8 – SENTIMENTOS
Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava.
Porém uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo.
Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo?
E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio?
A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!
Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres.
Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal online britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias.
Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute.
O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.
Por norma as redes operavam desviando grupos de meia dúzia de jovens, normalmente altas, loiras, ingénuas e ambiciosas, originárias de regiões mais desfavorecidas. Deixavam-se cativar pelo canto das sereias, com a promessa de uma vida de estrelas e acabavam transformadas em escravas sexuais, nos mais recônditos lugares das grandes cidades, dominadas por uma rede de agentes que as transferiam de cidade a seu belo prazer, presas numa vida da qual só a morte, as libertaria.
O jornal também noticiava algo, que o interessou. Era o rapto por encomenda, de crianças para venda a casais estéreis ou para organizações que se dedicavam ao comércio de órgãos humanos.
Sentiu que as mãos lhe tremiam. Nada do que lera era novo, mas apesar de tudo havia sempre um sentimento de revolta e de impotência, porque os criminosos raramente eram encontrados e punidos.
António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança.
Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos.
Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.
Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro.
Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça!
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