domingo, 2 de outubro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE



Há dias passei de carro numa rua de Campo de Ourique, cheia de trânsito como sempre e senti nostalgia.
Não nasci naquele Bairro mas a ele me ligaram muitos afectos. Já ouvi alguém dizer que se um homem é produto do meio onde nasceu, os nascidos daquele Bairro são os mais genuínos. Não acredito na teoria, mas reconheço que mesmo olhando de relance, me vieram as recordações.
Passei ao lado de um prédio antigo onde vivera um colega e amigo. Era uma casa velha, quase paredes-meias com o que viria a ser a zona moderna das Amoreiras.
O meu amigo era um habitante típico daquele bairro. Ele e a casa resistiram ao desenfreado e controverso modernismo do Arquitecto Taveira, de que são símbolo as torres das Amoreiras.
Compartilhava a casa e as recordações com uma irmã solteira como ele. Todas as noites saía para percorrer as ruas do bairro, sempre em sentido contrário ao dos que procuravam a zona da moda. Normalmente escolhia o mesmo lugar para tomar o café, beber dois ou três copos de brandy ou bagaço e fumar os habituais cigarros
Todavia nunca ninguém o vira só. Debaixo do braço levava o seu amigo mais íntimo, o seu companheiro, um livro, um dos diários do Miguel Torga.
Algumas vezes o encontrei nas temporadas de Ópera que, depois da apresentação em São Carlos, perante um público bem vestido, mulheres feias e velhas, mas carregadas de jóias, onde o cheiro do perfume não escondia o odor da naftalina, e homens sérios e importantes, que aproveitavam os intervalos para se pavoneavam exibindo os seus pertences, mulheres incluídas, passavam para o velho e desconfortável Coliseu. Mas era ali, no meio de gente anónima mas conhecedora, que passara horas para entrar e ter tempo de escolher o melhor lugar, quantas vezes de pé ou pendurados nas grades do galinheiro do último piso, que os cantores sentiam de forma diferente o calor e a verdade dos aplausos.




Foi também por ele que ouvi contar pequenas histórias do Almirante Gago Coutinho, pequeno grande homem, de boina na cabeça, habitual visita do Parque Mayer, onde se conheceram namoriscando as coristas no fim dos espectáculos de revista.
Do Parque daquele tempo, naturalmente, antes da revolução conduzida pelo Santana Lopes e consequente implantação do projecto arquitectónico do Frank Gehry, que são hoje o exemplo do que sei mas não digo.
E a minha história de hoje apenas tem um ponto em comum como o que atrás escrevi.
Eu não conheci o Almirante Gago Coutinho, mas no meio da floresta tropical, num lugar onde se não vislumbrava sequer a luz do sol fui encontrar o marco mandado colocar pelo Almirante, no início do século vinte, assinalando a fronteira geográfica entre o antigo Congo Belga e Angola, mais precisamente no enclave de Cabinda.

E aqui está, como uma passagem rápida por um Bairro de Lisboa, me lembrou um amigo já desaparecido, e me trouxe à memória o sentimento que guardei, do dia em que no meio da África profunda, encontrei o marco delimitando fronteiras, colocado sob as ordens do Almirante.
E esta lembrança perdura porque, quando por entre uma floresta considerada a mais densa do mundo, O Maiombe, debaixo de uma tempestade tropical que infundia respeito aos mais valentes, e até silenciava os habituais e assustadores gritos e sinais dos gorilas e outros símios de grande porte, depois de meia dúzia de dias e muitas horas de marcha, alimentados a latas de sardinha em conserva e duras bolachas marca MM, bebendo a água da chuva, percorrendo trilhos abertos por elefantes, fui com os meus camaradas, encontrar aquela marca deixada pelo destemido Almirante. Fiquei, ficamos felizes, esquecemos o cansaço e a fome. Tínhamos alcançado, sem o saber, uma fronteira, que mais ninguém conhecera e que, para nós, representava mais do que uma grande pedra, coberta de ervas e musgos que raspamos encontrando gravadas as palavras: Portugal, o ano de 1901.
E nós, um pequeno grupo de combate que comandei nos anos de chumbo da guerra colonial, fomos naquele ano de 1964 confirmar no mapa o lugar exacto da fronteira. No meio do nada, longe de tudo sentimos, que apesar do esforço, tinha valido a pena aquela penosa marcha.
Por fim recordo as palavras do Almirante quando lhe perguntaram como tinha a atravessado a pé o Continente? “ «Como havia de ser? Com as botas rotas, para a água sair mais à vontade, porque, para entrar, entrava sempre.»”
Sim, foi quase descalços que os soldados fizeram aquela difícil patrulha e foi assim, de pé descalço, que fizeram a guerra.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE


Se me fosse possível, pensei nisso mas não sabia como fazer, o meu último texto teria sido refeito, burilado, mexido e eventualmente apagado.
Comecei com a melhor das intenções, mas confesso que me perdi entre questões filosóficas e éticas das quais tive alguma dificuldade em sair.
Eu sabia que estas coisas podiam acontecer, mas teimoso como sou, publiquei sem reler.
Sabia o que queria dizer, os sentimentos que queria transmitir, mas uma qualquer deriva levou-me para caminhos desconhecidos e fiquei bloqueado.
Com os erros também se aprende, sempre ouvi dizer, mas na prática já não estou tão seguro assim. Senão, cometemos tantos erros, acreditamos em tanta gente, desfilamos por causas, discutimos com azedume as opções políticas e religiosas de cada um, perdemos amigos e referências, ficamos nus e desprotegidos e apesar de tudo o que é que aprendemos?
Sabemos que ouvir não basta é preciso entender e questionar, perguntar e entender o porquê, forjando o nosso caminho. E mesmo assim, quantas vezes se hesita entre a razão e o coração e ficamos reféns das nossas convicções?
Na realidade o texto a que me refiro começara com uma notícia triste e dolorosa, para mais para alguém que receava o futuro.
Mário Monicell, o protagonista da notícia com que comecei o texto, foi um realizador de cinema, e foi ao cinema que fui buscar a história de hoje. Enquanto revia a matéria para o artigo, lembrei-me de um filme, que foi exibido recentemente, e pela enésima vez, num dos canais de cinema da TV por cabo.
É uma bela história romântica. Mostra que por entre encontros e desencontros, alegria e dor, afinal mesmo com uma vida a prazo haverá sempre, tem de haver, espaço para o amor. E quando o amor existe, não se evita, vive-se por um dia, um ano, uma vida ou uma eternidade.
O filme é “Sweet November” e para além da história deixa-nos com uma das mais belas bandas sonoras que eu lembro.
Vá lá, esqueça o requentado programa da manhã da RTP, aquela Praça da Alegria que de alegria só lhe resta o nome, cale a voz estridente e agressiva da Júlia Pinheiro e dos seus convidados, esqueça por um dia, pelo menos, as histórias escabrosas de alguns personagens menores, que fazem a delícia das revistas cor de rosa e dos consumidores de pornografia, feche os ouvidos a qualquer notícia vinda de Belém, principalmente se ela tiver como pano de fundo as declarações infelizes, como quase sempre, do Presidente, a propósito das suas férias nos Açores e dos sorrisos com que as vacas o receberam, esqueça que o calvário da austeridade ainda nem sequer começou, esqueça que o Jardim existe e o inferno também.
Defenda-se e ao mesmo tempo veja uma história de amor. E se for sensível e deixar cair uma lágrima, não se apoquente, isso mostrará que apesar de tudo o que nos fizeram e vão fazer, estamos vivos.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE


Eu estava na cama de um hospital quando soube que naquele dia 29 de Novembro de 2010, o realizador italiano Mário Monicelli, com o discernimento dos seus 95 anos, se suicidara atirando-se de uma janela do hospital onde estava internado. Comentei com uma enfermeira e ela com os olhos tristes reconheceu, que talvez fosse o gesto mais lúcido do realizador. E eu concordei.
Esta notícia não tem por finalidade fazer a análise filosófica que o mesmo merece, numa altura em que se discute o direito à eutanásia e ao direito a uma morte digna que alguém que decidiu parar de sofrer e partir. O grande realizador italiano teve um momento de lucidez e resolveu ele mesmo o problema. Mas temos que reconhecer que saltar dum quinto andar do hospital, não é uma forma digna de morrer. Ele merecia ter sido respeitado.
É um tema apaixonante que vai dividir a Sociedade de uma forma muito marcada. Não é um assunto fácil, não se pode responder em referendo mas é para mim inquestionável que se temos o direito a uma vida digna também temos o direito a reclamar uma morte com dignidade.
Muitas pessoas escolheram fazer o seu testamento vital impondo, no pleno uso das suas faculdades mentais, o direito de recusarem tratamento doloroso e sem resultado. É uma solução mas pode ser insuficiente e gerar conflitos.
O problema é que ao pressentir uma doença, e mesmo que contra o pensamento duma vida, há quem se renegue e se agarre à fé na esperança de um milagre. E tudo é legítimo.
Há muitos anos, creio que em 1974, li A “Carta -Testamento” do Dr. Mário Sacramento. Foi um texto que me marcou para toda a vida. E falo dela constantemente. O conteúdo da “Carta Testamento” toca precisamente este tema. Ele, médico de profissão ao conhecer a doença que o atingira, deixou um envelope fechado, dizendo “ Para ser aberto quando eu morrer” e assinou com a data de 7.4.1967.
Quando a carta foi aberta e divulgada eu retirei os seguintes parágrafos, cito:
“Fica portanto entendido que sou ateu e como ateu devo ser enterrado …”
Mesmo que eu ficasse pílulas ou sugestionável à hora da morte, isso não modificará ser esta a minha opinião responsável. É esta, por conseguinte, a única válida.” Fim de citação.
A leitura dessa carta remeteu-me para um livro notável. O Drama de João Barois do grande escritor francês, prémio Nobel da Literatura em 1937, Roger Martin du Gard.
Fui encontrar no blogue “Reencontros” um bom artigo sobre este livro. Não que tenha alguma afinidade filosófica, política ou religiosa com a autora, mas acho que é um artigo interessante e por isso retomo algumas ideias. “Afinal o tema do livro é e sempre a Religião. Deus. Poder. Educação Religiosa. Fanatismo e Guerras. João Barois escrevera o seu testamento enquanto lúcido, defendendo as suas ideias. Todavia a filha queimou o testamento. Nada restou da vontade de João Barois.”
Creio que foi por isso que Mário Sacramento se resguardou e acredito que a sua vontade foi respeitada.
A história recente mostra quanto a senilidade ou o medo da morte mudam as convicções. Eu vi Charlie Chaplin, senil e chorando de gratidão, agradecer uma homenagem que a Academia do Cinema dos Estados Unidos lhe prestou, depois de o ter expulso e ostracizado durante tantos anos. A memória teria desaparecido?
Por isso eu desejo manter as minhas convicções. Também defendo que a vida deve ser vivida enquanto fizer sentido. Não acreditando no além, seja ele onde for, entendo a morte como um acto supremo e solitário. E tudo acaba, salve-se a memória.


sábado, 24 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE

É verdade, pois mais volta que dê, há sempre um momento que me deixo guiar para o quotidiano e, invariavelmente, caio na armadilha da política de meia tigela.
Não pretendo fazer a análise política dos dias que correm. Outros se ocupam disso com mais ou menos conhecimento, dependente da filiação política de cada um. Mesmo na simples constatação de um facto, haverá sempre três ou mais leituras. E lá vamos cair na teoria que defendi no último escrito, que afinal é tudo uma questão de segurar ou baixar as calças. É pena mas é assim.
Também se diga que essa liberdade deve ser a última coisa que nos resta depois da Revolução dos Cravos. E para que não restem dúvidas, todos somos culpados pelo estado a que chegamos.





Toda esta confusão de diz e não diz, é assim e assado, fulano é mentiroso e sicrano um anjinho, é deprimente mas não é novo.
Ainda não há muito tempo alguém, com a melhor das intenções admito, se lembrou de lançar um concurso para eleger “ Os Grandes Portugueses”, personagens da nossa História, tendo convidado para darem opinião, uma série de personalidades de muito mérito, como são habitualmente os que estão na “play list “ dos convidados, acampados à porta da Televisão. E o que é que deu?
Fácil, qualquer ignorante como eu, já sabia que a pessoa mais importante foi o grande obreiro do Portugal moderno e feliz que toda a gente invejava, o Prof. Salazar.
Foi uma surpresa? Nem pensem disso.
E se repetirem essa consulta daqui por mais algum tempo, ou volta a ganhar o Salazar ou, acreditem ou não, será o Prof. Cavaco. Quase apostava.
Lá estou eu a beliscar os políticos. Não é defeito é mais feitio.
Dei por mim a pensar que influência é que eu bebi durante a minha vida que me leva a tratar esses assuntos duma forma tão ligeira e ao mesmo tão amarga?
Do meu Pai em parte, porque o vi chorar, quando por altura das eleições do Humberto Delgado o Chefe da fábrica onde trabalhava, lhe entregou em mão e à boca das urnas o boletim do Tomaz, aquele marionete que o Salazar inventara, ele que até levava no bolso o boletim de voto para o Humberto Delgado.
Essas lágrimas, as únicas que eu vi nos olhos do meu falecido Pai, nunca me saíram da memória e é desse momento que sempre me lembro, quando oiço falar de direitos adquiridos.
A herança que recebi do meu Pai, lembro bem, foi uma pedra de rio, própria para amolar o fio da gadanha, a mais terrífica ferramenta de trabalho que algum dia manuseei. Eu sabia o que aquela simples pedra representava. Mas sobretudo recebi a coragem de chamar os bois pelos nomes, ainda que utilizando formas mais rebuscadas para o fazer. Por exemplo o humor que ele utilizava.
Afinal sou assim, brinco com coisas sérias porque se o não fizer, chorarei como o meu Pai chorou, naqueles idos de 1958, quando violentaram a sua consciência e a necessidade de alimentar a família, o calou.
Obrigado Pai.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE


Qualquer coisa se passou que me fez recuar no tempo e sonhar sobre moda. Foi estranho mas foi assim:
No meu tempo de juventude ainda era normal na indumentária masculina o uso de suspensórios. Até passou a ser moda que, alguns cavalheiros mais conservadores usassem o cinto e os suspensórios ao mesmo tempo, para segurar a mesma peça de vestuário. As calças.
Claro que essa moda era também um sinal de poder ou de dinheiro, coisas que antes como agora, andavam sempre de mão dada. Com os suspensórios e o colete por cima, exibindo a grossa corrente de oiro do relógio, o cinto de cabedal com uma grossa fivela sobressaindo da barriga, tudo mostrava que se estava na presença de um homem de respeito. Logo o Zé-povinho, cumprindo as suas obrigações e prestando a homenagem, baixava a cabeça e, pelo sim pelo não, segurava as calças.
Os pobres que eu conheci, não tinham esse luxo. As calças eram mantidas atadas por um pedaço de corda ou de cordel, que até tinha, muitas vezes outra utilização. Servia para lançar sobre um ramo de árvore, com um nó corredio e um corpo a balançar na ponta, pondo fim ao desespero de vidas sem futuro. E tantas foram.
Mas os tempos foram mudando e a moda foi deixando de fazer sentido. Nos novos tempos os comerciantes endinheirados e os trabalhadores que de um momento para outro enriqueceram, deixaram de usar carteiras recheadas, preferindo guardar o dinheiro no refúgio de um Banco, de preferência num qualquer off-shore.
Os pobres evoluíram do cordel para o cinto de plástico, muitos emigraram e subiram alguns degraus na escala social, voltando de férias aparentando sinais da burguesia.
A classe média, que toda a gente sabe é a base do crescimento económico interno, teve o seu apogeu logo após a revolução e foi incentivada a comprar casas e automóveis e a gozar férias, procurando os destinos mais exóticos. O crédito fácil permitia tudo isso e com um susto ou outro de permeio, foram construindo uma vida diferente mas alicerçada em bases pouco sólidas.
Os que eram pobres, pobres ficaram, mas após tantos anos de exploração, acreditaram que o seu tempo haveria de chegar.
E com a entrada na CE , do fluxo de dinheiro que encheu os bolsos dos mesmos de sempre, ainda sobraram algumas migalhas para os mais espertos.
Foi o período de ouro. Até tivemos o orgulho de ver, nas páginas da revista Forbes, os nomes de alguns esforçados trabalhadores Portugueses a integrarem as listas dos mais ricos. Muitos por lá se têm mantido o que só prova a qualidade dos nossos gestores e trabalhadores beneficiários do surto de desenvolvimento económico que varreu o País. Tudo estava bem e o dinheiro continuava a cair sobre a economia. Então para quê trabalhar? Os Alemães até não sabiam fazer outra coisa!
Ingénuo que eu fui, que todos fomos, a factura mais tarde ou mais cedo haveria de chegar e nessa altura voltaríamos a andar, como a maior parte do tempo da nossa História, de mão estendida e calças na mão.
Não se pense que o hábito de baixar as calças desaparecera. Não, sempre que havia eleições, quando havia mudança de poder nacional e local, havia quem retomasse esse velho costume.
Daí a célebre frase “no jobs for the boys” que traduzida para Português quer apenas dizer que de vez em quando é preciso dar a vez a outros para meterem a mão no pote, nem que para isso tenham de baixar as calças.
Estava nesta baralhação quando acordei. Respirei fundo, voltei a deitar a cabeça mais aliviado. Tinha sido um pesadelo, era bem de ver. Tudo fora diferente.
Já tinha engolido a minha dose diária de publicidade do mérito do Governo, já tinha ouvido mais uma dezena de assaltos, alguém apregoava mais algumas atabalhoadas medidas de austeridade que, como sempre dão em nada e a parte mais fácil da governação, sacar dos bolsos dos contribuintes do costume, o dinheiro que é preciso para pagar aos credores. Nesse momento recordei o meu sonho e me lembrei do jeito que faria agora ter as calças seguras com o cinto e com os suspensórios, para evitar males maiores.
Eis senão, quando para meu espanto, ouvi mais uma novidade. É que meia dúzia de indivíduos sem vergonha, utilizando e mentira e a trafulhice nas contas, capitaneados por um desclassificado, tinham passado mais de trinta anos a enganar os cubanos, com toda a desfaçatez e desprezo. E percebi, eu também sou cubano.
E os parolos desta terra, que mesmo sem se darem contam, andaram a ser roubados, serão agora chamados a pagar. E lá vamos deixar ir os anéis, os cigarros, a cervejinha, a meia garrafa de vinho, o bacalhau e a vergonha que restar.
Mas espera lá, disse para comigo, eu até me lembrava que há relativamente pouco tempo teria ouvido o nosso prestigiado Presidente a dizer ao dono da ilha da Madeira, que a sua governação era um exemplo a seguir. E pior, é que o Presidente dissera aquilo tudo para quem o quis ouvir, de viva voz e eu nem dei que um dente lhe tivesse caído por tamanha aleivosia.
Voltei ao sonho. Querem ver, afinal o senhor Silva que foi ao Jardim do Atlântico dizer aquelas parvoíces, já não usava suspensórios e não levara o cinto das calças. Bem feito.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE

Devo confessar que para mim, o fado nunca foi uma paixão. É estranho ouvir esta opinião quando se luta, e bem, para que o Fado seja escolhido como Património da Humanidade. Eu desejo que sim e reconheço a importância que esta música tem no destino de um Povo.
- Dizem que ser hoje como sempre, pobres e mal governados é o nosso fado;
- Dizem que ser o que somos, resignados e vencidos também é o nosso fado;
- Dizem que cantar o fado neste “tom magoado de dor e saudade” é o nosso destino.
Afinal tanto se diz e o Povo, na sua imensa sabedoria, costuma ter razão.
Todavia se a alguém for perguntado o que mais aprecia em Portugal, virá o sol, a comida e o fado. Então o fado deixou de ser um lamento só entendido pelos Portugueses mas também, o som das guitarras e as vozes dos cantadores, começou a ser partilhado com outros povos, outras culturas, outras línguas. Nem sequer é preciso entender a língua Portuguesa para se sentir a magia, a nostalgia e a força do fado. E esse foi o legado que Amália nos deixou.

Logo após a revolução de Abril de 1974, a revolução dos cravos, que quase sem uma gota de sangue derramado, deu o fim a uma ditadura opressiva de mais de quarenta anos, o fado começou a ser conotado com a política salazarenta e ostracizado. Mas pouco a pouco, o fado renasceu em novas vozes, com outros poemas e cantado por gerações nascidas depois da Revolução.
Que conclusão é que consigo tirar destas palavras, eu que nem gosto particularmente de fado?
Só pode ser uma. O Fado era é e continuará a ser a voz dum um Povo que não se renegou.

Na minha juventude aprendi a gostar de um outro tipo de fado. O fado de Coimbra, mais uma balada que um fado, mas que era um privilégio dos Estudantes da mais conhecida Universidade do País, a de Coimbra.
Era estranho, ele só era reconhecido se cantado por estudantes de capa e batina.
Na altura, a Rádio dava semanalmente um programa de fados de Coimbra. Ouvia em silêncio em casa de alguém que já partiu e que teve uma influência muito grande na minha educação. Minha e da minha irmã mais nova, companheiros de estudo e de brincadeira.
Essa amiga tinha uma personalidade tão forte que acabou deixando marcas em todos os que com ela conviveram.
É com uma lágrima de saudade que deixo um dos seus fados preferidos. De Coimbra, evidentemente. O “ Fado das Andorinhas” na voz do Dr. Sutil Roque.

domingo, 18 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE

Já andava morto de saudades de escrever alguma coisa sobre cinema. A sétima arte foi, é, um dos meus amores.
Um dia tentei copiar uma ideia que já vira publicada, no blogue http://numaparagemdo28.tumblr.com/ e escolher os dez melhores filmes da minha vida. Tirando o primeiro, que teimosamente mantenho inamovível mas que não mais revi, não consegui ordenar as minhas preferências. Na realidade a cada um que me lembrava, logo surgia um outro que considerava melhor e assim sucessivamente. Desisti da ideia. Não conseguia concordar comigo próprio.
Eu nem me orientava por critérios de qualidade cinematográfica, não tenho conhecimentos para isso e por tal, nem me atrevo. Eu só queria indicar os que mais gostara.
Mas mesmo assim parei pois resumir uma paixão de dezenas de anos, milhares de filmes a um núcleo de dez era tarefa impossível.
Mas a ideia não morreu e tentei encontrar uma forma. Iria ordenar os filmes por época, por períodos da minha vida. Nem assim fui capaz.



De repente fui buscar um DVD do Martin Scorsese, chama-se” Il mio viaggio in Itália” e nele o realizador vai apresentando e comentando os grandes filmes do cinema italiano, a terra dos seus antepassados, e inevitavelmente surgem os realizadores e os filmes do neo-realismo. E eu vira todos aqueles filmes e de todos gostara!
Fiquei cheio de inveja, como eu gostaria de ter tido aquela ideia e de a ter conseguido mostrar com o saber e o amor que o Scorsese demonstrara. Mas, mais uma vez, me rendi à realidade. Aquele desafio não era para mim e por isso rasguei a lista.
Abandonara, vencido e convencido, um projecto que nem sequer tinha começado.
A realidade ensinara-me que devemos lutar pelo que acreditamos mas que devemos ter o cuidado de não dar passos mais longos do que o tamanho das pernas nos permitem. E as minhas são demasiado curtas para aquela exigente caminhada, e o trambolhão seria inevitável.
Ia dar o assunto como encerrado quando me lembrei que um dia, em jeito de observação, alguém, a quem me ligam laços muito fortes, me disse, falando de cinema:
- Para ti, qualquer filme onde os protagonistas sejam crianças ou velhos será sempre o melhor!
Fiquei a pensar naquela frase e reconheço a sua razão. Nem sempre era a qualidade cinematográfica que eu admirava, mas quase sempre o que o coração me dizia. E porque não, se são os sentimentos que perduram da nossa memória?
E por vezes os filmes que me mais aprecio não são grandes histórias, nem grandes dramas, mas sim aqueles que me trazem uma lágrima sentida. Pouca coisa, a cena eventualmente até passará despercebida. O momento de beleza poderá ser uma história bem simples.Como esta!