domingo, 29 de maio de 2011

O EXECUTOR

28 – UM DIA

Ao atravessar Milão em hora de ponta perdeu-se no caminho para o Lago Maggiore. Só deu pelo erro em plena auto-estrada e já rodava na direcção de Verona. Achou que passar algum tempo na cidade de Romeu e Julieta, era também uma forma de recordar o amor. A tragédia de Shakespeare tinha alguma semelhança com a sua. A obra era mais dramática, os dois amantes morreram por amor. Na sua história, ele ficara vivo, agarrado a um sonho que lhe doía mas não queria deixar morrer.
Afinal, Veneza fora uma desilusão. Já lhe tinham dito que isso poderia acontecer, mas Gabriela falara-lhe com tanto entusiasmo, que Pedro percorreu a Praça, navegou numa gôndola, com olhos bem despertos, mirava cada rua, cada palácio, cada ponte mas não sentiu o fascínio que esperava.
Para si, pensara que a cidade teria que ser vivida e partilhada entre dois amantes. Ele sentiu-se perdido e desencantado. Passou apenas uma noite num hotel, antigo, que lhe fizera lembrar o cenário do filme de Luchino Visconti, Morte em Veneza, filme que ele tanto apreciara, quando o vira numa retrospectiva do cinema do grande realizador.
E fora tudo o que guardara.
De volta a Mestre, pegou no automóvel, fez o caminho de regresso de maneira a que em Milão não deixasse fugir a direcção do Lago. Tinha a certeza que passar alguns dias admirando a paisagem bucólica seria mais reconfortante. Ainda, porque não sendo a época do turismo mais intenso, evitara a confusão das multidões, poderia passear e em comunhão com a natureza tão bela, cicatrizar as feridas que ainda permaneciam.
E assim aconteceu. Fez amizade com um casal Alemão, que ali passava uns dias comemorando as suas bodas de prata. Eram muito simpáticos, nunca impuseram a sua presença, nunca procuraram saber o que ali fazia um homem só e melancólico, mas Pedro sentiu que eles lhe estendiam, uma mão amiga. Foi bom, conversaram sobre a vida, a sua vida, os filhos e os netos que tinham começado a aparecer.
Foi uma semana em que Pedro esqueceu as suas penas e os amigos despediram-se com a promessa de um dia voltarem. Pedro sorriu, respondendo que aquela viagem era uma jornada que devia a alguém, que não a pudera fazer.
O tempo de percorrer caminhos sem direcção, fizera bem e mal ao mesmo tempo. Não queria continuar assim, precisava de encontrar qualquer coisa para ocupar o tempo e não se deixar dominar por aquela sensação de vazio e solidão que ele receava.
Regressou a Milão, já conhecia a cidade, foi para o Aeroporto principal, entregou o carro e comprou um bilhete para Londres.
Durante a viajem, cerrou os olhos e deixou desfilar o seu passado. As alegrias, tão poucas foram, a solidão dos dias que corriam sem destino, os momentos difíceis. Reconhecia que chegara a um cruzamento sem saber a direcção a tomar. Não tinha amigos, não tinha família próxima, não tinha objectivos, não tinha vida.
Contudo um dia, um simples dia trouxera-lhe a esperança, o amor e a magia. Nessas vinte e quatro horas, percebera que a vida só vale a pena ser vivida com amor. Tinha recebido o sol e a luz, o prazer dos pequenos gestos e a volúpia da paixão. Mas essa diferença, essa esperança, acabaram numa pequena rua, duma qualquer cidade. E com ele ficaram os dias escuros e sem destino.

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