domingo, 31 de julho de 2011

O HOMEM QUE RI

Finalmente livre. A história, O RAPTO, que me custou 29 longos capítulos de suor e lágrimas, acabou.
Confesso, fiquei tão feliz quando escrevi a palavra mágica! FIM.
Não vou sentir saudades e como sempre, não vou reler os textos que publiquei. Não vale a pena, pois acredito que se o fizer começarei a cortar, a remendar, a modificar, e no fim, a história ficará reduzida ao começo, um olhar desiludido de alguém vencido pela solidão, vagueando pelo amanhecer dum dia que sonhara e o final, a dor de quem acordou vencido.
Ao fim e ao cabo uma história igual a tantas outras que a vida nos lembra. Diz o Poeta “que o sonho comanda a vida”. Mas isso é poesia, já ninguém se atreve sequer, a sonhar.
E agora?
Agora fiquei preso pelos meus medos, parado numa encruzilhada, sem ser capaz de definir a direcção. Talvez precise de arrumar as ideias, coisa mais sem sentido o que acabei de escrever, é que para arrumar ideias é preciso que elas existam, não se arruma o vazio.
Mas não perco a esperança, um dia, em algum lugar, alguém pode dar-me uma oportunidade.
Não demorou muito. Ao sair de casa ouvi um vizinho comentar que a rua estava cheia de lixo.
LIXO, Eureka, ali estava um tema que me despertou e sobre o qual, reconheço, tenho alguma experiência e dia após dia me confronto.
E num momento hesitante de quem não sabe o caminho, nasce um homem que, finalmente, ri.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

O RAPTO

29 – CAPITULO FINAL

A história chegara ao fim. Uma história verídica cheia de amargura, desencontros, desilusões, sofrimento e que terminara com a morte trágica de um dos actores. Porém não fora uma peça de teatro, foram vidas vividas.
António tinha fechado o livro, nada mais havia para dizer. E foi assim que abandonou a sala e seguido pelos amigos e voltou para o gabinete.
- Agora peço para que me deixem só. Estou cansado, é verdade, triste e magoado, também, mas serei eu quem tem de arrumar as ideias, esquecer as imagens, apagar as chamas do fogo que quase me destruiu. Amanhã será um novo dia.
Fez um intervalo, fumou mais um ou dois cigarros. Sentia que de algum modo o fumo que inalava lhe causava torpor e desprendimento. Estava sereno quando decidiu espalhar pela secretária os papéis, fotografias e filmes que guardara no cofre e que estavam ligados ao caso que agora encerrara. Rasgou e destruiu tudo. Mas por ironia do destino, uma fotografia caíra no chão. Pegou nela e ficou paralisado. Maria Clara, nua deitada numa cama do hotel. Afinal os seus fantasmas não tinham desaparecido, ele sentiu que Maria Clara sorria só para ele.
Não se sentia bem. Precisava absolutamente de respirar, de se livrar do passado, esquecer, esquecer...
Abandonou o escritório, já era escuro, começou a andar sem destino. Apagara uma parte do passado e agora teria de encontrar o caminho do futuro.
Perdeu o norte, andava como um sonâmbulo. Na ruas que ia percorrendo não via pessoas, só sombras difusas e que nada lha diziam. Tropeçou, caiu e alguém lhe estendeu a mão e o ajudou a levantar, nem viu quem. Prosseguia a sua caminhada, andando algumas vezes no meio das ruas, mas nem as buzinas e insultos dos condutores o faziam desviar do caminho. Um homem que o seguia com o rosto lavado em lágrimas, ia tentando e conseguiu retirá-lo do meio do trânsito. Mas não mais do que isso, pois uma tentativa de ajuda, era repelida com brusquidão. Olhava o homem que lhe estendera a mão, era um desconhecido. Andou horas e guiado por uma qualquer força parou, não tinha força para mais. Sentou-se nos degraus e num acto reflexo pegou no telemóvel marcou uma tecla mas deixou cair o aparelho. Assim ficou, tombado tremendo de frio. Só os olhos teimosamente não se fechavam.
Carlos, era ele a sombra protectora, pegou no telemóvel caído e viu marcada a tecla 1. Tentou ligar e surgiu no ecrã o nome, Filomena. Carlos não sabia quem era, mas tentou. Ouviu do outro lado uma voz perguntar?
- António passa-se alguma coisa?
Foi Carlos que respondeu:
- Minha senhora, desculpe eu sou o Carlos amigo do Doutor António. Ele está muito desorientado, perdido e caído nos degraus duma casa aqui algures, perto da Avenida de Roma. Quando saiu do escritório, eu segui-o mas sem ele saber. Está cada vez mais desorientado, caiu inúmeras vezes e quando o ajudava olhava para mim como se nunca me tivesse visto. Foram mais de três horas que o trouxeram a este lugar. Aqui está caído, sem pronunciar uma só palavra. Foi ele que quis ligar, só conseguiu um número, depois perdeu-se. Só pude ver que ele escolhera a tecla 1 mas não teve forças para continuar. Fui eu que completei a ligação.
-Fez bem eu sou a mulher, ele tentou voltar para a nossa casa.
Por favor, fique com ele, não o deixe fugir, eu estarei aí dentro de dez minutos.
Um táxi parou junto da porta, com um forte chiar de pneus. Filomena saiu, correndo do carro, aproximou-se, olhou para aquele vulto tombado sobre um dos lados, sem se mexer e com os olhos vidrados. Sentado a seu lado, um homem utilizava o casaco para aconchegara o corpo caído.
Obrigada Carlos, ajuda-me e levá-lo para casa, porque sozinha sinto não ter forças.
Meu Deus António porque não ligaste? Mas vieste à minha procura. Com os olhos rasos de lágrimas pega no braço e murmurou-lhe ao ouvido.:
- Ajuda-me é só mais um pequeno esforço, estamos na nossa casa, quero-te muito tu sabes!
Pegou-lhe numa mão fria como gelo, enquanto Carlos o conseguia manter de pé e lhe guiava os passos até entrarem em casa.
- Vamos deitá-lo, ajude a tirar a roupa molhada. Abriu a cama Carlos pegou nele e com a força que nem sabia ter, meteu-o dentro da cama.
Filomena mediu a temperatura, tinha febre, verificou a tensão arterial, estava baixa. Deu-lhe um comprimido, sentou-se na beira, acariciando os cabelos e pegando na mão. Pouco a pouco o tremor deu lugar à tranquilidade e à calma, o rosto ganhou cor e António adormeceu.
Filomena aproximou-se de Carlos, deu-lhe um abraço dizendo:
- Felizes daqueles que têm amigos como tu. Obrigada do fundo do coração.
Creio que o meu marido está apenas esgotado e depressa recuperará.
Agora vou preparar um café fraquinho, acho que ambos precisamos, depois siga para sua casa, amanhã será outro dia.
Filomena ficou sentada à cabeceira da cama, mas pouco tempo depois sorriu, tirou a roupa e deitou-se agarrada, ao corpo do marido.

FIM

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O RAPTO

28 – A VERDADE E A MENTIRA

A história é esta, prestem atenção:
A Doutora Maria Clara, médica, jovem viúva, com uma filha adolescente, em qualquer momento, que não sei quando foi nem é importante, envolveu-se numa relação amorosa com o meu ex-colega Artur Mateus; Ele era um homem simpático, atraente mas também sério e competente. Sofria duma doença terrível, o vício do jogo. Como acontece, quase sempre, quanto mais se perde num dia, mas se aposta para recuperar, perde-se de novo, e o ciclo não tem outro fim que não seja, a perda de tudo, até da vida.
O único bem que ele tinha, realmente importante, era uma família estruturada, mulher e dois filhos que, foram forçados a sair de casa como forma de fugirem ao inferno, em que o vício do jogo transformara aquele lar. Partiram, e levaram com eles, os únicos elos que Artur, ainda conseguia manter com a vida real.
Maria Clara estremeceu e manteve o silêncio.
- Não me custa a admitir, que ele se tivesse apaixonado por si, não é fácil resistir quando a Doutora usa o seu poder de sedução.
Mas, empurrado pela necessidade de arranjar dinheiro, vendeu-se a um grupo de traficantes de heroína, que tinha expandido a sua actividade para este País. Deu informações, protecção e começou a exercer pressão para ser parte mais activa no negócio e aumentar os seus proveitos. Quando o fez assinou a sua sentença de morte, já que mais tarde ou mais cedo eles iriam eliminar uma situação, potencialmente perigosa.
A necessidade de dinheiro era cada vez mais premente. Ele e a Doutora combinaram uma estratégia para o ir buscar, a quem o tinha, a Carolina, mas colocado num fundo, que seu Avô controlava.
A Doutora aceitou simular uma relação íntima com o homem que nem conhecia para poder aparecer como vítima de chantagem. Para isso posou para fotografias onde aparecia desnudada, num quarto de hotel, em posições sexuais, bem explícitas.
Maria Clara levantou os olhos como se implorasse compaixão.
- Não olhe para mim dessa maneira, a senhora sabe que é verdade. Combinou com o seu amante deixar-se seduzir por um indivíduo profissional, tendo pago do seu bolso, vinte mil euros por algumas dessas fotografias. Desse dinheiro o seu amante recebeu dezanove mil, o resto foi para o actor.
Não me diga que não sabia?
O seu parceiro de hotel, pressentiu que poderia arranjar mais dinheiro. Foi a sua casa, levou mais umas fotografias e pediu mais dinheiro. A senhora não estava e o envelope foi entregue à sua filha.
A Doutora aproveitou aquela oportunidade e aumentou o valor da chantagem para cinquenta mil. Foi a mim que contou mais essa mentira. Quando me falou neste pedido, isso só serviu para confirmar as minhas suspeitas. É que sabe, nessa eu já sabia, que o pedido tinha sido de apenas cinco mil euros.
Tentou, mais uma vez pedir a ajuda do seu Pai, mas ele ficou surdo ao seu drama.
Era preciso outro plano. E não hesitaram em utilizar uma jovem inocente, a sua filha, simulando um rapto, e forjando um pedido de resgate de centenas de milhares de euros a que para lhe dar mais autenticidade, juntaram umas fotos de Carolina. Estavam convencidos que para salvar a neta o Avô faria tudo. Mas você receava seu Pai. Era preciso encontrar alguém credível que pudesse conduzir a obtenção do dinheiro. E encontraram, fui eu o escolhido.
A Doutora, nunca esteve na PJ a comunicar o desaparecimento da sua filha! Veio a minha casa indicada pelo seu amante. Ele conhecia a minha recente separação e alguma atracção por mulheres bonitas e insinuantes. Aproveitaram a minha fraqueza para me conduzirem no vosso caminho.
Mas há sempre imponderáveis. Eu era e sou demasiado crédulo mas não totalmente ingénuo. Sabe, quando eu tive a certeza de que o rapto tinha sido simulado? Quando me deu o pedido de resgate, com as fotografias da sua filha. O sorriso inocente de Carolina, e um pedaço de um quadro na parede do apartamento onde tiraram as fotografias, denunciou-me o vosso plano. Carolina não estava raptada, mas de livre vontade no apartamento de Artur, e eu reconheci o pedaço do quadro que inadvertidamente fotografaram.
Porém o inesperado aconteceu. Os traficantes andavam a seguir Artur, esperando uma oportunidade para se verem livres dele. Mas não podiam, simplesmente matá-lo, pois receavam que houvesse mais gente envolvida ou que ele tivesse guardado informação. Para terem a certeza, precisavam de o convencer a confessar. E para esta gente, isso é sinónimo de tortura.
Conseguiram localizar o apartamento, e prepararam o rapto. Artur percebeu o perigo e tentou por mais de uma vez, contactar comigo, para pedir a ajuda. Mas eu não recebi os pedidos, pois tinha desligado o som do meu telemóvel.
- Enquanto isto se passava, onde estava a Mãe preocupada? Eu digo-lhe, estava a jantar num restaurante japonês, seduzindo este homem que está aqui, na sua frente. Eu também me sinto culpado, deixei-me inebriar e não quis ver o que na altura devia ter visto. A culpa também a carrego.
Interrompeu, sentira um cansaço que minuto a minuto lhe ia consumindo a energia. Levantou-se e saiu da sala. Procurou a casa de banho e deixou que a água fria aliviasse o fogo que lhe queimava a cabeça. Olhou-se no espelho e estremeceu. Envelhecido, olhos inchados, cabelo desgrenhado, barba por fazer e acima de tudo um esgar de dor. Mas tinha que acabar, agora não podia parar.
Ouviu o telemóvel, era o Carlos a perguntar se podiam ir com Carolina. Doutor António, penso que a devemos levar. Ela está muito perturbada, não chora não fala apenas se agarra à minha Mãe.
- Sim venham para o escritório, subam ao sétimo piso, nós estaremos na sala 2.
Recuperou um pouco da quebra por que passara e voltou para a sala de reuniões. Ansiedade, resignação, culpa, vergonha e uma réstia de esperança, eram sentimentos que António leu no rosto dos presentes. Imóveis, tensos como alguém que aguarda ouvir ler a sentença.
Apenas falta beber o resto do cálice, disse em voz apagada:
- Os traficantes perseguiam Artur, conseguiram a sua localização e pela calada da noite consumaram o rapto, mas viram-se numa situação que não previram. A presença de Carolina. Ela vira-os, também teria de desaparecer.
Mas no meio da desgraça tivemos um raio de sorte. Um amigo e colaborador também estava de vigília ao mesmo apartamento. Assistiu ao transporte do Artur e da Carolina, reconheceu alguns dos raptores e tomou nota das matrículas das viaturas. Nós acreditávamos que o refúgio do bando era em Vilamoura. Assim era, e num barco de recreio. Assaltamos o barco, libertamos a Carolina e encontramos o corpo de Artur morto e desfigurado pela tortura. E nem quero imaginar a dor e o terror com que Carolina assistiu a tudo.
Maria Clara deu um grito lancinante e pediu chorando copiosamente:
-Pare por favor, não me conte mais nada, tenha pena de mim. Quero ver a minha pobre filha! Depois de cabeça baixa confessou:
- Tudo o que o senhor disse é verdade. É horrível, mas foi assim. O que fiz foi para salvar o Artur, por quem estava apaixonada. As paixões cegam e só eu sei quanto me arrependi. Deixei avolumar os problemas, sentia que caminhávamos para o abismo, mas nunca tive coragem de lhe contar a verdade. O Artur era amigo de Carolina, que também gostava dele.
No desespero e para salvar a vida do homem que amava aceitei a farsa do rapto. Eu sabia que Carolina estava feliz e segura.
Que pena, foi isso que lhe disse a si quando jantámos naquele malfadado sábado.
E é verdade, perdera a oportunidade de contar tudo e pedir ajuda. Não sei se alguma vez poderei perdoar-me. Mas também eu me deixei fascinar.
Pode pensar, o que eu acabei de dizer, não serve para nada. Mas eu tinha de o fazer, porque naquele momento, naquele jantar eu estive bem perto, de lhe abrir o coração. Desgraçadamente, optei por mais uma vez, esconder. Nessa noite, já não vi Artur nem Carolina e admiti a tragédia. Procurei morrer, tentei mas para minha vergonha, não consegui.
A porta da sala abriu-se, Carlos e o Pai entraram e atrás Dona Elvira levando Carolina pela mão.
- A história acaba assim. Artur pagou o preço, ele sabia o que arriscava.
Mas para a vítima inocente, Carolina, fica uma ferida que vai demorar a sarar. Espero que ela vos possa perdoar. Levantou-se, deu a mão a Carolina e aparando-a entregou-a à família. Ela olhou para os amigos que deixara, hesitou e refugiou-se dos braços da Avó. Fizera a sua escolha.

terça-feira, 26 de julho de 2011

O RAPTO

27 – A FORÇA DO AMOR

Chegou a Lisboa muito cansado mas teimosamente, não o queria reconhecer. Passou pela casa de Carlos. A Mãe, uma senhora de cabelo branco, reconheceu-o, o rosto abriu-se num sorriso.
Falando baixinho, confessou que o marido e o filho estavam a descansar. A mesma coisa que o senhor Doutor devia ir fazer, recomendou a Dona Elvira.
- E a menina, perguntou António?
- A menina quando chegou nos braços do meu marido parecia uma criança. Ia preparar-lhe um banho e dei-me conta que não era uma criança mas uma jovem. Ela não me largava e tomou o banho sempre a segurar a minha mão. Fez-me chorar, aquela jovem tinha uma grande necessidade de carinho e olhava para mim com um olhar que nunca na vida irei esquecer.
Consegui que dormisse um pouco mas, como se fora uma criança mimada, tive que me deitar a seu lado. Eu sei que foi mimo a mais mas não resisti. Dormiu um pouco, muito agitada, sempre agarrada a mim. Acordou e está a comer, venha vê-la, já parece outra.
António viu o rosto triste, que lhe tinha povoado o cérebro, desde que a Mãe o procurara. Uma lágrima rebelde humedeceu-lhe o olhar.
Carolina não se apercebeu da sua presença, estava perdida e olhava pela janela como se procurasse um caminho.
- Deixe-a ficar assim, recomendou António, provavelmente logo irei telefonar para que a levem ao meu escritório, para se encontrar com a mãe.
Estacionou o carro, no lugar reservado no parque e sem passar pela recepção subiu no elevador directamente para o seu gabinete.
Sentou-se na cadeira, rodou para a janela e fumou dois cigarros quase seguidos.
Ligou o gravador do telefone fixo e ouviu as mensagens, todas deixadas por Maria Clara. A cada uma a ansiedade na voz ia aumentando, a última era mais murmúrio de palavras confusas, no final António só percebera perdão e ajuda.
Da recepção recebeu uma chamada, atendeu.
- Doutor está aqui a Dr.ª Maria Clara acompanhada pelo Pai e pela Mãe. Aguardam há horas mas já é hora de saída e não sei o que fazer. Não o vi entrar e só liguei porque as pessoas insistiram e eu tive pena.
- Está bem, veja se uma das salas de reunião está livre e diga-me. Logo de seguida mande subir.
Poucos minutos depois foi avisado que as visitas iam subir para a sala 2 do sétimo piso.
António continuou sentado, lutava entre dizer o que lhe ia na alma ou anunciar simplesmente o desfecho da história. Entrou na sala de reuniões.
A cabeceira da mesa estava um homem seco, rígido, com o semblante fechado, olhos duros sem emoção; ao seu lado uma senhora de idade, tímida, cabeça baixa e olhos vermelhos, sustendo as lágrimas. Finalmente a Maria Clara, que já nada tinha a ver com a mulher que, tanto o havia seduzido. Parecia uma sombra de si. Mas olhava de frente, não como um desafio, antes espelhando angústia e dor.
António ocupou a outra cabeceira. Era uma mesa grande e larga, havia distância e não intimidade, tudo seria mais fácil. Com voz fria como o gelo, António perguntou a razão da visita.
Foi o cavalheiro que tomou a palavra falando, sem emoção:
- Eu sou o avô de Carolina. Quis estar presente porque decidi aceitar o pagamento do resgate da minha neta. O senhor irá conduzir as negociações e eu deixo um cheque em branco que poderá completar com o montante exigido. Aceite por favor.
- Qualquer coisa na frieza das palavras, a ausência de sentimento, a soberba enquanto assinava e lhe estendia o cheque, fez com que António decidisse que iria dizer tudo o que lhe ia na alma. Sentia que devia isso a ele mesmo e à jovem perdida num atalho doloroso da vida. Respondeu:
- Não me interessa quem o senhor é. Guarde o seu cheque junto do seu coração, se for coisa que ainda tem. Se não gostar do que eu vou dizer, pode abandonar a sala, não o considero peça importante neste caso. Aliás, deixe-me dizer que não gosto de si nem da maneira como falou. O senhor não tem sentimentos, nem agora nem quando recusou ouvir e ajudar a sua filha,todos sabemos que cometeu erros mas toda a gente merece ser ouvida. Também os não mostrou quando ignorou que os problemas da sua filha se poderiam repercutir na sua neta. Como sempre e agora mostrou só pensou no dinheiro. Agora pode ficar tranquilo, o seu dinheiro não serve para nada. Não responda, não quero ouvi-lo.
Depois virando-se para Maria Clara:
- Agora chegou a sua vez, quero contar-lhe uma história. Será uma história dura e triste, de vidas sem rumo, de mentiras e tragédia, de egoísmo e irresponsabilidade, afinal tudo o que se passou na sua vida recente. Deixo para si a tarefa de escolher o seu papel. Melhor que ninguém, saberá o lugar que lhe coube neste drama e redescobrir a natureza do amor.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

O RAPTO

26 - RECOMEÇAR

António Pedro esteve no carro a pensar na estratégia mais adequada para o assalto ao iate Mar Belo.
Imaginou duas ou três situações mas esbarrava sempre com o desconhecimento do que poderia encontrar no barco. O assalto era um acto ilegal, ele não tinha autoridade para violar propriedade particular. Teria sempre que assumir riscos e o de cometer um crime e ser processado não era de excluir.
Mas tinha que admitir que Carlos, cuja sagacidade já pudera comprovar, fizera a identificação correcta do guarda do iate. Assim considerava como muito provável que o Artur Mateus e a jovem, retirados à força do apartamento, tivessem sido transportados para aquele lugar.
Acreditava que o sequestro de Carolina não fora previsto. Fora um imprevisto, estava no local errado, à hora errada, vira os seguranças que capturaram Artur, o verdadeiro alvo a abater, e isso era um risco que eles não poderiam correr, pelo que a levaram também.
Desde que começara a ligar factos e a ouvir versões, suspeitava que o rapto de Carolina tivesse sido simulado para arrancaram dinheiro ao Avô. E Maria Clara teria sido cúmplice. Teve quase a certeza quando viu o pedido de resgate e as fotos de Carolina. Artur ou Maria Clara tinham cometido um erro, para além do ar sorridente da jovem na fotografia, ele reconhecera uma parte de um quadro que já anteriormente vira em casa de Artur.
Ele conhecia bem o amigo. Polícia muito inteligente e capaz, sempre fora tentado pelo luxo e era um jogador compulsivo. Pressionado por dívidas de jogo, deixara-se corromper, dando cobertura ao grupo de traficantes. Correra um risco, provavelmente exigira de mais e ameaçara. Pagaria por isso o preço que, habitualmente, era a morte.
Tudo isto lhe parecia agora tão evidente que se recriminava como demorara tanto tempo a aceitar. Começara por desconfiar que a história de Maria Clara era uma cadeia de mentiras, mas deixara-se encandear pelos olhos duma mulher bela e insinuante.
Não havia volta a dar. Tinha de assaltar o barco. Não podia protelar, ou era agora ou poderia não ter outra oportunidade.
Telefonou aos companheiros e na calma da esplanada frente ao molhe, distribuiu as tarefas.
- Ele entraria na marina carregando um saco de super mercado. De rompante neutralizaria o guarda e sob a ameaça da pistola que levava no cinto, fá-lo-ia entrar dentro da cabine.
Afonso e Carlos deviam seguir alguns metros atrás, carregando o saco com as compras que tinham feito e entrariam na cabina, fechando a porta.
António olhou em redor e escolheu o momento para a acção. Acenou aos companheiros, disse é agora, e entrou na marina. Na proa do barco não teve dificuldade em surpreender o segurança e o empurrar com violência para dentro da cabine. Afonso e Carlos entraram logo de seguida. Aparentemente ninguém dera por nada e na cabine não viram movimentos suspeitos.
O segurança, deitado no chão com as mãos atrás das contas, sentindo o frio do aço da pistola encostada à cabeça e não ofereceu resistência enquanto Afonso e Carlos o amarravam com uma corda de nylon e o amordaçavam com a fita adesiva.
Fizeram um bom trabalho. A corda que o amarrava ligava o pescoço às pernas dobradas. Qualquer movimento brusco significava o seu estrangulamento.
Depois acenderam a luz e verificavam que num beliche, estava uma jovem amordaçada e amarrada. Apesar do terror espelhado no olhar, António reconheceu Carolina.
Foi Afonso, com a confiança que os seus cabelos brancos inspiravam, quem libertou a jovem e a aconchegou ao peito, acariciando a cabeça enquanto sussurrava ao ouvido, palavras de conforto.
Carlos foi buscar o carro, parou junto da porta da marina, o Pai entrou com a Jovem protegida com um cobertor e arrancaram para Lisboa.
António, permaneceu no barco e foi espreitar os recantos. Havia mais um beliche vazio. Desceu à casa das máquinas, num canto, dissimulado por debaixo das escadas, deparou com um fardo de plástico preto, amarrado com cordas de nylon.
Quis pegar nele, não conseguiu. Era, tinha a certeza, um corpo humano e imaginava de quem. Rasgou o saco no local da cabeça e o rosto de Artur Mateus ali estava, ensanguentado e desfigurado pela tortura a que fora sujeito.
O corpo estava preparado para ser lançado ao mar, com os pesos de cimento atados aos pés. O guarda devia estar à espera de instruções.
Ficou uns minutos, longos e doridos.
Voltou a tapar o rosto do cadáver, inutilizou o rádio do barco e desligou dois telemóveis que encontrou. O barco ficava sem comunicações e olhando para o preso que respirava mas não se mexia, ficou mais tranquilo. Fechou a porta e deitou fora a chave.
Agora era tempo de contar à Polícia. Ligou para o Inspector Pedro Lucena:
- Pedro falo de Vilamoura no Algarve. Manda vigiar um barco ancorado na marina. Chama-se MAR BELO e pertence a um grupo de narcotraficantes. Prepara-te, lá dentro está um segurança agora inactivo, mas também o corpo morto do Artur.
Acho que o guarda esperava a chegada dos companheiros. Boa sorte. Por favor esquece que eu liguei.
Caminhou pesadamente para o carro. Conduziu de vidro aberto para que o ar limpasse o cheiro a morte que sentia colado ao corpo.
Tinha chegado ao fim. O resto era como fechar a porta de um quarto escuro.
O tempo que levara a relembrar tudo o que acontecera, não lhe tinha arrefecido a raiva acumulada. Não, teria de a libertar, ainda que a verdade fizesse sofrer.
Mas só assim valeria a pena, recomeçar a viver.

domingo, 24 de julho de 2011

O RAPTO

25 – UM LONGO DIA

António Pedro chegou. Tinha um brilho estranho no olhar, uma mescla de cansaço, amargura e determinação. Carlos e o Pai estavam parados numa das avenidas de Vilamoura que dava acesso à entrada a quem conduzia de Lisboa, tendo tido o cuidado de dissimular o pequeno carro atrás de uns arbustos.
Conseguiam ver os carros para entrarem e saírem da zona. Todavia, como Carlos admitiu, só por sorte iriam encontrar os alvos. Tinham dormitado um de cada vez, mas com as matrículas dos carros suspeitos bem presentes.
- Vocês precisam de comer, sigam para o centro e vamos estacionar mas em lugar afastado. Pode ser que encontrem uma pastelaria já aberta, recomendou António Pedro.
- Chefe hoje é domingo, são nove horas da manhã, não temos notado muito movimento, o que é que podemos fazer? Estamos às escuras?
- Tens razão mas sinto que estamos no local certo. Não sei o que podemos fazer, apenas abrir os olhos, aguçar os ouvidos e pedir sorte. Enquanto vocês comem eu vou dar uma volta pela marina. Palpita-me que ainda sou capaz de encontrar noctívagos a recuperar da noite de sábado. Com sorte poderá ser uma pessoa que goste de falar. Entretanto vocês procurem uma farmácia de serviço. Quero que comprem uma caixa de luvas, outra de máscaras para a boca e nariz e mais dois rolos de adesivo, o mais largo que encontrarem. É uma precaução, podemos vir a precisar desse material.
Afonso, o Pai do Carlos riu comentando:
- Doutor vai assaltar uma casa ou…?
- Não sei ainda mas é melhor prevenir. Fica combinado que nos encontraremos num café na marina. Não sei qual, quem chegar primeiro dá um toque.
- Oh Chefe porque é que o senhor não aproveita a nossa companhia para tomar um bom pequeno-almoço? Desculpe mas o seu aspecto é de quem não se tem alimentado. E só o oiço falar de café e só o vejo fumar. Enquanto aqui está, sabe quantos cigarros já fumou? Não sabe pois não, mas eu digo, foram seis em menos de meia hora. Onde é que isso o vai levar?
- É certo que tem sido um tempo cheio de emoções, desafios, desilusões e muita frustração. E isso tem o seu preço, eu sei.
Hoje tem sido um dia particularmente longo,vazio e uma noite sem fim. Tens razão, preciso de parar e reflectir. Vou fazer-vos companhia, sigamos à procura de uma pastelaria ou um café aberto onde possamos retemperar as energias. Chegamos aqui, mas continuamos às escuras, procurando nem sei já o quê!
Encontraram um pequeno café. Era simpático e àquela hora tinha meia dúzia de clientes, frequentadores habituais e conversadores entre si. Mas que se calaram logo que viram entrar três estranhos.
António Pedro pensou para si que os casais que estavam no café, poderiam estar a dizer algo que só a eles dizia respeito ou a presença de estranhos os levara a serem prudentes.
Certo que praticamente só trocavam breves palavras. Mas assim que terminado pequeno-almoço e os três visitantes abandonaram o café, os puderam ouvir retomando a conversa que tinham interrompido.
Afonso ainda percebeu que eles discutiam a insegurança durante a noite.
Carlos e o Pai foram caminhando a pé, sem destino mas acabaram sentados numa esplanada na marina bem em frente aos barcos nela ancorados.
António Pedro seguiu outro caminho, perdido, sem destino. Sentou-se num banco de jardim a ver passar os poucos carros que circulavam. Era uma manhã de domingo, as ruas estavam quase desertas e na monotonia daquela manhã onde o sol já abrira, fechou os olhos e descansou.
Saiu do torpor com o som duma chamada no telemóvel. Era o que Carlos que com voz ansiosa lhe pedia para se juntar na esplanada da marina. Não demore penso que temos novidades.
António Pedro chegou, tinha recuperado algum vigor e sentando-se na mesa com os amigos perguntou:
- Conta lá as novidades.
- Chefe sente-se aqui um bocado. Eu sempre sonhei ter um barco igual a alguns que aqui estão, e poder passar a vida a apanhar sol e a pescar. O meu Pai, pelo contrário gosta mais do campo e trabalhar a terra onde nasceu.
- Mas a novidade é isso?
- Ai chefe não seja assim. Contei isto para lhe explicar a minha fascinação pelos barcos que aqui vejo. Porque, foi por tanto os admirar que descobri o que pode ser o fio da nossa meada.
- Antes de continuares, já compraram o que vos pedi?
- Não foi difícil, mostraram um saco, ali mesmo ao lado está uma farmácia de serviço.
- Então agora conta lá o que descobriste!
Carlos explicou que a sua atenção se centrara num barco bem grande que estava na primeira fila do cais. Notara algo diferente, só naquele via um homem corpulento, sentado na proa do barco enquanto bebia cerveja atrás de cerveja.
Ficara ainda mais atento, porque o desconhecido se levantara da cadeira, espreitou para o interior da cabine, fechou a porta e saíra para o exterior da marina. Chefe veja a minha surpresa, quando ele passou aqui ao lado eu reconheci-o, era um dos seguranças que ontem à noite esteve envolvido no rapto do seu amigo.
Enquanto ele esteve ausente fui dar uma espreitada. O barco chama-se MAR BELO e está matriculado em Algeciras.
O segurança voltou carregado com compras de super mercado, abriu a porta da cabine, entrou por breves momentos e ali está ele, refastelado a beber cerveja. O Chefe consegue ver?
- Sim vi.Sorriu e não se conteve, deu uma palmada no ombro do companheiro dizendo:
- Eu tinha ou não razão quando te fui buscar para trabalhar comigo? Senhor Afonso tem que ficar orgulhoso porque o seu filho é um jovem destemido e muito inteligente! Agora vamos sair daqui e depois de almoço, tentamos assaltar o barco. Eu vou estudar a nossa estratégia. Podemos estar no final de um dia longo,mas com o coração apertado, pois receio uma surpresa. E pode ser dolorosa, oxalá eu me engane.

quinta-feira, 21 de julho de 2011

O RAPTO

24 – CORAÇÃO INGRATO

Foi cheio de raiva mal contida, que voltou para o seu velho e desconfortável apartamento. Estava interiormente destruído, pela cabeça passavam turbilhões de imagens, palavras vazias, situações em que se deixara envolver, e que eram tão evidentes que só um coração solitário e carente não soubera ou não quisera reconhecer. Doía-lhe mais porque só ele era culpado.
Apetecia-lhe acabar com tudo, desistir, desaparecer mas lembrou-se duma miúda vítima inocente e que, talvez, só ele pudesse salvar.
Não conseguia descansar e dormir, vivia cigarros que fumava uns a seguir aos outros. Estava no limite mas decidiu continuar.
Espreitava à janela, esperando o nascer do dia. O relógio ficara esquecido na casa que fora convidado a abandonar. Não sabia as horas, a noite parecia lutar para atrasar o nascer do sol. Que horas seriam?
Lembrou-se do telemóvel abriu e ficou aterrado. Esquecera que o aparelho ainda estava no módulo silencioso, mas um sinal indicava que havia diversas chamadas não atendidas.
Foi com o coração nas mãos que começou a confirmar os números e a hora a que tinham tentado comunicar.
A primeira chamada fora do Carlos, registada às nove da noite, que repetira meia hora mais tarde;
Depois, alguém o tentara encontrar ligando por três vezes e com pequeno intervalo. A primeira fora estabelecida perto da meia-noite. Ficou assustado, reconhecera o número do Artur Mateus, teve o pressentimento amargo, três ligações tão seguidas indiciavam um pedido de socorro. Pobre amigo quanto precisara de ajuda, ele estava bem longe do mundo, perdido e enfeitiçado nos olhos de uma mulher.
Continuou a ler a lista das chamadas não atendidas. Carlos tentara ligar mais duas vezes, a primeira era uma hora da manhã e meia hora mais tarde nova tentativa. Por andaria agora o amigo, estaria ainda de guarda ou regressara a casa? Finalmente a última chamada fora feita pela Maria Clara já depois das três horas da manhã. Maria Clara aquela hora, algo imprevisto se passara. O que seria?
Esteve algum tempo perdido e sem saber o que fazer. A consciência pesava-lhe como chumbo. Não procurava desculpas, afinal ele fora o único culpado, mais ninguém. Não serviria de nada pensar que fora tão ingénuo que acabara sendo vítima dum coração ingrato.
Teve um assomo de energia e decidiu enfrentar o futuro.
Eram seis da manhã, começou por ligar para o número do Artur Mateus. Apenas por hábito, pois o telefone, como previa, já não dava qualquer sinal.
Tentou o Carlos e reconheceu a voz. Respirou de alívio, soube-lhe bem ouvir o amigo.
- Oh Chefe que susto nos pregou!
- Peço desculpa, mas agora, por favor, conta-me tudo!
- Então foi assim:
- Demos pela chegada ao apartamento que estávamos vigiando, do carro preto e grande que eu já conhecia. O condutor, o gajo gordo e careca, ficou no carro e outros três com todo o tipo de serem seguranças subiram pelo elevador. O meu Pai tocou para a porteira que lhe abriu a porta. Enquanto esperava confirmou que o elevador parara no sétimo e último andar. A Dona Preciosa, a porteira explicou ao meu Pai que aqueles inquilinos eram novos no prédio e raramente eram vistos.
O carro deu uma volta e acabou estacionando perto do nosso. Deu para ver a matrícula e o condutor.
Tudo ficou calmo e nós continuámos de vigia.
Mas já passava da meia-noite quando vimos parar junto à porta de entrada, um novo carro preto ainda maior. O motor ficou a trabalhar mas com as luzes apagadas. Poucos minutos após, três indivíduos saíram do edifício e entraram no carro. Dois deles levavam de rastos, um homem que não conseguimos ver bem, o outro carregava nos braços um corpo, que pelo tamanho só podia ser de uma rapariga.
Arrancaram em velocidade mas como passaram perto também deu para anotar o modelo e a matrícula.
Não sabíamos que fazer e o seu telefone não estava disponível. De repente o primeiro carro voltou, parou junto da porta do prédio e o condutor gordo e careca nosso conhecido, saiu e abriu a porta a um sujeito que, não havíamos ainda visto mas que, tudo indica, seria o chefe. Seguiu normalmente e até deu para ver o brilho do lume do charuto que o patrão fumava. Também anotamos a matrícula.
- Carlos e agora onde é que vocês estão?
- Depois da partida do último carro, como reconheci o condutor, lembrei-me que o Edmundo me contou que por vezes era o responsável por arranjar mulheres para festas que o chefe organizava numa casa que tinha no Algarve, na zona de Vilamoura. Então esse foi o nosso destino. Estamos aqui parados a descansar, já demos algumas voltas mas não localizamos nenhum dos carros.
- Tenham cuidado, podem correr perigo, aguardem por mim.
Esqueceu as suas dúvidas e angústias, pegou na pistola e munições, e voou para o Algarve. Era, pressentia, o fim do caminho.