18 – LOUCA DE AMOR
Pedro ficou aturdido com a reacção. No seu egoísmo falara dos assuntos que o preocupavam, de vingança, de traição e desforra.
Abrira o coração mas deixara fechados os outros sentimentos. Coração louco e só, como Gabriela lhe chamou.
Deixou-se cair numa cadeira, perdido e assustado.
Estava só. Gabriela ausentara-se da saleta e fechou-se no quarto. Pedro pensou bater à porta mas hesitou, queria tanto pedir perdão mas não sabia como. Tinha de a voltar a ver, acreditava que talvez encontrasse uma réstia de esperança. Mas hoje não, amanhã.
Pegou nas chaves e saiu com os ombros vergados e sentiu uma lágrima rebelde.
Voltou ao escritório e começou a tarefa que se impunha. Precisava de documentos, de recuperar as chaves e os códigos do seu computador, os números das contas bancárias offshore. E tudo isso estava guardado num cofre alugado, na sede do Banco, com que trabalhava em Portugal.
Deu uma vista de olhos à correspondência, que Gabriela lhe deixara num dossier na secretária e no meio encontrou o relatório e as contas, no período em que estivera ausente.
Não tinha sequer paciência para olhar os números do relatório. Confiava que Gabriela soubera gerir a pequena sociedade.
Sentiu-se renascer quando teve acesso ao cofre. Retirou os seus documentos que precisava para refazer o seu caminho.
Pedro possuía um outro apartamento que nunca divulgara e que constituía o seu refúgio. Era um local tranquilo, instalara todos os meios de segurança existentes, equipara-o com uma sala de computadores, hermética e protegida. Instalara o mais moderno software contra a contaminação por vírus ou ataques por algum hacker mais curioso.
Entrou e como fazia em circunstância habituais, passou em revista o apartamento. Aparentemente tudo estava em ordem, salvo o pó acumulado por tantos meses de ausência. Foi um dia inteiro para tornar habitável o esconderijo, cuidar do seu aspecto, mudar de roupa, tinha um armário cheio, e depois, entrar no computador e consultar as diversas contas numeradas que possuía. De tudo o que gastara tinha sido ressarcido, e no meio da confusão havia qualquer coisa que estava bem. A sua situação financeira era excelente.
Era quase noite quando decidiu voltar ao escritório. Uma luz ainda estava acesa, desta vez arriscou e tocou a campainha. A porta abriu-se e Gabriela estava à espera. –
Tive medo, mas como sou louca, louca por ti, estou aqui. Não penso no dia de amanhã, hoje quero ser tua. O futuro será o que tiver que ser.
Espero que ainda tenhas a garrafa de vinho no teu apartamento, responde Pedro, e aceites receber este coração louco, que poderá não ter cura mas que te quer amar, hoje, amanhã e sempre.
Não precisaram de mais palavras. Entraram em casa e fizeram amor como se fora o último dia. Com fúria, com ternura e com entrega total.
No outro dia saíram para jantar, e enlaçados como dois jovens enamorados Pedro disse-lhe o local do seu refúgio. Vamos para lá, pediu Gabriela, não pode haver segredos entre nós.
Dia após dia, viajavam nos braços um do outro, como se quisessem recuperar o tempo perdido.
Foi com a ajuda de Gabriela que Pedro começou a pesquisar a internet. Tinha algumas pistas sobre como procurar dados sobre organizações não governamentais, seleccionou algumas e tentou entrar, sem resultado. Porém Gabriela encontrou um anúncio interessante, oferecia salários atraentes para antigos combatentes no Iraque e no Afeganistão, para trabalharem em empresas de segurança privada no Médio Oriente.
Aos candidatos era requerido o envio, via internet do seu currículo. Em caso de selecção seriam entrevistados no dia, hora e local a combinar.
Pedro apresentou a sua candidatura, alterando dados pessoais e esperou.
A resposta chegou no final do mês de Fevereiro. Tinha sido seleccionado e deveria estar em Londres no dia 10 de Março de 2004, alojado no Sara Hotel, em “Earls Court “onde seria recolhido por funcionários do centro de recrutamento.
Gabriela olhou para Pedro e viu que ele hesitava. Então disse:
- Meu amor vai ao encontro. Mas leva-me contigo, pois apesar de louca, não quero perder-te, logo agora depois de te ter encontrado.
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