24 – CORAÇÃO INGRATO
Foi cheio de raiva mal contida, que voltou para o seu velho e desconfortável apartamento. Estava interiormente destruído, pela cabeça passavam turbilhões de imagens, palavras vazias, situações em que se deixara envolver, e que eram tão evidentes que só um coração solitário e carente não soubera ou não quisera reconhecer. Doía-lhe mais porque só ele era culpado.
Apetecia-lhe acabar com tudo, desistir, desaparecer mas lembrou-se duma miúda vítima inocente e que, talvez, só ele pudesse salvar.
Não conseguia descansar e dormir, vivia cigarros que fumava uns a seguir aos outros. Estava no limite mas decidiu continuar.
Espreitava à janela, esperando o nascer do dia. O relógio ficara esquecido na casa que fora convidado a abandonar. Não sabia as horas, a noite parecia lutar para atrasar o nascer do sol. Que horas seriam?
Lembrou-se do telemóvel abriu e ficou aterrado. Esquecera que o aparelho ainda estava no módulo silencioso, mas um sinal indicava que havia diversas chamadas não atendidas.
Foi com o coração nas mãos que começou a confirmar os números e a hora a que tinham tentado comunicar.
A primeira chamada fora do Carlos, registada às nove da noite, que repetira meia hora mais tarde;
Depois, alguém o tentara encontrar ligando por três vezes e com pequeno intervalo. A primeira fora estabelecida perto da meia-noite. Ficou assustado, reconhecera o número do Artur Mateus, teve o pressentimento amargo, três ligações tão seguidas indiciavam um pedido de socorro. Pobre amigo quanto precisara de ajuda, ele estava bem longe do mundo, perdido e enfeitiçado nos olhos de uma mulher.
Continuou a ler a lista das chamadas não atendidas. Carlos tentara ligar mais duas vezes, a primeira era uma hora da manhã e meia hora mais tarde nova tentativa. Por andaria agora o amigo, estaria ainda de guarda ou regressara a casa? Finalmente a última chamada fora feita pela Maria Clara já depois das três horas da manhã. Maria Clara aquela hora, algo imprevisto se passara. O que seria?
Esteve algum tempo perdido e sem saber o que fazer. A consciência pesava-lhe como chumbo. Não procurava desculpas, afinal ele fora o único culpado, mais ninguém. Não serviria de nada pensar que fora tão ingénuo que acabara sendo vítima dum coração ingrato.
Teve um assomo de energia e decidiu enfrentar o futuro.
Eram seis da manhã, começou por ligar para o número do Artur Mateus. Apenas por hábito, pois o telefone, como previa, já não dava qualquer sinal.
Tentou o Carlos e reconheceu a voz. Respirou de alívio, soube-lhe bem ouvir o amigo.
- Oh Chefe que susto nos pregou!
- Peço desculpa, mas agora, por favor, conta-me tudo!
- Então foi assim:
- Demos pela chegada ao apartamento que estávamos vigiando, do carro preto e grande que eu já conhecia. O condutor, o gajo gordo e careca, ficou no carro e outros três com todo o tipo de serem seguranças subiram pelo elevador. O meu Pai tocou para a porteira que lhe abriu a porta. Enquanto esperava confirmou que o elevador parara no sétimo e último andar. A Dona Preciosa, a porteira explicou ao meu Pai que aqueles inquilinos eram novos no prédio e raramente eram vistos.
O carro deu uma volta e acabou estacionando perto do nosso. Deu para ver a matrícula e o condutor.
Tudo ficou calmo e nós continuámos de vigia.
Mas já passava da meia-noite quando vimos parar junto à porta de entrada, um novo carro preto ainda maior. O motor ficou a trabalhar mas com as luzes apagadas. Poucos minutos após, três indivíduos saíram do edifício e entraram no carro. Dois deles levavam de rastos, um homem que não conseguimos ver bem, o outro carregava nos braços um corpo, que pelo tamanho só podia ser de uma rapariga.
Arrancaram em velocidade mas como passaram perto também deu para anotar o modelo e a matrícula.
Não sabíamos que fazer e o seu telefone não estava disponível. De repente o primeiro carro voltou, parou junto da porta do prédio e o condutor gordo e careca nosso conhecido, saiu e abriu a porta a um sujeito que, não havíamos ainda visto mas que, tudo indica, seria o chefe. Seguiu normalmente e até deu para ver o brilho do lume do charuto que o patrão fumava. Também anotamos a matrícula.
- Carlos e agora onde é que vocês estão?
- Depois da partida do último carro, como reconheci o condutor, lembrei-me que o Edmundo me contou que por vezes era o responsável por arranjar mulheres para festas que o chefe organizava numa casa que tinha no Algarve, na zona de Vilamoura. Então esse foi o nosso destino. Estamos aqui parados a descansar, já demos algumas voltas mas não localizamos nenhum dos carros.
- Tenham cuidado, podem correr perigo, aguardem por mim.
Esqueceu as suas dúvidas e angústias, pegou na pistola e munições, e voou para o Algarve. Era, pressentia, o fim do caminho.
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