quarta-feira, 22 de junho de 2011

O RAPTO

1 – Meia-noite

Era o entardecer de um dia de fim de Verão e o sol que já se escondia por entre as nuvens dispersas perdia luz e calor. António Pedro acabara de entrar no gabinete, recentemente alugado, num edifício de escritórios nas Amoreiras. Ficou fascinado com a paisagem que se lhe oferecia, sentindo um agradável torpor que se acalmava os sentidos. Como era belo o entardecer e o lento cair da noite.
Foi buscar uma cadeira e um cinzeiro, sentou-se em frente da janela que abriu, para beber o ar da noite pura e serena enquanto saboreava um cigarro, enviando o fumo em círculos que se diluíam no ar.
Entrara agitado no seu gabinete. Tinha sido um dia a correr de um lado para o outro, juntando os papéis que queria levar, os livros que sempre o acompanhavam e escolhendo o computador mais adequado ao seu trabalho.
Finalmente estava tranquilo. Olhava para o seu novo espaço e para a paisagem que a ampla janela lhe oferecia. Era uma nova vida que estava começando, cheia de esperança e ao mesmo tempo de ansiedade.
Tudo na sua vida se modificara no período muito curto. Primeiro o seu trabalho e depois o seu casamento.
Mas a vida é assim, nada é eterno tudo é passageiro.
Acabou de fumar o segundo cigarro, teria de reduzir a sua dependência, mas seria com o tempo, não era capaz de o fazer de um momento para o outro.
Perdeu-se na noite calma e serena onde nada acontecia. Mas com ele ficaram as recordações.
Abriu o computador, olhou de relance para o correio electrónico, mas nada havia de interessante. Não admira, pensou ele, apenas falei a um reduzido grupo de amigos.E desfilou o seu passado tão recente:
“Até ele mesmo se surpreendera, quando com 54 anos de idade decidira abandonar o cargo de Inspector da Polícia Judiciária. Tinha sido uma decisão repentina, motivada por algum cansaço e pelas mazelas que uma longa e difícil investigação, que lhe ocupara mais de dois anos de trabalho e dedicação exclusiva, perseguindo o autor de alguns crimes hediondos. Conseguira mas nunca mais fora o mesmo. O seu perfil psicológico ficara afectado porque em vez do raciocínio frio e analítico passara a deixar-se levar pelo ódio e pela revolta.
Ficara cansado e escolhera outro caminho. Esta alteração de personalidade afectara, também, a sua relação conjugal.
A mulher, Filomena, tinha sido sempre o suporte e o amparo nos momentos difíceis, mas um pequeno incidente havia minado a confiança que ela, sempre depositara nele.
Encontrara por acaso, aquando das arrumações, uma carta que fora dirigida ao marido, redigida em termos apaixonados. Quando lhe mostrara a carta e lhe pedira explicações, ele incomodado, respondera ter sido uma paixão não correspondida, duma antiga colega de Universidade, um relacionalmento que terminara antes do casamento. Filomena, nada dissera, mas mostrara-lhe a carta, datada de seis meses atrás.
Nunca pensei que me andasses a trair, dissera ela, e esta não terá sido a única”.
António Pedro despertou quando o relógio de parede tocou as doze badaladas. Nem se dera conta do escoar do tempo.
Sacudiu as memórias, sentiu pela primeira vez o frio da noite e a angústia de regressar a uma casa vazia.


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