Afinal, em qualquer altura da vida, ter reconhecido que a
luz que guiava os meus passos na aventura da escrita, tinha perdido intensidade
e desaparecera num qualquer canto da memória, é a consequência natural. Tudo
tem um princípio e um fim.
Todavia valeu a pena ter vivido os sonhos do meu amigo
John Doe, ter percorrido caminhos inimagináveis, cavalgando quimeras e
enfrentando medos e angústias.
Foi um tempo de encontro por entre o desencontro da vida.
Ao meu amigo John Doe, ou melhor, ao que ele representou
para mim, devo quase tudo.
Sem guia, sem fervor, sem espada, serei um cavaleiro
solitário perdido no mundo e que se afasta dos sonhos.
A última aventura a que dei o título “In America” ficará
por aqui. Alguns textos ficaram em arquivo. Foi ao reler que, com maior força,
a tecla “delete” me desafiou. Tinha razão, porque os textos eram vazios,
repetitivos, nada de que me orgulhasse. Era o fim da aventura.
Valeu a pena?
Acreditem que tudo o que publiquei no blog me deu prazer.
Escrever foi uma fuga ao quotidiano pois me manteve desperto em circunstâncias difíceis.
Aqueles que acompanharam “ o meu amigo John Doe”, deixo o
meu obrigado.
Entretanto e porque o vício de escrever é como o de fumar,
entranha-se e não é fácil parar, decidi, em jeito de paraquedas, criar um outro
blog, porventura menos exigente, mas que mesmo assim, será um sinal de que me
não entreguei.
O sol começava a brilhar dando outro colorido às ondas do
mar que, preguiçosamente, se estendiam sobre as dunas.
Havia muito
tráfico na estrada que acompanhava a costa. O táxi andava no ritmo de para e
arranca e Pedro começou a sentir a sonolência e uma sensação de fraqueza. Era
natural, pensou, depois do período que passara alimentado a soro e depois do
tratamento com tranquilizantes a que fora sujeito. Os braços mostravam nas
veias os sinais das seringas e dos cateteres. Agora tinha fome e ao passar num
café na marginal mandou o motorista parar e foi procurar o alento que lhe
começava a faltar.
Depois de comer retomou a viajem para o aeroporto.
Faltaria ainda uma hora se o trânsito ajudasse, avisou o motorista, que pelo espelho
olhava com curiosidade para aquele passageiro, pouco habitual.
Pedro lutou para se conservar desperto mas, acabou por se
render, cerrou os olhos e começou a visualizar por entre as brumas da memória,
a sua história, o começo da sua aventura que o havia levado ao mar das Caraíbas
e a Miami em particular.
- Tudo começara em Lisboa, num dia de Outono, cinzento e
chuvoso quando no seu escritório recebeu uma visita que lhe alterou os planos
de vida.
Fora, durante muitos anos analista financeiro ao serviço
de um Fundo de Investimento internacional, que lhe pedia relatórios sobre
oportunidades de negócio, normalmente especulativos. Agora, na beira dos
quarenta, estava cansado mas com bens suficientes para enfrentar o futuro sem
ter que colaborar em cenários, muitas vezes fabricados, sempre com o objetivo
de ganhar mais e mais dinheiro. E dinheiro significava poder.
Na realidade, nunca conhecera os acionistas do Fundo de
Investimento. Nem isso alguma vez o incomodara.
Era o tempo ideal para esquecer o passado. A energia que
ainda sentia libertava-a como instrutor de artes marciais. Fora uma paixão da
juventude que o levara a visitar e frequentar mestres da arte milenar chinesa.
Amigos, tivera alguns e bons, mas com o correr do tempo
os encontros foram-se espaçando e hoje eram apenas recordações.
Relações amorosas, tivera muitas, mas que nunca duraram o
tempo suficiente para se transformarem em amor.
O caminho da sua vida profissional, a destruição do seu
ambiente familiar com a trágica morte dos Pais com um intervalo de apenas
alguns meses, endurecera o coração, que se fechou.
Era um solitário, desconfiado e pouco comunicativo. Uma
vida sem horizontes. E foi por isso que, sentindo o vazio da sua vida, resolveu
aceitar o desafio que, o desconhecido lhe foi propor.
O visitante, homem de poucas palavras mas com um olhar
vivo, apesar da idade, apresentou-se.
- Era empresário e agora fora vítima do sucesso que foi
construindo ao longo da vida em negócios com Países da América Latina. E, sem muitas palavras apresentou a proposta:
- Alguém em quem confio, sugeriu-me o seu nome como a
pessoa certa para me ajudar. E aqui estou pedindo que aceite representar-me
numa missão difícil que, eu não posso realizar.
Comecei a investir no Brasil e de São Paulo estendi o
negócio para a Venezuela, tendo escolhido para Presidente da Companhia o meu
único filho. Tudo corria aparentemente bem, mas alguma inexperiência do meu
filho fê-lo beliscar interesses que não perdoaram. E Eduardo foi ameaçado, não
deu ouvidos aos conselhos de amigos comuns e acabou sendo raptado.
Recebi por um desconhecido a notícia de que o Eduardo
apenas seria libertado mediante o pagamento de um resgate de cinco milhões de
dólares dos EUA. O valor deveria ser entregue em dinheiro, no local e dia a
combinar. Claro, o emissário foi explícito, não devia recorrer as autoridades,
pois isso seria o fim do meu filho, e da família que ele entretanto havia
constituído.
O dinheiro não será um problema, mas o meu medo é que,
mesmo pagando o resgate, nunca mais possa abraçar o meu filho. Assim o desafio
que lhe proponho é que seja o senhor a conduzir as negociações, pagando o
resgate e salvaguardando a vida do Eduardo e da família.
O senhor fará o seu preço e eu dar-lhe-ei toda a
informação que irei receber, em mensagens que alguém me transmitirá no meu
escritório em São Paulo.
Pedro reconstituiu o começo da sua tormentosa aventura, mas
não conseguia perceber a razão por que tinha aceitado o desafio. Estava nesta
labuta, quando o motorista lhe anunciou que tinham chegado e lhe perguntava em
que terminal desejava ficar.
- Sem grande emoção respondeu:
-Deixe-me no terminal internacional, chegadas. A porta é
indiferente.
O Táxi deu mais uma volta, contornou uma rotunda e acabou
por se imobilizar junto da porta 16. Pedro pagou a corrida, foi uma quantia
importante, deu uma generosa gratificação ao motorista, pegou na sua reduzida
bagagem e entrou no átrio do terminal.
Ao caminhar, procurando o lugar dos cofres para bagagem,
cruzou-se com uma linda mulher cujos olhos não se desviaram e sentiu o desafio, uma promessa. E então percebeu.
Fora jantar ao hotel onde o empresário se tinha alojado e conhecera uma mulher
de olhos negros, que, como aquela com que cruzara, lhe despertou emoções muito profundas. E foi por ela.
Fechou a caixa. Afinal fora mais simples de se encontrar,
de recordar onde estava e qual a sua missão.
Arrumou a bagagem e preparou-se para sair. Barba feita,
roupa lavada, olhando ao espelho Pedro percebeu que estava na posse das suas
capacidades. Olhou as mãos, que sempre lhe tinham merecido especial atenção,
não fora o facto de serem uma arma que muitas vezes lhe salvara a vida.
Precisavam de cuidados e teria de procurar um salão com manicuras para lhe
darem o aspeto a que sempre se habituara. Espreitou na janela, estava um dia de
sol, prenúncio de um dia quente. Obviamente só poderia ser assim. Estava
algures na Flórida, o sol brilhando e o azul do mar das Caraíbas eram a prova.
Desceu do quarto carregando a bagagem. No saco de viajem
encontrara roupa nova que agora vestida, lhe davam o aspeto de turista
endinheirado.
Foi o que certamente chamou a atenção do rececionista do
apart-hotel que o olhou com um sorriso, talvez antecipando uma boa gratificação
e ao receber a chave do apartamento lhe deu as notícias.
- É bom ter amigos e o senhor é a prova. Quando na semana
passada ajudei a subir para o quarto, o homem cansado e ferido, que o senhor
Alonzo, proprietário deste bloco de apartamentos aqui acompanhou, duvidei ser
possível uma recuperação como a que, graças a Deus, hoje posso testemunhar.
Pedro esboçou um
sorriso, do bolso retirou dinheiro, separou uma nota de cinquenta Dólares e
estendeu-a ao rececionista e ao pedir a fatura do alojamento, soube o resto da
história que, aliás, já imaginara.
- As suas despesas foram asseguradas pelo senhor Alonzo,
respondeu o rececionista enquanto aceitava a gorjeta. Ele foi muito claro, o
senhor Morales seria tratado como um amigo e não um hóspede. E não se referia
apenas ao alojamento, também garantiu que uma equipe médica do Hospital de” las
Cruces”, faria o seu acompanhamento enquanto a sua saúde o justificasse. O meu
patrão está de viajem, ficará feliz por o saber de boa saúde e certamente
entrará em contacto com o senhor logo que tal lhe for possível. E com um
sorriso estampado no rosto queimado pelo sol das Caraíbas e no sotaque
naturalmente latino, o rececionista abriu uma gaveta, retirou um envelope
fechado que estendeu ao hóspede, concluindo:
-O Senhor Alonzo antes de partir deixou-me este envelope
que eu lhe deveria entregar logo que o senhor mostrasse disposição para partir.
É este o momento.
Pedro agradeceu com um sorriso, abandonou o hotel, tomou
um táxi que passava e deu como destino o aeroporto internacional de Miami.
Enquanto o táxi fazia o longo percurso entre o
apartamento que ocupara em Daytona Beach e o aeroporto abriu o envelope. Sem
surpresa encontrou um cartão bancário, uma licença de condução, uma chave
solta, uma fotografia de um casal, com um número de telefone escrito no verso e,
finalmente, um passaporte. Percebeu a mensagem, o casal seria o alvo a abater
por Pedro Morales, agora a sua identidade. O passaporte fora emitido em Porto
Rico, tinha averbado bastantes vistos, o último dos quais confirmava a sua
entrada nos EUA, no terminal de cruzeiros de St. Augustine. Florida.
Antes de abrir
a caixa sentiu que um relâmpago lhe iluminava a memória. Sim, admitia
saber agora quem era, reconhecer o seu passado. Era ainda algo confuso,
nebuloso, vagueando entre amores e traições. Estava cansado, adivinhava que a sua
vida não deveria ter sido fácil, tinha cada vez mais a consciência de que
escolhera o caminho mais arriscado, e pagara por isso. As
cicatrizes no corpo e as marcas na alma eram a prova de que a sua vida não fora
pacífica.
Cerrou os
olhos, pareceu-lhe ouvir gemidos e gritos de terror. Alguém pedira ajuda e no
íntimo desejava ter sido o herói salvador. Mas talvez não tivesse sido assim,
pelo menos algumas vezes sentia que o seu papel fora mais de carrasco. Isso era de arrepiar.
Precisava
abrir a caixa e enfrentar os demónios ou as recordações que ela guardaria.
Admitiu, por momentos, esquecer a caixa com os segredos ali guardados. Sim
pensou, seria como um renascer sem comprometimentos, amizades, amor e ódios, olhar
o futuro começando do zero. No fundo sentia que nada o ligava ao passado. Família,
amigos, amores, tudo fora um equívoco, nada restava.
Hesitou, mas
como sempre fizera, deixou-se encantar pelo canto da sereia que o desafiava a
continuar, e abriu a caixa, convicto que seria capaz de enfrentar os erros, as
mentiras em que a sua vida fora pródiga. A aventura, como todas, teria um fim.
Que estava disposto a enfrentar com o último olhar.
Foi com a mão
firme que abriu a caixa. Pó, muito pó, pedaços de papel escritos numa
caligrafia que, de repente, reconheceu como sua. Eram apontamentos escritos sem
critério e sem regras, aliás como se lembrava, costumava escrever. Só ele seria
capaz de decifrar os textos que traduziriam o caminho percorrido. Algumas
páginas haviam sido arrancadas do caderno e estavam perdidas no meio do pó. Mas
encontrou dinheiro, notas de cem dólares americanos bem distribuídas por maços,
ligados por uma cinta dum Banco. Eram novas e folheando-as calculou que trouxera
com ele uma pequena fortuna. Aquele dinheiro fez-lhe um calafrio. Seria a paga
de algum serviço que prestara ou o sinal para um crime encomendado e que teria
de consumar, ali, in América.
A luz que
lentamente inundara o espaço onde se encontrava, dera-lhe esperança para
encontrar o caminho.
Foi a mudança
que fez com o que tivesse recuperado forças ao mesmo tempo que lhe desanuviava
os temores de uma noite de pesadelo.
Estava agora
mais desperto mas persistia a dúvida principal. Não sabia quem era e porque
estava ali.
Levantou-se e
com um andar ainda pouco seguro caminhou para uma porta envidraçada, escondida
num canto do que, afinal, reconhecia como um pequeno e pobre quarto de hotel.
Era a entrada para uma simples mas limpa, casa de banho. Entrou e a primeira imagem
que viu, foi a refletida no espelho pendurado por cima do lavatório. Ficou de
olhos parados e mais uma vez o único sinal de vida foi-lhe dado por uma lágrima
que lhe escorria pela face, coberta por uma espessa barba, grisalha e descuidada.
E viu o rosto magro e macerado por tanto sofrimento.
Era o retrato
dum desconhecido, que lhe lembrava um sem-abrigo abandonado pela sociedade. Aquele
vagabundo sujo e dorido, não podia ser o que parecia. Não, ele sentia que qualquer
coisa estava errada, que não se enquadrava naquele filme, nem nas difusas memórias
que ainda sonhava ter.
Desviou o olhar, fixou-se no recanto envidraçado do chuveiro.
Abriu a torneira, o som da água a correr deu-lhe alento. Era uma música de que
já nem se lembrava e nem hesitou, deu um passo em frente e deixou que a água
lhe lavasse o corpo e a alma.
Era água fria, mas sentia-a como um bálsamo que pouco a pouco
lhe trazia tranquilidade. Arrancou os trapos com que estava vestido, sentiu o
corpo nu e frágil, cheio de cicatrizes. Os pulsos marcados por sinais de prisão
e o peito com queimaduras feitas com cigarros.
Sentiu um arrepio, não de medo mas de revolta. Fora mantido
preso e torturado, onde e por quem, não sabia, mas perceber a razão seria o objetivo da vida que
agora iria recomeçar.
Com mais energia e com uma centelha de raiva, embrulhou-se numa
toalha e percorreu o quarto. Num recanto encontrou uma mochila, como a que se
recordava de ver nos ombros dos soldados em combate. Era grande, estava cheia.
Quem sabe, estaria ali guardado o segredo da sua vida.
Abriu-a e encontrou uma dádiva. Um pequeno estojo com máquina de
barbear e lâminas, mais um pente e um estojo de tesouras. Também roupa limpa
que retirou e espalhou pela cama. No final foi uma caixa de cartão, amarrotada que
lhe despertou a atenção. Segurou-a com força mas, ao mesmo tempo que sentia um
frémito de emoção. Estariam ali as respostas às suas dúvidas e tantas eram?
Sentiu medo, hesitou sim, como se fosse abrir a caixa de Pandora.
A noite fora um pesadelo, um delírio de formas desconhecidas, rostos
ameaçadores, olhos que brilhavam como num reino de sombras e que o
enlouqueciam.
Tentou abrir os olhos, mas
a escuridão era como se fosse um precipício ameaçador. Não sabia onde estava,
como ali tinha chegado e pior, pior que tudo, nem sequer sabia quem era.
De olhos teimosamente
cerrados, tentava pôr ordem naquela cabeça que ameaçava estalar. O silêncio era
absoluto, a sua respiração e nada mais. Tentou mover uma mão, depois um braço,
uma perna e parou. As dores eram fortes como se todos os ossos estivessem
partidos. Com todas as forças de que foi capaz, enfrentou as dores e gemendo
teimou em abrir os olhos. E então um pequeno raio de luz, muito ténue, deu- lhe
esperança, deixava adivinhar uma janela.
Esqueceu as dores, o medo
do vazio e levantou-se. Cambaleando ensaiou um pequeno passo, depois outro e
deixou-se cair de joelhos vencido pela dor. E chorou.
Mas não desistiu, rastejou,
procurando a parede e a janela. Demorou uma eternidade, mas conseguiu
levantar-se com o apoio da parede lisa e fria. Ficou exausto, o frio era agora
uma mistura de tremores e de suores. Mas conseguira ficar de pé.
O raio de luz aumentou de
intensidade e foi-lhe mostrando o lugar onde estava. Percebeu a existência de
uma cama pequena, ao lado uma mesa com candeeiro e lentamente, com os braços
estendidos conseguiu caminhar até à cama onde se deixou cair como um farrapo
quase inerte. Foi com mais um tremendo esforço que procurou chegar ao alcance
da pequena mesa e num último esforço encontrou o interruptor e acendeu a luz. E
ao ver dissipadas as sombras no pequeno espaço, sem saber porquê riu ou chorou,
não era importante.
Finalmente podia ver que o
pequeno quarto onde travara uma batalha e conseguira vencer.
A luz trazia-lhe a memória
de outra vida, de outros momentos. Mas estava perdido e receava o futuro.
Melhor seria terminar tudo, dar um grito e partir. A dúvida era uma dor que lhe
corroía o peito. Desejara o fim mas o instinto de sobrevivência fora mais
forte.
Agora, sentado na beira da cama olhava em
redor, vasculhando todos os recantos, como um polícia à procura das provas de
um crime.
Hesitações, desespero, fúria tudo isso sinto cada dia que passa.
- Hesito porque tenho medo de me repetir, de dizer coisa nenhuma, uma consequência óbvia que nasceu do percurso que comecei e tentei seguir, sem estar preparado para a caminhada. - Desespero, porque a mão me treme e as ideias, que na minha solidão, são a razão dum dia que se repete, não as posso alinhavar no caderno que me acompanha, pois o resultado é uma escrita ilegível. Afinal as ideias não resistem à tremura. - Fúria, porque a lentidão com que consigo teclar, me faz cometer erros, apagar o que não quero e deixar-me refém dos humores duma máquina que foge, sempre fugiu, ao meu domínio.
Apesar das dificuldades que cada vez se tornam mais evidentes, preciso de continuar a escrever sob pena de a vida ser, apenas, uma sequência de dias, sempre iguais. Se alguém me ler, não dê importância aos meus tropeções. Eu apenas me tento manter à tona de água, bebendo poesia e aguardando o próximo equinócio.
EQUINÓCIO
Chega-se a este ponto em que se fica a espera Em que apetece um ombro o pano de um teatro um passeio de noite a sós de bicicleta o riso que ninguém reteve num retrato Folheia-se num bar o horário da Morte Encomenda-se um gin enquanto ela não chega Loucura foi não ter incendiado o bosque Já não sei em que mês se deu aquela cena Chega-se a este ponto Arrepiar caminho Soletrar no passado a imagem do futuro Abrir uma janela Acender o cachimbo para deixar no mundo uma herança de fumo Rola mais um trovão Chega-se a este ponto em que apetece um ombro e nos pedem um sabre Em que a rota do Sol é a roda do sono Chega-se a este ponto em que a gente não sabe (David Mourão-Ferreira) Ou em alternativa fazer uma viagem, quem sabe, procurar alguém que, por erro ou esquecimento, se deixou para trás. Eu chorei, aliás choro com facilidade se a história é de crianças ou de velhos, mais ainda porque o filme de que vos deixo algumas cenas, é uma bela poesia de amor, contada pelo talento de David Lynch. E nos revela um enorme ator, que nos deixou pouco tempo depois de completar a sua simples viagem.