9 – UM VISITA INESPERADA
Estava entretido a arrumar alguns dossiers, quando o telefone interno tocou. A telefonista perguntou se podia mandar subir um cavalheiro que se encontrava muito inquieto e agitado e insistia em falar com ele. Como não tinha nada agendado para a manhã, deu ordens para subir.
Abriu a porta do escritório e mandou entrar o homem impaciente. Era um jovem, da casa dos trinta anos, com aspecto muito cuidado, com uma boa figura a lembrar os galãs de telenovela. Mal se deixou cair na cadeira começou imediatamente a falar:
- Tenho uma vida muito ocupada e não posso perder tempo com conversa inútil, diz o desconhecido. Quero que me diga, que mentiras a Maria Clara lhe veio contar, ontem à tarde. Não negue, porque ela própria me disse, que esteve consigo.
- Meu caro amigo, os assuntos que trato com os meus clientes são confidenciais. Se tem algo para contar relacionado com o caso faça-o, de contrário a porta de saída é aquela por onde entrou.
- Fique sabendo que eu não receio um detective de meia tigela, por isso a sua observação não me afecta. Aviso-o, para seu bem, não deve meter-se em assuntos para onde não é chamado, pode dar-se mal. Ainda lhe digo mais, qualquer coisa que a Maria Clara lhe tenha contado, não passa de uma invenção.
- Repare bem como eu estou a tremer, deve ser das suas ameaças, responde António. Levantou-se da cadeira aproximou-se do desconhecido, pegou-lhe pela gravata, levou-o à saída e em jeito de despedida, segredou-lhe ao ouvido: - Já tratei com homens violentos, criminosos e assassinos e nunca tive medo. Achas que um idiota qualquer armado em esperto me vai assustar?
Ponha-se no meio da rua, antes que o corra a pontapé, mas olha bem para mim, penso que ainda nos vamos encontrar. Mas será quando eu quiser.
Resmungando o desconhecido abriu a porta do elevador e saiu.
Sentado à secretária António procurava esquematizar as ligações entre a desaparecida e as pessoas que já conhecera. A Mãe, Artur e agora um rufião que parecia ser um prostituto.
O que é que um homem como este terá a ver com o desaparecimento de Carolina? Ele mostrou que conhecia a Mara Clara. Palpita-me que o assunto ou é muito mais complicado do que eu previa ou estarei a ser objecto de uma mistificação ensaiada entre os três intervenientes. A ser assim, o móbil do rapto só pode ser dinheiro.
Respirou fundo, alinhavou algumas questões para esclarecer na entrevista da tarde.
Entretanto recebeu um possível cliente. Uma senhora de cabelos brancos mas de olhar desperto, que o desafiou para investigar uma questão familiar, que ela considerava algo estranha.
António concordou e escreveu na agenda uma entrevista para o dia seguinte pelas onze horas da manhã, mas em casa da cliente, Dona Julieta, cuja morada também anotara.
Saiu para almoçar. Voltou ao trabalho pois queria preparar a entrevista marcada para as duas da tarde.
Passavam poucos minutos, quando a recepcionista ligou, avisando da chegada da cliente. Deixou tocar por duas ou três vezes a campainha do gabinete, velha técnica para enervar a outra parte. A sua experiência ensinara-lhe que a ansiedade era o melhor amigo do investigador.
Maria Clara entrou, cumprimentou com um aperto de mão, e sentando-se na cadeira de braços, que o investigador lhe apontou, cruzou as pernas num movimento amplo e sugestivo. Aqui estou eu Doutor, como tínhamos combinado trago o questionário preenchido, e este envelope, com meia dúzia de fotos, recentes, da minha filha.
António Pedro recebeu os documentos, colocou-os na secretária sem abrir o sobrescrito.
Fixando-a, sugeriu que tirasse os óculos escuros, pois gostava de ver os olhos das pessoas com quem falava. Desculpará, mas é um hábito já antigo e que não perdi. Os olhos podem dar respostas diferentes das palavras.
Maria Clara hesitou e pediu para continuar com os óculos. Sabe, sinto-me mais à vontade, porque não tive tempo, nem disposição, para me maquilhar.
António encolheu os ombros, e abriu o envelope das fotos que espalhou na secretária.
segunda-feira, 4 de julho de 2011
domingo, 3 de julho de 2011
O RAPTO
8 – SENTIMENTOS
Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava.
Porém uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo.
Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo?
E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio?
A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!
Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres.
Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal online britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias.
Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute.
O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.
Por norma as redes operavam desviando grupos de meia dúzia de jovens, normalmente altas, loiras, ingénuas e ambiciosas, originárias de regiões mais desfavorecidas. Deixavam-se cativar pelo canto das sereias, com a promessa de uma vida de estrelas e acabavam transformadas em escravas sexuais, nos mais recônditos lugares das grandes cidades, dominadas por uma rede de agentes que as transferiam de cidade a seu belo prazer, presas numa vida da qual só a morte, as libertaria.
O jornal também noticiava algo, que o interessou. Era o rapto por encomenda, de crianças para venda a casais estéreis ou para organizações que se dedicavam ao comércio de órgãos humanos.
Sentiu que as mãos lhe tremiam. Nada do que lera era novo, mas apesar de tudo havia sempre um sentimento de revolta e de impotência, porque os criminosos raramente eram encontrados e punidos.
António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança.
Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos.
Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.
Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro.
Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça!
Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava.
Porém uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo.
Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo?
E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio?
A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!
Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres.
Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal online britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias.
Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute.
O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.
Por norma as redes operavam desviando grupos de meia dúzia de jovens, normalmente altas, loiras, ingénuas e ambiciosas, originárias de regiões mais desfavorecidas. Deixavam-se cativar pelo canto das sereias, com a promessa de uma vida de estrelas e acabavam transformadas em escravas sexuais, nos mais recônditos lugares das grandes cidades, dominadas por uma rede de agentes que as transferiam de cidade a seu belo prazer, presas numa vida da qual só a morte, as libertaria.
O jornal também noticiava algo, que o interessou. Era o rapto por encomenda, de crianças para venda a casais estéreis ou para organizações que se dedicavam ao comércio de órgãos humanos.
Sentiu que as mãos lhe tremiam. Nada do que lera era novo, mas apesar de tudo havia sempre um sentimento de revolta e de impotência, porque os criminosos raramente eram encontrados e punidos.
António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança.
Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos.
Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.
Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro.
Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça!
sábado, 2 de julho de 2011
O RAPTO
7 – O DESAFIO
Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Àquela hora a viajem foi curta e depressa parou à porta de casa.
Entrou num apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá.
Não tendo mais nada, iria ser aquela a sua frugal refeição. Sentou-se num sofá, cerrou os olhos mas via imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, uma mulher insinuante e um homem que sorria.
Estava cansado, a solidão soava como um estrondo na sua cabeça. Reconhecia que ainda não estava pronto para embarcar numa aventura que receava, não iria ser uma coisa simples. Como se arrependia de ter aceite.
O telefone tocou, olhou no mostrador e reconheceu o número que chamava. Ouviu o amigo Artur dizer com ironia:
- Olá seu preguiçoso, isso são horas de um homem sozinho estar em casa e aposto que de pantufas? Não devias andar na conquista?
- Sabes Artur, nunca pensei que uma vida sem obrigações fosse tão difícil de suportar. Estou cansado e nem me apetece sair de casa nem ao menos para tomar um copo.
- Sim eu compreendo e porque nos conhecemos bem sei que uns olhos de mulher te podem devolver o prazer de viver. Principalmente os olhos de uma certa mulher que hoje te visitou. Não tenho razão?
Como sabes fui eu que aconselhei a Dr.ª. Maria Clara e tenho a certeza que ela mexeu contigo. Não tenhas medo de confessar, afinal és um homem livre, ou quase, não é verdade? Ao mesmo tempo, a investigação sobre o desaparecimento da rapariga, vai dar-te um pouco de trabalho e é disso que tu estás a precisar.
- Então o que é que tu me queres dizer, perguntou António?
- Falando a sério, respondeu Artur, o desaparecimento da Carolina Meneses não me parece um caso normal. Raptada por dinheiro não me parece, porque ainda não houve qualquer pedido de resgate. Levada para as redes de prostituição conhecidas, não creio. Redes de pedofilia também não, pois ela já é crescida para o gosto desses predadores. Todavia, já alertei a Interpol.
Além do mais a rapariga tinha uma vida muito certinha, boa aluna, os amigos nada notaram de estranho no seu comportamento, não tinha namorados e também não era frequentadora das redes sociais, segundo a Mãe declarou quando apresentou queixa.
De facto a Carolina não se enquadra no tipo comum das pessoas que desaparecem e foi isso que me intrigou e me deu a ideia de que tu poderias seguir o caso, talvez explorando outros caminhos. Eu disse-o à Mãe e garanti-lhe que o assunto seria tratado com todo cuidado mas longe dos holofotes da Imprensa.
- Sim eu percebo a tua posição, responde António, embora haja qualquer coisa que ainda não percebi bem. Mas voltaremos a falar. Para já a minha cabeça estala e ainda nem sequer comecei a pensar a sério do assunto.
- Mas é dum desafio que tu estás a precisar, respondeu o amigo. Pois, se nada fizeres, ainda acabas a ver e a seguir as telenovelas ou a comentar na TV, os crimes mais mediáticos, dizendo as banalidades do costume. Dorme bem e olha que eu gostarei de conhecer o desenvolvimento da tua investigação. Pela minha parte podes contar com a ajuda possível, dentro das regras é claro. Mas, toma nota, os contactos com a PJ serão só comigo.
- Ok, fica combinado. Um abraço, adeus terminou António, já cansado de ouvir a conversa do amigo.
Arrumou a loiça do jantar ligeiro, acendeu um cigarro e foi para a varanda fumar. Olhava as luzes da noite na cidade, conseguia vislumbrar a cúpula iluminada da Basílica da Estrela, mais ao longe um pedaço da outra margem. Algures havia vida, havia tragédia, havia amor e também uma rapariga desaparecida. E no meio uma mulher interessante e misteriosa e um amigo que sorria.
Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Àquela hora a viajem foi curta e depressa parou à porta de casa.
Entrou num apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá.
Não tendo mais nada, iria ser aquela a sua frugal refeição. Sentou-se num sofá, cerrou os olhos mas via imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, uma mulher insinuante e um homem que sorria.
Estava cansado, a solidão soava como um estrondo na sua cabeça. Reconhecia que ainda não estava pronto para embarcar numa aventura que receava, não iria ser uma coisa simples. Como se arrependia de ter aceite.
O telefone tocou, olhou no mostrador e reconheceu o número que chamava. Ouviu o amigo Artur dizer com ironia:
- Olá seu preguiçoso, isso são horas de um homem sozinho estar em casa e aposto que de pantufas? Não devias andar na conquista?
- Sabes Artur, nunca pensei que uma vida sem obrigações fosse tão difícil de suportar. Estou cansado e nem me apetece sair de casa nem ao menos para tomar um copo.
- Sim eu compreendo e porque nos conhecemos bem sei que uns olhos de mulher te podem devolver o prazer de viver. Principalmente os olhos de uma certa mulher que hoje te visitou. Não tenho razão?
Como sabes fui eu que aconselhei a Dr.ª. Maria Clara e tenho a certeza que ela mexeu contigo. Não tenhas medo de confessar, afinal és um homem livre, ou quase, não é verdade? Ao mesmo tempo, a investigação sobre o desaparecimento da rapariga, vai dar-te um pouco de trabalho e é disso que tu estás a precisar.
- Então o que é que tu me queres dizer, perguntou António?
- Falando a sério, respondeu Artur, o desaparecimento da Carolina Meneses não me parece um caso normal. Raptada por dinheiro não me parece, porque ainda não houve qualquer pedido de resgate. Levada para as redes de prostituição conhecidas, não creio. Redes de pedofilia também não, pois ela já é crescida para o gosto desses predadores. Todavia, já alertei a Interpol.
Além do mais a rapariga tinha uma vida muito certinha, boa aluna, os amigos nada notaram de estranho no seu comportamento, não tinha namorados e também não era frequentadora das redes sociais, segundo a Mãe declarou quando apresentou queixa.
De facto a Carolina não se enquadra no tipo comum das pessoas que desaparecem e foi isso que me intrigou e me deu a ideia de que tu poderias seguir o caso, talvez explorando outros caminhos. Eu disse-o à Mãe e garanti-lhe que o assunto seria tratado com todo cuidado mas longe dos holofotes da Imprensa.
- Sim eu percebo a tua posição, responde António, embora haja qualquer coisa que ainda não percebi bem. Mas voltaremos a falar. Para já a minha cabeça estala e ainda nem sequer comecei a pensar a sério do assunto.
- Mas é dum desafio que tu estás a precisar, respondeu o amigo. Pois, se nada fizeres, ainda acabas a ver e a seguir as telenovelas ou a comentar na TV, os crimes mais mediáticos, dizendo as banalidades do costume. Dorme bem e olha que eu gostarei de conhecer o desenvolvimento da tua investigação. Pela minha parte podes contar com a ajuda possível, dentro das regras é claro. Mas, toma nota, os contactos com a PJ serão só comigo.
- Ok, fica combinado. Um abraço, adeus terminou António, já cansado de ouvir a conversa do amigo.
Arrumou a loiça do jantar ligeiro, acendeu um cigarro e foi para a varanda fumar. Olhava as luzes da noite na cidade, conseguia vislumbrar a cúpula iluminada da Basílica da Estrela, mais ao longe um pedaço da outra margem. Algures havia vida, havia tragédia, havia amor e também uma rapariga desaparecida. E no meio uma mulher interessante e misteriosa e um amigo que sorria.
quinta-feira, 30 de junho de 2011
O RAPTO
6 – O INFORMADOR
Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão de visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel.
Ligou para o antigo colega e amigo Inspector Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem.
Esteve a percorrer sítios da Internet para se actualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas, velhos, jovens de crianças era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?
Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Mateus e dizia:
- António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.
Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens injectavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Quantas vezes não assistira àquele espectáculo. Quantos traficantes não havia levado para a prisão. Teria valido a pena, interrogou-se? De facto, conseguira desmantelar alguns grupos organizados, mas a verdade é que outros haviam tomado conta do negócio.
Entrou num café pequeno e mal iluminado, sentou-se ao balcão bebendo um café, enquanto pelo canto do olho vigiava os outros clientes. O olhar cruzou-se com um velho conhecido, que imediatamente se dirigiu à porta para fugir. Mas passou perto, pelo que não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.
- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?
- Oh senhor Inspector, juro que não fiz nada de mal.
- Está bem, então anda dar uma volta comigo, porque preciso de te falar. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.
- Oh senhor Inspector, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.
- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria.
Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, e deu-lhe a morada. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar.
- Mas porquê eu, um solitário e independente? No mundo da noite e dos negócios escuros eu não passo de um Zé-ninguém!
- Não sejas modesto Carlos, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspecto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.
Foi com um ar preocupado que António Pedro voltou para a secretária, pegou no cartão de visita, simples mas de bom gosto. Profissão médica com consultório em Lisboa e residente em Cascais. Escrito, manualmente, no verso encontrou o número do telemóvel.
Ligou para o antigo colega e amigo Inspector Artur Marques, o telemóvel estava desligado e a sua chamada foi remetida para a caixa de correio. Não deixou mensagem.
Esteve a percorrer sítios da Internet para se actualizar. Já não lia jornais há muito tempo e Televisão nem a ligava. Estava fora do mundo que o rodeava e precisava de voltar a saber o que acontecera em Portugal e no Mundo que pudesse ter algo a ver com o desaparecimento de crianças. Ficou admirado com a quantidade de informação sobre o assunto. Só na Europa a taxa de desaparecimento de pessoas, velhos, jovens de crianças era enorme e assustadora. Que mundo é este em que vivemos, perguntava-se?
Ouviu o sinal de chegada de uma mensagem. Abriu era do Artur Mateus e dizia:
- António, o que achaste do desaparecimento da filha da doutora Maria Clara? Precisamos de falar sobre o assunto, mas só estarei disponível à noite. Eu ligo-te. Artur.
Espreitou pela janela, parecia ir chover. Vestiu o impermeável, fechou o gabinete e saiu para a rua. Como tantas vezes fizera começou a andar até ao Marquês, subiu a Fontes Pereira de Melo e dali seguiu para a Almirante Reis. Passou perto da Igreja dos Anjos, onde um significativo grupo de sem abrigo aguardava a sopa da noite. Nas ruas adjacentes, por entre os carros, vendia-se droga e grupos de dois ou três jovens injectavam-se, com heroína ou qualquer outro produto manipulado. Quantas vezes não assistira àquele espectáculo. Quantos traficantes não havia levado para a prisão. Teria valido a pena, interrogou-se? De facto, conseguira desmantelar alguns grupos organizados, mas a verdade é que outros haviam tomado conta do negócio.
Entrou num café pequeno e mal iluminado, sentou-se ao balcão bebendo um café, enquanto pelo canto do olho vigiava os outros clientes. O olhar cruzou-se com um velho conhecido, que imediatamente se dirigiu à porta para fugir. Mas passou perto, pelo que não foi difícil agarrá-lo e com ele seguro por um braço, sair para a rua.
- Então Carlos o que é que fizeste para saíres com tanta pressa? Já não queres falar comigo?
- Oh senhor Inspector, juro que não fiz nada de mal.
- Está bem, então anda dar uma volta comigo, porque preciso de te falar. Não tentes fugir, pois sabes que te apanho quando quiser e se fores a julgamento apanhas uma pena jeitosa.
- Oh senhor Inspector, o senhor sabe que eu nunca me meti em coisas grandes, e que o negócio é só para sobreviver. Tenha pena de mim e deixe-me ir embora.
- Olha Carlos, tu podes não acreditar, mas eu sempre pensei que bastava um pequeno esforço da tua parte, para largares esse mundo em que vives, e voltares a ser um rapaz normal. Vou por à prova esta minha teoria.
Eu já não pertenço aos quadros da PJ, mas abri um pequeno escritório de investigações e irei precisar de informações. Pode ser uma oportunidade para ti. Amanhã vais ter comigo ao escritório, e deu-lhe a morada. Quero-te ver por volta das seis da tarde. Entretanto vai abrindo os olhos e presta atenção às conversas sobre os negócios da noite. Falo de tráfico de armas, de pessoas e de droga. Eu perdi essa informação, pois estive muito tempo afastado dessa área criminal. Tu vais ser meu colaborador, já nos conhecemos há muito tempo e sabes que te posso ajudar.
- Mas porquê eu, um solitário e independente? No mundo da noite e dos negócios escuros eu não passo de um Zé-ninguém!
- Não sejas modesto Carlos, tu tens algo que a maioria dos teus amigos não sabe sequer o que é. És inteligente, observador, e sabes guardar segredos. Essas características são adequadas para o que eu pretendo de ti. Em resumo, quero que oiças e vejas por mim, que faças perguntas e me contes as respostas. Mas tudo de forma informal. Nunca te porei em risco, podes confiar. Já uma vez me ajudaste e agora peço-te ajuda novamente. Vai, e não te esqueças, amanhã às seis da tarde. Toma lá algum dinheiro para te arranjares. Não me apareças com o aspecto desleixado. Faz por merecer esta oportunidade. Eu espero por ti e confio que lá estarás.
terça-feira, 28 de junho de 2011
O RAPTO
5 – O LADO OBSCURO
Com um ar distante, António Pedro foi dizendo que a PJ, tinha um excelente departamento especializado para tratar estes casos, tem tido muito sucesso e, além do mais, tem também os meios necessários e a experiência para investigar esse tipo de situações. Eu pelo contrário não sou experiente nessa área da investigação.
Maria Clara argumentou que a PJ tinha sido o seu primeiro caminho. Dera todas as informações que lhe pediram e o processo fora aberto. Mas, dizia recear que, apesar da reconhecida competência da Polícia, o caso da filha fosse apenas mais um.
Por outro lado, vim ter consigo recomendada por um amigo e antigo colega, porque o senhor tem uma grande vantagem, tem tempo e uma reconhecida sensibilidade e eu ficarei mais tranquila se o desaparecimento da minha filha for investigado de perto, quase me atrevo a dizer em regime de exclusividade. E estou disposta a pagar por isso. Peço não me desiluda eu acredito que o senhor vai conseguir trazer de volta a minha filha.
Ficaram um momento em silêncio. O apelo de Maria Clara tinha sido feito de forma veemente e nervosa, mas António Pedro não vislumbrara no olhar angústia e dor. Era estranho, pensava, não lhe parecera que a visitante, fosse assim tão capaz de esconder sentimentos tão naturais.
Prolongou o silêncio, olhava fixamente o rosto da senhora, como se quisesse captar qualquer sinal que o levasse a recusar. Foi com um frémito que desconfiou, que o caso não era apenas o desaparecimento da jovem, e isso fê-lo mudar de ideias. Sentira algum desconforto, como se alguém o estivesse a empurrar para um lado negro. Alguém que sabia que só assim ele aceitaria o desafio. Fora certamente o amigo, mas não entendia o porquê.
Levantou-se da secretária, andou alguns passos de um lado para o outro, parou em frente da cliente, olhou-a nos olhos e disse:
- Minha senhora, estou disposto a aceitar o seu caso mas terá de confiar, absolutamente, em mim. Isso significa, dar-me todas as informações que eu lhe pedir, mesmo se elas lhe parecerem deslocadas ou até demasiado íntimas. Vou precisar de a conhecer, saber o seu agregado familiar, conhecer o que pensa o Pai da criança, como é a rotina do vosso dia a dia, onde passam férias, com quem costumam conviver, amigos, etc.
Aceitarei investigar o caso que me traz, mas quero que fique bem claro, não vou ser simpático e que a conclusão, se a ela chegar, pode ser duma imensa dor e eu não deixarei de a assinalar.
Se estiver de acordo, preencha agora ou entregue-me depois, o questionário que aqui tem, e estendeu-lhe uma folha A 4, e junte uma série de fotos da sua filha, sózinha ou em grupo, que tenham sido tiradas nos dois últimos anos.
Quanto ao pagamento dos meus serviços falaremos mais tarde. Não antevejo custos extraordinários.
Maria Clara, aceitou as regras sem levantar qualquer obstáculo, dizendo apenas que não gostaria de ver a fotografia da filha, nos ecrãs da Televisão ou nas primeiras páginas dos jornais. Compreenda o meu desejo de privacidade.
Pareceu-lhe razoável e tranquilizou-a.
Concentre-se no fundamental, tente encontrar qualquer coisa a que não tenha prestado atenção e que poderia ter originado a que a sua filha perdesse a confiança e fugisse. Ás vezes há um pequeno sinal e isso pode ser a diferença entre o sucesso ou o insucesso. Mas concluiu pense bem, não me esconda nada.
Aqui tem o meu cartão com os números de telefone e o endereço de correio electrónico. Esteja à vontade para me contactar se algo lhe ocorrer.
Amanhã, pelas 14 horas gostaria de a receber, e comentar os dados do questionário que lhe entreguei. Esperarei por si. Entretanto deixe-me por favor um cartão com o nome e endereço.
Acompanhou a cliente à porta, despediu-se com um aperto de mão que lhe pareceu algo estranho. Os olhos de Maria Clara estavam brilhantes e ele sentiu um fluxo de sangue que lhe percorreu as veias. Algo lhe parecia fora do contexto.
Com um ar distante, António Pedro foi dizendo que a PJ, tinha um excelente departamento especializado para tratar estes casos, tem tido muito sucesso e, além do mais, tem também os meios necessários e a experiência para investigar esse tipo de situações. Eu pelo contrário não sou experiente nessa área da investigação.
Maria Clara argumentou que a PJ tinha sido o seu primeiro caminho. Dera todas as informações que lhe pediram e o processo fora aberto. Mas, dizia recear que, apesar da reconhecida competência da Polícia, o caso da filha fosse apenas mais um.
Por outro lado, vim ter consigo recomendada por um amigo e antigo colega, porque o senhor tem uma grande vantagem, tem tempo e uma reconhecida sensibilidade e eu ficarei mais tranquila se o desaparecimento da minha filha for investigado de perto, quase me atrevo a dizer em regime de exclusividade. E estou disposta a pagar por isso. Peço não me desiluda eu acredito que o senhor vai conseguir trazer de volta a minha filha.
Ficaram um momento em silêncio. O apelo de Maria Clara tinha sido feito de forma veemente e nervosa, mas António Pedro não vislumbrara no olhar angústia e dor. Era estranho, pensava, não lhe parecera que a visitante, fosse assim tão capaz de esconder sentimentos tão naturais.
Prolongou o silêncio, olhava fixamente o rosto da senhora, como se quisesse captar qualquer sinal que o levasse a recusar. Foi com um frémito que desconfiou, que o caso não era apenas o desaparecimento da jovem, e isso fê-lo mudar de ideias. Sentira algum desconforto, como se alguém o estivesse a empurrar para um lado negro. Alguém que sabia que só assim ele aceitaria o desafio. Fora certamente o amigo, mas não entendia o porquê.
Levantou-se da secretária, andou alguns passos de um lado para o outro, parou em frente da cliente, olhou-a nos olhos e disse:
- Minha senhora, estou disposto a aceitar o seu caso mas terá de confiar, absolutamente, em mim. Isso significa, dar-me todas as informações que eu lhe pedir, mesmo se elas lhe parecerem deslocadas ou até demasiado íntimas. Vou precisar de a conhecer, saber o seu agregado familiar, conhecer o que pensa o Pai da criança, como é a rotina do vosso dia a dia, onde passam férias, com quem costumam conviver, amigos, etc.
Aceitarei investigar o caso que me traz, mas quero que fique bem claro, não vou ser simpático e que a conclusão, se a ela chegar, pode ser duma imensa dor e eu não deixarei de a assinalar.
Se estiver de acordo, preencha agora ou entregue-me depois, o questionário que aqui tem, e estendeu-lhe uma folha A 4, e junte uma série de fotos da sua filha, sózinha ou em grupo, que tenham sido tiradas nos dois últimos anos.
Quanto ao pagamento dos meus serviços falaremos mais tarde. Não antevejo custos extraordinários.
Maria Clara, aceitou as regras sem levantar qualquer obstáculo, dizendo apenas que não gostaria de ver a fotografia da filha, nos ecrãs da Televisão ou nas primeiras páginas dos jornais. Compreenda o meu desejo de privacidade.
Pareceu-lhe razoável e tranquilizou-a.
Concentre-se no fundamental, tente encontrar qualquer coisa a que não tenha prestado atenção e que poderia ter originado a que a sua filha perdesse a confiança e fugisse. Ás vezes há um pequeno sinal e isso pode ser a diferença entre o sucesso ou o insucesso. Mas concluiu pense bem, não me esconda nada.
Aqui tem o meu cartão com os números de telefone e o endereço de correio electrónico. Esteja à vontade para me contactar se algo lhe ocorrer.
Amanhã, pelas 14 horas gostaria de a receber, e comentar os dados do questionário que lhe entreguei. Esperarei por si. Entretanto deixe-me por favor um cartão com o nome e endereço.
Acompanhou a cliente à porta, despediu-se com um aperto de mão que lhe pareceu algo estranho. Os olhos de Maria Clara estavam brilhantes e ele sentiu um fluxo de sangue que lhe percorreu as veias. Algo lhe parecia fora do contexto.
domingo, 26 de junho de 2011
O RAPTO
4 – O ENCONTRO
A decisão, na realidade a única decisão que fora capaz de tomar desde que saíra da Polícia e de casa, não fora um caminho de ruptura. Nada fora fácil, em tudo errara ou desistira. O caminho não o fez, retomou-o ainda que com algumas cambiantes. O vírus estava lá, todas as suas qualidades e defeitos se mantiveram. António Pedro voltara ao rebanho.
E de tal modo que, quando a Administração do condomínio, lhe sugerira, a conveniência de colocar na placa de entrada do edifício, o nome e a actividade, decidiu indicar, simplesmente, o que sempre fora:
António P. Castro – Investigador
Demorou algum tempo a arrumar as estantes com os livros que lhe interessavam, contou à ex-mulher e alguns amigos o que tinha decidido fazer e ficou esperando o seu primeiro cliente”.
Naquele dia, o telefone interno tocou e do outro lado a recepcionista perguntou:
- Tenho aqui à entrada uma senhora que lhe pretende falar. Não tem contudo hora marcada e não existe registo de chamada prévia. O Senhor Doutor pode recebê-la?
Hesitou, algum caso de divórcio quase de certeza, o que não me agrada mesmo nada. Mas mesmo com essa dúvida e com a secreta esperança de encontrar um caso interessante, optou por responder, sim.
- Pode subir ao 5º. Andar letra C, o Doutor António Pedro, espera-a minha senhora, informou a recepcionista.
António Pedro retomou o seu hábito, ajeitou o nó da gravata, vestiu o casaco, mirou-se ao espelho e gostou de se ver, e abriu a porta de acesso ao gabinete.
A mulher que entrou era atraente, alta, cabelo negro, como os olhos, elegantemente vestida, e não passaria despercebida em qualquer lugar. Andaria na casa dos trinta e cinco anos. Ajudou-a a tirar o casaco, que colocou dobrado nas costas de uma cadeira, puxou de uma poltrona de braços, colocada em frente da secretária e convidou-a a sentar-se.
- Então, em que lhe posso ser útil, perguntou?
- O Doutor desculpe ter vindo sem marcação, mas o seu nome foi-me sugerido pelo Inspector Marques da PJ, como sendo a pessoa certa para me ajudar.
O meu nome é Maria Clara Figueiredo de Meneses, e estou muito preocupada com o desaparecimento da minha filha de 12 anos. E por isso aqui estou, para contratar os seus serviços, quero encontrar a minha filha.
António Pedro sentiu alguma frustração. Depositara esperanças num processo apelativo, e afinal era, apenas, um caso de desaparecimento de uma menor. Com aquela idade o costume era de fuga com o namorado ou o receio de comunicar algo que a embaraçasse, fosse sobre o aproveitamento escolar ou algum problema típico duma adolescente. Por momentos pensou recusar. Mas qualquer coisa no olhar da mulher sentada na sua frente fê-lo estremecer e tomou a decisão de continuar. Aqueles olhos negros, profundos, desvendaram-lhe a alma. Ele sentiu que o iriam fazer esquecer o passado recente.
A decisão, na realidade a única decisão que fora capaz de tomar desde que saíra da Polícia e de casa, não fora um caminho de ruptura. Nada fora fácil, em tudo errara ou desistira. O caminho não o fez, retomou-o ainda que com algumas cambiantes. O vírus estava lá, todas as suas qualidades e defeitos se mantiveram. António Pedro voltara ao rebanho.
E de tal modo que, quando a Administração do condomínio, lhe sugerira, a conveniência de colocar na placa de entrada do edifício, o nome e a actividade, decidiu indicar, simplesmente, o que sempre fora:
António P. Castro – Investigador
Demorou algum tempo a arrumar as estantes com os livros que lhe interessavam, contou à ex-mulher e alguns amigos o que tinha decidido fazer e ficou esperando o seu primeiro cliente”.
Naquele dia, o telefone interno tocou e do outro lado a recepcionista perguntou:
- Tenho aqui à entrada uma senhora que lhe pretende falar. Não tem contudo hora marcada e não existe registo de chamada prévia. O Senhor Doutor pode recebê-la?
Hesitou, algum caso de divórcio quase de certeza, o que não me agrada mesmo nada. Mas mesmo com essa dúvida e com a secreta esperança de encontrar um caso interessante, optou por responder, sim.
- Pode subir ao 5º. Andar letra C, o Doutor António Pedro, espera-a minha senhora, informou a recepcionista.
António Pedro retomou o seu hábito, ajeitou o nó da gravata, vestiu o casaco, mirou-se ao espelho e gostou de se ver, e abriu a porta de acesso ao gabinete.
A mulher que entrou era atraente, alta, cabelo negro, como os olhos, elegantemente vestida, e não passaria despercebida em qualquer lugar. Andaria na casa dos trinta e cinco anos. Ajudou-a a tirar o casaco, que colocou dobrado nas costas de uma cadeira, puxou de uma poltrona de braços, colocada em frente da secretária e convidou-a a sentar-se.
- Então, em que lhe posso ser útil, perguntou?
- O Doutor desculpe ter vindo sem marcação, mas o seu nome foi-me sugerido pelo Inspector Marques da PJ, como sendo a pessoa certa para me ajudar.
O meu nome é Maria Clara Figueiredo de Meneses, e estou muito preocupada com o desaparecimento da minha filha de 12 anos. E por isso aqui estou, para contratar os seus serviços, quero encontrar a minha filha.
António Pedro sentiu alguma frustração. Depositara esperanças num processo apelativo, e afinal era, apenas, um caso de desaparecimento de uma menor. Com aquela idade o costume era de fuga com o namorado ou o receio de comunicar algo que a embaraçasse, fosse sobre o aproveitamento escolar ou algum problema típico duma adolescente. Por momentos pensou recusar. Mas qualquer coisa no olhar da mulher sentada na sua frente fê-lo estremecer e tomou a decisão de continuar. Aqueles olhos negros, profundos, desvendaram-lhe a alma. Ele sentiu que o iriam fazer esquecer o passado recente.
sábado, 25 de junho de 2011
O RAPTO
3 – UM HOMEM PERDIDO NA CIDADE
Nos primeiros momentos da sua nova situação, António Pedro confortara-se, pensando nas vantagens que poderia obter, sendo um homem liberto de compromissos. Queria viajar por África, sonhava visitar o Delta do Okavango, mas Filomena era muito citadina e dissera sempre não, optando pela Itália a França e, sobretudo Nova Iorque.
Agora só e sem nada que o impedisse, teria a oportunidade de cumprir esse desejo, mas o desejo depressa seria esquecido na preguiça e desilusão de cada dia que passava.
Ao deixar um trabalho muito intenso e absorvente, teria tempo para escrever as memórias e ler os livros que se amontoavam no escritório. Rejubilava com isso, contudo nada fizera.
A separação fora um erro. Ele sofria mais quando encontrava a Mulher e a via mais alegre. Ela sempre se cuidara e tinha muito gosto na forma com que se vestia. E continuava assim.
Ele, por sua vez, apesar de vaidoso, sempre escondera esse sentimento, aparentando distância e indiferença, algum charme discreto, alimentando assim os olhares cheios de promessas das mulheres que conhecera. Por ironia os colegas entendiam que esse comportamento era uma estratégia de um homem tímido e inseguro.
Todavia agora perdera o encanto que lhe reconheciam e até começou a descuidar a sua apresentação.
Nada aconteceu como previra. Menos de 6 meses depois da reforma, já estava cansado. Os dias custavam a passar e começou a ficar sentado em frente da TV, sonolento, e dia a dia mais alheio do mundo.
Dera voltas à cabeça, para encontrar qualquer coisa, que lhe ocupasse o tempo. Era egocêntrico bastante, para pensar que tudo se devia concentrar à sua volta. Em consequência, qualquer actividade que implicasse partilha ou supervisão, dera sempre mau resultado. Os outros não o compreendiam nem aceitavam a sua, por vezes, irritante impertinência.
Sentira-se frustrado e incompreendido, e concluíra que o que quisesse fazer teria de ser sozinho. Só não sabia era o quê.
Certo dia, em que passeava pelas muralhas do Castelo de S. Jorge, encontrou um antigo colega que lhe deu uma palmada no ombro dizendo:
- António, o que andas a fazer? À espera da morte? Ela vai chegar um dia não te preocupes!
As palavras do amigo deixaram-no preocupado. Estaria assim tão mudado, perguntou-se? Quando chegou a casa olhou-se no espelho, alisou o cabelo grisalho mas ainda farto e percebeu que tinha mais rugas do que quando passava dias e dias a investigar e que até o fato que usava estava amarrotado dando um ar de abandono. Envelhecera e alguma coisa tinha de fazer para mudar.
Depois de muito pensar, escolhera o caminho. Voltou para fazer o que sempre o apaixonara. Iria abrir um pequeno escritório de investigações. Só aceitaria trabalho se fosse do seu agrado, pois não ficaria dependente da situação financeira. Era mais do que um negócio, o que pretendia era encontrar razões para activar as células e despertar os sentidos.
Nos primeiros momentos da sua nova situação, António Pedro confortara-se, pensando nas vantagens que poderia obter, sendo um homem liberto de compromissos. Queria viajar por África, sonhava visitar o Delta do Okavango, mas Filomena era muito citadina e dissera sempre não, optando pela Itália a França e, sobretudo Nova Iorque.
Agora só e sem nada que o impedisse, teria a oportunidade de cumprir esse desejo, mas o desejo depressa seria esquecido na preguiça e desilusão de cada dia que passava.
Ao deixar um trabalho muito intenso e absorvente, teria tempo para escrever as memórias e ler os livros que se amontoavam no escritório. Rejubilava com isso, contudo nada fizera.
A separação fora um erro. Ele sofria mais quando encontrava a Mulher e a via mais alegre. Ela sempre se cuidara e tinha muito gosto na forma com que se vestia. E continuava assim.
Ele, por sua vez, apesar de vaidoso, sempre escondera esse sentimento, aparentando distância e indiferença, algum charme discreto, alimentando assim os olhares cheios de promessas das mulheres que conhecera. Por ironia os colegas entendiam que esse comportamento era uma estratégia de um homem tímido e inseguro.
Todavia agora perdera o encanto que lhe reconheciam e até começou a descuidar a sua apresentação.
Nada aconteceu como previra. Menos de 6 meses depois da reforma, já estava cansado. Os dias custavam a passar e começou a ficar sentado em frente da TV, sonolento, e dia a dia mais alheio do mundo.
Dera voltas à cabeça, para encontrar qualquer coisa, que lhe ocupasse o tempo. Era egocêntrico bastante, para pensar que tudo se devia concentrar à sua volta. Em consequência, qualquer actividade que implicasse partilha ou supervisão, dera sempre mau resultado. Os outros não o compreendiam nem aceitavam a sua, por vezes, irritante impertinência.
Sentira-se frustrado e incompreendido, e concluíra que o que quisesse fazer teria de ser sozinho. Só não sabia era o quê.
Certo dia, em que passeava pelas muralhas do Castelo de S. Jorge, encontrou um antigo colega que lhe deu uma palmada no ombro dizendo:
- António, o que andas a fazer? À espera da morte? Ela vai chegar um dia não te preocupes!
As palavras do amigo deixaram-no preocupado. Estaria assim tão mudado, perguntou-se? Quando chegou a casa olhou-se no espelho, alisou o cabelo grisalho mas ainda farto e percebeu que tinha mais rugas do que quando passava dias e dias a investigar e que até o fato que usava estava amarrotado dando um ar de abandono. Envelhecera e alguma coisa tinha de fazer para mudar.
Depois de muito pensar, escolhera o caminho. Voltou para fazer o que sempre o apaixonara. Iria abrir um pequeno escritório de investigações. Só aceitaria trabalho se fosse do seu agrado, pois não ficaria dependente da situação financeira. Era mais do que um negócio, o que pretendia era encontrar razões para activar as células e despertar os sentidos.
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