quinta-feira, 22 de setembro de 2011

HISTÓRIAS ANTIGAS E DE SEMPRE


Qualquer coisa se passou que me fez recuar no tempo e sonhar sobre moda. Foi estranho mas foi assim:
No meu tempo de juventude ainda era normal na indumentária masculina o uso de suspensórios. Até passou a ser moda que, alguns cavalheiros mais conservadores usassem o cinto e os suspensórios ao mesmo tempo, para segurar a mesma peça de vestuário. As calças.
Claro que essa moda era também um sinal de poder ou de dinheiro, coisas que antes como agora, andavam sempre de mão dada. Com os suspensórios e o colete por cima, exibindo a grossa corrente de oiro do relógio, o cinto de cabedal com uma grossa fivela sobressaindo da barriga, tudo mostrava que se estava na presença de um homem de respeito. Logo o Zé-povinho, cumprindo as suas obrigações e prestando a homenagem, baixava a cabeça e, pelo sim pelo não, segurava as calças.
Os pobres que eu conheci, não tinham esse luxo. As calças eram mantidas atadas por um pedaço de corda ou de cordel, que até tinha, muitas vezes outra utilização. Servia para lançar sobre um ramo de árvore, com um nó corredio e um corpo a balançar na ponta, pondo fim ao desespero de vidas sem futuro. E tantas foram.
Mas os tempos foram mudando e a moda foi deixando de fazer sentido. Nos novos tempos os comerciantes endinheirados e os trabalhadores que de um momento para outro enriqueceram, deixaram de usar carteiras recheadas, preferindo guardar o dinheiro no refúgio de um Banco, de preferência num qualquer off-shore.
Os pobres evoluíram do cordel para o cinto de plástico, muitos emigraram e subiram alguns degraus na escala social, voltando de férias aparentando sinais da burguesia.
A classe média, que toda a gente sabe é a base do crescimento económico interno, teve o seu apogeu logo após a revolução e foi incentivada a comprar casas e automóveis e a gozar férias, procurando os destinos mais exóticos. O crédito fácil permitia tudo isso e com um susto ou outro de permeio, foram construindo uma vida diferente mas alicerçada em bases pouco sólidas.
Os que eram pobres, pobres ficaram, mas após tantos anos de exploração, acreditaram que o seu tempo haveria de chegar.
E com a entrada na CE , do fluxo de dinheiro que encheu os bolsos dos mesmos de sempre, ainda sobraram algumas migalhas para os mais espertos.
Foi o período de ouro. Até tivemos o orgulho de ver, nas páginas da revista Forbes, os nomes de alguns esforçados trabalhadores Portugueses a integrarem as listas dos mais ricos. Muitos por lá se têm mantido o que só prova a qualidade dos nossos gestores e trabalhadores beneficiários do surto de desenvolvimento económico que varreu o País. Tudo estava bem e o dinheiro continuava a cair sobre a economia. Então para quê trabalhar? Os Alemães até não sabiam fazer outra coisa!
Ingénuo que eu fui, que todos fomos, a factura mais tarde ou mais cedo haveria de chegar e nessa altura voltaríamos a andar, como a maior parte do tempo da nossa História, de mão estendida e calças na mão.
Não se pense que o hábito de baixar as calças desaparecera. Não, sempre que havia eleições, quando havia mudança de poder nacional e local, havia quem retomasse esse velho costume.
Daí a célebre frase “no jobs for the boys” que traduzida para Português quer apenas dizer que de vez em quando é preciso dar a vez a outros para meterem a mão no pote, nem que para isso tenham de baixar as calças.
Estava nesta baralhação quando acordei. Respirei fundo, voltei a deitar a cabeça mais aliviado. Tinha sido um pesadelo, era bem de ver. Tudo fora diferente.
Já tinha engolido a minha dose diária de publicidade do mérito do Governo, já tinha ouvido mais uma dezena de assaltos, alguém apregoava mais algumas atabalhoadas medidas de austeridade que, como sempre dão em nada e a parte mais fácil da governação, sacar dos bolsos dos contribuintes do costume, o dinheiro que é preciso para pagar aos credores. Nesse momento recordei o meu sonho e me lembrei do jeito que faria agora ter as calças seguras com o cinto e com os suspensórios, para evitar males maiores.
Eis senão, quando para meu espanto, ouvi mais uma novidade. É que meia dúzia de indivíduos sem vergonha, utilizando e mentira e a trafulhice nas contas, capitaneados por um desclassificado, tinham passado mais de trinta anos a enganar os cubanos, com toda a desfaçatez e desprezo. E percebi, eu também sou cubano.
E os parolos desta terra, que mesmo sem se darem contam, andaram a ser roubados, serão agora chamados a pagar. E lá vamos deixar ir os anéis, os cigarros, a cervejinha, a meia garrafa de vinho, o bacalhau e a vergonha que restar.
Mas espera lá, disse para comigo, eu até me lembrava que há relativamente pouco tempo teria ouvido o nosso prestigiado Presidente a dizer ao dono da ilha da Madeira, que a sua governação era um exemplo a seguir. E pior, é que o Presidente dissera aquilo tudo para quem o quis ouvir, de viva voz e eu nem dei que um dente lhe tivesse caído por tamanha aleivosia.
Voltei ao sonho. Querem ver, afinal o senhor Silva que foi ao Jardim do Atlântico dizer aquelas parvoíces, já não usava suspensórios e não levara o cinto das calças. Bem feito.

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