23 – FASCINAÇÃO
Consultou a internet localizou o restaurante de comida japonesa a que Maria Clara se referira e fez a reserva. Recomendou uma mesa discreta.
Abandonou o escritório, tomou um táxi e seguiu para a Polícia Judiciária. Há muito tempo que não fazia a prometida visita aos amigos mais chegados. O Lucena, velho companheiro de tantas investigações foi o primeiro que procurou. Depois do abraço António Pedro sentou-se no gabinete do amigo e perguntou:
- Então Pedro, novidades?
- Novidades, nada que tu não saibas. O que é que tens andado a fazer?
António Pedro contou em traços largos a investigação que vinha conduzindo e ao de leve mencionou os contactos mantidos com o Artur Mateus.
O amigo ouviu atentamente e comentou:
- Quando perguntaste por novidades eu devia ter percebido onde tu querias chegar. Era sobre o Artur não é verdade? Mas deves saber que ele se encontra suspenso há mais de dois meses aguardando a conclusão do inquérito a que foi sujeito. Não te faças de ingénuo, comigo não, tu vieste apenas confirmar algo que já sabias.
- Pedro desculpa, não te queria enganar. Pelos sinais de que me apercebi e pelas mentiras que ele me contou, concluí que o Artur se deixou apanhar numa teia da qual não consegue ou não quer fugir. Receio que acabe vítima da sua ambição.
- Como sabes estou a dirigir o departamento de combate ao narcotráfico. Por isso sei do que estás a falar. Tens o meu número de telefone confidencial, utiliza-o sempre que quiseres falar comigo. Conto contigo e tu podes contar comigo.
António Pedro deixou a sede da Polícia e regressou ao escritório. Não tinha tido notícias do Carlos e resolver telefonar.
O colaborador confirmou que estava com o Pai a fazer a vigilância. O meu Pai esteve a falar com a porteira, sabe como as senhoras são, sabem tudo e com jeito falam. O meu Pai teve paciência para ouvir mexericos e a certa altura ela confirmou que o inquilino do terceiro andar direito saíra mas voltara a entrar com sacos de um supermercado. Em voz baixa segredou que ele recebia visitas frequentes duma mulher mas que já à tempo não o via com a filha.
- Tudo está a bater certo com as minhas suspeitas. Continuem o excelente trabalho e diz se alguma coisa se passar.
Retirou o carro do parque e seguiu para o antigo apartamento. Estava finalmente bem disposto e até cuidou da sua imagem, escolhendo um fato que o fazia parecer mais jovem e com moderação aspergiu umas gotas da água-de-colónia que Filomena lhe oferecera pelo aniversário.
Chegou ao restaurante, mesmo em cima da hora marcada. Sem saber porquê colocou o telemóvel em silêncio e esperou no pequeno bar a chegada de Maria Clara.
Ela chegou com atraso mas a sua entrada não passou despercebida.
António Pedro não foi capaz de disfarçar o prazer que lhe deu, a companhia de uma mulher tão bela e fascinante. E que sabia tirar partido disso.
Sentaram-se, riram-se quando foi o pedido porque ele não percebia nada, do que a ementa oferecia. Acabou por ser ela a escolher a refeição, até as bebidas.
Pouco a pouco, foram chegando mais clientes e a sala estava já bem composta. Mas para António apenas ela existia. Tudo o resto era secundário e não o fazia desviar os olhos. Maria Clara sempre percebera a sedução que exercia sobre o companheiro e sentia-se confortável com a situação.
Foi com naturalidade que a sua mão procurou e acariciou a mão de António Pedro. Entrelaçaram os dedos os olhos resplandeciam. Pouco falavam, apenas um ou outro comentário e muitos sorrisos de cumplicidade.
Quando saíram do restaurante Maria Clara sussurrou:
- Que pena!
- É pena, porquê, perguntou António com voz trémula?
- Ela hesitou alguns segundos e respondeu, porque gostaria de prolongar estes momentos, mas não posso.
- E porque não? A noite ainda é uma criança.
- Lamento muito, mas eu tenho compromissos para a manhã bem cedo.
Ele não conseguiu disfarçar a desilusão. Mas Maria Clara fazendo aquele olhar que o encandeava, disse:
- Haverá outras oportunidades, prometo.
- Podíamos ir para qualquer lado e continuar a viver estes belos momentos, arriscou António!
- Também não, se o convite é para um bar de hotel, ainda que por poucas horas, seria um sacrifício muito grande. Ia avivar memórias, que quero esquecer, e isso roubar-me-ia todo o prazer.
À despedida, beijaram-se longamente. De repente, Maria Clara soltou-se e sem dizer nada entrou no carro e arrancou em velocidade.
António seguiu por momentos o carro que se afastava. Com ele, seguira um sonho. Ficara a tristeza de um equívoco que o seu ego alimentara. A realidade seria outra e ele estivera prestes a esquecer.
Estava ainda sentado na sala e ouviu tocar o telefone fixo. Foi atender e ouviu o que nunca esperaria ouvir. Era Filomena, quase gritando:
- Sai já da nossa casa. Esse espaço é dos dois, e eu não admito, que leves para aí as tuas conquistas.
Ele, balbuciou qualquer coisa, mas a Filomena continuou:
- Sabes o destino prega-nos partidas, e quando menos esperamos, vimos ruir as nossas esperanças. Logo hoje, depois de um dia de muito trabalho, os meus colegas me surpreenderam com um convite para jantar. E escolheram comida japonesa, imagina em que restaurante?
Eles conhecem-te, viram-te embevecido, como um jovem imaturo, bebendo dos olhos duma mulher. Calcula o que senti, quando o Filipe me segreda:
- Filomena, não olhes agora para o canto lá ao fundo, estão lá pessoas que queremos evitar. Vamos escolher outro restaurante se não te importas.
Foi como se dissessem, olha. Eu olhei e vi.
Quiseram desculpar-te, os homens são solidários. Filipe comentou, não dês importância ao que viste, aquilo não é um caso sério. Eu já conheço a senhora, e já a vi em momentos muito parecidos. Avisa o António para ter cuidado.
- Estás avisado. Não posso nem quero perdoar, mesmo que tenha sido uma aventura casual. Mas doeu-me muito. Não te quero mais na nossa casa. Sai daí, imediatamente, e leva a tua deusa contigo, disse com a voz trémula desligando de seguida para que António não se apercebesse, que chorava.
António sentou-se no sofá, pois as pernas tremiam-lhe. Tinha acabado de levar uma pancada forte, um soco violento no seu orgulho. Demorou algum tempo a recuperar do choque, e revoltou-se consigo mesmo.
Mal conhecia Maria Clara, mas um sorriso envolvente, um olhar convidativo e uma maneira sensual de cruzar as pernas e logo ficara obcecado. Para quantos não teria ela representado a cena?
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