CAPÍTULO – IX – PARIS
Como não conseguia dormir, desceu e saiu para rua. Já não chovia, foi andando sem destino. Quando reparou que tinha chegado à rotunda da Concórdia, apercebeu-se que tinha descido os Campos Elísios. Já estava cansado, não teve coragem para subir a Avenida, tomou um táxi e regressou ao hotel.
Continuou o trabalho, já sem a mesma alegria e boa disposição. Esteve a trabalhar até tarde. Como só lhe faltava redigir o relatório, e completar alguns pequenos pormenores, que faria na sexta-feira, tentou alterar a data de regresso. Pretendia o último voo de Paris para Lisboa, mas resultado. O avião estava lotado.
Ainda não tivera coragem de ver o correio electrónico. Receava não ter tido uma resposta ao seu mail para Maria Teresa, mas antes de sair para jantar resolveu abrir. Desilusão, não tinha recebido resposta.
Quando da recepção pediu a chave do quarto foi-lhe entregue um envelope com o timbre da Casa Dior, com o seu nome escrito à mão.
Abriu, e encontrou um convite, personalizado, para um cocktail oferecido pela casa Dior, às 20 horas de sexta-feira, no Café le Pavillion, e indicava o respectivo endereço. Assinava, "Muriel Devernois, Rélations Publiques."
Olhou e remirou o convite e não teve dúvidas que o seu nome teria de ter sido indicado por Maria Teresa. Só não sabia, se tinha antes ou depois de ser ter zangado.
Sexta-feira, terminou o trabalho no Banco. Despediu-se dos colegas e foi para o hotel completar o relatório.
Apercebeu-se que tinha demorado mais tempo do que inicialmente havia previsto, porque ao fechar o computador, reparou que já eram 20 horas. Hesitou entre aproveitar o convite ou ficar a descansar. Já estava farto de permanecer fechado no quarto e ir todos os dias comer ao mesmo restaurante, a mesma comida sem sabor, pelo decidiu ir espreitar o local. Depois, logo decido.
Foi de táxi, e antes de mostrar o convite, estudou o tipo de pessoas que via entrar. Uma série de jovens, altas e magras, devem ser os modelos, pensou, vestidas com alguma extravagância. Homens jovens, calculou serem também modelos, de físico e indumentaria semelhantes.
Ah, isto não é para mim e ia voltar as costas, quando verificou que muitos dos convidados, que iam entrando, vestiam com elegância mas sem cerimónia. Assim não me sentirei um intruso e por isso vou entrar.
Da bandeja que o criado lhe apresentou logo à entrada, escolheu beber uma taça de champagne e com ela na mão, foi percorrendo o salão principal, já bastante cheio de grupos ruidosos, que evitou, acabando por encontrar um recanto com um confortável sofá de dois lugares e sem ninguém por perto. Sentou-se, pousou a taça na mesa de apoio e espreitou a assistência.
Com um ar propositadamente convidativo, sentou-se a seu lado, uma senhora carregada de adereços e camadas de cosmética , dizendo : -Monsieur, est que je pouvait arrête mon champagne avec toi? Fingiu que não percebia francês e bocejou. Foi o suficiente, a senhora que acabara de se sentar, olhou-o com desdém, levantou-se e foi procurar companhia noutro lado. Respirou fundo. Desta estou livre. Com tanta mulher bonita que aqui se encontra só a matrona deu por mim.
Foi dar uma volta pelo salão, circulou entre os grupos de pessoas que se tinham formado, olhando com atenção, na esperança de ver Maria Teresa. Andava entretido a passear quando as luzes foram reduzidas e o dj colocou a tocar música de dança, começando com um tango.
Paulo adorava dançar o tango clássico e tinha-se na conta de um excelente dançarino.
Sentiu um toque no ombro e uma voz feminina que lhe murmura: “Voulez vous danser avec moi? Oui, avec plaisir,” respondeu. A mulher que o abordara era bonita, rosto sardento, cabelo ruivo, alta e elegante. Ao enlaça-la para dançar aspirou o odor do perfume inebriante. Dançavam bem e, naturalmente os corpos foram-se moldando colados de uma forma desafiante. Ela segredou-lhe ao ouvido, num sussurro “ Je m’apelle Natalie et vous? Moi, je suis Paulo. Paulo, c’est un nom Portugais, vrai ? Oui je suis de Lisbonne. »
« Oh, j’adore votre pays et je pense que les hommes sont vraiment audaces. Vous aussi ? - Moi? Je ne sais pas. Mais je peux vous dire que danser avec toi, c’est en plaisir étonnant »
A música mudou, para um ritmo que lhe não agradava e sugeriu fossem conversar e tomar mais uma bebida. Natalie acenou que sim, pegou-lhe na mão e conduziu-o a uma outra sala mais pequena e confortável onde se sentaram juntos.” Ici c’est bien, on peut bavarder un petit peut et décider quoi faire »
Cruzaram os braços com uma taça de champagne na mão e beberam, aproximando a boca.
O beijo foi prolongado e húmido. A respiração tornou-se ofegante e acariciaram-se com a volúpia do desejo.
Ao ouvido, Natalie murmura entre pequenos beijos: « Je veux faire de l’amour avec toi. Cette nuit nous appartient et je te promis d’aller jusqu'à la fin du monde. »
Mois aussi, et mon hôtel nés pas lois de ici.
C’est bien, pour ton hôtel. Paulo n’oublie pas d’acheter une bouteille de champagne, et vérifier si vous avez disponible le montant ou s’il faut aller a la caisse.
“Mais, l’hôtel est dejá reglé, pourquoi l’argent”, perguntou Paulo com cara de caso.
Pourquoi ? Parce qu’il faut me payer chéri, et le montant, pour une nuit c’est de mille euros ».
Paulo olhou para ela com surpresa. Só me faltava mais esta, pensou. És mesmo um ingénuo, julgavas que em meia hora conquistavas uma bela mulher, só com meia dúzia de palavras e já estarias na cama com ela. Ora toma lá, se a quiseres larga mil euros.
Virou-lhe as costas, caminhou na direcção da saída e nem quis perceber os insultos com que ela o tratava. Ia tão desaustinado, não via nada à sua frente e chocou com uma mulher que conversava em grupo, fazendo-a tropeçar e entornar o copo com a bebida. Apressava-se a ajudar a senhora a levantar-se, quando reparou que se tratava de Maria Teresa. Se houvesse perto um buraco, ter-se-ia atirado para dentro. Assim ficou imóvel e sem saber o que dizer. Maria Teresa, pegou-lhe no braço, afastou-se uns metros e começou a rir, com o riso cristalino, que ele já lhe conhecia.
Paulo, que pena este nosso encontro não ter sido filmado, para mais tarde recordar. Não faça essa cara, imagino o que sucedeu e não lhe vou pedir que conte. Guarde para si, não diga a ninguém, mas não se esqueça que está em Paris. Não foi o primeiro nem será o último a deixar-se seduzir por uma mulher. Vá lá, não fique corado e não se vá embora. Faça um pouco de companhia. Eu já perdoei o mal entendido, e gostaria que entre nós ficasse uma simpática recordação.Tenho a certeza que tão depressa não vai esquecer esta aventura.
Desculpe Maria Teresa, eu prefiro sair e ir beber um copo para esquecer o meu orgulho ferido. Volto amanhã para Lisboa e a vida continua.
Está bem, Paulo.Não se esqueça de que a vida continua mas que o caminho o fazemos nós e ele será o que escolher-mos. Pense no futuro com optimismo, não culpe ninguém, nem a si mesmo.
FIM