domingo, 10 de julho de 2011

O RAPTO

13 – A NOITE DO CAÇADOR

Carlos presta atenção. Esta noite quero procurar um tipo que frequenta o mais conhecido dos clubes de striptease masculino, onde engata mulheres para depois fazer chantagem. Eu não sei o nome dele mas se o vir, saberei identificá-lo.
Vou precisar de ti, para escolheres um quarto numa pensão da Avenida da Liberdade, daquelas onde ninguém faz perguntas, cujas traseiras dão para a rua onde está localizado o clube mais bem frequentado.Tu sabes qual é, não sabes?
Escolhe um quarto do qual possas vigiar a entrada de pessoas e os automóveis que te possam parecer suspeitos.
Depois de tratares disso, mandas uma mensagem a dar o número do quarto. Eu irei ter contigo, levando o cavalheiro.
Ah, antes que me esqueça, abriu uma gaveta da secretária, aqui tens uma câmara de vídeo e este envelope com dinheiro para o quarto e mais que precises. Como vês é tudo muito simples e tu não corres qualquer risco. Estamos de acordo?
- Obrigado chefe por confiar em mim. O que me acaba de entregar vale muito dinheiro mas eu sei que posso resistir à tentação. Não o deixarei ficar mal, respondeu Carlos com uma lágrima no canto do olho.
- Eu sei e acredito. Agora vai lá tratar da tua vida e logo nos encontraremos.
António Pedro ficou só. Cheio de esperança procurou companhia. Discou o número de telefone da mulher e quando ela atendeu, convidou-a para jantar. Não teve sorte. Filomena estava a trabalhar no escritório, num processo urgente a não tinha tempo nem para comer.
- Olha vou jantar uma pizza e uma coca-cola, que encomendei para o escritório. Se te apetecer, aparece e dividimos o manjar. Não teremos é muito tempo para conversar. Mas se eu acabar a horas decentes e quiseres esperar podemos ir beber um copo e falar sobre …o tempo.
Desculpa, eu gostava de te ver mas, tenho um compromisso para a noite. Não dá, paciência, fica para outra vez.
- Acredita António, já estava à espera da tua desculpa. Afinal nada mudaste.
Ficou sentado à secretária fumando mais um cigarro, quando se lembrou que ainda ninguém havia mencionado, a existência de pedido de resgate. Então, a miúda foi raptada para quê?
Acho estranho, pois a Mãe ainda não falou dessa eventualidade, ou o que ela me está a contar é apenas a verdade que lhe interessa que eu saiba? Muitas dúvidas, poucas certezas, mas um facto indesmentível. A garota está desaparecida.
Creio que o indivíduo que hoje quero agarrar poderá ser uma peça fundamental.
Antes da hora de jantar, recebeu o SMS do Carlos. Dizia, tudo tratado. Quarto 103.
Eram apenas oito horas e não sabia como matar o tempo. Retirou o carro do parque e foi procurar um pequeno restaurante onde era conhecido. Comeu bem e como não havia muita clientela, ficou cavaqueando com o patrão.
Saiu, ainda era cedo para a visita que pretendia fazer e decidiu aguardar em casa a hora de sair.
Todavia estava impaciente e o tempo demorava a passar. Eram apenas vinte e três horas e já estava a circular na Rua do clube alvo, até encontrar um local vago para estacionar.
Caminhou com calma até à porta do clube nocturno. O porteiro era um velho conhecido de outros bares que o cumprimentou com toda a simpatia:
- Então senhor doutor, como vai? Já não o via há muito tempo!
- Tem razão Manuel, mas hoje apeteceu-me tomar um copo e como estava aqui perto, vou aproveitar. Mas não esperava vê-lo aqui, pois se a memória não me falha, era porteiro noutro estabelecimento. Mudou de emprego ou de patrão?
- As duas coisas. O Bar onde antes trabalhava começou a ter problemas e a clientela a fugir. Surgiu esta oportunidade, quando o porteiro deste foi despedido e o senhor Alexandre me convidou a vir trabalhar com ele. E não estou arrependido.
- Disseram-me que para se entrar é preciso um cartão e eu não tenho!
- Nem precisa, pode entrar, claro, mas olhe que isto ainda está muito fraquinho. Só lá por volta da uma da manhã é que começa o movimento. Mas é às sextas-feiras e sábados que a casa enche e tem fila de espera. Nessas noites, o controlo das entradas é mais rigoroso.
Entrou, habituou os olhos à luz difusa, que uma série de projectores, estrategicamente apontados, fazia reflectir nos globos de vidro facetados e coloridos, criando o ambiente habitual. Luz agressiva e intermitente sobre o palco deixando na penumbra a pista de dança e as mesas espalhadas ao longo da sala.
Estavam apenas meia dúzia de pessoas na sala, sobretudo homens solitários sentados ao balcão. Escolheu a extremidade mais próxima da entrada, puxou de um banco alto e encomendou um whisky duplo com uma pedra de gelo. Rodou o copo entre as mãos, aspirou o odor da bebida, fez sinal de ok e começou a beber.
Pouco a pouco foram chegando clientes, sendo mais notado um grupo bem disposto de senhoras, que se instalou nas mesas, à volta da pista. Encomendaram as bebidas, e o espectáculo começou.
A música subiu de tom, acompanhando o desfile. Os gritinhos do costume como reacção aos movimentos lânguidos e lascivos dos bailarinos subiam de tom à medida que eles iam retirando, uma a uma, as peças de vestuário.
Pelo espelho colocado atrás do balcão, António Pedro apercebeu-se da entrada de mais um noctívago. Este era especial pois era quem ele esperava. Cabelo com gel, fato impecável, pose estudada, estendeu o impermeável à senhora do bengaleiro, avançou uns passos e ficou parado na entrada, olhando com atenção para as mulheres. O caçador estava a escolher a presa.
O Investigador pagou as duas bebidas que havia consumido e foi generoso na gorjeta. Voltou-se para sair, pegou no braço do desprevenido cliente, dizendo-lhe ao ouvido:
- Não te lembras de mim? Hoje sou eu que te quero falar. Anda, como se fôssemos bons amigos e não faças ondas.
O interpelado olhou-o com surpresa, olhou para o porteiro como a pedir ajuda mas não obteve atenção. Resignou-se e mesmo a contragosto foi caminhando ao lado do Investigador até ao quarto alugado onde Carlos, de luz apagada, se entretinha a filmar o movimento dos carros. António Pedro fechou a porta, cerrou as persianas da janela e abriu a luz.
Pronto, podes sentar-te ali naquela cadeira para estares mais à vontade enquanto me contes tudo, mas mesmo tudo, para que eu não ficar desiludido e zangado!
De repente, Carlos olha para o intruso e comenta:
- Oh chefe esse gajo que aí trás não passa de um chulo bem relacionado e especialista em esquemas de chantagem! É conhecido no meio, porque apesar de explorar as vítimas, nunca foi violento e não passa de um cobardola.
- Podes ter razão, mas eu já vi uma das vítimas, com os olhos bem marcados, com os socos que ele lhe deu!
- É provável, mas só se a senhora reagiu ameaçando com a polícia. Ele tem um medo de morte de ser apanhado e de cair em desgraça junto do protector. Dizem que paga a um chefe de gang para poder trabalhar à vontade. Esse sim é um tipo perigoso, este é um só um figurão.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

O RAPTO

12 - PERFÍDIA

Maria Clara fez uma pausa prolongada. Parecia que a sua confissão avivara marcas, continuou a falar mas de uma maneira algo estranha e pouco perceptível. Falava de solidão e de medo, de confiança e de desilusões.
António Pedro entendeu que não valeria a pena continuar uma conversa de palavras desligadas. E disse isso mesmo, sugerindo uma pausa.
- Sim acho que preciso. Abriu a mala, retirou um cigarro que levou à boca. Parou e perguntou, posso fumar? António acendeu-lhe o cigarro comentando:
Espero que o fumo a acalme e lhe dê a tranquilidade para continuar. Porque a sua história não acaba aqui, pois não?
- Não, infelizmente. Isto foi apenas o início de um pesadelo.
- Já percebi que acabou vítima de um chantagista não é verdade? Pagou ou recusou? Será que Carolina foi raptada para reforçar a chantagem? São muitas perguntas a que me vai ter responder. Mas hoje não. Pense bem, não tente esconder um só pormenor porque eu acabarei por saber e não gosto de ver traída a minha confiança. Amanhã espero por si à mesma hora.
Quando se despediam António, de uma forma propositadamente casual, pergunta:
- Claro que tudo o que me contou o fez também na PJ, ou não?
- Bem, na verdade respondi a todas as questões mas não falei da aventura nocturna. Tive vergonha.
- Já imaginava, mas não se preocupe este assunto ficará entre nós e claro, o amigo com quem se deitou.
De volta ao gabinete o António telefonou para o Artur Marques, utilizando o número geral da PJ. A telefonista respondeu, secamente, que o Inspector não estava de serviço. Apenas para confirmar ligou para o telemóvel, deu sinal de desligado.
Pousou o telemóvel, abriu a janela por onde uns tímidos raios de sol de fim de dia se anunciaram, acendeu um cigarro e esboçou um sorriso.
Na sua cabeça começava a alinhavar os contornos daquela história e a distribuir os papéis a cada um dos protagonistas.
Ainda não eram 18 horas quando a telefonista ligou para o informar que se encontrava na recepção o senhor Carlos Figueira, Carlos quê? Carlos Figueira senhor doutor. Ah já me havia esquecido, pode mandar subir.
Bem, nem queria acreditar. O rapaz que entrou no gabinete tinha um aspecto cuidado, com o cabelo cortado curto, barba feita e até vestia uma camisa branca por baixo do casaco de fazenda. As calças estavam bem engomadas e os sapatos brilhavam. Não se conteve e disse:
- Olha lá, onde é que tu andaste metido? Como é possível essa transformação num só dia e com a centena de euros que eu te dei? Explica-me lá o que se passou?
- Não foi nada de especial. Quis aproveitar a oportunidade que o senhor me deu para mudar de vida; Falou-me em trabalhar para si, logo não podia aparecer aqui feito um maltrapilho. Voltei para casa dos meus País, de onde havia fugido. Receberam-me de braços abertos e deram-me a confiança para continuar. Sei que não vai ser fácil mas conto também com a sua ajuda para que volte a ter uma vida normal.
- Todos esperamos que sim. Agora senta-te e conta-me se ouviste alguma coisa sobre o desaparecimento de uma menina loira de 12 anos?
- Ninguém fala em tal assunto. Nem ouvi comentários de alguns indivíduos que são reconhecidos como os olhos e os ouvidos da Polícia.
- Já suspeitava e fala-me agora quem é que controla os negócios da noite, droga, armas, prostituição, tu sabes a que me refiro!
- Sabe Doutor, ouvi falar que o gang que controlava o mercado da droga, perdeu a sua influência a favor de um grupo novo, dirigido por alguém muito poderoso e que conseguiu escorraçar os concorrentes.
Eles utilizam segurança própria e servem-se dos estabelecimentos de diversão nocturna, bares, cabarets e casinos, como bases de distribuição.
Segundo o meu contacto, um Cabo-Verdiano, que prometi não identificar, este grupo trafica heroína refinada num porto do sul da Europa e que faz entrar no País através do Algarve. Ele afirma que a organização tem muitas ramificações mas que a base principal se estabeleceu na Turquia.
E agora prepare-se! Segundo o meu amigo, os chefes da rede em Portugal movimentam-se com total à vontade pois beneficiam de um contacto importante com alguém importante da Polícia.
- Pois é Carlos, alguém se vendeu e eu até suspeito que é.


quarta-feira, 6 de julho de 2011

O RAPTO

11 – A MULHER DE VERMELHO

Ficaram em silêncio durante uns breves momentos. Para Maria Clara, aqueles breves segundos em que exibira os sinais da agressão deram-lhe o alívio e tempo para retomar o domínio da situação. E foi incisiva no contra-ataque:
- Aqui tem, está agora convencido que eu estou a dizer a verdade, ou ainda pensa que o indivíduo que o visitou é o meu homem, como insinuou. Doutor, faça-me a justiça de não me considerar masoquista e de, ao menos, ter um certo bom gosto.
E em jeito de desafio, ostensivamente voltou a cruzar as pernas.
António pediu a Maria Clara para recolocar os óculos confirmando:
- Como eu calculava foi agredida e imagino por quem. Mas o que tem de explicar é o porquê?
- Está bem, vou contar-lhe o que me aconteceu. Não é uma história de que me orgulhe, por isso espero que compreenda o meu embaraço.
Na passada Sexta-feira, fui convidada para uma festa de despedida de solteira de uma colega e amiga. Avisada de que a festa podia acabar tarde, pedi à empregada que, nessa noite, ficasse lá em casa fazendo companhia à minha filha.
Assim foi feito e a minha filha até comentou:
- Oh Mãe põe-te bonita pois és capaz de arranjar algum namorado.
Ri-me e confesso que fui um pouco ousada no vestido que escolhi. Fui buscar um que já não usava há vários anos, vermelho e com um decote generoso.
Eu não sabia como era a festa para que fora convidada, nem que seria reservada a mulheres. Mas foi assim e depois de muita conversa, algumas bebidas e enquanto a noite avançava o álcool ia soltando a língua e a imaginação. Contavam-se histórias de conquistas amorosas, de decepções sentimentais e até de frustrações sexuais. A Rita, casadoira, pediu um pouco de silêncio e disse:
- Apesar de tudo os homens fazem falta. Olho e não vejo nenhum. Temos de colmatar esta falha. Vamos a um clube que me recomendaram e que tem striptease masculino.
E assim lá fomos. Durante bastante tempo senti-me incomodada com o espectáculo, principalmente, quando a numerosa assistência feminina, aplaudindo os dois artistas em palco, gritava tira, tira tudo. Levantei-me do meu lugar e fui à toilette dar uns retoques. Sob o efeito da bebida tropecei e fui amparada por um homem simpático que se mostrou muito gentil. Discretamente, ajudou a levantar-me e fez-me companhia durante o resto da noite. Dançamos, rimos e sem saber como, acabamos num hotel na Av. José Malhoa. No quarto tomei mais uma bebida que ele me preparou e não me lembro de mais nada.
Acordei com o sol já alto. Estava sozinha, desnudada e apenas tapada com um lençol. Todavia, espalhadas pelo quarto estavam as minhas roupas. Vesti-me à pressa, peguei na mala de mão, saí do hotel, evitando olhar o recepcionista. Sentia vergonha e o receio de ser reconhecida. Afastei-me um pouco, apanhei um táxi que passava e voltei para casa.
Durante o percurso, abri a mala e verifiquei que as chaves de casa tinham desaparecido, e que a carteira dos documentos também. Contudo o dinheiro, não parecia não ter sido mexido, ou pelo menos de tal não me apercebi.
Evitei ver a minha filha que estava a ler num canto do jardim. Tive vergonha e medo que ela me fizesse alguma pergunta embaraçosa. Subi ao meu quarto, tomei um duche rápido, mudei de roupa e só depois fui ter com ela. Carolina deu-me um beijo e um abraço muito prolongado. Senti naquele abraço e no silêncio que se seguiu a premonição que a minha imprudente aventura iria ter consequências desagradáveis.

terça-feira, 5 de julho de 2011

O RAPTO

10- SEDUÇÃO

Enquanto olhava as fotos de Carolina, uma jovem bonita, loira, cabelo caído sobre os ombros mas sempre de semblante fechado, sem um sorriso, António Pedro não conseguia esconder que se deixara envolver numa história que já não dominava. Sentia-se a caminhar sobre uma fina aresta que um sopro o poderia derrubar. Ele sabia que estava a ser seduzido e pior, começava a gostar.
- A sua filha Carolina é uma jovem muito bonita, mas parece-me um pouco triste, foi o único comentário que lhe ocorreu.
- Não é tristeza a minha filha foi sempre muito reservada e como não gostava de ser fotografada, escondia-se como se a máquina lhe pudesse roubar algum sentimento. A sua timidez perante uma máquina fotográfica ou perante uma câmara de filmar era uma característica que herdou do Pai.
Na verdade nem me lembro de a ver numa foto onde esteja sorrindo. Contudo, no dia a dia era uma jovem igual a qualquer outra da sua idade.
- Não consigo compreender, diz António Pedro. Se ela não era doente, o seu ar triste só pode ter uma explicação, ela não era, ela não é, uma menina feliz. Terei razão?
Notou ou julgou perceber algum embaraço, mas não comentou. Abriu o questionário e começou a ler os dados. Deu-lhe uma primeira leitura, voltou ao início e com um lápis começou a sublinhar partes do texto.
- Dr.ª Maria Clara, lembra-se, certamente, da conversa que aqui tivemos ontem. Fui muito claro, quando lhe disse que apenas aceitaria o seu caso, com garantia da sua parte de que nada me seria ocultado. Algo de bom ou algo menos bom. Mas sempre a verdade. Para mim, uma omissão, pode significar que há qualquer coisa a esconder. Por exemplo, indicou o nome do Pai da Carolina, mas não explicou porque razão, ele não está aqui consigo, o que faria todo o sentido, mesmo se estivessem separados. Igualmente nada diz, quanto ao vosso agregado familiar, amigos próximos, etc.
- Eu posso explicar, o meu marido morreu repentinamente há três anos. Tem sido um período duro de esquecer e por isso não fui capaz de o dizer assim tão friamente. Espero que entenda. A minha filha adorava o Pai e temos enfrentado a sua morte, unidas na dor. Eu sou filha única. Os meus Pais vivem na província, em Barcelos, mais alguns tios e tias e primos não sei quantos. Não somos uma família muito unida.
- Naturalmente Carolina dava-se bem com os Avós, o que é que eles sabem do desaparecimento, interroga António?
- Por razões pessoais há já alguns meses que não vejo os meus Pais. Como imagina são do Minho, fica longe, e são muito devotados à religião católica, nem sempre compreendem as pessoas, que não pensam como eles, e por isso nos afastamos um pouco. Todavia, tive o cuidado de lhes telefonar, a dar a notícia do desaparecimento da neta, mas fui mal interpretada, pois o meu Pai acusou-me de ser eu a responsável.
- É uma atitude estranha de seu pai, ou ele sabe mais e não o disse, ou talvez não goste do homem, com quem tem mantido, digamos, um certo relacionamento!
- Não compreendo onde o senhor foi buscar essa ideia. Esse homem não existe. Mexeu-se na cadeira e descruzou as pernas como que pretendesse desviar a atenção.
António continuou:
- Vai-me desculpar, mas compreenderá a minha surpresa, por uma mulher atraente e insinuante como a Doutora não ter uma relação sentimental, o que seria perfeitamente admissível, tendo em consideração que é viúva há três anos. O que eu não acredito é que o seu namorado seja uma pessoa recomendável. E, ou muito me engano, o seu Pai pensará o mesmo.
Para ser mais claro, hoje tive uma visita de um homem, que me pareceu uma pessoa da sua intimidade. Queria, conhecer o teor da nossa conversa de ontem, não hesitou em ameaçar e de afirmar que tudo o que a Doutora me pudesse ter dito, não passaria de uma série de mentiras. Fiquei muito surpreendido, com a vulgaridade do sujeito e intrigado com a vossa relação. Obviamente expulsei-o do gabinete, mas nada melhor do que esclarecer as dúvidas. Para começar, quer fazer o favor de tirar os óculos escuros
A voz soou ríspida e o tom imperativo. Visivelmente constrangida, Maria Clara tirou os óculos e olhou frontalmente para António. Mostrou, o que os óculos escuros pretendiam esconder, hematomas recentes que apesar dos retoques de pintura eram bem visíveis.
Para António não fora uma surpresa. Mas mesmo assim sentiu um mal-estar e desviou o olhar.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

O RAPTO

9 – UM VISITA INESPERADA

Estava entretido a arrumar alguns dossiers, quando o telefone interno tocou. A telefonista perguntou se podia mandar subir um cavalheiro que se encontrava muito inquieto e agitado e insistia em falar com ele. Como não tinha nada agendado para a manhã, deu ordens para subir.
Abriu a porta do escritório e mandou entrar o homem impaciente. Era um jovem, da casa dos trinta anos, com aspecto muito cuidado, com uma boa figura a lembrar os galãs de telenovela. Mal se deixou cair na cadeira começou imediatamente a falar:
- Tenho uma vida muito ocupada e não posso perder tempo com conversa inútil, diz o desconhecido. Quero que me diga, que mentiras a Maria Clara lhe veio contar, ontem à tarde. Não negue, porque ela própria me disse, que esteve consigo.
- Meu caro amigo, os assuntos que trato com os meus clientes são confidenciais. Se tem algo para contar relacionado com o caso faça-o, de contrário a porta de saída é aquela por onde entrou.
- Fique sabendo que eu não receio um detective de meia tigela, por isso a sua observação não me afecta. Aviso-o, para seu bem, não deve meter-se em assuntos para onde não é chamado, pode dar-se mal. Ainda lhe digo mais, qualquer coisa que a Maria Clara lhe tenha contado, não passa de uma invenção.
- Repare bem como eu estou a tremer, deve ser das suas ameaças, responde António. Levantou-se da cadeira aproximou-se do desconhecido, pegou-lhe pela gravata, levou-o à saída e em jeito de despedida, segredou-lhe ao ouvido: - Já tratei com homens violentos, criminosos e assassinos e nunca tive medo. Achas que um idiota qualquer armado em esperto me vai assustar?
Ponha-se no meio da rua, antes que o corra a pontapé, mas olha bem para mim, penso que ainda nos vamos encontrar. Mas será quando eu quiser.
Resmungando o desconhecido abriu a porta do elevador e saiu.
Sentado à secretária António procurava esquematizar as ligações entre a desaparecida e as pessoas que já conhecera. A Mãe, Artur e agora um rufião que parecia ser um prostituto.
O que é que um homem como este terá a ver com o desaparecimento de Carolina? Ele mostrou que conhecia a Mara Clara. Palpita-me que o assunto ou é muito mais complicado do que eu previa ou estarei a ser objecto de uma mistificação ensaiada entre os três intervenientes. A ser assim, o móbil do rapto só pode ser dinheiro.
Respirou fundo, alinhavou algumas questões para esclarecer na entrevista da tarde.
Entretanto recebeu um possível cliente. Uma senhora de cabelos brancos mas de olhar desperto, que o desafiou para investigar uma questão familiar, que ela considerava algo estranha.
António concordou e escreveu na agenda uma entrevista para o dia seguinte pelas onze horas da manhã, mas em casa da cliente, Dona Julieta, cuja morada também anotara.
Saiu para almoçar. Voltou ao trabalho pois queria preparar a entrevista marcada para as duas da tarde.
Passavam poucos minutos, quando a recepcionista ligou, avisando da chegada da cliente. Deixou tocar por duas ou três vezes a campainha do gabinete, velha técnica para enervar a outra parte. A sua experiência ensinara-lhe que a ansiedade era o melhor amigo do investigador.
Maria Clara entrou, cumprimentou com um aperto de mão, e sentando-se na cadeira de braços, que o investigador lhe apontou, cruzou as pernas num movimento amplo e sugestivo. Aqui estou eu Doutor, como tínhamos combinado trago o questionário preenchido, e este envelope, com meia dúzia de fotos, recentes, da minha filha.
António Pedro recebeu os documentos, colocou-os na secretária sem abrir o sobrescrito.
Fixando-a, sugeriu que tirasse os óculos escuros, pois gostava de ver os olhos das pessoas com quem falava. Desculpará, mas é um hábito já antigo e que não perdi. Os olhos podem dar respostas diferentes das palavras.
Maria Clara hesitou e pediu para continuar com os óculos. Sabe, sinto-me mais à vontade, porque não tive tempo, nem disposição, para me maquilhar.
António encolheu os ombros, e abriu o envelope das fotos que espalhou na secretária.

domingo, 3 de julho de 2011

O RAPTO

8 – SENTIMENTOS

Deitou-se mas não conseguia dormir. Não lhe saíam da cabeça as palavras do amigo sobre o desaparecimento da rapariga. Mesmo que subtilmente, sentia que o telefonema tinha tido um propósito, orientar a investigação. Decididamente não percebia, havia qualquer coisa que se lhe escapava.
Porém uma coisa sabia e que o perturbava. Não esquecera o olhar de Maria Clara que lhe tinha causado sentimentos tão desencontrados, como o desejo e o medo.
Quanto mais pensava no assunto maior era a convicção que existia alguma ligação entre o amigo e Maria Clara. Seriam amantes ou cúmplices para esconder um segredo?
E ele, teria sido escolhido como um amigo a quem se pede ajuda ou alguém de quem se espera segredo, discrição ou silêncio?
A dúvida ficou sem resposta mas António não a esqueceria!
Tentando afastar os seus pensamentos, levantou-se, foi para o escritório, abriu o computador portátil e iniciou a pesquisa de informação, sobre tráfico de mulheres.
Havia muita, infelizmente, mas uma notícia em particular, despertou-lhe a atenção. Noticiava um jornal online britânico, que jovens que tinham sido recrutadas para trabalhar no Dubai, tinham desaparecido, sem que delas houvesse mais notícias.
Já conhecia este negócio, mas os países de onde eram traficadas, eram sobretudo países do leste, e os destinos costumavam ser, as tendas dos senhores do deserto. Quando delas se fartavam, acabavam nas casas de prostituição do Cairo de Istambul ou de Beirute.
O desaparecimento de Carolina não configurava aquele tráfico.
Por norma as redes operavam desviando grupos de meia dúzia de jovens, normalmente altas, loiras, ingénuas e ambiciosas, originárias de regiões mais desfavorecidas. Deixavam-se cativar pelo canto das sereias, com a promessa de uma vida de estrelas e acabavam transformadas em escravas sexuais, nos mais recônditos lugares das grandes cidades, dominadas por uma rede de agentes que as transferiam de cidade a seu belo prazer, presas numa vida da qual só a morte, as libertaria.
O jornal também noticiava algo, que o interessou. Era o rapto por encomenda, de crianças para venda a casais estéreis ou para organizações que se dedicavam ao comércio de órgãos humanos.
Sentiu que as mãos lhe tremiam. Nada do que lera era novo, mas apesar de tudo havia sempre um sentimento de revolta e de impotência, porque os criminosos raramente eram encontrados e punidos.
António lembrou-se de repente, que o seu primeiro caso também envolvera o desaparecimento de uma criança de tenra idade. O caso assumira contornos medonhos porque os raptores eram familiares próximos da criança. Quando incriminados confessaram mas não conseguiram, sequer, identificar os desconhecidos a quem haviam vendido a criança.
Sentiu um arrepio como o que naquela altura sentira, e quase o haviam levado a pensar, fazer justiça pelas próprias mãos.
Voltou para a cama, deu voltas sobre voltas e finalmente conseguiu adormecer, até que o despertador assinalou as sete horas da manhã.
Sabia que iria ter um dia muito exigente e decidiu que precisaria de um bom pequeno-almoço. Foi o que comeu numa cafetaria do Bairro.
Depois foi a pé para o escritório. Enquanto caminhava debaixo de uma chuva persistente, lembrou-se que tinha deixado o automóvel no parque de estacionamento do edifício do escritório. Não escondeu um riso amarelo pensando, ele a ficar encharcado e o automóvel convenientemente resguardado. Vá lá alguém perceber esta cabeça!

sábado, 2 de julho de 2011

O RAPTO

7 – O DESAFIO

Apanhou um táxi, deu-lhe o endereço e recostou-se no banco. Àquela hora a viajem foi curta e depressa parou à porta de casa.
Entrou num apartamento desconfortável, e mais uma vez se esquecera de jantar. Procurou na dispensa, encontrou o saco das compras meio aberto, retirou um pacote de bolachas, um boião de compota e uma caixa de embalagens de chá.
Não tendo mais nada, iria ser aquela a sua frugal refeição. Sentou-se num sofá, cerrou os olhos mas via imagens que o perturbavam. Uma jovem sem rosto, uma mulher insinuante e um homem que sorria.
Estava cansado, a solidão soava como um estrondo na sua cabeça. Reconhecia que ainda não estava pronto para embarcar numa aventura que receava, não iria ser uma coisa simples. Como se arrependia de ter aceite.
O telefone tocou, olhou no mostrador e reconheceu o número que chamava. Ouviu o amigo Artur dizer com ironia:
- Olá seu preguiçoso, isso são horas de um homem sozinho estar em casa e aposto que de pantufas? Não devias andar na conquista?
- Sabes Artur, nunca pensei que uma vida sem obrigações fosse tão difícil de suportar. Estou cansado e nem me apetece sair de casa nem ao menos para tomar um copo.
- Sim eu compreendo e porque nos conhecemos bem sei que uns olhos de mulher te podem devolver o prazer de viver. Principalmente os olhos de uma certa mulher que hoje te visitou. Não tenho razão?
Como sabes fui eu que aconselhei a Dr.ª. Maria Clara e tenho a certeza que ela mexeu contigo. Não tenhas medo de confessar, afinal és um homem livre, ou quase, não é verdade? Ao mesmo tempo, a investigação sobre o desaparecimento da rapariga, vai dar-te um pouco de trabalho e é disso que tu estás a precisar.
- Então o que é que tu me queres dizer, perguntou António?
- Falando a sério, respondeu Artur, o desaparecimento da Carolina Meneses não me parece um caso normal. Raptada por dinheiro não me parece, porque ainda não houve qualquer pedido de resgate. Levada para as redes de prostituição conhecidas, não creio. Redes de pedofilia também não, pois ela já é crescida para o gosto desses predadores. Todavia, já alertei a Interpol.
Além do mais a rapariga tinha uma vida muito certinha, boa aluna, os amigos nada notaram de estranho no seu comportamento, não tinha namorados e também não era frequentadora das redes sociais, segundo a Mãe declarou quando apresentou queixa.
De facto a Carolina não se enquadra no tipo comum das pessoas que desaparecem e foi isso que me intrigou e me deu a ideia de que tu poderias seguir o caso, talvez explorando outros caminhos. Eu disse-o à Mãe e garanti-lhe que o assunto seria tratado com todo cuidado mas longe dos holofotes da Imprensa.
- Sim eu percebo a tua posição, responde António, embora haja qualquer coisa que ainda não percebi bem. Mas voltaremos a falar. Para já a minha cabeça estala e ainda nem sequer comecei a pensar a sério do assunto.
- Mas é dum desafio que tu estás a precisar, respondeu o amigo. Pois, se nada fizeres, ainda acabas a ver e a seguir as telenovelas ou a comentar na TV, os crimes mais mediáticos, dizendo as banalidades do costume. Dorme bem e olha que eu gostarei de conhecer o desenvolvimento da tua investigação. Pela minha parte podes contar com a ajuda possível, dentro das regras é claro. Mas, toma nota, os contactos com a PJ serão só comigo.
- Ok, fica combinado. Um abraço, adeus terminou António, já cansado de ouvir a conversa do amigo.
Arrumou a loiça do jantar ligeiro, acendeu um cigarro e foi para a varanda fumar. Olhava as luzes da noite na cidade, conseguia vislumbrar a cúpula iluminada da Basílica da Estrela, mais ao longe um pedaço da outra margem. Algures havia vida, havia tragédia, havia amor e também uma rapariga desaparecida. E no meio uma mulher interessante e misteriosa e um amigo que sorria.