sábado, 27 de julho de 2013

VIAGENS AO MUNDO DOS SONHOS


2 – VINTE ANOS

 

Do lugar da sala, onde agora de acoitara, tinha mais tempo para relembrar coisas que com o tempo acabara por esquecer. A aparelhagem de som, com leitores de cassetes áudio, de CD, rádio e sobretudo leitor de discos de vinil, sobressaía, desligada a um canto da sala. Perdera para as modernas tecnologias mas nem sempre fora uma luta justa. Lembrava o prazer que lhe dera ouvir com o som mais puro do vinil, as canções de Cat Stevens, Lou Reed, Neil Diamond, Chico Buarque e Maria Bethânia, Leo Ferré, e tantos mais discos que agora repousam ao lado da aparelhagem.

Vinte anos passados desde que escolheram viverem na casa que os enfeitiçara.

Mas como é que tudo começara?

Uma casa grande e diferente fora a razão principal. Da janela podiam avistar uma paisagem que por entre campos terminava no lugar onde a margem esquerda do Tejo abraçava o mar.

Pura ilusão. As promessas dos construtores as garantias da Câmara sobre a urbanização do espaço que estava livre depressa se alteraram. Da construção de três ou quatro lotes, com dois pisos acima do solo, para uma revisão para quatro e acabando em sete, sete pisos, que foram construídos a todo o vapor não fosse algum dos inquilinos entaipados pelos monstros, recorrer à Justiça.

Mas como ele sabia, a Justiça não era credível, não era o caminho. E sabia bem que uma doença endémica, um vírus que se propagava através de envelopes e malas com dinheiro acabado de lavar, havia contaminado um País em que tudo era possível desde que se pagasse a quem tinha poder.

Burro murmurava para si, enquanto se aproximava da janela e olhou mais uma vez para as promessas em que acreditara. Ali estava o resultado, e a revolta, a dor era maior pois ele sabia que a tal doença larvar, havia crescido nos departamentos das Câmaras e se havia propagado aos grandes negócios, aos grandes contratos. E o Povo limitou-se a assistir ao enriquecimento de tantos.

Mas na verdade não existe corrupção neste País. Que se saiba apenas o Vale e Azevedo foi criminalizado enquanto o perseguido Isaltino acabou por ter que passar alguns meses na prisão mais confortável, enquanto aguarda a oportunidade de voltar à Câmara, apenas para trabalhar a favor do bem comum.

Mas favores pagam favores, em dinheiro, em autorizações partilhadas, em votos, tudo é transacionável. E olhando para a minha rua essa pequena troca é evidente.

 Numa nesga de terreno que sobrava do terreno inicialmente livre, apareceu mais um lote, tipo caixote, candidato a um merecido prémio de arquitetura saloia, com autorização para a construção com dois andares acima do solo. Mas, com jeito e como um favor que tereia que ser pago, alguém autorizou a habilidade. Sim, os dois pisos aprovados mas com a altura de três. O terceiro passou a ser interior, disfarçado por paredes de vidro à prova de luz exterior e que servem para enganar o mais distraído.

 Um dos espaços do novo caixote é sede de um movimento, dito independente, constituído por autarcas da mesma Câmara, que não tendo sido escolhidos pela agência de emprego, vulgarmente chamada de Partido ou PSD, tentam voltar ao lugar que por direito lhes pertenceria. Afinal para quem servem os amigos?

Voltou ao sofá e deixou-se invadir por um estranho torpor. Despertou com a sensação de que alguém ligara o projetor imaginário e que na janela mágica via cenas de um filme que recordava ter visto nos finais dos anos cinquenta. Filme a preto e branco, o título escolhido pela distribuidora em Portugal fora Corrupção. Do filme guardara o tema, a direção de um dos seus realizadores preferidos, Fritz Lang, e os socos tão cheios de raiva que o Actor Glenn Ford, fez ficar na história do cinema como um dos momentos mais altos da sua vasta carreira.

E foi como se o som do soco do Glenn Ford o despertasse da letargia em que mergulhara. Nos anos cinquenta não havia corrupção em Portugal, era assunto proibido pelo fascismo, e para compreender a doença era preciso que o cinema nos informasse. E ele começara a lição vendo “The Big Heat”.

Entretanto mais desperto ouviu na Televisão alguém falar sobre o assunto da moda. Já não era o BPN, isto está esquecido, nem o BPP, pouco importante, nem as comissões com as PPP que tocaram a toda a gente. Não agora falava-se de “swaps”.

 Teve um momento de esperança. Quem sabe podia contratar um produto derivado no género e passar a viver longe, noutro País livre do vírus que o atormentava. Um País em que a corrupção fosse um crime e os corruptos e corruptores estivessem na prisão. Difícil? Só se for um “swap” tóxico.

Ai, eu que comecei nas recordações e acabei falando de política. Sai um soco para mim.

 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

VIAGENS AO MUNDO DOS SONHOS


1 – A janela mágica

 

Foi um gesto sem explicação que ao entrar na sala grande, o levara a escolher outro lugar. Deixara o cadeirão do costume, onde se habituara a ler o jornal, olhar a televisão e esquecer os sonhos. Era o seu lugar de conforto, protegido por livros que queria reler e DVD de séries de culto que revia uma e outra vez.

Mas foi naquele dia de um princípio de verão algo tímido, onde o sol teimava em se esconder nas nuvens que passavam no horizonte, um dia sombrio e triste, que trocara de lugar e, sem saber porquê, se sentara num sofá virado para a janela.

Estava cansado, desanimado e vencido. Fechou os olhos, e sentiu que a aquela sala mudara. Ou fora ele que pela primeira vez a olhara com outros olhos? Algo o havia conduzido àquele sofá onde se sentou pela primeira vez depois de tantos anos.

De repente reabriu os olhos e ficou com eles fixados na janela. Afinal, apenas conseguia ver a copa de algumas árvores que baloiçavam ao sabor do vento, as nuvens que se dirigiam, apressadas para sul. Pouca coisa afinal, mas voltou a olhar mais longe, e esbarrou com os blocos de apartamentos do outro lado da avenida, belos exemplares da arquitetura nacional, idealizada por construtores civis e aprovada pelos técnicos Camarários a troco dos envelopes do costume, e que conseguiram destruir uma parte da cidade e dar corpo às cidades dormitórios da periferia, onde tudo ficara igualmente feio.

Fixou-se com mais atenção dos estendais de roupa que adornavam os apartamentos. Sim nas janelas e varandas não vira flores, apenas roupa estendida secando ao sol. Era um espetáculo pouco atraente que não justificava, sequer, um olhar. Todavia, naquele dia, por entre as nuvens fixou-se num estendal quase vazio. Nele só viu uma peça de roupa feminina, um vestido vermelho, assim lhe parecia, e que esvoaçava ao vento desafiando na outra extremidade umas calças de homem que lutavam para se libertarem e irem ao encontro do desafio mas, de tal modo estavam presas que se não conseguiam soltar.

De olhos fechados imaginou aquele bailado feito de promessas e de desejo que o vento dirigia. Era como se visse num espelho mágico um momento de paixão. Uma mulher atraente que com o seu vestido vermelho, prometia amor e logo fugia para desespero do homem que se não conseguia libertar.

 

Fora um momento belo que o abrir dos olhos depressa destruiria. Afinal fora apenas um breve sonho que se desvanecera.

NOVO CAPÍTULO


O meu amigo John Doe regressou.


Talvez sem a força de que em alguns momentos mostrara mas com uma sensibilidade mais apurada. Coisas que a vida nos ensina.


Fiz algumas  alterações, designadamente quando aos blogues que vou seguindo. E falando de sensibilidade e de sonhos nada mais me ocorreu que procurar na sétima arte a inspiração que me faltava. Fui atraído pelo “site” que recomendo: À Pala de Walsh. Um grupo de jovens entusiastas, cultos e sabedores  que me ensinaram a rever cinema.


E o cinema, a arte que tem andado tão perdida nas salas de espetáculo foi o tema que escolhi para procurar contar as histórias que, olhando o mundo através de uma janela e a mim mesmo através do espelho, fui escrevendo e guardando na memória.


Quem sabe, talvez consiga recordar.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

O PREÇO DO SUCESSO


PAUSA

A meio de uma história que começou mal e ameaçava terminar sem graça ou interesse, o seu fim é previsível, decidi suspender temporariamente a publicação neste blog.

Quando em Outubro de 2010 comecei a dar corpo ao projeto, que com altos e baixos, mais baixos do que altos para ser franco, inspirei-me numa imagem refletida num espelho e que escolhi como o outro eu, aquele sonhador que sempre escondera no caminho da vida.

Estava velho o meu outro eu, quase não o reconheci, e esse facto inspirou-me o título do blog. Afinal o meu outro eu não era mais do que um qualquer John Doe.

Mas este encontro deu-me forças para criar algumas dos melhores historias de que fui capaz. Escrevi sem rascunhos, com erros inaceitáveis mas com muita paixão. Percebera que tinha pressa em escrever aproveitando o impulso tão forte que me roubava até o discernimento.

Foram mais de quatrocentos escritos e pude contabilizar mais de dez mil visualizações de páginas. A esses leitores interessados ou simplesmente forçados, mais de cinquenta por cento Portugueses, mas por surpresa, um quarto deles visualizaram dos Estados Unidos e os outros de países, tão distantes que não vou referir, a todos quero agradecer.

Mas, a vida reserva-nos surpresas. Um dia perdi-me e procurei apoio no meu amigo John Doe. Voltei ao espelho cheio de esperança mas a imagem que encontrei não era mais a daquele sonhador. Encontrei um velho de olhar triste, sem chama. Reconheci com pena que o espelho me mostrava a realidade.

Mas luto para que talvez este velho reganhe o prazer de escrever, de contar histórias. E por isso desejo que a pausa não seja mais do que um intervalo!

Espero que breve.

Porque apesar das penas e de uma lágrima que não escondo, não quero desistir
 
 
And I wish  “never say goodbye”




O vosso e meu amigo John Doe, aliás J. Barreto Lameira.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

O PREÇO SO SUCESSO


EM LISBOA

Perdera-se nos corredores do Aeroporto, escala no seu regresso a casa. Regresso a casa, que ironia, casa ele nunca tivera. Na realidade ter casa ignificava ter um espaço onde sentisse o carinho de uma família com amor abençoado com risos de criança. Nada disso tivera. Apesar do dinheiro, dos frequentes encontros amorosos, das promessas de amor que duravam apenas alguns meses, nunca sentira estar em casa, na sua casa. E não poderia ser de outra forma porque sempre esquecera os compromissos. Outros valores tinham sido sempre prioritários e o principal fora a sua ascensão no mercado financeiro.

Encontrou a sala vip, serviu-se de mais uma bebida, olhou para o relógio. Nem queria acreditar, depois de mais de doze horas de viajem tinha agora pela frente uma espera de oito horas. Perguntava-se como havia programado um itinerário tão apertado e que o estava a consumir mas a resposta ele receava. Fora um pressentimento de que o mundo das finanças estaria à beira de um colapso, tantos erros que a ganância e o desregulamento do mercado bancário haviam propiciado. 

No vasto salão, cheio de passageiros em espera, conseguiu encontrar um espaço para descansar e delinear uma estratégia de modo a prevenir uma temida derrocada dos mercados, que adivinhava próxima, muito dolorosa e difícil de controlar. Não arriscou esperar mais tempo. Ligou o laptop, começou a percorrer os ativos que o seu fundo geria e foi transmitindo ordens de venda, sem agressividade mas dando prioridade à venda de contratos derivados baseados em fundos imobiliários. Tinha seis corretores a trabalhar na sua Empresa mas a gestão do risco ficara sempre a seu cargo. Os corredores receberam instruções para vender os produtos em carteira que indicou, mas não a qualquer preço pois o mercado estaria atento e a bolha especulativa poderia rebentar.

Esteve mais de duas horas a acompanhar a abertura da bolsa em Wall Street, apercebeu-se de alguma oscilação nas cotações dos títulos mais expostos, mas nada que não fosse previsível. O seu Fundo estava a vender sem grandes efeito nas cotações, sinal que o trabalho estava a ser feito como ele ordenara. Esteve atento até ao encerramento da bolsa em Nova Iorque.

Descansou e olhando para o placard reparou que o próximo voo tinha como destino Lisboa. Aqui tão perto, porque não aproveitar e relembrar a Lisboa a cidade que tanta influência tivera na sua vida?

Já não visitava o País há mais de dez anos, fora umas viajem dolorosa e que procurara esquecer. Viera para o funeral do Pai mas encontrou a Mãe que o recebeu como um desconhecido. Nem um sorriso, um beijo ou abraço sequer. Apenas um aperto de mão cerimonioso com que recebia todos os amigos.

Ficou dois dias em Lisboa, instalado num hotel, já que a Mãe lhe deu a entender que ele, o filho ingrato, não tinha lugar no apartamento de Lisboa.

Ferido com a indiferença, que aliás já esperava, foi surpreendido com um contacto de um escritório de advocacia, sugerindo uma reunião para tomar conhecimento dos termos do testamento do Pai e decidir sobre a sua parte. Não respondeu e antes de regressar a Nova Iorque, procurou a Mãe apenas para lhe dizer que ele, Ricardo, prescindia dos seus direitos e assinou em termo de renúncia á sua parte da herança. Deixou o documento das mãos da Tia, a Mãe mandara dizer que estava indisposta e cumprida esta formalidade embarcou de regresso à América.

A tia continuava a ser a sua única ligação à família. Escreviam-se e foi por ela que soube que a Mãe havia constituído uma sociedade para exploração do negócio, de cuja direção se afastara, reservando apenas uma quota-parte de 10%.

Ricardo tomou a decisão de relembrar a velha cidade. Era um pequeno desvio mas sentia a nostalgia que tinha perdido quando se aventurou em outros destinos, onde não havia espaço para a saudade e para a nostalgia. Tivera sucesso e as memórias perdidas fizeram parte do preço que pagara.

E de repente lembrou aquele dia triste dum manhã de Dezembro em que percorreu o Aeroporto de Lisboa aguardando a hora de embarcar para o seu destino. Estava só, nem um amigo lhe fizera companhia. Lembrou o medo que sentira, era uma aventura o que o esperava, mais medo porque sentia que só com ele poderia contar. Na mão o bilhete e o passaporte com o visto e a certidão de que fora admitido a uma pós graduação na Universidade de Columbia. Eram o seu tesouro, a porta que se abria para um futuro que idealizara mas que agora, da solidão do Aeroporto também temia.

Talvez se tivesse precipitado. A recusa da Mãe até a compreendia mas o aperto que sentia no peito tinha um nome, Mariana.

 E como naquela manhã chuvosa e fria do mês de Dezembro, também hoje, tanto tempo decorrido, deixou que uma lágrima se soltasse.

 

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O PREÇO DO SUCESSO


O DESTINO

Ricardo desembarcara em Lisboa cheio de esperança. Acreditava que o conhecimento seria uma partilha entre os livros, tantos eram, e as opiniões e o saber dos professores. E teve uma primeira desilusão.

O curso era fundamentalmente ou quase exclusivamente alicerçado em muitas horas de estudo, lendo e relendo os livros que já haviam ensinado gerações.

 E para sua grande surpresa aprendeu que o curso era uma tremenda competição. Sinal dos tempos, recordava agora Ricardo, a camaradagem era um luxo que nem todos praticavam, pois quase todos olhavam para o curso como a porta de entrada de um Banco, uma seguradora, talvez uma grande Empresa e viam em cada colega um possível concorrente.

Ricardo lembrava os trabalhadores estudantes, aqueles mais fechados e isolados do mundo. O curso era para eles era um degrau no caminho profissional que havia escolhido. Sem paixão, raramente tinham dúvidas, a palavra do professor e as teorias económicas aprendidas nos livros eram sagradas. Nunca se atreveriam a por em causa os ensinamentos mesmo aqueles sem grande ligação à realidade.

Havia os outros, meia dúzia de colegas que frequentavam o curso ou por engano ou por imposição da família. Foi com eles que Ricardo conseguiu estabelecer alguns laços de amizade. Afinal também ele frequentava o curso escolhido pela Mãe mas, na realidade ambicionava ir mais longe. A Economia não o atraía, mas por influência de um professor desalinhado, começou a olhar para o mundo do dinheiro. A parte financeira, com os sucessos reconhecidos e alguns erros nascidos pela imprudência, ganância e impreparação, eram o seu fascínio. Seria nesse meio que Ricardo almejava alcançar a glória, a riqueza o poder.

Entretanto e enquanto o curso ia decorrendo sem dificuldades, Ricardo ouvia com interesse os sonhos dos colegas com quem partilhava os momentos vividos fora da Faculdade. E lembrava-se do Alberto, o filósofo, do Luís Manuel apaixonado pela arquitetura, do Bernardo que vivia obcecado pela música e o José Maria cuja obsessão era um olhar, uma aventura, um sonho de amor com colegas que procurava em outras Faculdades.

Ele, porém era tímido e não conseguia entender os sorrisos, os olhares, os gestos das raparigas com que o grupo costumava conviver.

E foi o José Maria que o convidou para uma saída noturna para dançarem e beberem um copo. Ele tinha conhecido uma rapariga por quem se apaixonara mas ela, insistia que só aceitaria se uma amiga lhe fizesse companhia. Ricardo foi assim o pau-de-cabeleira a que o amigo recorreu.

E Ricardo perdeu-se de amores. Ele já tinha tido alguns namoros mais ou menos sérios mas conheceu Mariana e a todos esqueceu.

Mariana dos olhos negros, num rosto belo enfeitiçara Ricardo. Era finalista do curso de direito. Confessara que aquele era o caminho que sempre ambicionara e para o qual se havia sacrificado, trabalhando em parte time, num escritório de Advocacia. Os Pais deram-lhe a ajuda possível, eram camponeses do Alentejo profundo, sem meios de fortuna mas sempre dispostos a compartilhar o pouco que lhe restava. Mariana era filha única e o orgulho duma família unida.

As circunstâncias obrigaram Mariana a trabalhar e a estudar. Pouco tempo tinha para namorar. Aquela saída com a Odete, namorada do José Maria e a companhia de Ricardo fora uma partida que o destino lhe pregou. Ricardo fora o seu primeiro romance e Mariana acreditou no amor. E o amor cresceu e a paixão entre os dois jovens foi o caminho natural. Sem preconceitos, entregaram-se em longas noites de amor.

E num desses momentos, com a respiração ainda ofegante, Mariana segredou ao ouvido do seu companheiro que estaria grávida. Teriam assim o fruto do seu amor.

Ricardo estremeceu fitando os olhos de Mariana perguntou:

 E agora o que vamos fazer? Posso pedir à minha Mãe ajuda para um aborto. Concordas?

Mariana escondeu o rosto e ficou em silêncio sofrendo a desilusão que as palavras de Ricardo lhe haviam causado. Nunca imaginara tal frieza e ganhando forças respondeu:

- Ricardo esquece o que eu e disse. Foi apenas um atraso do meu ciclo e amanhã farei um teste que certamente dará negativo. Mas hoje estou cansada e peço-te para te ires embora. Tenho que terminar um trabalho.

Ricardo respirou fundo, de alívio e completou a rotura:

- Nem imaginas o susto que me pregaste. Eu gosto muito de ti, és a mulher da minha vida, mas ter um filho seria o fim dos meus sonhos. Eu nunca te disse, mas vou para Nova Iorque fazer uma pós graduação, assim convença a minha Mãe a dar-me o dinheiro. Não te esqueças de mim, eu vou voltar para ti, acredita.

Mariana não respondeu. Ricardo viu aberta a porta da rua, saiu e regressou ao quarto que a Mãe lhe havia alugado. Fez a mala e regressou a casa.

Foi uma viajem que o marcou para sempre. Contou à Mãe o seu desejo de estudar em Nova Iorque e a Mãe recusou, dizendo-lhe:

- Ricardo, fui clara quando te dei a oportunidade de ires estudar para Lisboa. Nunca te escondi que precisava que os teus conhecimentos me ajudassem a desenvolver os negócios da firma, que um dia será tua. Confesso estar cansada e nada mais fazer para ajudar o teu Pai, que continua a viver na lua, a terminar o seu sofrimento interior. Por isso volta, tira umas férias e depois de diplomado começas a trabalhar. Esta é a minha única proposta e nem aceito outra alternativa.

Ricardo ouviu a recusa sem pestanejar. De certa maneira já a temia. E ficou numa encruzilhada na vida. Hesitava em voltar aos braços de Mariana e seguir o caminho que a Mãe lhe tinha traçado ou esquecer tudo e arranjar dinheiro para custear os estudos em Nova Iorque.

Mas o destino escolheu por ele. Regressou em Lisboa, procurou Mariana e não a encontrou. No escritório onde ela trabalhava apenas lhe disseram que ela teria partido e não sabiam vivia ou não quiseram dar-lhe o endereço. Tentou a Faculdade mas sem sucesso. Reconheceu que das longas noites de amor, da paixão vivida nos seus limites apenas lhe restava um nome, Mariana.

Ficou aturdido sem saber o que fazer. Sabia que tinha dinheiro no Banco, doado pela Tia. Talvez fosse o suficiente para os Eua e, sem sequer pensar duas vezes apagou o nome da mulher que prometera amar para sempre.

Estava no início da década de noventa. Portugal vivia uma ilusão do ideal Europeu mas Ricardo bebia todos os ensinamentos que vinham da Améria das “Junks Bonds” e a saga do Michael Milken,  seu fundador, e do aluno e cliente Ivan Boesky, e imaginava-se a viver rodeado de oportunidades de enriquecer manuseando a arma mais poderosa, o dinheiro. Qual economia, o que vai contar é o poder do dinheiro, murmurava no seu subconsciente.

Finalmente conseguira adormecer. Acordou com o anúncio que o avião iria aterrar em Londres, escala do destino Nova Iorque.

Estava exausto. Nada comera durante as longas horas de voo, revivera emoções e desenganos mas no seu percurso pela vida faltavam ainda quase vinte anos e muitas feridas por sarar.

sábado, 13 de abril de 2013

O PREÇO DO SUCESSO


LISBOA

Ricardo tinha dezassete anos quando cheio de sonhos desembarcou em Lisboa. E a cidade tivera o sortilégio de lhe dar uma sensação de liberdade, que até aquela data nunca havia sentido.

Na verdade nascera numa pequena vila do Minho, frequentara um colégio particular que o Pai havia escolhido. Tinha feito sete anos de idade, numa data que nunca mais iria esquecer. Fora o tempo da revolução em marcha, dos exageros de uma sociedade oprimida, das greves, das transformações sociais. Tudo fora posto em causa e o medo invadiu as famílias tradicionais que sempre haviam beneficiado da protecção de um estado que entretanto se começara a desmoronar. Filho único de uma família tradicional da alta burguesia, o Pai decidira resguardar o jovem, escondendo as transformações que ameaçavam os privilégios duma sociedade na qual Ricardo teria de viver. A opção do colégio particular, que na verdade era um internato, o Pai optara por o desviar da cidade entregando-o aos cuidados duma irmã viúva que vivia numa quinta perdida nos confins do Minho.

E Ricardo aprendeu olhando as serras, imaginando o mundo para além das fronteiras. Era um prisioneiro da intolerância política e religiosa daqueles tempos conturbados.

O Pai recusou enfrentar os desafios, partilhar sequer o futuro da Empresa e ela foi-se afundando e faliu. E com a falência da fábrica que fora da família durante gerações, também o Pai se desmoronou.

E foi a Mãe que decidiu tomar o poder. O dinheiro não abundava mas Maria Teresa Guimarães era uma mulher que inspirava confiança aos credores, Bancos, aos operários e em três anos conseguiu reerguer a velha fábrica. Mas viu mais além, a fábrica precisava de se refundar em termos tecnológicos, produzir tecidos de qualidade.

Recorreu ao design, criou um produto novo que levou a certames internacionais. Foram anos de muito trabalho, muitos desafios, algumas desilusões, mas o caminho era aquele, havia que apostar nele e aprender de cada erro. E começou a ter sucesso.

A nova marca impusera-se pela qualidade. Não era um produto vulgar e Maria Teresa não transigia com os preços, assim como cumpria prazos de entrega. O esforço financeiro começava a ter retorno. O mercado aceitara os novos produtos. A inovação e o bom gosto eram imagens de marca.

Fora um período difícil mas Maria Teresa que havia passado da burguesia rica e ociosa, para uma empresária, esquecendo o passado e caminhando decidida para o futuro, não esqueceu o filho prisioneiro no colégio interno. E aos treze anos Ricardo saiu do colégio interno, edifício cercado por altos muros onde a solidão fora a sua constante companheira e regressou a casa.

A Mãe recebeu-o com estímulo e com exigência. Ricardo passaria a ser um jovem estudante duma escola pública, onde deveria também a recuperar os anos em que vivera fechado do mundo.

 Não lhe foi fácil. Ricardo era tímido, introvertido mas ganhara uma força interior que pouco a pouco lhe deu se impôs até nos contactos com os companheiros de escola. Afinal o padreco, como fora recebido, enfrentava os colegas e uma boa luta não o atemorizava. Depressa deixou de ser o menino rico e mimado para ser visto pelos colegas e colegas como um entre eles. E Ricardo depressa se fez líder.

 Era um bom aluno, com especial atração pelas matemáticas e isso iria ser o seu desafio que a Mãe incentivava, porque ambicionava ver a seu lado o filho, preparado e disponível para novos desafios. Ao jantar Ricardo pouco falava, mas ouvia atentamente as lições que a Mãe lhe dava. E não mais as esqueceu. Dizia ela, palavas que Ricardo ainda guardava, tantos anos depois ( O mundo é dos ousados e para se triunfar na vida é preciso muito saber, sorte também, mas parar é morrer um pouco. O teu Pai não seguiu esse caminho e como vês, morre lentamente.)

E foi ela que escolheu o curso mais adequado e a Universidade que o podia preparar. A universidade seria em Lisboa.

Pela primeira vez em dezassete anos de vida, Ricardo teve a oportunidade de sair da sua terra, longe dos amigos e dos prazeres que uma pequena cidade lhe poderia oferecer. Em Lisboa não tinha amigos nem conhecidos, a Mãe compreendeu que esse facto lhe iria abrir uma janela para o mundo e exigiria dele independência, responsabilidade e gosto pelos desafios. E para isso fixou-lhe uma verba para os seus gastos, alojamento, despesas correntes, pagamento das propinas. Mas exigira desde logo uma contrapartida. Ricardo seria livre mas o seu aproveitamento escolar teria que ter sempre alinhado com os mais capazes.

E foi assim que com pouca mais de dezassete anos, Ricardo viajou para Lisboa, onde nunca havia estado, fez novas amizades, abriu os olhos para o mundo imenso que o esperava e que ele começara desde logo a sonhar conquistar.

Fora educado num ambiente austero, com muito respeito mas sem carinho. E na cidade nova a primeira conquista foi o primeiro amor, que lhe deu tudo o que nunca tivera. Amor, paixão, companhia. Mas o mal já estava instalado no coração do jovem Ricardo. Era a ambição e a inquietude e o primeiro amor acabou por se perder no emaranhado em que a sua vida se veio a transformar.

 Fora ontem (?) mais de vinte anos atrás que Ricardo iniciou o seu caminho, perseguindo um sonho que no final o transformara num homem rico, frio, egoísta e cansado. E sobretudo só. Tudo quisera, tudo conseguira mas perdera os melhores anos da sua vida.  

O avião atravessara naquele momento uma área de turbulência. Ricardo abriu s olhos e sentiu que o suor lhe escorria pelo rosto. Seria pelas recordações?

Foi refrescar-se, olhou no espelho e para além dos cabelos brancos que começavam a aparecer, viu o que nunca houvera visto. Um rosto de uma mulher triste, com uns lindos olhos negros. A miragem desvaneceu-se mas Ricardo reconheceu uma imagem que muitas vezes visitava em sonhos. Era o rosto suave e terno do seu primeiro e único amor. Mariana era o castigo que o perseguia quando, como naquela viajem, recordava a sua juventude.  

PS:

                Este texto foi pensado num dia e escrito muitos dias depois. Um tropeção na vida fez com que algumas ideias não tivessem tido o seguimento previsto no guião original. Mas que importa isso? Escrevo, volto a escrever a inventar e sinto-me feliz.

Ah, agora me lembro, como sempre não houve guião o que é uma liberdade que não quero perder.

Se alguém esperou pela continuação da história a que chamei o PREÇO DO SUCESSO, aqui vai ela. Sem olhar atrás, sempre em frente que o tempo começa a escassear! Obrigado.