21horas. A reserva estava feita no nome de Mister Conti. Pedro declinou a oferta de transporte. Iria pelos seus próprios meios.
Como sempre fizera chegou bastante mais cedo. Escolheu um lugar para vigiar a entrada. Havia muito movimento e isso deixou-o tranquilo. Um restaurante onde via entrar tanta gente seria, certamente, mais seguro do que o local que havia custado a vida de Gabriela.
Deu pela chegada de Richard com um passageiro, pararam, entregaram as chaves do automóvel ao porteiro e entraram para o Restaurante. Pedro olhou para o relógio, faltavam poucos minutos para as 21 horas e calmamente também entrou.
Na entrada, numa sala bar, Richard e o companheiro aguardavam sentados ao balcão tomando uma bebida. Pedro aproximou-se, cumprimentou o amigo que lhe apresentou o companheiro, Bill Conti. Este era um homem de meia idade, alto, cabelos negros já a rarear o que contrastava com a juventude e cabelos ruivos do amigo.
Foram acompanhados pelo chefe de mesa para uma pequena sala reservada, com uma mesa para três pessoas e um empregado sorridente, pronto para os servir.
Durante a refeição, trocaram frases de conveniência e um ou outro sorriso forçado. Pedro sentia o ambiente tenso, já o esperava, mas não deu o primeiro passo. Aguardou.
Foi Richard que abriu a conversa, dizendo:
- Pedro, o senhor Conti é o Director da Agência, responsável pelas operações no estrangeiro. Ele conhece a tua intervenção e a tua ligação a uma Organização, que de facto nos tem prestado alguns serviços. Como podes perceber, o que me contaste e o triste acidente com a tua mulher, são muito importantes, podem consubstanciar uma falha, grave, com uma intrusão no nosso sistema informático.
Por isso, nós gostaríamos de te ouvir falar da tua experiência e saber se nos podes facultar provas ou indícios, que nos ajudem a localizar a intrusão e a identificar os seus autores.
-Sabes Richard, retorquiu Pedro, a minha companheira morreu porque desconfiou duma armadilha preparada para mim. Só três pessoas sabiam o local do encontro. Eu, a minha mulher e o Director de Operações da Organização. Foi tudo combinado num e-mail, que indicando a origem não tinha autentificação. Todavia para mim é claro que foi da Organização que partiu a ordem para me eliminarem.
Mas tu já sabias isto, quando clonaste o meu computador, acedeste à pasta da correspondência. Ou estarei enganado?
Foi o Senhor Conti que continuou a conversa.
- Senhor Pedro Dias, como deve imaginar eu aceitei vir a este encontro para entender e solucionar. Não sei nem quero saber se alguém teve acesso ao seu computador. Devo dizer que a Agência já localizou o intruso, ele foi despedido e irá responder em Tribunal. Eu entendi o que se passou e assumo a responsabilidade pela quebra de segurança. Agora quero solucionar e proponho:
- O senhor é autorizado a sair do País e levantar os restos mortais da sua mulher, sem enfrentar obstáculos por parte Polícia;
- Se entender que dinheiro é importante, podemos chegar a um valor simpático;
- Em contrapartida entrega-me a mim, directamente, todos os ficheiros relativos à sua participação nas operações encomendadas pela Organização. Quando digo todos é mesmo todos.
Pedro sorriu, comentando:
-Meu caro senhor Conti, parece-me que há uma inversão de que o senhor nem se deu conta. Sou eu que lhe posso oferecer uma solução. Porque eu sou a parte lesada; Eu perdi a minha mulher; Eu fui traído por um amigo; Eu corri riscos e sempre cumpri; Da minha parte não houve falhas. E o senhor pode dizer o mesmo?
Sinceramente não creio.
- A minha proposta inegociável Senhor Conti, é:
- Exijo receber um documento, assinado onde seja feita a identificação da pessoa responsável pelo assassínio da minha mulher;
- Exijo saber quem subverteu a operação do assalto ao barco, e porquê, e quem protege os traficantes que foram detidos durante a abordagem.
- Finalmente, e funcionando como uma indemnização por danos físicos e morais, reclamo o valor de cinco milhões de dólares, que deverão ser transferidos para a conta que já consta nos vossos ficheiros.
Quando tudo estiver cumprido, o senhor receberá, posso garantir, os ficheiros que procura.
E para evitar confusões, Richard explica ao teu patrão que eu não sou um amador.
Amanhã irei identificar na morgue o corpo da minha mulher, acompanhado pelo Detective Cole. E lembro que este Polícia é competente.
Depois, gostaria de sair até final da semana.
Gostei da conversa. Não creio que nos voltemos a encontrar, senhor Conti.
Salvo se…
Pedro começou a preparar o jogo. Tinha que se preparar para mentir, dissimular, fazer bluff escondendo o que sabia, porque isso era a sua vantagem.
Arranjou maneira de copiar toda a informação que guardara no arquivo escondido e fazer o seu envio postal para o seu endereço, uma caixa postal em Lisboa. O arquivo original guardou no cofre da recepção do hotel.
Recebeu a chamada para o encontro. O local seria um restaurante francês na West 51 street e numa sala reservada para as 21horas. A reserva estava feita no nome de Mister Conti. Pedro declinou a oferta de transporte. Iria pelos seus próprios meios.
Como sempre fizera chegou bastante mais cedo. Escolheu um lugar para vigiar a entrada. Havia muito movimento e isso deixou-o tranquilo. Um restaurante onde via entrar tanta gente seria, certamente, mais seguro do que o local que havia custado a vida de Gabriela.
Deu pela chegada de Richard com um passageiro, pararam, entregaram as chaves do automóvel ao porteiro e entraram para o Restaurante. Pedro olhou para o relógio, faltavam poucos minutos para as 21 horas e calmamente também entrou.
Na entrada, numa sala bar, Richard e o companheiro aguardavam sentados ao balcão tomando uma bebida. Pedro aproximou-se, cumprimentou o amigo que lhe apresentou o companheiro, Bill Conti. Este era um homem de meia idade, alto, cabelos negros já a rarear o que contrastava com a juventude e cabelos ruivos do amigo.
Foram acompanhados pelo chefe de mesa para uma pequena sala reservada, com uma mesa para três pessoas e um empregado sorridente, pronto para os servir.
Durante a refeição, trocaram frases de conveniência e um ou outro sorriso forçado. Pedro sentia o ambiente tenso, já o esperava, mas não deu o primeiro passo. Aguardou.
Foi Richard que abriu a conversa, dizendo:
- Pedro, o senhor Conti é o Director da Agência, responsável pelas operações no estrangeiro. Ele conhece a tua intervenção e a tua ligação a uma Organização, que de facto nos tem prestado alguns serviços. Como podes perceber, o que me contaste e o triste acidente com a tua mulher, são muito importantes, podem consubstanciar uma falha, grave, com uma intrusão no nosso sistema informático.
Por isso, nós gostaríamos de te ouvir falar da tua experiência e saber se nos podes facultar provas ou indícios, que nos ajudem a localizar a intrusão e a identificar os seus autores.
-Sabes Richard, retorquiu Pedro, a minha companheira morreu porque desconfiou duma armadilha preparada para mim. Só três pessoas sabiam o local do encontro. Eu, a minha mulher e o Director de Operações da Organização. Foi tudo combinado num e-mail, que indicando a origem não tinha autentificação. Todavia para mim é claro que foi da Organização que partiu a ordem para me eliminarem.
Mas tu já sabias isto, quando clonaste o meu computador, acedeste à pasta da correspondência. Ou estarei enganado?
Foi o Senhor Conti que continuou a conversa.
- Senhor Pedro Dias, como deve imaginar eu aceitei vir a este encontro para entender e solucionar. Não sei nem quero saber se alguém teve acesso ao seu computador. Devo dizer que a Agência já localizou o intruso, ele foi despedido e irá responder em Tribunal. Eu entendi o que se passou e assumo a responsabilidade pela quebra de segurança. Agora quero solucionar e proponho:
- O senhor é autorizado a sair do País e levantar os restos mortais da sua mulher, sem enfrentar obstáculos por parte Polícia;
- Se entender que dinheiro é importante, podemos chegar a um valor simpático;
- Em contrapartida entrega-me a mim, directamente, todos os ficheiros relativos à sua participação nas operações encomendadas pela Organização. Quando digo todos é mesmo todos.
Pedro sorriu, comentando:
-Meu caro senhor Conti, parece-me que há uma inversão de que o senhor nem se deu conta. Sou eu que lhe posso oferecer uma solução. Porque eu sou a parte lesada; Eu perdi a minha mulher; Eu fui traído por um amigo; Eu corri riscos e sempre cumpri; Da minha parte não houve falhas. E o senhor pode dizer o mesmo?
Sinceramente não creio.
- A minha proposta inegociável Senhor Conti, é:
- Exijo receber um documento, assinado onde seja feita a identificação da pessoa responsável pelo assassínio da minha mulher;
- Exijo saber quem subverteu a operação do assalto ao barco, e porquê, e quem protege os traficantes que foram detidos durante a abordagem.
- Finalmente, e funcionando como uma indemnização por danos físicos e morais, reclamo o valor de cinco milhões de dólares, que deverão ser transferidos para a conta que já consta nos vossos ficheiros.
Quando tudo estiver cumprido, o senhor receberá, posso garantir, os ficheiros que procura.
E para evitar confusões, Richard explica ao teu patrão que eu não sou um amador.
Amanhã irei identificar na morgue o corpo da minha mulher, acompanhado pelo Detective Cole. E lembro que este Polícia é competente.
Depois, gostaria de sair até final da semana.
Gostei da conversa. Não creio que nos voltemos a encontrar, senhor Conti.
Salvo se…
segunda-feira, 23 de maio de 2011
O EXECUTOR
23 – JOGO SUJO
Pedro reagia como um autómato a todas as decisões do amigo. Estava num momento de descrença e desalento, como nunca antes tinha vivido.
Ele que tanto prezava a independência nos actos e sempre soubera decidir os caminhos, estava agora ausente e sem vontade.
Enquanto o amigo falava ao telemóvel, sentara-se no sofá, fechara os olhos e sentiu que de um modo, alguém o estava a guiar, afastando-o da realidade.
Gabriela rira-se quando ele falara da teoria da conspiração. Ela não acreditava mas Pedro racionava como um jogador de xadrez. Via o jogo como um desafio entre dois cérebros e era capaz de seguir uma estratégia complicada, feita de avanços e recuos até ao xeque-mate.
Lentamente foi recuperando o seu autodomínio. Estava desperto e atento mesmo simulando uma letargia profunda. O seu treino fazia com que, quase ouvisse o trabalhar das células do seu cérebro. Era um tic tac que, lentamente, lhe despertava os sentidos.
Percebera e compreendia as razões do amigo. E mais ainda a marcação dum encontro com alguém da NSA.
Entretanto o Advogado chegou ao hotel. Richard já lhe contara o principal e Pedro preparou-se para o acompanhar à esquadra de Polícia. O amigo ficava aguardando o contacto do amigo da NSA para acertar o encontro. Deixaria uma nota com o local e hora.
Pedro passou a noite na esquadra da Polícia. Foi, finalmente, ouvido pelo Detective de Homicídios, assinou o depoimento e saiu cercas das seis horas da manhã.
O corpo carbonizado de Gabriela já se encontrava na morgue e só poderia proceder à sua identificação, no final do dia. O Detective, negro, de meia idade com um olhar que inspirava confiança, acompanhou Pedro até ao Hotel para recolher roupa ou objectos da vítima, eventualmente necessários para exames de ADN.
O Detective, Francis Cole, entrou na suite que percorreu, e antes de recolher o que precisava, comentou:
- Pelo que me é dado verificar os senhores estavam preparados para sair. Nem desfizeram a bagagem. Quer acrescentar alguma coisa à sua declaração, perguntou enquanto espreitava a nota manuscrita deixada na mesa-de-cabeceira?
Pedro não desviou o olhar e respondeu:
-Como o senhor pode testemunhar no registo do hotel, nós só chegamos por volta das cinco da tarde e a reserva era para uma noite apenas. Parte das nossas férias, estivemos hospedados no hotel Mulberry. Ontem planeamos seguir de comboio para a São Francisco. Mas fora uma decisão repentina, pois quando chegamos à Central Station, percebemos que era um disparate e optamos por ficar mais uma noite em Nova Iorque, mas agora neste Hotel.
- Que pena não terem seguido o vosso impulso, talvez a sua mulher ainda estivesse viva, não lhe parece?
O senhor saberá o que é melhor para si, não é suspeito, por enquanto, mas aconselho-o a que não abandone a cidade sem o nosso acordo. E já agora um conselho. Eu conheço o seu Advogado, é pessoa muito influente, mas faça um esforço para se lembrar de alguma coisa que se esqueceu de dizer na sua declaração e que tenha algo a ver com a morte da senhora. E foi ainda mais explícito:
- Eu sei e o senhor também sabe, que a hipótese acidente, não é sustentável. A sua mulher foi assassinada. Admito que não saiba por quem, mas estou certo que saberá porquê. Não cometa o erro de subestimar a Polícia.
Amanhã espero-o pelas 9 horas, para me acompanhar à morgue.
Pedro renovou a reserva no hotel prolongando-a por mais uma semana. Não queria dar a entender que se recusava a cooperar com a Polícia. Mas isso iria acontecer um pouco mais tarde. Para já, não queria mostrar o jogo.
Abriu o computador e foi sem grande surpresa que constatou que o computador tinha sido mexido e possívelmente clonado. Havia sinais e marcas que só ele conhecia que confirmavam a suspeita. Não escondeu um esgar. O amigo jogava na outra equipe. Mas aprendera com especialistas como manter o computador defendido. Habituara-se a guardar toda a informação importante num disco rígido de tamanho reduzido e que transportava escondido dentro do estojo de barbear. O disco que ficava no computador só registava ficheiros sem importância. Quem se dera ao trabalho de clonar o pequeno laptoc, saíra-se mal.
A visita oportuna visita do Richard fora apenas uma farsa. Ele estaria ligado ao atentado. Custava-se a crer, mas na vida que levava tinha que ter muitas cautelas com amigos providenciais.
Iria utilizar a ajuda do amigo, teria o encontro com o responsável do NSA, mas apenas para libertar o corpo de Gabriela e resolver a sua situação com a Polícia. Fingiria não ter mais pedras para jogar.
Mas, logo que estivesse a salvo, faria chegar às mãos do Detective e dum jornal de grande tiragem, um dossier completo, com cópias do contrato, das mensagens, dos pagamentos recebidos e, para sua satisfação pessoal, as identificações de toda a gente que conhecera.
Isso seria o seu xeque-mate.
Pedro reagia como um autómato a todas as decisões do amigo. Estava num momento de descrença e desalento, como nunca antes tinha vivido.
Ele que tanto prezava a independência nos actos e sempre soubera decidir os caminhos, estava agora ausente e sem vontade.
Enquanto o amigo falava ao telemóvel, sentara-se no sofá, fechara os olhos e sentiu que de um modo, alguém o estava a guiar, afastando-o da realidade.
Gabriela rira-se quando ele falara da teoria da conspiração. Ela não acreditava mas Pedro racionava como um jogador de xadrez. Via o jogo como um desafio entre dois cérebros e era capaz de seguir uma estratégia complicada, feita de avanços e recuos até ao xeque-mate.
Lentamente foi recuperando o seu autodomínio. Estava desperto e atento mesmo simulando uma letargia profunda. O seu treino fazia com que, quase ouvisse o trabalhar das células do seu cérebro. Era um tic tac que, lentamente, lhe despertava os sentidos.
Percebera e compreendia as razões do amigo. E mais ainda a marcação dum encontro com alguém da NSA.
Entretanto o Advogado chegou ao hotel. Richard já lhe contara o principal e Pedro preparou-se para o acompanhar à esquadra de Polícia. O amigo ficava aguardando o contacto do amigo da NSA para acertar o encontro. Deixaria uma nota com o local e hora.
Pedro passou a noite na esquadra da Polícia. Foi, finalmente, ouvido pelo Detective de Homicídios, assinou o depoimento e saiu cercas das seis horas da manhã.
O corpo carbonizado de Gabriela já se encontrava na morgue e só poderia proceder à sua identificação, no final do dia. O Detective, negro, de meia idade com um olhar que inspirava confiança, acompanhou Pedro até ao Hotel para recolher roupa ou objectos da vítima, eventualmente necessários para exames de ADN.
O Detective, Francis Cole, entrou na suite que percorreu, e antes de recolher o que precisava, comentou:
- Pelo que me é dado verificar os senhores estavam preparados para sair. Nem desfizeram a bagagem. Quer acrescentar alguma coisa à sua declaração, perguntou enquanto espreitava a nota manuscrita deixada na mesa-de-cabeceira?
Pedro não desviou o olhar e respondeu:
-Como o senhor pode testemunhar no registo do hotel, nós só chegamos por volta das cinco da tarde e a reserva era para uma noite apenas. Parte das nossas férias, estivemos hospedados no hotel Mulberry. Ontem planeamos seguir de comboio para a São Francisco. Mas fora uma decisão repentina, pois quando chegamos à Central Station, percebemos que era um disparate e optamos por ficar mais uma noite em Nova Iorque, mas agora neste Hotel.
- Que pena não terem seguido o vosso impulso, talvez a sua mulher ainda estivesse viva, não lhe parece?
O senhor saberá o que é melhor para si, não é suspeito, por enquanto, mas aconselho-o a que não abandone a cidade sem o nosso acordo. E já agora um conselho. Eu conheço o seu Advogado, é pessoa muito influente, mas faça um esforço para se lembrar de alguma coisa que se esqueceu de dizer na sua declaração e que tenha algo a ver com a morte da senhora. E foi ainda mais explícito:
- Eu sei e o senhor também sabe, que a hipótese acidente, não é sustentável. A sua mulher foi assassinada. Admito que não saiba por quem, mas estou certo que saberá porquê. Não cometa o erro de subestimar a Polícia.
Amanhã espero-o pelas 9 horas, para me acompanhar à morgue.
Pedro renovou a reserva no hotel prolongando-a por mais uma semana. Não queria dar a entender que se recusava a cooperar com a Polícia. Mas isso iria acontecer um pouco mais tarde. Para já, não queria mostrar o jogo.
Abriu o computador e foi sem grande surpresa que constatou que o computador tinha sido mexido e possívelmente clonado. Havia sinais e marcas que só ele conhecia que confirmavam a suspeita. Não escondeu um esgar. O amigo jogava na outra equipe. Mas aprendera com especialistas como manter o computador defendido. Habituara-se a guardar toda a informação importante num disco rígido de tamanho reduzido e que transportava escondido dentro do estojo de barbear. O disco que ficava no computador só registava ficheiros sem importância. Quem se dera ao trabalho de clonar o pequeno laptoc, saíra-se mal.
A visita oportuna visita do Richard fora apenas uma farsa. Ele estaria ligado ao atentado. Custava-se a crer, mas na vida que levava tinha que ter muitas cautelas com amigos providenciais.
Iria utilizar a ajuda do amigo, teria o encontro com o responsável do NSA, mas apenas para libertar o corpo de Gabriela e resolver a sua situação com a Polícia. Fingiria não ter mais pedras para jogar.
Mas, logo que estivesse a salvo, faria chegar às mãos do Detective e dum jornal de grande tiragem, um dossier completo, com cópias do contrato, das mensagens, dos pagamentos recebidos e, para sua satisfação pessoal, as identificações de toda a gente que conhecera.
Isso seria o seu xeque-mate.
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