terça-feira, 5 de julho de 2011

O RAPTO

10- SEDUÇÃO

Enquanto olhava as fotos de Carolina, uma jovem bonita, loira, cabelo caído sobre os ombros mas sempre de semblante fechado, sem um sorriso, António Pedro não conseguia esconder que se deixara envolver numa história que já não dominava. Sentia-se a caminhar sobre uma fina aresta que um sopro o poderia derrubar. Ele sabia que estava a ser seduzido e pior, começava a gostar.
- A sua filha Carolina é uma jovem muito bonita, mas parece-me um pouco triste, foi o único comentário que lhe ocorreu.
- Não é tristeza a minha filha foi sempre muito reservada e como não gostava de ser fotografada, escondia-se como se a máquina lhe pudesse roubar algum sentimento. A sua timidez perante uma máquina fotográfica ou perante uma câmara de filmar era uma característica que herdou do Pai.
Na verdade nem me lembro de a ver numa foto onde esteja sorrindo. Contudo, no dia a dia era uma jovem igual a qualquer outra da sua idade.
- Não consigo compreender, diz António Pedro. Se ela não era doente, o seu ar triste só pode ter uma explicação, ela não era, ela não é, uma menina feliz. Terei razão?
Notou ou julgou perceber algum embaraço, mas não comentou. Abriu o questionário e começou a ler os dados. Deu-lhe uma primeira leitura, voltou ao início e com um lápis começou a sublinhar partes do texto.
- Dr.ª Maria Clara, lembra-se, certamente, da conversa que aqui tivemos ontem. Fui muito claro, quando lhe disse que apenas aceitaria o seu caso, com garantia da sua parte de que nada me seria ocultado. Algo de bom ou algo menos bom. Mas sempre a verdade. Para mim, uma omissão, pode significar que há qualquer coisa a esconder. Por exemplo, indicou o nome do Pai da Carolina, mas não explicou porque razão, ele não está aqui consigo, o que faria todo o sentido, mesmo se estivessem separados. Igualmente nada diz, quanto ao vosso agregado familiar, amigos próximos, etc.
- Eu posso explicar, o meu marido morreu repentinamente há três anos. Tem sido um período duro de esquecer e por isso não fui capaz de o dizer assim tão friamente. Espero que entenda. A minha filha adorava o Pai e temos enfrentado a sua morte, unidas na dor. Eu sou filha única. Os meus Pais vivem na província, em Barcelos, mais alguns tios e tias e primos não sei quantos. Não somos uma família muito unida.
- Naturalmente Carolina dava-se bem com os Avós, o que é que eles sabem do desaparecimento, interroga António?
- Por razões pessoais há já alguns meses que não vejo os meus Pais. Como imagina são do Minho, fica longe, e são muito devotados à religião católica, nem sempre compreendem as pessoas, que não pensam como eles, e por isso nos afastamos um pouco. Todavia, tive o cuidado de lhes telefonar, a dar a notícia do desaparecimento da neta, mas fui mal interpretada, pois o meu Pai acusou-me de ser eu a responsável.
- É uma atitude estranha de seu pai, ou ele sabe mais e não o disse, ou talvez não goste do homem, com quem tem mantido, digamos, um certo relacionamento!
- Não compreendo onde o senhor foi buscar essa ideia. Esse homem não existe. Mexeu-se na cadeira e descruzou as pernas como que pretendesse desviar a atenção.
António continuou:
- Vai-me desculpar, mas compreenderá a minha surpresa, por uma mulher atraente e insinuante como a Doutora não ter uma relação sentimental, o que seria perfeitamente admissível, tendo em consideração que é viúva há três anos. O que eu não acredito é que o seu namorado seja uma pessoa recomendável. E, ou muito me engano, o seu Pai pensará o mesmo.
Para ser mais claro, hoje tive uma visita de um homem, que me pareceu uma pessoa da sua intimidade. Queria, conhecer o teor da nossa conversa de ontem, não hesitou em ameaçar e de afirmar que tudo o que a Doutora me pudesse ter dito, não passaria de uma série de mentiras. Fiquei muito surpreendido, com a vulgaridade do sujeito e intrigado com a vossa relação. Obviamente expulsei-o do gabinete, mas nada melhor do que esclarecer as dúvidas. Para começar, quer fazer o favor de tirar os óculos escuros
A voz soou ríspida e o tom imperativo. Visivelmente constrangida, Maria Clara tirou os óculos e olhou frontalmente para António. Mostrou, o que os óculos escuros pretendiam esconder, hematomas recentes que apesar dos retoques de pintura eram bem visíveis.
Para António não fora uma surpresa. Mas mesmo assim sentiu um mal-estar e desviou o olhar.

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