
Há dias passei de carro numa rua de Campo de Ourique, cheia de trânsito como sempre e senti nostalgia.
Não nasci naquele Bairro mas a ele me ligaram muitos afectos. Já ouvi alguém dizer que se um homem é produto do meio onde nasceu, os nascidos daquele Bairro são os mais genuínos. Não acredito na teoria, mas reconheço que mesmo olhando de relance, me vieram as recordações.
Passei ao lado de um prédio antigo onde vivera um colega e amigo. Era uma casa velha, quase paredes-meias com o que viria a ser a zona moderna das Amoreiras.
O meu amigo era um habitante típico daquele bairro. Ele e a casa resistiram ao desenfreado e controverso modernismo do Arquitecto Taveira, de que são símbolo as torres das Amoreiras.
Compartilhava a casa e as recordações com uma irmã solteira como ele. Todas as noites saía para percorrer as ruas do bairro, sempre em sentido contrário ao dos que procuravam a zona da moda. Normalmente escolhia o mesmo lugar para tomar o café, beber dois ou três copos de brandy ou bagaço e fumar os habituais cigarros
Todavia nunca ninguém o vira só. Debaixo do braço levava o seu amigo mais íntimo, o seu companheiro, um livro, um dos diários do Miguel Torga.
Algumas vezes o encontrei nas temporadas de Ópera que, depois da apresentação em São Carlos, perante um público bem vestido, mulheres feias e velhas, mas carregadas de jóias, onde o cheiro do perfume não escondia o odor da naftalina, e homens sérios e importantes, que aproveitavam os intervalos para se pavoneavam exibindo os seus pertences, mulheres incluídas, passavam para o velho e desconfortável Coliseu. Mas era ali, no meio de gente anónima mas conhecedora, que passara horas para entrar e ter tempo de escolher o melhor lugar, quantas vezes de pé ou pendurados nas grades do galinheiro do último piso, que os cantores sentiam de forma diferente o calor e a verdade dos aplausos.

Foi também por ele que ouvi contar pequenas histórias do Almirante Gago Coutinho, pequeno grande homem, de boina na cabeça, habitual visita do Parque Mayer, onde se conheceram namoriscando as coristas no fim dos espectáculos de revista.
Do Parque daquele tempo, naturalmente, antes da revolução conduzida pelo Santana Lopes e consequente implantação do projecto arquitectónico do Frank Gehry, que são hoje o exemplo do que sei mas não digo.
E a minha história de hoje apenas tem um ponto em comum como o que atrás escrevi.
Eu não conheci o Almirante Gago Coutinho, mas no meio da floresta tropical, num lugar onde se não vislumbrava sequer a luz do sol fui encontrar o marco mandado colocar pelo Almirante, no início do século vinte, assinalando a fronteira geográfica entre o antigo Congo Belga e Angola, mais precisamente no enclave de Cabinda.

E aqui está, como uma passagem rápida por um Bairro de Lisboa, me lembrou um amigo já desaparecido, e me trouxe à memória o sentimento que guardei, do dia em que no meio da África profunda, encontrei o marco delimitando fronteiras, colocado sob as ordens do Almirante.
E esta lembrança perdura porque, quando por entre uma floresta considerada a mais densa do mundo, O Maiombe, debaixo de uma tempestade tropical que infundia respeito aos mais valentes, e até silenciava os habituais e assustadores gritos e sinais dos gorilas e outros símios de grande porte, depois de meia dúzia de dias e muitas horas de marcha, alimentados a latas de sardinha em conserva e duras bolachas marca MM, bebendo a água da chuva, percorrendo trilhos abertos por elefantes, fui com os meus camaradas, encontrar aquela marca deixada pelo destemido Almirante. Fiquei, ficamos felizes, esquecemos o cansaço e a fome. Tínhamos alcançado, sem o saber, uma fronteira, que mais ninguém conhecera e que, para nós, representava mais do que uma grande pedra, coberta de ervas e musgos que raspamos encontrando gravadas as palavras: Portugal, o ano de 1901.
E nós, um pequeno grupo de combate que comandei nos anos de chumbo da guerra colonial, fomos naquele ano de 1964 confirmar no mapa o lugar exacto da fronteira. No meio do nada, longe de tudo sentimos, que apesar do esforço, tinha valido a pena aquela penosa marcha.
Por fim recordo as palavras do Almirante quando lhe perguntaram como tinha a atravessado a pé o Continente? “ «Como havia de ser? Com as botas rotas, para a água sair mais à vontade, porque, para entrar, entrava sempre.»”
Sim, foi quase descalços que os soldados fizeram aquela difícil patrulha e foi assim, de pé descalço, que fizeram a guerra.
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