domingo, 19 de junho de 2011

O ESTRANHO CASO DO ESCRITOR FANTASMA

6º. – Capítulo

Como qualquer pessoa minimamente informada, conhecedora do estranho mundo da informação e da lógica e dos estudos elaborados pelas Agências de Comunicação compreenderia, o projecto estava condenado ao fracasso.
Da primeira edição, onde todos se empenharam, as vendas foram uma desgraça.
As pessoas que tiveram oportunidade de folhear o jornal gostaram, acharam que o jornal era diferente mas não compraram. Os vendedores fizeram questão de informar a Direcção que o sentimento geral que tinham notado era que ao jornal faltava vida. Apenas alguns estudantes Universitários lhe tinham atribuído nota positiva. O público em geral não gostara.
Um amigo, que deixara de lado os seus sonhos, tinha acabado contratado por uma Agência de Comunicação e fazia agora parte duma equipa que aconselhava um candidato a Deputado, explicou-nos os erros tínhamos cometido.
Dizia ele que um jornal é um produto, igual a tantos outros, para ser vendido e dar lucro, e que tem se submeter aos princípios fundamentais do mercado. Que são:
Primeiro – Nunca se comprometer. As notícias devem ser dadas de forma enviesada para que possam ser desmentidas ou clarificadas se não forem absolutamente fidedignas. E acrescentou isso é coisa que só por acidente se pode comprovar. Fazer jornalismo de investigação é muito caro e podem esbarrar em obstáculos imprevistos.
Segundo – É preciso compreender que o público leitor é cada vez menos exigente, pois é constantemente bombardeado com notícias de hora a hora nas Rádios e três ou quatro vezes por dia em cada estação de Televisão. Não precisam de ler e interpretar uma notícia pois basta ver e ouvir e de seguida esquecer. O que o jornal pode é acompanhar os outros órgãos de informação escrita, publicando pequenos anúncios e, designadamente, convites com fotografias apelativas para encontros amorosos. Aí o concorrente é a Internet mas muito do público consumidor não domina esta ferramenta.
Terceira – A política não vende. O futebol sim, tem que ser um tema recorrente, com entrevistas e comentários. O jornal só tem que ter algum cuidado no espaço que dedica aos três grandes. Terá de reservar sessenta por cento das páginas para um clube, vinte por centro para outro, dezassete por cento para o outro e o resto para os restantes clubes e outras modalidades.
Em conclusão se vocês quiserem ganhar umas centenas de leitores têm que respeitar os princípios que enunciei.
O desânimo foi geral. Ninguém queria aceitar os conselhos mas, como dizia Luís Miguel ele, o nosso amigo tem razão. Ou continuamos o caminho ou mudamos. Eu dou já a minha posição. Prefiro fechar a que nos tenhamos que nos vender. Mas podemos influenciar as pessoas, se transformarmos o nosso projecto, num embrião de uma Agência de Comunicação vocacionada para gerir carreiras.
Iremos para o mercado a propor os nossos serviços. E o mercado ainda tem lugar para uma Agência inovadora, que é assim que teremos de ser. Não é possível ser candidato a uma Concelhia dum Partido, a uma Freguesia, a uma Câmara, a um emprego no Estado, sem que por detrás esteja outrem para pensar.
Também poremos os nossos serviços ao dispor de Empresas e Empresários, interessados em obter um subsídio ou um tratamento favorável num qualquer concurso ou uma redução da carga fiscal.
A nossa maior valia será mais evidente se todos nós pensarmos como o fazem os escritores fantasmas. Escreveremos à medida
Nada que seja dito, nada que alguém queira escrever, nenhuma entrevista de um nosso representado, se fará sem a nossa chancela.
Luís Miguel parou olhando o ar incrédulo dos amigos.
Luísa interpretou o pensamento dos restantes, dizendo:
- Luís Miguel o que nos estás a dizer é precisamente o oposto do que sonhámos. Foi só por um fracasso que mudastes de opinião?
- Não, eu tomei consciência que o mundo não é dos mais capazes ou dos mais bem intencionados. O sucesso é dos mais espertos e com menos escrúpulos. Não adianta combater com armas desiguais. O preço dos sonhos está incomportável.
Alguém irá ler ou ouvir o que nós pensamos. Só que seremos apenas, o escritor fantasma.
FIM

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