3 – A FAMÍLIA
Este encontro no banco do jardim, o pequeno almoço tomado na mesma pastelaria e no mesmo lugar tornou-se um hábito. Luís recebia um olhar de ternura e gratidão que dizia mais que as poucas palavras que o desconhecido murmurava.
Passou a Primavera, o Verão chegou de mansinho e o encontro mantinha-se inalterado.
Luís guardava para si aquela estranha amizade. Estar sentado ao lado do amigo, por mais de uma hora, durante os dias de semana, fazia-o sentir-se em paz com a vida. Não se preocupava com as notícias, nem com o negócio, para ele eram momentos de tranquilidade e serenidade, partilhados em silêncio. Habituou-se a sentir que a amizade não era um jogo de palavras.
Os sentimentos mostram-se, nos pequenos gestos, olhares e silêncios, sem reservas
Só passados alguns meses contou à mulher aquele encontro que lhe fazia bem. Receara que contar uma amizade feita de silêncios fosse difícil de entender. Enganou-se, a Mulher com um sorriso e uma lágrima furtiva, compreendeu e encorajou-o a continuar. Não desistias de dar a tua amizade, lembra que só receberás o que deres. Olha para ele como o irmão que não tiveste ou o Pai que perdeste tão cedo. Afinal reinventa a tua família.
Luís confessou que sentia que o infeliz com quem partilhava o banco no jardim, teria uma história por contar e ele alimentava a esperança de um dia a conhecer.
Infeliz, pergunta a mulher, quem é que te disse que ele se sente infeliz?
- Ninguém, mas não me sai da cabeça, que aquele homem tem sofrido muito.
- Luís, tu tens tempo, porque é que não procuras ali na proximidade alguém que conheça o teu amigo? Podes ir á Junta de Freguesia por exemplo, ou então sais mais cedo e procura segui-lo para saber onde mora. Não deverá ser muito longe.
- É isso mesmo que vou fazer, decidiu.
Para sua surpresa ou por ironia do destino, no dia em que tinha decidido saber algo sobre a vida do amigo, chegou ao banco, que pela primeira vez, estava livre.
Esperou, viu passar as horas e do amigo nada. Sentiu-se triste e desamparado, aquele ritual já fazia parte do seu quotidiano e a falta do companheiro, sem saber o porquê, fazia-lhe mal.
Tenho de o encontrar ou quem fica doente sou eu.
sexta-feira, 8 de abril de 2011
quinta-feira, 7 de abril de 2011
O BANCO NO JARDIM
2 – AMIGOS
Sentado no banco Luís Alberto, dirigiu-se ao desconhecido:
- O senhor desculpe, mas eu sinto que precisa de qualquer coisa e eu gostaria muito de o ajudar. Diga-me, não está a pedir esmola, então porque está aqui à chuva e ao frio? Não tem família ou anda perdido?
Para sua surpresa o desconhecido respondeu.
- Fico aqui sentado umas horas até ver regressar a minha mulher e a minha filha e depois vou para casa, respondeu.
- Não percebo, mas o senhor não vive em casa com elas?
O solitário, olhou-o fixamente, com uns olhos baços e mortiços e nada disse.
-Olhe, penso que a sua família ainda demora a chegar, por isso venha ali comigo, aquela pastelaria, tomar uma bebida quente. Parece-me que está a precisar e eu também.
O solitário levantou-se, e ia a iniciar os passos, quando voltou atrás e se sentou novamente. Eu ali não as vejo passar, disse em voz decidida.
-Vê, claro que vê, venha comigo, escolhemos uma mesa perto da porta e pelos vidros o senhor vê passar as pessoas, tão bem como agora. E é um pouco de companhia que partilhamos.
Pegou-lhe num braço, e acompanhou-o até à pastelaria. Na mesa o desconhecido ocupou logo, o lugar de frente para a rua.
Luís Alberto foi ao balcão, encomendar um galão e uma torrada e um café para si. Pagou e levou para a mesa.
O seu convidado, bebeu o galão comeu a torrada, era óbvio que era a sua primeira refeição, mas sem demonstrar prazer ou satisfação, pois não tirava os olhos do movimento que passava na rua.
Cada vez mais curioso, Luís Alberto perguntou ao dono do estabelecimento se, por acaso, conhecia ou sabia alguma coisa sobre aquele senhor que veio comigo e está ali sentado a olhar para a rua.
-Sim senhor, respondeu o dono da pastelaria, há cerca de três ou quatro meses que o vemos sentado naquele lugar. Não fala, não pede nada. Não sabemos o que faz e como se chama. A minha mulher tentou por mais de uma vez levar-lhe lá um prato com comida, que ele sempre rejeitou. Retirava apenas o pão, que ia distribuindo pelos pombos que já estavam à espera. Não falava, mas o olhar era tão triste e profundo que a minha mulher se sentia enternecida e voltava quase sempre de lágrima no canto do olho. Eu perguntava-lhe a razão, ela encolhia os ombros e respondia, não sei.
Ao entardecer, levanta-se e cambaleando vai-se embora pela rua acima, mas nunca conseguimos ver onde mora. Mas não é um sem abrigo.
Luís Alberto saiu, parou e sentou-se mais uns momentos junto do desconhecido, olhou-o nos olhos. Sentiu neles algum calor, um pequeno brilho e ficou feliz, dizendo:
- Amanhã estarei aqui ao pé de si, no mesmo banco, e iremos tomar o café juntos. Passarei todos os dias de segunda a sábado e se precisar de alguma coisa diga, saiba que tem aqui um amigo, que não lhe vai fazer perguntas e se contenta em ficar algum tempo na sua companhia. Faça isso por mim.
Um aceno afirmativo foi a resposta, que recebeu.
Sentado no banco Luís Alberto, dirigiu-se ao desconhecido:
- O senhor desculpe, mas eu sinto que precisa de qualquer coisa e eu gostaria muito de o ajudar. Diga-me, não está a pedir esmola, então porque está aqui à chuva e ao frio? Não tem família ou anda perdido?
Para sua surpresa o desconhecido respondeu.
- Fico aqui sentado umas horas até ver regressar a minha mulher e a minha filha e depois vou para casa, respondeu.
- Não percebo, mas o senhor não vive em casa com elas?
O solitário, olhou-o fixamente, com uns olhos baços e mortiços e nada disse.
-Olhe, penso que a sua família ainda demora a chegar, por isso venha ali comigo, aquela pastelaria, tomar uma bebida quente. Parece-me que está a precisar e eu também.
O solitário levantou-se, e ia a iniciar os passos, quando voltou atrás e se sentou novamente. Eu ali não as vejo passar, disse em voz decidida.
-Vê, claro que vê, venha comigo, escolhemos uma mesa perto da porta e pelos vidros o senhor vê passar as pessoas, tão bem como agora. E é um pouco de companhia que partilhamos.
Pegou-lhe num braço, e acompanhou-o até à pastelaria. Na mesa o desconhecido ocupou logo, o lugar de frente para a rua.
Luís Alberto foi ao balcão, encomendar um galão e uma torrada e um café para si. Pagou e levou para a mesa.
O seu convidado, bebeu o galão comeu a torrada, era óbvio que era a sua primeira refeição, mas sem demonstrar prazer ou satisfação, pois não tirava os olhos do movimento que passava na rua.
Cada vez mais curioso, Luís Alberto perguntou ao dono do estabelecimento se, por acaso, conhecia ou sabia alguma coisa sobre aquele senhor que veio comigo e está ali sentado a olhar para a rua.
-Sim senhor, respondeu o dono da pastelaria, há cerca de três ou quatro meses que o vemos sentado naquele lugar. Não fala, não pede nada. Não sabemos o que faz e como se chama. A minha mulher tentou por mais de uma vez levar-lhe lá um prato com comida, que ele sempre rejeitou. Retirava apenas o pão, que ia distribuindo pelos pombos que já estavam à espera. Não falava, mas o olhar era tão triste e profundo que a minha mulher se sentia enternecida e voltava quase sempre de lágrima no canto do olho. Eu perguntava-lhe a razão, ela encolhia os ombros e respondia, não sei.
Ao entardecer, levanta-se e cambaleando vai-se embora pela rua acima, mas nunca conseguimos ver onde mora. Mas não é um sem abrigo.
Luís Alberto saiu, parou e sentou-se mais uns momentos junto do desconhecido, olhou-o nos olhos. Sentiu neles algum calor, um pequeno brilho e ficou feliz, dizendo:
- Amanhã estarei aqui ao pé de si, no mesmo banco, e iremos tomar o café juntos. Passarei todos os dias de segunda a sábado e se precisar de alguma coisa diga, saiba que tem aqui um amigo, que não lhe vai fazer perguntas e se contenta em ficar algum tempo na sua companhia. Faça isso por mim.
Um aceno afirmativo foi a resposta, que recebeu.
quarta-feira, 6 de abril de 2011
O BANCO NO JARDIM
SOLIDÃO
Sentado, no banco do jardim público, um homem via passar os transeuntes que, apressadamente, se dirigiam para o seu trabalho.
Apresentava-se, vestido com um sobretudo que, não sendo novo, mostrava ainda assim ser de qualidade, e o protegia da chuva miúda que começara a cair. Na cabeça, um chapéu, que já fora preto, mas que apresentava manchas escuras, junto à fita, desbotada, que lhe dava a volta.
Não tinha um aspecto desleixado, tinha a cara muito bem barbeada, e as mãos entrelaçadas no colo, não apresentavam sinais de sujidade.
As pessoas passavam, ele segui-as com o olhar ausente, até as perder de vista, voltava a escolher outro caminhante e fazia o seu seguimento da mesma forma.
Luís Alberto, um homem na casa dos seus cinquenta anos, que tinha um estabelecimento comercial na zona do Chiado, decidira, naquele dia ir a pé. Afinal, morava na Avenida Álvares Cabral, e um passeio até à loja, tinha-lhe sido recomendado pelo médico. Todavia, tinha escolhido um mau dia para iniciar o percurso, pois caía uma chuva miúda, mas irritante. Abrigou-se no portal duma escada, em frente do jardim, e por isso assistiu, intrigado, àquele ritual.
Esteve mais de meia hora e a situação permanecia a mesma. Condoeu-se, e resolveu aproximar-se do solitário, convicto que o homem precisava de ajuda. Chegou-se à frente, parou um momento e perguntou se precisava de alguma coisa.
O homem interrompeu por momentos o movimento, olhou quem o interpelava e abanou a cabeça, a dizer não.
Já sei, pensou Luís Alberto, o homem está a pedir, mas de tal forma envergonhado, que nem estende a mão. Deve ser um dos novos pobres de que tanto se fala. Puxou do porta-moedas, tirou uma moeda de dois euros e ia dá-la, quando o desconhecido lhe afastou a mão, recusando a esmola. Sentiu-se incomodado pela sua atitude, afinal o homem não era um pedinte. Deixá-lo em paz, pensou para consigo mesmo. Guardou a moeda e recomeçou a andar, afastando-se do banco de jardim. De repente parou, voltou atrás e como entretanto deixara de chover, sentou-se no mesmo banco.
Sentado, no banco do jardim público, um homem via passar os transeuntes que, apressadamente, se dirigiam para o seu trabalho.
Apresentava-se, vestido com um sobretudo que, não sendo novo, mostrava ainda assim ser de qualidade, e o protegia da chuva miúda que começara a cair. Na cabeça, um chapéu, que já fora preto, mas que apresentava manchas escuras, junto à fita, desbotada, que lhe dava a volta.
Não tinha um aspecto desleixado, tinha a cara muito bem barbeada, e as mãos entrelaçadas no colo, não apresentavam sinais de sujidade.
As pessoas passavam, ele segui-as com o olhar ausente, até as perder de vista, voltava a escolher outro caminhante e fazia o seu seguimento da mesma forma.
Luís Alberto, um homem na casa dos seus cinquenta anos, que tinha um estabelecimento comercial na zona do Chiado, decidira, naquele dia ir a pé. Afinal, morava na Avenida Álvares Cabral, e um passeio até à loja, tinha-lhe sido recomendado pelo médico. Todavia, tinha escolhido um mau dia para iniciar o percurso, pois caía uma chuva miúda, mas irritante. Abrigou-se no portal duma escada, em frente do jardim, e por isso assistiu, intrigado, àquele ritual.
Esteve mais de meia hora e a situação permanecia a mesma. Condoeu-se, e resolveu aproximar-se do solitário, convicto que o homem precisava de ajuda. Chegou-se à frente, parou um momento e perguntou se precisava de alguma coisa.
O homem interrompeu por momentos o movimento, olhou quem o interpelava e abanou a cabeça, a dizer não.
Já sei, pensou Luís Alberto, o homem está a pedir, mas de tal forma envergonhado, que nem estende a mão. Deve ser um dos novos pobres de que tanto se fala. Puxou do porta-moedas, tirou uma moeda de dois euros e ia dá-la, quando o desconhecido lhe afastou a mão, recusando a esmola. Sentiu-se incomodado pela sua atitude, afinal o homem não era um pedinte. Deixá-lo em paz, pensou para consigo mesmo. Guardou a moeda e recomeçou a andar, afastando-se do banco de jardim. De repente parou, voltou atrás e como entretanto deixara de chover, sentou-se no mesmo banco.
segunda-feira, 4 de abril de 2011
UMA PAUSA
MUDAR DE RUMO
A velocidade com que quero escrevinhar, não se compadece com as lembranças perdidas, os lapsos e tudo o mais que sei, mas não digo.
Faltei ao “ENCONTRO COM UMA MULHER SÓ”, porque não sabia o que lhe dizer. Corria o risco de ficar olhando, lágrima no canto do olho, e assim fazer aumentar a tristeza que uma pessoa só, já carrega dentro de si.
Assim é melhor partir para outra, mais uma vez mudar de agulha, e ver onde me leva o comboio descontrolado em que viajo.
Desta vez vou embarcar numa aventura perigosa. Já o tentei em ensaios, mas parei porque recebi avisos em catadupa do John Doe, meu consultor literário. Como se terão apercebido, o meu consultor não é lá grande coisa, porque apesar dos avisos ainda não me proibiu de escrever, o que não abona muito do seu intelecto.
Entretanto, apercebi-me de que ele anda distraído a ler o que se escreve no “facebook” da Maria Sharapova, com atenção redobrada pelas fotografias e ainda por cima, a ler com toda a atenção e em voz alta e temerosa, o que é publicado num sítio muito em voga, que me pareceu ser, assim por cima do ombro, da Presidência da República.
Como ele vai ficar extasiado por algum tempo, eu vou aproveitar para escrever mais umas linhas no conto, em gestação.
Até lá, fazem o favor de SORRIR ou CHORAR, dependendo da sensibilidade de cada um, com o vídeo que aqui vos deixo. Ou como eu, coração mole, que rio e choro ao mesmo tempo.
A velocidade com que quero escrevinhar, não se compadece com as lembranças perdidas, os lapsos e tudo o mais que sei, mas não digo.
Faltei ao “ENCONTRO COM UMA MULHER SÓ”, porque não sabia o que lhe dizer. Corria o risco de ficar olhando, lágrima no canto do olho, e assim fazer aumentar a tristeza que uma pessoa só, já carrega dentro de si.
Assim é melhor partir para outra, mais uma vez mudar de agulha, e ver onde me leva o comboio descontrolado em que viajo.
Desta vez vou embarcar numa aventura perigosa. Já o tentei em ensaios, mas parei porque recebi avisos em catadupa do John Doe, meu consultor literário. Como se terão apercebido, o meu consultor não é lá grande coisa, porque apesar dos avisos ainda não me proibiu de escrever, o que não abona muito do seu intelecto.
Entretanto, apercebi-me de que ele anda distraído a ler o que se escreve no “facebook” da Maria Sharapova, com atenção redobrada pelas fotografias e ainda por cima, a ler com toda a atenção e em voz alta e temerosa, o que é publicado num sítio muito em voga, que me pareceu ser, assim por cima do ombro, da Presidência da República.
Como ele vai ficar extasiado por algum tempo, eu vou aproveitar para escrever mais umas linhas no conto, em gestação.
Até lá, fazem o favor de SORRIR ou CHORAR, dependendo da sensibilidade de cada um, com o vídeo que aqui vos deixo. Ou como eu, coração mole, que rio e choro ao mesmo tempo.
domingo, 3 de abril de 2011
ENCONTRO COM UMA MULHER SÓ
6 – O meu Amor
Acordou com um homem deitado consigo. Estava na sua cama em sua casa. Não tinha que se esconder, pela primeira vez iria assumir aquele encontro. Era livre, sentia-se livre e feliz. Não a preocupava a diferença de idades, o futuro seria o que eles quisessem que fosse. Sem mentiras, sem compromissos escondidos.
A relação duraria enquanto ambos a desejassem, sem obrigações, apenas condicionada pelo querer.
Antes de adormecerem, passado o efeito afrodisíaco daquele momento e saciado o desejo, tinham conversado sobre o futuro.
O companheiro fazia juras de amor eterno. Maria Fernanda respondia que isso não existia e nem o exigia. Só continuariam juntos, partilhando o corpo e o espírito enquanto ambos estivessem felizes. Mentira não haveria, nem o hábito cómodo duma companhia, tampouco o amor fingido.
Foi Carlos Alberto quem lhe lembrou Ricardo. Olha, eu quero que saibas algo que não é simpático para que não quero esconder. Ricardo costuma exercitar os sues dotes de conquistador, perante toda e qualquer mulher que lhe apareça no caminho. Nós já o conhecíamos e sabíamos a razão porque a mulher o tinha abandonado. Ele é um conquistador compulsivo, mas é inconsequente. Percebes? Teria sido para ti uma grande desilusão, acredita.
Maria Fernanda não reagiu ao que acabara de ouvir. Desde o princípio, e apesar do encantamento, sentira qualquer coisa estranha, não imaginava o quê.
Agora só receava o comportamento da Mãe, tão imprevisível. Estava preparada para sair para um lugar seu, que pudesse compartilhar com o companheiro, sem constrangimentos.
Tomou um duche e foi à cozinha para tomar o habitual copo de leite. Encontrou a Mãe sentada da mesa da sala, tomando o pequeno almoço e lendo um romance, com um ar tão deliciado que a surpreendeu. Aproximou-se, a Mãe levantou os olhos, sorriu acariciou-lhe o rosto, fez sinal para se sentar e disse-lhe:
- Minha filha faz-me um pouco de companhia. Fala comigo, pensa que talvez eu não seja aquela velha impertinente e agarrada a preconceitos, como imaginas.
Maria Fernanda reclinou-se no ombro da Mãe e murmurou:
- Estou feliz, não quero esconder de ti este momento. Gostaria de ficar e ao mesmo tempo…
A Mãe fechou-lhe os lábios com um sinal prosseguindo:
- Tu és a minha companhia mas eu não ser a tua obrigação. Ficarás na tua casa, que é também a minha, enquanto quiseres. O teu companheiro será bem-vindo enquanto for o teu amigo, a tua escolha. Sabes, não quero que fiques assim surpreendida a olhar para mim. Quem sabe, talvez eu tenha mudado, mas acredita que o que te digo hoje poderia tê-lo dito há mais tempo, assim tu tivesses precisado do meu ombro. És feliz e eu também partilho da tua felicidade. Não fiques preocupada com o que as pessoas possam pensar. O teu companheiro é mais jovem, já percebi, mas não te importes, porque se alguém criticar só pode ser por inveja.
De agora em diante não continues a pensar como uma mulher só. Só, é quem não tem um amor na vida. Lembra o que teu Pai, tantas vezes te disse: vive a vida pois só se vive uma vez.
Acordou com um homem deitado consigo. Estava na sua cama em sua casa. Não tinha que se esconder, pela primeira vez iria assumir aquele encontro. Era livre, sentia-se livre e feliz. Não a preocupava a diferença de idades, o futuro seria o que eles quisessem que fosse. Sem mentiras, sem compromissos escondidos.
A relação duraria enquanto ambos a desejassem, sem obrigações, apenas condicionada pelo querer.
Antes de adormecerem, passado o efeito afrodisíaco daquele momento e saciado o desejo, tinham conversado sobre o futuro.
O companheiro fazia juras de amor eterno. Maria Fernanda respondia que isso não existia e nem o exigia. Só continuariam juntos, partilhando o corpo e o espírito enquanto ambos estivessem felizes. Mentira não haveria, nem o hábito cómodo duma companhia, tampouco o amor fingido.
Foi Carlos Alberto quem lhe lembrou Ricardo. Olha, eu quero que saibas algo que não é simpático para que não quero esconder. Ricardo costuma exercitar os sues dotes de conquistador, perante toda e qualquer mulher que lhe apareça no caminho. Nós já o conhecíamos e sabíamos a razão porque a mulher o tinha abandonado. Ele é um conquistador compulsivo, mas é inconsequente. Percebes? Teria sido para ti uma grande desilusão, acredita.
Maria Fernanda não reagiu ao que acabara de ouvir. Desde o princípio, e apesar do encantamento, sentira qualquer coisa estranha, não imaginava o quê.
Agora só receava o comportamento da Mãe, tão imprevisível. Estava preparada para sair para um lugar seu, que pudesse compartilhar com o companheiro, sem constrangimentos.
Tomou um duche e foi à cozinha para tomar o habitual copo de leite. Encontrou a Mãe sentada da mesa da sala, tomando o pequeno almoço e lendo um romance, com um ar tão deliciado que a surpreendeu. Aproximou-se, a Mãe levantou os olhos, sorriu acariciou-lhe o rosto, fez sinal para se sentar e disse-lhe:
- Minha filha faz-me um pouco de companhia. Fala comigo, pensa que talvez eu não seja aquela velha impertinente e agarrada a preconceitos, como imaginas.
Maria Fernanda reclinou-se no ombro da Mãe e murmurou:
- Estou feliz, não quero esconder de ti este momento. Gostaria de ficar e ao mesmo tempo…
A Mãe fechou-lhe os lábios com um sinal prosseguindo:
- Tu és a minha companhia mas eu não ser a tua obrigação. Ficarás na tua casa, que é também a minha, enquanto quiseres. O teu companheiro será bem-vindo enquanto for o teu amigo, a tua escolha. Sabes, não quero que fiques assim surpreendida a olhar para mim. Quem sabe, talvez eu tenha mudado, mas acredita que o que te digo hoje poderia tê-lo dito há mais tempo, assim tu tivesses precisado do meu ombro. És feliz e eu também partilho da tua felicidade. Não fiques preocupada com o que as pessoas possam pensar. O teu companheiro é mais jovem, já percebi, mas não te importes, porque se alguém criticar só pode ser por inveja.
De agora em diante não continues a pensar como uma mulher só. Só, é quem não tem um amor na vida. Lembra o que teu Pai, tantas vezes te disse: vive a vida pois só se vive uma vez.
sábado, 2 de abril de 2011
ENCONTRO COM UMA MULHER SÓ
5 – Nunca dizer Adeus
A semana pareceu longa, os dias monótonos as noites agitadas.
O trabalho que antes era o seu lenitivo passou a ser fastidioso, repetitivo. Muito trabalhou, mas mal, a maior parte acabou no caixote do lixo.
Estava agitada, parecia uma jovem adolescente na véspera de um encontro de amor. Irritadiça e com pouca paciência para enfrentar o dia a dia.
Mas o sábado chegou. O dia nasceu com uma luz diferente, o sol um pouco tímido surgiu e acalmou a sua impaciência.
Era noite quando, finalmente, recebeu uma mensagem no telemóvel. Ricardo propunha passar dentro de meia hora.
Não ficou muito agradada, receber a mensagem daquele modo, com uma linguagem tão seca, para um encontro que Ricardo quase suplicara, uma semana atrás? Não acreditava ou era falta de atenção ou de sensibilidade. Ela investira muito de si mesma naquele encontro, preparara-se mentalmente para ele, mas iria dizer não.
E foi o seu primeiro impulso, respondendo à mensagem com um frio não, hoje não estou disponível.
Sem acrescentar nem mais uma palavra. Ficou abalada e revoltada consigo própria. Sentiu que Ricardo a convidara num impulso, aproveitando a fragilidade de uma mulher só e carente. Nem considerava ter sofrido uma desilusão, tanto entusiasmo é que tinha sido um erro. A voz interior bem a tinha avisado, tem cuidado.
O telefone voltou a tocar, Maria Fernanda reconheceu o número, era Natércia. Atendeu e ouviu.:
- Fernanda, o Rafael e o Carlos Alberto propuseram repetir o programa da semana passada. Eu estou de acordo, mas eles querem muito contar contigo. Vem daí, como percebeste eles são bons amigos, divertidos e sem compromissos. Sentem-se bem na nossa companhia e não o escondem.
Maria Fernanda nem pensou duas vezes, respondeu sim..
Na primeira noite, ainda tinham sentido algum constrangimento. Desta vez todos estavam mais descontraídos e a noite foi mais alegre e mais comunicativa. Riram com as desventuras amorosas do jovem Carlos Alberto, que se entregava com facilidade e acabava rejeitado. Como ele dizia, sentia-se descartável, usado e deitado fora.
No final da noite, música e calor, fundiram-se no momento de êxtase e desejo que não quiseram ou quiseram evitar.
Carlos Alberto parou o carro à porta e desligou o motor. Maria Fernanda, com a boca sequiosa e olhos inquietos, esqueceu o passado e quis viver o momento como se nunca tivesse de dizer adeus.
A semana pareceu longa, os dias monótonos as noites agitadas.
O trabalho que antes era o seu lenitivo passou a ser fastidioso, repetitivo. Muito trabalhou, mas mal, a maior parte acabou no caixote do lixo.
Estava agitada, parecia uma jovem adolescente na véspera de um encontro de amor. Irritadiça e com pouca paciência para enfrentar o dia a dia.
Mas o sábado chegou. O dia nasceu com uma luz diferente, o sol um pouco tímido surgiu e acalmou a sua impaciência.
Era noite quando, finalmente, recebeu uma mensagem no telemóvel. Ricardo propunha passar dentro de meia hora.
Não ficou muito agradada, receber a mensagem daquele modo, com uma linguagem tão seca, para um encontro que Ricardo quase suplicara, uma semana atrás? Não acreditava ou era falta de atenção ou de sensibilidade. Ela investira muito de si mesma naquele encontro, preparara-se mentalmente para ele, mas iria dizer não.
E foi o seu primeiro impulso, respondendo à mensagem com um frio não, hoje não estou disponível.
Sem acrescentar nem mais uma palavra. Ficou abalada e revoltada consigo própria. Sentiu que Ricardo a convidara num impulso, aproveitando a fragilidade de uma mulher só e carente. Nem considerava ter sofrido uma desilusão, tanto entusiasmo é que tinha sido um erro. A voz interior bem a tinha avisado, tem cuidado.
O telefone voltou a tocar, Maria Fernanda reconheceu o número, era Natércia. Atendeu e ouviu.:
- Fernanda, o Rafael e o Carlos Alberto propuseram repetir o programa da semana passada. Eu estou de acordo, mas eles querem muito contar contigo. Vem daí, como percebeste eles são bons amigos, divertidos e sem compromissos. Sentem-se bem na nossa companhia e não o escondem.
Maria Fernanda nem pensou duas vezes, respondeu sim..
Na primeira noite, ainda tinham sentido algum constrangimento. Desta vez todos estavam mais descontraídos e a noite foi mais alegre e mais comunicativa. Riram com as desventuras amorosas do jovem Carlos Alberto, que se entregava com facilidade e acabava rejeitado. Como ele dizia, sentia-se descartável, usado e deitado fora.
No final da noite, música e calor, fundiram-se no momento de êxtase e desejo que não quiseram ou quiseram evitar.
Carlos Alberto parou o carro à porta e desligou o motor. Maria Fernanda, com a boca sequiosa e olhos inquietos, esqueceu o passado e quis viver o momento como se nunca tivesse de dizer adeus.
sexta-feira, 1 de abril de 2011
ENCONTRO COM UMA MULHER SÓ
4 – Amor para sempre
No domingo e ao contrário do que era habitual, Maria Fernanda ficou a dormir até tarde. Todavia sentiu que a Mãe tinha espreitado e fechado cuidadosamente a porta, antes de sair para a habitual missa das dez horas. Todos os domingos eram assim, mas pela primeira vez Maria Fernanda ficara em casa.
Acordou com a Mãe junto à cabeceira e que com um gesto de carinho lhe acariciou os cabelos desalinhados, segredando:
- Então, ontem tiveste uma noite em cheio, nem me lembro de alguma vez ter reparado que a minha filha chegou a casa depois das sete horas da manhã. Não me atrevo a perguntar onde estiveste, és mulher e não mais uma jovem adolescente. Espero e estou a ser sincera, que te tenhas divertido. Vejo-te um ar feliz e isso faz-me bem.
Maria Fernanda nem queria acreditar no que ouvira. Manteve o sorriso e retribuiu a carícia que recebera.
A Mãe não lhe voltou a tocar no assunto e ela também não.
À noite, durante o jantar, a Mãe contou os desabafos e segredinhos que ouvira das três amigas, que tinham aceite o convite para tomar o chá. Calcula tu, acrescentou, que a D. Lurdes foi consultar um quiromante, parece que foi assim que ela lhe chamou, para confirmar se o Marido lhe era fiel. Claro a resposta foi óbvia, o Doutor Faustino, coitado, cheio de reumático e a fazer oitenta anos, era um marido exemplar. E a D. Lurdes ficou muito feliz.
Maria Fernando riu e com o ar mais sério de que foi capaz, respondeu:
- Claro que a Mãe nunca teve dúvidas que o Pai lhe era fiel, pois não?
- Agora que perguntas isso, ele vai-me perdoar, houve uns tempos em que o achei não feliz que suspeitei de algum devaneio, mas não pensei mais no assunto. O teu Pai não era muito exuberante e não mostrava tudo. E tu herdaste essa personalidade. Ontem à noite, tive a prova disso. Maria Fernanda riu mas não comentou.
Como sempre fazia,foi consultar o correio electrónico e a agenda para segunda feira.
No meio das mensagens recebeu uma que, logo identificou.
Dizia:
- Ontem eu fiquei devedor pelo seu trabalho e credor da sua companhia. Acertemos as contas, gostava de a convidar para jantar no próximo sábado e depois, conversar à roda de uma bebida. Faço já o convite pois quero ser o primeiro.
Sei que tiveram uma agradável noite e imagino que algum colega lhe contou porque eu não pude estar presente. Poderemos falar disso, se estiver interessada.
Os miúdos estão na cama, eu sinto-me só e pensei em si. Pense também um pouco em mim.
Ricardo R.
Ela já tinha tido reuniões de trabalho com Ricardo, homem de meia-idade, elegante, muito gentil e educado, que apesar do olhar esquivo, notara nele uma vontade de ir mais além. Mas qualquer coisa o inibira. Talvez medo duma situação sentimental mal resolvida ou algum segredo que guardava.
Ela sonhava amar e ser amada, para sempre, um amor feito de entrega e de renúncia. Partilhando o corpo e a alma. Mas, uma voz interior segredava, cuidado!
Encolheu os ombros, sorriu e aceitou o convite, como um desafio.
No domingo e ao contrário do que era habitual, Maria Fernanda ficou a dormir até tarde. Todavia sentiu que a Mãe tinha espreitado e fechado cuidadosamente a porta, antes de sair para a habitual missa das dez horas. Todos os domingos eram assim, mas pela primeira vez Maria Fernanda ficara em casa.
Acordou com a Mãe junto à cabeceira e que com um gesto de carinho lhe acariciou os cabelos desalinhados, segredando:
- Então, ontem tiveste uma noite em cheio, nem me lembro de alguma vez ter reparado que a minha filha chegou a casa depois das sete horas da manhã. Não me atrevo a perguntar onde estiveste, és mulher e não mais uma jovem adolescente. Espero e estou a ser sincera, que te tenhas divertido. Vejo-te um ar feliz e isso faz-me bem.
Maria Fernanda nem queria acreditar no que ouvira. Manteve o sorriso e retribuiu a carícia que recebera.
A Mãe não lhe voltou a tocar no assunto e ela também não.
À noite, durante o jantar, a Mãe contou os desabafos e segredinhos que ouvira das três amigas, que tinham aceite o convite para tomar o chá. Calcula tu, acrescentou, que a D. Lurdes foi consultar um quiromante, parece que foi assim que ela lhe chamou, para confirmar se o Marido lhe era fiel. Claro a resposta foi óbvia, o Doutor Faustino, coitado, cheio de reumático e a fazer oitenta anos, era um marido exemplar. E a D. Lurdes ficou muito feliz.
Maria Fernando riu e com o ar mais sério de que foi capaz, respondeu:
- Claro que a Mãe nunca teve dúvidas que o Pai lhe era fiel, pois não?
- Agora que perguntas isso, ele vai-me perdoar, houve uns tempos em que o achei não feliz que suspeitei de algum devaneio, mas não pensei mais no assunto. O teu Pai não era muito exuberante e não mostrava tudo. E tu herdaste essa personalidade. Ontem à noite, tive a prova disso. Maria Fernanda riu mas não comentou.
Como sempre fazia,foi consultar o correio electrónico e a agenda para segunda feira.
No meio das mensagens recebeu uma que, logo identificou.
Dizia:
- Ontem eu fiquei devedor pelo seu trabalho e credor da sua companhia. Acertemos as contas, gostava de a convidar para jantar no próximo sábado e depois, conversar à roda de uma bebida. Faço já o convite pois quero ser o primeiro.
Sei que tiveram uma agradável noite e imagino que algum colega lhe contou porque eu não pude estar presente. Poderemos falar disso, se estiver interessada.
Os miúdos estão na cama, eu sinto-me só e pensei em si. Pense também um pouco em mim.
Ricardo R.
Ela já tinha tido reuniões de trabalho com Ricardo, homem de meia-idade, elegante, muito gentil e educado, que apesar do olhar esquivo, notara nele uma vontade de ir mais além. Mas qualquer coisa o inibira. Talvez medo duma situação sentimental mal resolvida ou algum segredo que guardava.
Ela sonhava amar e ser amada, para sempre, um amor feito de entrega e de renúncia. Partilhando o corpo e a alma. Mas, uma voz interior segredava, cuidado!
Encolheu os ombros, sorriu e aceitou o convite, como um desafio.
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