Hoje é domingo, dia de descanso E AMANHÃ O DESCANSO VAI CONTINUAR, ATÉ…?
Ironia!
O vírus que nasceu no Oriente, pensa-se logo na China, teve o seu efeito de contágio, infetando e
causando milhares de mortos, e decidiu caminhar para Ocidente, seguindo a rota da sede.
E, a epidemia transformou-se numa pandemia pondo milhões de pessoas em risco.
Não respeitou fronteiras, atravessou oceanos e terminará onde? Ninguém sabe!
Na sua insidiosa estratégia, um vírus desconhecido, transforma-se num monstro que vai matar
dezenas de milhares de pessoas.
Sem olhar à raça, ao estatuto social ou à riqueza de cada povo, o vírus assume-se como uma arma que
a Natureza alimentou para cobrar dos crimes de que tem sido vítima!
Penso eu, agora que vivo cada dia em casa, como se fosse o último, que o vírus será apenas o início duma tragédia com proporções que os Perclaros Políticos e os Doutos Banqueiros que dominam
o Mundo, nem eles se atrevem a calcular.
Enquanto aguardamos que a ciência descubra a vacina, para enfrentar a pandemia, fiquemos em casa.
Ler, ouvir música é o que o bom senso aconselha. Ouvir as asneiras dos ignorantes Trump,
Bolsonaro, e afilhados e a perceber que a União Europeia é União desde que defenda uns e esqueça
Hoje estou vivendo o primeiro dia do resto da vida.
Não querendo enfrentar a pandemia que vai ceifando vidas por todo o mundo, refugio-me nas minhas recordações.
E são tantas.
As recordações da família são um bem que nunca se esquece. As histórias que ouvi, o sofrimento que partilharei, as alegrias que foram dando cor a uma vida, intensamente vivida, o carinho que recebi e retribuí, são temas para guardar até ao fim.
Porque são sentimentos que se escondem no mais profundo do meu ser, guardo-os e não esqueço.
Mas onde estão os amigos?
Aqueles que encontrei na guerra de África?
E os que foram companheiros, colaboradores no trabalho, que abracei em mais de trinta anos de vida numa Empresa que sempre nos manteve ligados?
E destes, ainda consigo recordar muitos mas, interrogo-me, serão assim tantos?
E desafiei-me a fazer uma lista.
E desisti. Os que já partiram, os que não vi mais, não me permitiram fazer a lista!
E então o desafio que um músico lançou ficou sem resposta.
A Morte chega cedo
Pois breve é toda a vida
O instante é o arremedo
De uma coisa perdida.
O amor foi começado,
O ideal não acabou,
E quem tenha alcançado
Não sabe o que alcançou.
E tudo isto a morte
Risca por não estar certo
No caderno da sorte
Que Deus deixou aberto.
(FERNANDO PESSOA, in "Cancioneiro
1 - NOVA IORQUE
A noite caiu de repente sobre a cidade, que foi ficando prisioneira da luz que as janelas dos altos edifícios, marca indelével deste cidade que, sobranceiramente, desafiava as leis da física.
A noite era sinal de vida, numa cidade que nunca dorme. Aqui e ali, uma estrela parecia descer o céu, atraída, quem sabe, pelo fascínio da noite em Nova Iorque.
Era assim, neste duelo de luz e sombras, que, Pedro, se deixara envolver. Afinal estava na grande cidade, e tantas recordações guardara no mais profundo do seu ser. Tanto tempo, sussurrava com a voz tremida e os olhos vidrados nos desenhos que lhe pareciam sombras dum homem perdido e sem esperança.
Vivera na cidade , frequentara um curso na Universidade, cumprindo os desejos dos Pais que tudo fizeram para que ele encontrasse o seu caminho.
Mas o destino trocou a esperança pela angústia e pela dor.
Inesperadamente recebera a notícia de que a Mãe tinha fechado os olhos numa noite fria. Ela escondera a doença até ao fim. O Pai ficou esmagado, não aguentou o choque e também partiu.
Pedro estava em Lisboa e no espaço de um mês, perdeu-se na tragédia em que se deixou envolver.
Lisboa, a sua cidade, perdera a sua razão de viver e sentiu que tinha que fugir. O Nova Iorque seria o destino.
Vendera a casa e com o dinheiro que lhe sobrou depois de cumprir os desejos dos Pais, comprou um bilhete para Nova Iorque mas, não podia retomar o estudo na Universidade. Tinha que começar a trabalhar.
Procurou e encontrou trabalho numa livraria, encontrou os livros que lhe iriam moldar o seu futuro. Livros de Poesia, de amor e de história.
Então conheceu o amor duma vida.
Foi um encontro marcado pelo destino.
Carol era uma mulher que queria viver todos os minutos de cada dia. Pedro entregou-se partilhando momentos de paixão.
Mas Carol escondera o destino que já conhecia. Apesar do amor ela sabia que um dia teria que partir. Esse dia aconteceu num mês frio de inverno.
Pedro esperou, esperou e pressentiu que Carol havia sido uma miragem.
Nova Iorque fora o desabar dos sonhos. Tão poucos, apenas alguns meses numa vida!
A dor foi ainda maior porque recebeu uma carta que, gritou, tem que ser uma carta de Carol, da minha Carol.
As mãos tremiam-lhe para abrir a carta. E não foi capaz de esconder as lágrimas ao começar a ler.
Pedro
Quero cumprir a promessa que fiz à Carol, a minha única filha, e dizer-lhe que ela se sentiu tão feliz nos dias em que apaixonadamente viveram que lhe escondeu a doença cujo fim se aproximava.
Ela chegou a acreditar que o amor fosse a cura, fosse o milagre. Sim imaginou que o Amor tudo poderia curar.
Mas, numa noite ela sentiu que se aproximava a negra sombra, fugiu e regressou a casa para morrer.
Antes começou a escrever uma carta que junto.
"Pedro, meu amor, minha vida
Fui tão feliz que não consegui contar-te que a noite se aproximava. Peço perdão. Amo-te tanto que podia resumir a minha vida aos momentos, alguns meses, algumas horas, algumas noites, em que te encontrei e me entreguei. Eu queria pagar na tua mão, acariciar o teu rosto, beijar os teus lábios, mas fugi…
Estas palavras foram escritas antes de fechar os olhos.
Eu choro a minha filha, peço-lhe que guarde a sua memória, mas, por favor siga o seu caminho.
Por vezes, quando não se espera, encontra-se a alma gêmea e, acredite, desejo-lhe esse caminho.
Obrigado pelo carinho com que viveu os últimos dias da Carol.
Mas a vida continua
Elisabeth
Um dia, o telefone interno tocou e do outro lado a
rececionista perguntou:
“- Tenho aqui à entrada uma senhora que lhe pretende
falar. Não tem hora marcada e não existe registo de chamada prévia. O Senhor
Doutor pode recebê-la?”
Hesitou, algum caso de divórcio quase de certeza, o que
não lhe agradaria mesmo nada. Mas era a primeira pessoa que o procurava e esse
facto despertou-lhe o interesse alimentando a secreta esperança de encontrar um
caso interessante. Respondeu sim.
- “Pode subir ao 5º. Andar letra C, o Doutor António
Pedro, espera-a minha senhora, informou a rececionista.”
António Pedro retomou o seu hábito, ajeitou o nó da
gravata, vestiu o casaco, mirou-se ao espelho e gostou de se ver, e abriu a
porta de acesso ao gabinete. A mulher que entrou era atraente, alta, cabelo
negro, como os olhos, elegantemente vestida, não passaria despercebida em
qualquer lugar. Andaria na casa dos trinta e cinco anos calculou enquanto a
ajudou a tirar o casaco, que colocou dobrado nas costas de uma cadeira.
Acompanhou a senhora até à poltrona de braços, colocada em frente da secretária
e convidou-a a sentar.
-
“Então, em que lhe posso ser útil, perguntou?”
- Doutor
desculpe ter vindo sem marcação, mas o seu nome foi-me sugerido pelo Inspetor
Marques da PJ, como sendo a pessoa certa para me ajudar. O meu nome é Maria
Clara Figueiredo de Meneses, estou muito preocupada com o desaparecimento da
minha filha de 12 anos. E por isso aqui estou, para contratar os seus serviços,
quero encontrar a minha filha. António Pedro sentiu alguma frustração.
Depositara esperanças num processo apelativo, e afinal era, apenas, um caso de
desaparecimento de uma menor. Com aquela idade o costume era de fuga com o
namorado ou o receio de comunicar algo que a embaraçasse, fosse sobre o
aproveitamento escolar ou algum problema típico duma adolescente. Por momentos
pensou recusar. Mas qualquer coisa no olhar da mulher sentada na sua frente
fê-lo estremecer e tomou a decisão de continuar. Aqueles olhos negros,
profundos, desvendaram-lhe a alma. Ele sentiu que o iriam fazer esquecer o
passado recente.
Com um ar distante, António Pedro foi dizendo que a PJ,
tinha um excelente departamento especializado para tratar estes casos, tem tido
muito sucesso e, além do mais, tem também os meios necessários e a experiência
para investigar esse tipo de situações. Eu pelo contrário não sou experiente
nessa área da investigação. Maria Clara argumentou que a PJ tinha sido o seu
primeiro caminho. Dera todas as informações que lhe pediram e o processo fora
aberto. Mas, dizia recear que, apesar da reconhecida competência do
Departamento, o caso da filha fosse mais um. Por outro lado, vim ter consigo
recomendada por um amigo e antigo colega, porque o senhor tem uma grande
vantagem, tem tempo e uma reconhecida sensibilidade e eu ficaria mais tranquila
se o desaparecimento da minha filha for investigado de perto, quase me atrevo a
dizer em regime de exclusividade. E estou disposta a pagar por isso. Peço não
me desiluda, eu acredito que o senhor vai conseguir trazer de volta a minha
filha.
Ficaram
um momento em silêncio. O apelo de Maria Clara tinha sido feito de forma
veemente e nervosa, mas António Pedro não vislumbrara no olhar angústia e dor.
Era estranho, pensava, não lhe parecera que a visitante, fosse assim tão capaz
de esconder sentimentos tão naturais. Prolongou o silêncio, olhando fixamente o
rosto da senhora, como se quisesse captar qualquer sinal que o levasse a
recusar. Foi com um frémito que desconfiou, que o caso não era apenas o
desaparecimento da jovem, e isso fê-lo mudar de ideias. Sentira algum desconforto,
como se alguém o estivesse a empurrar para um lado negro. Alguém que sabia que
só assim ele aceitaria o desafio. Fora certamente o amigo, mas não entendia o
porquê.
Levantou-se da secretária, andou alguns passos de um lado
para o outro, parou em frente da cliente, olhou-a nos olhos e disse:
“- Minha senhora, estou disposto a aceitar o seu caso mas
terá de confiar, absolutamente, em mim. Isso significa, dar-me todas as
informações que eu lhe pedir, mesmo se elas lhe parecerem deslocadas ou até
demasiado íntimas. Vou precisar de a conhecer, saber o seu agregado familiar,
conhecer o que pensa o Pai da criança, como é a rotina do vosso dia-a-dia, onde
passam férias, com quem costumam conviver, amigos, etc. Aceitarei investigar o
caso que me traz, mas quero que fique bem claro, não vou ser simpático e se a
conclusão, se a ela chegar, for uma imensa dor, mesmo assim eu não deixarei de
a assinalar. Se estiver de acordo, preencha agora ou entregue-me depois, o
questionário que aqui tem, e estendeu-lhe uma folha A 4, e junte uma série de
fotos da sua filha, sozinha ou em grupo, que tenham sido tiradas nos dois
últimos anos. Quanto ao pagamento dos meus serviços falaremos mais tarde. Não
antevejo custos extraordinários.
Maria Clara, aceitou as regras sem levantar qualquer
obstáculo, dizendo apenas que não gostaria de ver a fotografia da filha, nos
ecrãs da Televisão ou nas primeiras páginas dos jornais. Compreenda o meu
desejo de privacidade.
Pareceu-lhe razoável e tranquilizou-a.
Concentre-se no fundamental, tente encontrar qualquer
coisa a que não tenha prestado atenção e que poderia ter originado a que a sua
filha perdesse a confiança e fugisse. Às vezes há um pequeno sinal e isso pode
ser a diferença entre o sucesso ou o insucesso. Mas pense bem, não me esconda
nada. Aqui tem o meu cartão com os números de telefone e o endereço de correio
eletrónico. Esteja à vontade para me contactar se algo lhe ocorrer. Amanhã,
pelas 14 horas gostaria de a receber, e comentar os dados do questionário que
lhe entreguei. Esperarei por si. Entretanto deixe-me por favor um cartão com o
nome e endereço.
Acompanhou a cliente à porta, despediu-se com um aperto
de mão que lhe pareceu algo estranho. Os olhos de Maria Clara estavam
brilhantes e ele sentiu um fluxo de sangue que lhe percorreu as veias. Foi o
início do caminho que, no fim o deixou ferido.
Nascera e fora
criado no Bairro de Campo de Ourique e com a morte dos Pais ficara com a casa
que agora ocupara depois da zanga com Filomena. Foi a pé percorrendo a rua que
não bem conhecia. Pouca gente, o Bairro tinha uma população envelhecida que se
resguardava da noite. Caminhava lembrando os cafés que já não existiam, as
lojas entretanto fechadas, o jardim sem jovens. Conhecia a noite na cidade, mas
a outra noite, a dos perigos, dos desencontros, da miséria e do abandono. Mas
agora no silêncio das ruas que ia percorrendo até casa, sentia uma nova noite,
tão calma que lhe apetecia abraçar. A casa era confortável mas tão vazia que se
tornava fria. Faltava calor humano. Olhou para trás e lembrou.
“Apenas
por orgulho, não fora capaz de reconhecer o equívoco, que a sua vaidade
masculina alimentara, que mais não fora que uma relação platónica mal
resolvida. Não dera qualquer explicação quanto Filomena o confrontou e pior,
sentira-se o ofendido. Cometera o primeiro erro, reconhecia. Afinal teria sido
fácil justificar que fora um momento platónico, mas não foi capaz. Arrumara
meia dúzia de objetos pessoais, enchera uma mala de roupa, empacotou a papelada
solta e saiu de casa, instalando-se no apartamento onde agora estava. Na realidade
confiava que a sua situação, fruto de uma birra, em breve voltaria à
normalidade. Acreditara nisso, mas não dera o primeiro passo. Filomena não
tardaria a telefonar para o convidar a regressar, foi a ideia que sempre
dominou os dias tristes. Cometera um segundo erro. Filomena não fez o gesto que
ele esperava.
Para sua
surpresa, a mulher, que exercia advocacia num escritório de prestígio, decidira
também, abandonar a casa comum e ir viver para casa dos Pais. Ele não tinha
família próxima. Ficou só. Abdicou um pouco do seu orgulho e conseguiu que a
mulher se encontrasse com ele, ocasionalmente, mas nunca manifestando o desejo,
verdadeiro, de reatar a vida em comum. Nos encontros esporádicos, falavam como
dois amigos, evitando o que os separara. Julgara que pouco a pouco, a situação
iria ficar esquecida. Todavia, subestimara o carácter da mulher. O que mais lhe
custava era que ele amava Filomena e sentia-lhe a falta, mas teimava em não o confessar
e era demasiado orgulhoso para pedir perdão. Quando Filomena, a meio de uma
conversa inócua, e perante o enfado com que ele a ouvia falar do seu trabalho,
lhe perguntou, num repente, se ele queria o divórcio, estremeceu e respondeu
negativamente. Mas aquela simples pergunta, causara-lhe um estranho mal-estar.
Ela já teria outra relação, concluíra roído de ciúmes.”
Optou
por fumar mais um cigarro, abrindo a janela da sala para deixar entrar a aragem
fresca que se sentia. Mas a dor de cabeça não desapareceu. Nos primeiros
momentos da sua nova situação, António Pedro confortara-se, pensando nas
vantagens que poderia obter, sendo um homem liberto de compromissos. Queria
viajar por África, mas Filomena era muito citadina e dissera sempre não,
optando pela Itália a França e, sobretudo Nova Iorque. Agora só e sem nada que
o impedisse, teria a oportunidade de cumprir esse sonho, mas o desejo depressa
seria esquecido na preguiça e na desilusão de cada dia que passava. Ao deixar
um trabalho muito intenso e absorvente, teria tempo para escrever as memórias e
ler os livros que se amontoavam no escritório. Rejubilava com isso, contudo
nada fizera.
A
separação fora um erro. Ele sofria mais quando encontrava a Mulher e a via mais
alegre. Ela sempre se cuidara e tinha muito gosto na forma com que se vestia. E
continuava assim. Ele, por sua vez, apesar de vaidoso, sempre escondera esse
sentimento, aparentando distância e indiferença, algum charme discreto,
alimentando assim os olhares cheios de promessas das mulheres que conhecera.
Por ironia os colegas entendiam que esse comportamento era uma estratégia de um
homem tímido e inseguro. E sabiam o que diziam. Todavia agora perdera o encanto
que lhe reconheciam e até começou a descuidar a sua apresentação. Nada
aconteceu como previra. Menos de 6 meses depois da reforma, já estava cansado.
Os dias custavam a passar e começou a ficar sentado em frente da TV, sonolento,
e dia a dia mais alheio do mundo. Dera voltas à cabeça, para encontrar qualquer
coisa, que lhe ocupasse o tempo. Era egocêntrico bastante, para pensar que tudo
se devia concentrar à sua volta. Em consequência, qualquer atividade que
implicasse partilha ou supervisão dera sempre mau resultado. Os outros não o
compreendiam nem aceitavam a sua, por vezes, irritante impertinência.
Sentira-se
frustrado e incompreendido, e concluíra que o que quisesse fazer teria de ser
sozinho. Só não sabia era o quê.
Assustou-se,
passeava no Castelo quando um antigo colega lhe pousou a mão das costas e
disse:
- António,
estás a cumprir alguma pena? Olha-te ao espelho, recomeça a viver. Estás tão
triste e nem reparas na beleza do rio iluminado pela estrela da tarde. Acorda
companheiro!
A decisão, na realidade a única decisão que fora capaz de
tomar desde que saíra da Polícia e de casa, não fora um caminho de rutura. Nada
fora fácil, em tudo errara ou desistira. O caminho não o fez, retomou-o, ainda
que com algumas cambiantes. O vírus estava lá, todas as suas qualidades e
defeitos se mantiveram. António Pedro voltara ao rebanho. E de tal modo que,
quando a Administração do condomínio, lhe sugerira, a conveniência de colocar
na placa de entrada do edifício, o nome e a atividade, decidiu indicar,
simplesmente, o que sempre fora:
António
P. Castro – Investigador
Demorou algum tempo a arrumar as estantes com os livros
que lhe interessavam, contou à ex-mulher e alguns amigos o que tinha decidido
fazer e ficou esperando o seu primeiro cliente.
Era o entardecer de
um dia de fim de Verão e o sol que se escondia por entre as nuvens dispersas,
perdia luz e calor. António Pedro acabara de entrar no gabinete, recentemente
alugado, num edifício de escritórios nas Amoreiras. Ficou fascinado com a
paisagem que se lhe oferecia, sentindo um agradável torpor que se acalmava os
sentidos. Como era belo o entardecer e o lento cair da noite.
Foi
buscar uma cadeira e um cinzeiro, sentou-se em frente da janela que abriu, para
beber o ar da noite pura e serena enquanto saboreava um cigarro, enviando o
fumo em círculos que se diluíam no ar. Entrara agitado no seu gabinete. Tinha
sido um dia a correr de um lado para o outro, juntando os papéis que queria
levar, os livros que sempre o acompanhavam e escolhendo o computador mais
adequado ao seu trabalho. Agora estava tranquilo. Olhava para o seu novo
espaço, era uma nova vida que estava começando, cheio de esperança e ao mesmo
tempo com a angústia de perceber que a sua vida se modificara e num período
muito curto. Primeiro o seu trabalho e depois o seu casamento. Mas a vida é
assim, nada é eterno tudo é passageiro, concluiu enquanto apagava o cigarro.
Perdeu-se na noite calma e serena onde nada acontecia. Mas com ele ficaram as
recordações. Abriu o computador, olhou de relance para o correio eletrónico,
mas nada havia de interessante. Não admira, pensou ele, apenas falei a um reduzido
grupo de amigos, comunicando o meu novo caminho.
“Até ele
mesmo se surpreendeu, quando com 54 anos de idade decidira abandonar o cargo de
Inspetor da Polícia Judiciária. Tinha sido uma decisão repentina, motivada por
algum cansaço e pelas mazelas que uma longa e difícil investigação, que lhe
ocupara mais de dois anos de trabalho e dedicação exclusiva, perseguindo o
autor de alguns crimes hediondos. Conseguira mas nunca mais fora o mesmo. O seu
perfil psicológico ficara afetado porque em vez do raciocínio frio e analítico
passara a deixar-se levar pelo ódio e pela revolta. Ficara cansado e escolhera
outro caminho. Esta alteração de personalidade afetara, também, a relação
conjugal. A mulher, Filomena, tinha sido sempre o suporte e o amparo nos
momentos difíceis, mas um pequeno incidente havia minado a confiança. Encontrara
por acaso, no bolso do casaco que António pendurara no cabide do quarto, uma
carta redigida em termos apaixonados. Quando lhe mostrara a carta e lhe pedira
explicações, ele incomodado, respondeu ter sido uma paixão não correspondida,
duma antiga colega de Universidade, um relacionalmente que terminara antes do
casamento. Filomena, nada dissera, mas mostrara-lhe a data, um mês atrás.
“ Nunca
pensei que me andasses a trair, disse ela, e esta carta não terá sido a única.
Imagino o seu conteúdo, de certeza que a tua amante é a colega que te
acompanhou nas últimas investigações que foste fazer ao Porto. Investigações,
digo eu, talvez eu tenha sido a única pessoa que acreditou. Os teus colegas e
amigos certamente sabiam mas, como sempre, funcionou a regra de segredo que vocês,
os homens, gostam de cultivar. Parva que eu fui!”
António Pedro despertou quando o relógio de parede
anunciou a meia-noite. Estava tão perdido nos seus pensamentos e nem se
apercebera como o tempo passara. Sacudiu as memórias, sentiu pela primeira vez
o frio da noite e a angústia de regressar a uma casa vazia.