sábado, 25 de junho de 2011

O RAPTO

3 – UM HOMEM PERDIDO NA CIDADE

Nos primeiros momentos da sua nova situação, António Pedro confortara-se, pensando nas vantagens que poderia obter, sendo um homem liberto de compromissos. Queria viajar por África, sonhava visitar o Delta do Okavango, mas Filomena era muito citadina e dissera sempre não, optando pela Itália a França e, sobretudo Nova Iorque.
Agora só e sem nada que o impedisse, teria a oportunidade de cumprir esse desejo, mas o desejo depressa seria esquecido na preguiça e desilusão de cada dia que passava.
Ao deixar um trabalho muito intenso e absorvente, teria tempo para escrever as memórias e ler os livros que se amontoavam no escritório. Rejubilava com isso, contudo nada fizera.
A separação fora um erro. Ele sofria mais quando encontrava a Mulher e a via mais alegre. Ela sempre se cuidara e tinha muito gosto na forma com que se vestia. E continuava assim.
Ele, por sua vez, apesar de vaidoso, sempre escondera esse sentimento, aparentando distância e indiferença, algum charme discreto, alimentando assim os olhares cheios de promessas das mulheres que conhecera. Por ironia os colegas entendiam que esse comportamento era uma estratégia de um homem tímido e inseguro.
Todavia agora perdera o encanto que lhe reconheciam e até começou a descuidar a sua apresentação.
Nada aconteceu como previra. Menos de 6 meses depois da reforma, já estava cansado. Os dias custavam a passar e começou a ficar sentado em frente da TV, sonolento, e dia a dia mais alheio do mundo.
Dera voltas à cabeça, para encontrar qualquer coisa, que lhe ocupasse o tempo. Era egocêntrico bastante, para pensar que tudo se devia concentrar à sua volta. Em consequência, qualquer actividade que implicasse partilha ou supervisão, dera sempre mau resultado. Os outros não o compreendiam nem aceitavam a sua, por vezes, irritante impertinência.
Sentira-se frustrado e incompreendido, e concluíra que o que quisesse fazer teria de ser sozinho. Só não sabia era o quê.
Certo dia, em que passeava pelas muralhas do Castelo de S. Jorge, encontrou um antigo colega que lhe deu uma palmada no ombro dizendo:
- António, o que andas a fazer? À espera da morte? Ela vai chegar um dia não te preocupes!
As palavras do amigo deixaram-no preocupado. Estaria assim tão mudado, perguntou-se? Quando chegou a casa olhou-se no espelho, alisou o cabelo grisalho mas ainda farto e percebeu que tinha mais rugas do que quando passava dias e dias a investigar e que até o fato que usava estava amarrotado dando um ar de abandono. Envelhecera e alguma coisa tinha de fazer para mudar.
Depois de muito pensar, escolhera o caminho. Voltou para fazer o que sempre o apaixonara. Iria abrir um pequeno escritório de investigações. Só aceitaria trabalho se fosse do seu agrado, pois não ficaria dependente da situação financeira. Era mais do que um negócio, o que pretendia era encontrar razões para activar as células e despertar os sentidos.

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