12 - PERFÍDIA
Maria Clara fez uma pausa prolongada. Parecia que a sua confissão avivara marcas, continuou a falar mas de uma maneira algo estranha e pouco perceptível. Falava de solidão e de medo, de confiança e de desilusões.
António Pedro entendeu que não valeria a pena continuar uma conversa de palavras desligadas. E disse isso mesmo, sugerindo uma pausa.
- Sim acho que preciso. Abriu a mala, retirou um cigarro que levou à boca. Parou e perguntou, posso fumar? António acendeu-lhe o cigarro comentando:
Espero que o fumo a acalme e lhe dê a tranquilidade para continuar. Porque a sua história não acaba aqui, pois não?
- Não, infelizmente. Isto foi apenas o início de um pesadelo.
- Já percebi que acabou vítima de um chantagista não é verdade? Pagou ou recusou? Será que Carolina foi raptada para reforçar a chantagem? São muitas perguntas a que me vai ter responder. Mas hoje não. Pense bem, não tente esconder um só pormenor porque eu acabarei por saber e não gosto de ver traída a minha confiança. Amanhã espero por si à mesma hora.
Quando se despediam António, de uma forma propositadamente casual, pergunta:
- Claro que tudo o que me contou o fez também na PJ, ou não?
- Bem, na verdade respondi a todas as questões mas não falei da aventura nocturna. Tive vergonha.
- Já imaginava, mas não se preocupe este assunto ficará entre nós e claro, o amigo com quem se deitou.
De volta ao gabinete o António telefonou para o Artur Marques, utilizando o número geral da PJ. A telefonista respondeu, secamente, que o Inspector não estava de serviço. Apenas para confirmar ligou para o telemóvel, deu sinal de desligado.
Pousou o telemóvel, abriu a janela por onde uns tímidos raios de sol de fim de dia se anunciaram, acendeu um cigarro e esboçou um sorriso.
Na sua cabeça começava a alinhavar os contornos daquela história e a distribuir os papéis a cada um dos protagonistas.
Ainda não eram 18 horas quando a telefonista ligou para o informar que se encontrava na recepção o senhor Carlos Figueira, Carlos quê? Carlos Figueira senhor doutor. Ah já me havia esquecido, pode mandar subir.
Bem, nem queria acreditar. O rapaz que entrou no gabinete tinha um aspecto cuidado, com o cabelo cortado curto, barba feita e até vestia uma camisa branca por baixo do casaco de fazenda. As calças estavam bem engomadas e os sapatos brilhavam. Não se conteve e disse:
- Olha lá, onde é que tu andaste metido? Como é possível essa transformação num só dia e com a centena de euros que eu te dei? Explica-me lá o que se passou?
- Não foi nada de especial. Quis aproveitar a oportunidade que o senhor me deu para mudar de vida; Falou-me em trabalhar para si, logo não podia aparecer aqui feito um maltrapilho. Voltei para casa dos meus País, de onde havia fugido. Receberam-me de braços abertos e deram-me a confiança para continuar. Sei que não vai ser fácil mas conto também com a sua ajuda para que volte a ter uma vida normal.
- Todos esperamos que sim. Agora senta-te e conta-me se ouviste alguma coisa sobre o desaparecimento de uma menina loira de 12 anos?
- Ninguém fala em tal assunto. Nem ouvi comentários de alguns indivíduos que são reconhecidos como os olhos e os ouvidos da Polícia.
- Já suspeitava e fala-me agora quem é que controla os negócios da noite, droga, armas, prostituição, tu sabes a que me refiro!
- Sabe Doutor, ouvi falar que o gang que controlava o mercado da droga, perdeu a sua influência a favor de um grupo novo, dirigido por alguém muito poderoso e que conseguiu escorraçar os concorrentes.
Eles utilizam segurança própria e servem-se dos estabelecimentos de diversão nocturna, bares, cabarets e casinos, como bases de distribuição.
Segundo o meu contacto, um Cabo-Verdiano, que prometi não identificar, este grupo trafica heroína refinada num porto do sul da Europa e que faz entrar no País através do Algarve. Ele afirma que a organização tem muitas ramificações mas que a base principal se estabeleceu na Turquia.
E agora prepare-se! Segundo o meu amigo, os chefes da rede em Portugal movimentam-se com total à vontade pois beneficiam de um contacto importante com alguém importante da Polícia.
- Pois é Carlos, alguém se vendeu e eu até suspeito que é.
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