sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

UM HOMEM DE RESPEITO




6 – O GOLPE

Após a visita ao apartamento do novo inquilino, depois de ouvir as explicações que ele lhe deu, a Dona Felicidade, entrou sorrateiramente em casa, para que o marido não lhe fizesse perguntas incómodas. Como continuasse grudado no ecrã da televisão, o marido apenas lhe perguntou sobre a hora do jantar.
Está descansado, vou só pôr a mesa. Daqui a dez minutos já está a matar a fome, respondeu a mulher.
Como o marido saiu para beber um café e conversar com o grupo de amigos do costume, regressou a casa, bem disposto e não falou no assunto.
Contrariamente ao que fazia, a porteira evitava cruzar-se com o inquilino. Todavia, algum tempo depois da conversa, deu pela entrada de dois homens, com fato de ganga e que carregavam duas malas. Deduziu que eram dois operários para montar a tal antena e ficou descansada. Afinal, pensou, o Doutor está a terminar o seu estúdio para vigiar os terroristas e eu acredito que ele vai conseguir deitar as mãos a estes celerados, antes que possam pôr uma bomba em qualquer sítio.
Pouco a pouco a confusão que se instalara na sua cabeça, ia ficando mais clara. Deixou de sentir algum constrangimento sempre que encontrava o Doutor e tudo voltara a ser como dantes.
Até se sentia uma pessoa importante, para o êxito da operação de segurança. Não só soubera guardar segredo como até vigiava o movimento de pessoas estranho ao prédio.
O Doutor, tinha tanta confiança nela, que a avisara de que os operários que tinham estado a montar a antena, não tinham feito um bom trabalho e por isso teriam de voltar até que tudo estivesse operacional.
Sabe D. Felicidade, a montagem e a orientação da antena é muito importante, tem que captar os sinais do satélite e isso só pode ser feito de noite. A senhora não estranhe se na próxima sexta-feira os dois técnicos entrem ao fim do dia e se tudo correr bem só no sábado ou no domingo acabaremos a ligação do computador com o satélite. Eu prometo que ninguém vai ouvir barulho ou será incomodado.
Eu ficarei a coordenar os trabalhos, mas no domingo à noite terei de viajar para o estrangeiro. Antes de sair deixo a chave do meu apartamento e a do terraço na sua caixa de correio. Façam-me o favor de as guardar até eu voltar.
Sem favor, o senhor pode contar comigo.
A fim de semana passou numa ápice. A Dona Felicidade abriu a caixa do correio e, como prometido, encontrou um envelope com as chaves. Guardou-o numa gaveta e descansou.
Ia a entrar no café ao encontro das amigas, quando se deu conta de um cordão de pessoas que, por cima dos ombros dos polícias, tentavam ver o que se teria passado.
Foi a D. Albertina que lhe contou as novidades:
- Sabe D. Felicidade que durante o fim-de-semana s gatunos assaltaram a agência bancária e uma ourivesaria que ficam no prédio ao lado daquele novo que estão a construir, mesmo ao lado do seu.
A Dona Felicidade sentiu as mãos suadas mas não disse nada.
Há uns minutos um polícia, contava aqui no café, que os larápios tinham sido muito habilidosos. Teriam entrado no prédio em construção, cavaram um buraco numa das paredes e entraram da ourivesaria e do Banco. Foi uma limpeza, concluiu a Dona Albertina.
Tremendo e ansiosa a Dona Felicidade foi a casa, pegou as chaves que o Doutor lhe deixara e subiu ao andar. Abriu a porta, os poucos móveis que tinha visto ainda lá se encontravam, os papéis tinham desaparecido e só viu um computador e uma série de caixas espalhadas. Foi ao terraço e da antena nem rastro.
As lágrimas correram pela face. Havia sido enganada por um senhor bem-falante.
Desceu para chamar a polícia, sem antes murmurar " O inquilino parecia ser um homem de respeito".

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