Eu estava na cama de um hospital quando soube que naquele dia 29 de Novembro de 2010, o realizador italiano Mário Monicelli, com o discernimento dos seus 95 anos, se suicidara atirando-se de uma janela do hospital onde estava internado. Comentei com uma enfermeira e ela com os olhos tristes reconheceu, que talvez fosse o gesto mais lúcido do realizador. E eu concordei.
Esta notícia não tem por finalidade fazer a análise filosófica que o mesmo merece, numa altura em que se discute o direito à eutanásia e ao direito a uma morte digna que alguém que decidiu parar de sofrer e partir. O grande realizador italiano teve um momento de lucidez e resolveu ele mesmo o problema. Mas temos que reconhecer que saltar dum quinto andar do hospital, não é uma forma digna de morrer. Ele merecia ter sido respeitado.
É um tema apaixonante que vai dividir a Sociedade de uma forma muito marcada. Não é um assunto fácil, não se pode responder em referendo mas é para mim inquestionável que se temos o direito a uma vida digna também temos o direito a reclamar uma morte com dignidade.
Muitas pessoas escolheram fazer o seu testamento vital impondo, no pleno uso das suas faculdades mentais, o direito de recusarem tratamento doloroso e sem resultado. É uma solução mas pode ser insuficiente e gerar conflitos.
O problema é que ao pressentir uma doença, e mesmo que contra o pensamento duma vida, há quem se renegue e se agarre à fé na esperança de um milagre. E tudo é legítimo.
Há muitos anos, creio que em 1974, li A “Carta -Testamento” do Dr. Mário Sacramento. Foi um texto que me marcou para toda a vida. E falo dela constantemente. O conteúdo da “Carta Testamento” toca precisamente este tema. Ele, médico de profissão ao conhecer a doença que o atingira, deixou um envelope fechado, dizendo “ Para ser aberto quando eu morrer” e assinou com a data de 7.4.1967.
Quando a carta foi aberta e divulgada eu retirei os seguintes parágrafos, cito:
“Fica portanto entendido que sou ateu e como ateu devo ser enterrado …”
Mesmo que eu ficasse pílulas ou sugestionável à hora da morte, isso não modificará ser esta a minha opinião responsável. É esta, por conseguinte, a única válida.” Fim de citação.
A leitura dessa carta remeteu-me para um livro notável. O Drama de João Barois do grande escritor francês, prémio Nobel da Literatura em 1937, Roger Martin du Gard.
Fui encontrar no blogue “Reencontros” um bom artigo sobre este livro. Não que tenha alguma afinidade filosófica, política ou religiosa com a autora, mas acho que é um artigo interessante e por isso retomo algumas ideias. “Afinal o tema do livro é e sempre a Religião. Deus. Poder. Educação Religiosa. Fanatismo e Guerras. João Barois escrevera o seu testamento enquanto lúcido, defendendo as suas ideias. Todavia a filha queimou o testamento. Nada restou da vontade de João Barois.”
Creio que foi por isso que Mário Sacramento se resguardou e acredito que a sua vontade foi respeitada.
A história recente mostra quanto a senilidade ou o medo da morte mudam as convicções. Eu vi Charlie Chaplin, senil e chorando de gratidão, agradecer uma homenagem que a Academia do Cinema dos Estados Unidos lhe prestou, depois de o ter expulso e ostracizado durante tantos anos. A memória teria desaparecido?
Por isso eu desejo manter as minhas convicções. Também defendo que a vida deve ser vivida enquanto fizer sentido. Não acreditando no além, seja ele onde for, entendo a morte como um acto supremo e solitário. E tudo acaba, salve-se a memória.
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