quinta-feira, 12 de maio de 2011

O EXECUTOR

17 – CORAÇÃO LOUCO

O homem que voltou estava diferente. Mais magro, deixara crescer a barba e o cabelo, vestido com roupas compradas num armazém muito popular em Paris, desde logo muito diferente do bom gosto que tanto prezava.
Até o rosto apresentava marcas de desalento, só os olhos se mantinham vivos por detrás dos óculos escuros com que se escondia.
Regressara de comboio, cansado duma viajem longa e pouco confortável e preferiu instalar-se numa pensão perto da gare, onde não faziam perguntas ou pediam documentos, que na realidade não tinha.
Chegara num domingo de meados do mês de Novembro, com chuva intensa e prolongada. Não tinha roupa apropriada para aquele tempo e o dinheiro estava quase esgotado. Sem cartões que destruíra, necessitava de ajuda.
Logo pela manhã de segunda-feira, carregando uma pequena maleta, deixou a pensão, tomou o autocarro da carreira nove para Campo de Ourique, saiu na Rua Ferreira Borges e foi caminhando até à proximidade do seu apartamento na Rua Almeida e Sousa. Sentou-se num café, escolheu uma mesa com vistas para a rua e saboreou uma bica bem quente. O pequeno café ficava perto da porta de entrada do edifício onde tinha o seu apartamento. O empregado que o atendeu olhou-o com um ar um pouco desconfiado, mas não deu sinal de o ter reconhecido. Pedro pagou, deixou a gratificação do costume e nessa altura o empregado sorriu, agradeceu e desejou-lhe um bom dia, pronunciando o seu nome. Apesar de tudo, soubera-lhe bem encontrar alguém que o reconhecera pelo seu verdadeiro nome.
Saiu para fumar um cigarro e viu chegar Gabriela. Esperou alguns minutos, não se apercebeu de nada de anormal, subiu o lanço de escadas, tocou a campainha, a porta abriu-se e sem mostrar qualquer surpresa Gabriela disse:
- Estava a ver que não aparecias, eu já te tinha visto a cirandar, mas receei que tivesses vergonha de aparecer assim, dum momento para o outro, sem que durante tantos meses te tivesses dignado dar-me notícias, nem um simples postal de férias. A tua paixão de Barcelona não correu bem, pois não?
Pedro estava feliz, o seu rosto abriu-se num largo sorriso e suspirando, pegou na mão que Gabriela lhe estendera, guiou-a numa carícia no rosto e segurou-a junto ao peito, confessando:
- Senti a tua falta e uma saudade imensa. Na madrugada em que te imaginei na janela iluminada dum quarto de hotel, tive medo de subir. Hoje, de volta, tive medo que a luz já não brilhasse.
Estiveram em contido silêncio. Não tinham palavras, só olhos se mostravam inquietos.
Gabriela tomou a decisão.:
- Pelo que julgo perceber, receias que alguém te esteja a seguir. Por isso, sai e espera por mim, ao virar da esquina. Eu irei ter contigo e depois vamos para minha casa. Até vamos a pé, não é longe daqui até ao Largo de Santa Isabel.
Tu ficas, toma um banho e descansa. Eu irei comprar roupas para te livrares desse ar de mendigo. Depois, pensa o que tencionas fazer e no que eu te possa ajudar.
Gabriela demorou mais de duas horas e Pedro estava preocupado.
Mas o seu rosto desanuviou quando, para além da roupa, verificou que Gabriela trazia também comida e uma garrafa de vinho. Assim, dizia ela, já não precisamos de sair e teremos todo o tempo para conversar.
Então Pedro, falou e contou tudo. O que fizera, a traição de que fora vítima, a sua inabalável decisão de descobrir os autores e se vingar. E só para isso voltara.
Aqui se iria preparar para voltar ao caminho. Alguém, um dia, iria pagar.
Parou, hesitou um momento, olhando para Gabriela que o fitava de olhos bem abertos, mas humedecidos por uma lágrima que ainda escorria.
Pedro aproximou-se num gesto de carinho, mas tão desajeitado que foi repelido.
Sabes, disse Gabriela, por um só momento, pequeno mas intenso, ousei pensar que tu terias voltado por mim e para mim. Lamento, segue o teu caminho e não te prendas com esta mulher que se deixou enredar nos teus mistérios.
O teu coração está enlouquecido e já não sabe o significado da palavra amor. Estás perdido e não mais te vais encontrar. Coração louco e só.
Abriu a mala de mão, tirou umas chaves que colocou em cima da mesa. Com estas te entrego o teu apartamento o teu escritório. Lá irás encontrar o que precisas. E agora sai, por favor sai da minha vida, não te quero ver mais.

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