quarta-feira, 16 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                                    Berthe Morisot

10 – UMA HISTORIA DA VIDA

A opção de Bárbara tinha sido correcta e ela sentia-se feliz com o trabalho, com a cidade, tão diferente da Lisboa que deixara e com as amizades que ganhara.
O trabalho de investigação que desenvolveu levou a que a Administração da Fundação a convidassem para ficar, prosseguindo a sua pesquisa e assumindo o controlo do departamento.
Exultou e sem hesitar aceitou o convite.
Teve de proceder a algumas alterações no seu modo de vida, deixando o alojamento colectivo e procurando um espaço que pudesse transformar no seu refúgio.
Encontrou o lugar que procurava mas, como era um espaço grande, aberto, localizado na zona do porto de recreio, decidiu aceitar uma colega para dividirem as despesas.
Era uma jovem nascida em Taipé, com a qual tinha excelente relação.
Bárbara era só, não tinha mais ninguém, apenas recordações, pelo contrário Li Peng tinha família mas tão longe que também era como se estivesse só.
Havia logo muitas afinidades, eram boas amigas.
Quando o verão chegou em força, todas as restantes colegas partiram de volta à suas cidades ,aos seus Países, ficaram as duas amigas perdidas numa cidade tão grande e que mal conheciam.
Arriscaram sair para procurarem o contacto com a natureza. Alugaram um carro e partiram à aventura, sem nada reservado. Iriam percorrer as estradas secundárias, contemplando a beleza da floresta. Em algum lugar poderiam sentir o apelo de ficar, no limite admitiam a hipótese de Vancouver como fim de percurso. Tinham colegas que lá viviam e lhe falaram que era uma cidade muito acolhedora.
Enquanto preparava a bagagem, Bárbara lembrou a pequena mala com as recordações da Mãe. Ainda não a tinha aberto e aproveitou aquela noite, antes de saída para férias, para abrir e conhecer o seu conteúdo.Tremeu um pouco, hesitou mas ganhou coragem. Ela sentia que  só agora, com o futuro à sua frente, seria o momento de conhecer o passado.
Na pequena caixa, encontrou diversas fotografias que já conhecera. Eram dela desde bebé até mulher; Viu pela primeira vez fotos da Mãe jovem, lembrou-se como ela fora uma mulher bonita. E percebeu que algumas das fotos da Mãe estavam rasgadas, como se a pessoa ao lado tivesse sido apagada. De amigos e dos Avós não encontrou nenhuma. Em contrapartida fixou com surpresa uma fotografia de uma senhora de cabelos brancos e rosto bondoso e com dedicatória. Tinha escrito:
"Para a minha amiga Madalena, que Deus te proteja. Mercedes."
Ao fim e ao cabo revira a imagem da Mãe, que tanta saudade lhe deixara, mas sabia que por detrás haveria um segredo que ela não conhecia. E a fotografia da pessoa desconhecida seria, provávelmente, um peça importante.
Continuou a retirar o conteúdo da caixa. Encontrou num sobrescrito fechado uma carta que lhe era dirigida. Pressentia ser a história que a Mãe nunca lhe quisera contar. Mas agora, tinha que continuar começou a ler:

“Minha Filha,
Podia dizer-te que toda a minha vida cabe nessa pequena caixa que te deixei. Não será assim, mas asseguro-te que nela irás encontrar o caminho que a tua Mãe teve de percorrer até ao dia hoje, em que vi realizado o meu sonho de te ver na Universidade. E por isso, hoje comecei a escrever esta carta que poderás ler, um dia mais tarde, quando te lembrares de mim.
Quando decidires abrir a caixa das memórias, lembra-te que tudo nela é passado, o meu passado e do qual não guardo rancores nem mágoas. Tudo foi o que tinha de ser e eu não me arrependo dos passos que dei.
É um desenrolar de pequenos momentos, de alegria, poucos, de solidão, muitos, de dor bem difíceis alguns, mas e finalmente de libertação e de felicidade. E a minha felicidade foste tu.
A tua Mãe nasceu numa pobre casa lá no Alentejo esquecido e com dez anos e depois de ter feito a quarta classe a professora disse aos Avós que eu deveria ir estudar. Mas os teus Avós eram pobres e doentes. Tinham uma leira de terras onde só a muito trabalho conseguiam arrancar a comida para o dia a dia. A capoeira com meia dúzia de galinhas e de alguns perus eram a única riqueza e optaram por me destinar outro futuro.
Entregaram-me como serviçal a uma abastada família de proprietários, que viviam num concelho distante. A minha tarefa seria fazer companhia a uma rapariga da minha idade, a Felisbela, uma rapariga débil, portadora de uma doença que lhe iria ser fatal, mais ano menos ano.
Não culpo os meus Pais, na sua ignorância, quem tinha nascido pobre, teria de morrer pobre. Não havia outro caminho.Mas confesso que muita lágrima escondi, perdida naquele casarão grande e frio onde assistia ao lento definhar da Felisbela, sem que alguém lhe tivesse feito um pequeno gesto de  carinho.
A família era rica de dinheiro mas muito pobre de valores. O meu trabalho passou a ser tomar conta da menina doente, limpar a casa e ajudar a governanta sempre que ela precisava de ajuda. E ela precisava sempre. Mandava e eu executava. Se a patroa não gostasse de algum serviço ou encontrasse uma dedada de pó, a pobre camponesa, a criada era castigada, com algumas reguadas ou com a privação do jantar.
No meu quartito húmido e sem sol, cabia uma pequena cama e uma cadeira. Nada mais. Mas sobre as grades da cama tinha uma campainha que tocava de dia ou de noite, sempre que alguém precisava dos meus serviços.
A Felisbela morreu quando tinha doze anos, e talvez eu tenha sido a única pessoa a chorar a morte daquela infeliz.
 Bárbara parou de ler. Tinha um pressentimento que as páginas que se seguiam lhe poderiam causar dor. Percebera agora o cuidado com que a Mãe guardara os seus segredos.  
Leria quando voltasse, nas longas noites de inverno.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO

                                                           V. Van Gogh

9 – PEDRA BRANCA

Júlio acompanhou Marie e Paulo no voo para Vancouver. Tinham reservado alojamento num motel que se localizava entre o aeroporto e a estrada que dava acesso à zona onde o projecto seria implementado, White Rock, perto da praia e da fronteira com os Estados Unidos.
Era tempo de fazer o reconhecimento do local, um pequeno hotel dirigido por um casal de idade que decidira que era tempo de parar.
O local, um espaço amplo à beira da estrada, permitia a implementação do projecto que Júlio e Ana tinham estudado e que cabia agora a Paulo e a Marie a implementação.
Precisavam de reformular o hotel, transformando em restaurante, com salas reservadas para comemorações especiais, construir de raiz uma cozinha e substituir a mobília e a decoração.
Paulo e Marie de projecto nas mãos perceberam o que lhes era pedido. Dar vida a um espaço, em processo de morte lenta.
Marie, uma mulher com idade indefinida, que não revelava, mas que andaria próximo dos quarenta anos, era impulsiva e determinada. Aquela oportunidade, confessava, era um recomeço de vida, pois dez anos de casamento tinham sido um equívoco. Ela não sentia nenhuma emoção quando estava com o marido e só acabou por descobrir que ele agia assim, desprendido e inquieto quando estava com ela. Foi fácil descobrir que o marido tinha uma ligação muito forte, e como ele veio a confessar, já vinha antes até do casamento. E não foi uma surpresa quando soube que a ligação do marido era com um outro homem.
A separação não fora dolorosa, antes um alívio para ambos porque encerrara um jogo de mentiras e de desculpas.
Paulo ouvia a colega contar a sua vida, enquanto bebiam na sua primeira noite no hotel.
Estremeceu, não estava preparado para aquela confissão e receava que Marie, carente como se mostrara, procurasse o que ele não estava ainda em condições de lhe oferecer.
Júlio partira há muito e os dois não tinham descanso. Esqueceram o hotel no modelo clássico e optaram por mandar construir uma dúzia de apartamentos, isolados, rodeados de jardins e de relva onde os hóspedes teriam todas as comodidades de uma pequena “villa”. Apenas as refeições seriam servidas no edifício principal se assim o entendessem.
Fizeram a selecção da Empresa que iria executar o projecto e começaram a seleccionar o pessoal necessário ao funcionamento da unidade.
Foram necessários seis meses para o início da actividade. Foram dias muito cansativos pois enquanto Paulo se ocupava do acompanhamento da construção dos diversos módulos, Marie escolhia as pessoas, as ementas e fazia a publicidade, não só em Vancouver mas, principalmente no outro lado da fronteira, sublinhando a qualidade, a privacidade e as vantagens de se encontrarem perto do mar e estarem cercados por um excelente campo de golf de dezoito buracos.
A abertura daquele novo espaço, que beneficiou de ampla cobertura nas agências turísticas e nos jornais locais, fora reservada a convidados. Era caro, a publicidade não enganava o que, Paulo veio a descobrir mais tarde, era uma vantagem que ele não conhecia. Muitos dos casais que vieram a ser os hóspedes frequentes, escolhiam o local pela comida, diferente da habitual com a qualidade da cozinha francesa, mas também para encontros secretos.
E a frequência de casais vindos da cidade de Seattle, a mais de duas horas de distância por automóvel, confirmava a necessidade de assegurarem a privacidade dos hóspedes.
Apesar de habitarem apartamentos contíguos, Marie escolhera a vista para a montanha e ele a paisagem do mar, procurando no oceano Pacífico o azul do seu mar, que deixara tão longe e que lhe trazia as recordações dos sonhos de que se alimentara.
Paulo sentia-se bem, quase perdido no mundo, mas tinha momentos de nostalgia. Olhando o mar sentia o conforto e a serenidade que precisava para se manter lúcido.
Não foi premeditado o seu envolvimento. Aconteceu, um homem e uma mulher, sem compromissos, quase sem nada fazerem por isso, acabaram por se encontrarem. Mas sem palavras, sem promessas, sem futuro.
E assim o tempo foi passando, o negócio progredindo sem sobressaltos nem inquietações.
Até que um dia um encontro tudo mudou.





quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO


                                                         William Turner
                                 
8 –  O DESAFIO

            Apesar do cansaço, Paulo e os primos ficaram a conversar até altas horas.
De repente, Ana percebeu que Paulo estava no limite da resistência.
Recordou que eram horas de ir deitar, eram três horas da manhã, hora local o que significava que para Paulo eram horas de se levantar, ele que já nem se lembrava quando dormira.
Amanhã, sábado, teremos muito tempo para conversar, lembrou.
            Foram descansar. Para Paulo tinham preparado um sofá convertível, colocado num recanto da sala comum e protegido com um biombo amovível.
 Ana sabia que muito dificilmente conseguiria manter os filhos da cama. Era sempre assim, nos dias de escola era um martírio para os levantar, mas ao sábado e com uma visita de alguém que não conheciam, estariam despertos bem cedo.
Eram miúdos irrequietos mas sabiam tomar conta um do outro, preparavam os cereais para o pequeno almoço e sentavam-se na sala a verem os programas de televisão com histórias de animação. A Mãe levantou-se apenas para verificar se eles, uma rapariga de seis anos e um rapazito de quatro, estavam aconchegados e recomendar silêncio, pois o primo que dormia no sofá estaria muito cansado.
Mas as crianças não resistiram e foram espreitar o convidado.
Paulo dormira mal, o cansaço não ajudara e passara a noite e rever a vida que não lhe trazia boas recordações. Acordou cedo alagado em suor. O pouco que dormira fora entrecortado por pesadelos e a presença dos miúdos curiosos, foi um momento de acalmia e, ao fim de tantos anos, sorriu com afecto.
Levantou-se e fez companhia às crianças enquanto se ria com as histórias de bonecos animados que passavam na televisão, mas acabou por cerrar os olhos e dormir sossegado e tranquilo.
Acordou ouvindo a conversa muito sussurrada entre as crianças e a Mãe. Estavam na cozinha e Paulo sentindo-se embaraçado, passou de fugida para o quarto de banho que lhe tinham reservado, para tratar da sua higiene pessoal.
Quando acabou, sentiu-se outro, estava feliz e começava a sentir-se parte da família. E que bem que isso lhe fazia.
Aproveitaram o dia de sábado para visitarem os dois restaurantes que os primos possuíam em Toronto. Eram restaurantes diferentes quer na decoração quer na ementa. Um, o mais antigo, tinha um chefe Português que Júlio encontrara num restaurante no Porto e aliciara para vir para o Canadá. E fora uma excelente escolha. O outro, mais recente, tinha uma cozinha mais elaborada e uma chefe Canadiana, natural da parte Francófona.
No domingo, já com Paulo ambientado á mudança de fuso horário, discutiram então o projecto para o espaço em Vancouver, desde as linhas gerais até aos planos de pormenor.
Paulo ouviu e deu opinião e surpreendeu-se a ele mesmo com as ideias que lhe surgiram e foram aceites pelos Primos. Júlio propôs que fosse Marie Louise, a gerente do restaurante em Toronto, a acompanhar Paulo na execução do novo projecto. Garantia que ela tinha uma personalidade muito aberta à inovação e confiava que com Paulo iria constituir uma equipa de sucesso.
Júlio garantira o financiamento do projecto mas caberia a Paulo e a Marie escolherem o decorador e a selecção dos empregados.
Está tudo combinado, Marie também se mostrou entusiasmada com a mudança para outra cidade, até porque, está a sair de um casamento falhado e a mudança de ares lhe irá fazer bem, concluiu Ana, sem deixar de esboçar um sorriso cúmplice.
E assim, no outro lado do mundo, entre a floresta e o oceano Pacífico, Paulo um inadaptado engenheiro, carregando recordações dolorosas, iria começar a viver um desafio. E ao contrário do que ele mesmo esperava, estava tranquilo, não tinha receio de falhar.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

O MEU AMIGO JOHN DOE



Agora vou escrever algo que nada tem a ver com a história que venho contando, mais uma das histórias, tipo folhetim, que vou escrevendo, passo a passo, sem saber onde e como parar.
Aliás, até é capaz de ter, pois quero lembrar o que está marcado na margem do blog.
É que, impelido por uma força que não sei controlar, talvez a mesma que tem alimentado esta vontade, tardia, de escrever, decidi juntar alguns contos num livro que tem o mesmo título deste espaço. Poderão pensar que terá sido pura vaidade, eu não penso assim, mas e se o fosse?
Já que tantos amigos fazem o favor de ler os meus textos, já agora, façam mais um,  apontem o rato para o endereço assinalado  debaixo da imagem da capa de livro. E se puderem ou quiserem comprar, ficarei feliz.
Já agora, na mesma margem, surge um outro blog que vou seguindo. É um espaço mais intimista, mais memórias, tem o sapinho amarelo, e chama-se “oirmãodomeio”.
Obrigado

ENCONTRO COM O DESTINO




                                          Graça Morais

7 - INTERMEZZO

                        O entusiasmo arrefeceu logo que Paulo José se sentou a bordo do avião que o iria levar para Newark. Num pequeno bloco assinalara os horários e o trajecto e agora, só agora, reparara que passaria largas horas antes de chegar ao destino.
Os primos haviam sugerido que voasse para Newark e depois no último voo para Toronto. Lá estariam à sua espera, iriam falar sobre o projecto Vancouver, do modelo de negócio que tinham estudado e a expectativa da sua implementação.
Ficou um pouco nervoso, já não via os primos há anos e receava ter ou ir causar alguma decepção.
Na realidade a necessidade de sair para outro lugar, longe de tudo e de todos, era tão imperiosa que não se importara sequer em perceber o que os primos dele esperavam.
Mas, por uma vez na vida, decidiu arriscar. Quando estava para partir não foi sequer a casa. A Mãe era fria e como sempre desligada daquele filho. Do Pai guardava mágoas que tardava em esquecer e receava que qualquer observação que ele fizesse, fosse o rastilho para uma confrontação, tantas vezes adiada.
Para o irmão Henrique, bastou uma mensagem por telemóvel, tão frias e distantes eram as relações entre os dois.
Apenas de Cecília, agora sua companheira na casa em Lisboa, ouviu palavras de apoio e de encorajamento. Ela era diferente, independente sim, mas tinha sentimentos, coisa rara naquela família.
Esteve com ele no Aeroporto e a sua alegria contrastava com a ansiedade e o receio do irmão. Paulo relembrava as palavras da irmã mais nova, sussurradas ao ouvido, quando lhe deu um caloroso abraço. Dissera-lhe:
"- Vai meu irmão, enfrenta o destino sem medo, não olhes para trás, nunca. Eu sei a razão do teu desassossego, mas para mim tu serás sempre o irmão que comigo brincou e me ensinou os desafios da vida. Prometes que me darás notícias e, quem sabe, talvez um dia eu siga o teu caminho."
Foram estas palavras que lhe deram ânimo. Sim, o passado estava enterrado e o futuro seria um caminho aberto que estava nas suas mãos, percorrer.
Chegou a Toronto, noite cerrada e viu no primeiro relance a figura do primo Júlio e da mulher Ana. Tinham sido colegas de liceu mas nunca mais se haviam encontrado. Ficou feliz, muito feliz quando os abraçou. Tinham sido amigos e a amizade não se esquece.
Vais ficar em nossa casa, temos um quarto disponível, pois vamos ter muito de conversar. Depois iremos para Vancouver, estaremos contigo apenas alguns dias, pois tencionamos que sejas tu a assumir a responsabilidade do restaurante/bar que já existe,  que compramos, para que queremos transformar em qualquer coisa de diferente.
Nós ficaremos em Toronto, temos dois restaurantes que nos ocupam todo o tempo e dois filhos a frequentar a escola. Estamos convencidos, vais ficar apaixonado pelo projecto, ia dizendo o primo Júlio enquanto levantavam a bagagem e depois conduzia o carro atravessando a cidade, até parar junto de uma moradia num bairro cheio de jardins e parques iluminados.
Chegamos, diz Ana, sê bem-vindo a nossa casa!
E para sua surpresa, Paulo sentiu naqueles breves instantes, um calor de família, como nunca conhecera. Aquele momento fora um clarão de luz, por entre as trevas duma vida sombria.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO


       Edvard Munch


 6 . DIRECÇÃO, VANCOUVER

Paulo José, tinha vinte e oito anos de idade, cursara Engenharia do Ambiente, numa Faculdade Privada e reconhecia agora, não lhe servira para nada. Estava desempregado e de vez em quando conseguia arranjar um trabalho de pouca duração, pago a recibo verde.
Ele era um dos muitos desesperados dependentes da ajuda da família. O tempo livre sonhava sentado à beira mar. Não tinha grandes amizades e sentia que uma força o impelia a partir. Mas não sabia que destino.
Tinha entrado na Universidade contra a sua vontade. Não sentia nenhuma vocação e nem imaginava o futuro. Mas uma coisa tinha sempre recusado, trabalhar com o Pai.
A família tinha extensas propriedades rurais que ocupavam terras com pouca aptidão para a agricultura. O Pai, filho único de uma família meio arruinada, recebera como prenda de casamento diversas herdades de montado, ocupando uma área razoável no Alto Alentejo. Recebera também uma esposa feia, com mau humor e com um medo horrível do pecado. A mulher Dona Helena entendia o sexo como o acto de procriação, recusara métodos anticonceptivos, de qualquer género e o Marido, para satisfação dos seus naturais apetites sexuais, passou a recorrer às velhas conhecidas e até a algumas amigas, casadas, da própria mulher.
E não se dava nada mal com o esquema, pois a indiferença da mulher era amplamente compensada pelos ardores, por vezes já perigosos, das visitas lá de casa.
Todavia do casamento haveriam de nascer três filhos. O mais velho, Paulo José vivia numa velha casa em Lisboa que pertencia ainda ao património da Dona Helena, enquanto fosse viva, pois ela já a doara à Igreja. Precisava de obras, mas o Pai nem sequer gostava de ouvir falar em gastar dinheiro, numa casa que nunca poderia vender.
O Doutor Frederico, como gostava de ser chamado, embora ninguém soubesse que curso havia tirado, geria a seu belo prazer as propriedades, em regime de arrendamento agrícola. Recebia rendas anuais dos diversos rendeiros, não eram valores muito elevados e a sua maior fonte de rendimento era o resultado da venda da cortiça.
Para aumentar a rendibilidade escolheu uma propriedade extensa mas montanhosa, que mandou vedar e constituir uma reserva de caça privada.
Tinha muito tempo livre e vivia feliz, porque nunca fora muito amigo de trabalhar. Percorria os caminhos ao volante de um carro todo o terreno, que comprara a prestação e que ia pagando, quando não ficava depenado nos jogos de azar em que se metia, sempre que dava uma escapadela a Badajoz.
Gostava de ser reconhecido mas não era muito respeitado.
O filho do meio, Henrique era pelo contrário um rapaz muito estudioso completamente dominado pela febre da Informática. Tirara o curso correspondente e aos vinte e seis anos montara com alguns colegas uma empresa de prestação de serviços, que até não estava a correr mal. Vivia em Évora, raramente aparecia em casa dos Pais, e as visitas eram cada vez mais espaçadas, alegando muito trabalho. Contudo a casa dos Pais até era bem perto, nos arredores da cidade de Estremoz. Mas por qualquer razão ele não se sentia bem e evitava estadias prolongadas.
 Finalmente a filha, Maria Cecília, tinha dezoito anos e uma personalidade muito forte e independente. Fez o Liceu mas recusou continuar os estudos. A sua paixão era a música rock e nada nem ninguém a conseguira fazer mudar de opinião. Cansada de viver numa cidade pequena e sem perspectivas, foi para Lisboa, partilhando a casa com o irmão. Em pouco tempo tinha um numeroso grupo de amigos. Entre eles havia um grupo que já dera os primeiros passos no mundo da música e ela foi um reforço bem recebido. Tinha uma voz bem timbrada, era bonita, elegante e muito alegre. Estava disposta a estudar mas numa escola de música em Londres ou Nova Iorque. Para isso tinha que juntar dinheiro, pois a Mãe recusara-lhe ajuda para cumprir o seu sonho.
Maria Cecília partilhava com o irmão, apenas o espaço, pouco tinham em comum, nem os amigos,que ela nem conhecia do irmão mais velho.
Mas foi Paulo José o primeiro a sair. Para o Canadá onde tinha primos emigrantes. Aceitou ir trabalhar no restaurante e pequeno hotel que eles haviam comprado na costa agreste dos arredores da cidade de Vancouver. Pediu dinheiro emprestado, obteve o visto e de um dia para o outro partiu.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO







                                  
                                        PICASSO


5 – SEGUINDO O CAMINHO

Bárbara preparava a viagem. Já tinha o visto e o itinerário escolhido pela internet.
Faria Lisboa /Nova Iorque, ficaria uma semana na cidade que tanto desejava conhecer e só depois voaria para Seattle, atravessando o continente do Atlântico ao Pacífico.
O estágio, para além de estipular uma retribuição em numerário oferecia alojamento num apartamento perto do Instituto, que deveria partilhar com uma outra colega.
Não precisava de se preocupar com a logística o que lhe dava mais tranquilidade. Aproveitou os dias antes da partida para embalar livros, muitos livros e só depois as suas roupas que cabiam numa pequena mala. Aproveitaria a semana em Nova Iorque para comprar alguma roupa adequada ao inverno que se aproximava.
Para a bagagem de mão, escolhera uma mala com as dimensões autorizadas, onde iria levar a caixa de cartão com as memórias da Mãe, os seus objectos pessoais e pequenas recordações.
Olhava para a pequena mala e dava-se conta nela levava o passado que um dia teria e queria conhecer. Afinal uma parte da vida que não recordava, também seguia naquela pequena mala.
Quando esvaziava uma gaveta da mesa-de-cabeceira do quarto da Mãe, encontrou uma carta que lhe era dirigida. Tremeu, hesitou mas acabou por ler:
“ Minha filha,
Comecei a escrever esta carta quando senti que o destino se preparava para me dar o golpe final. Na verdade a minha doença não foi uma surpresa, já tinha recebido o aviso e só a minha vontade de te ver seguir o teu caminho me manteve lúcida. Mas sinto que se aproxima o fim da jornada. Deixo-te no limiar do teu futuro com a certeza que para os passos que faltam não precisarás do meu apoio. És uma mulher que se habituou a lutar.
Mas quero que saibas que todos os momentos contigo foram o sol da minha vida. Desde o primeiro choro, desde a primeira vez que te amamentei, que ouvi os teus gritinhos e senti as duas carícias de criança alegre e feliz, tu foste a razão, a única razão, do meu viver.
E tudo, cada minuto valeu a pena. Ter-te trazido dentro de mim foi o meu tesouro a minha alegria e a minha esperança no porvir. O passado ficara para trás o meu futuro foi o teu. E foste tudo.
É com dor que te vou deixar. Mas na hora da partida, que sinto breve, levarei no meu coração todo o amor que tu me deste e fico certa que como eu te ensinei, guardarás dentro de ti o carinho e o amor da tua Mãe.
Segue o teu caminho, não olhes para trás, o futuro será teu e o passado irá empalidecendo quando outras vozes te chamarem. Quando fores Mãe, fala da Avó que se ria e era alegre, Era assim que eu gostaria de ser lembrada.
Um dia, quando te sentires realizada e feliz, poderás abrir a minha caixa de recordações. Nela guardei entre outras pequenas coisas, um pequeno diário onde conto a minha vida passada. Não quero que isso te traga dor pois tudo o que vivi foi um pesadelo que o teu sorriso de criança ajudou a fazer esquecer.
E fui tão feliz ajudando a crescer a minha filha que até os desgostos antigos foram simples aguaceiros, que o sol depressa fez passar.
Agora, na partida, relembro-te as tuas promessas e junto mais uma. Procura a felicidade, não a deixes fugir.  Vai, segue o teu caminho. Eu estarei a teu lado.
Adeus,
Madalena.”
Bárbara não chorou, os olhos estavam secos por tanta lágrima que ela deixara fugir sentada junto ao leito de morte da Mãe.
Para sua surpresa encontrou também os certificados de uma conta poupança que a Mãe fizera em seu nome. Pobre Mãe pensou, quantos sacrifícios fizera para lhe deixar aquelas economias.
Sentiu-se cheia de coragem para percorrer o caminho.
E tinha a certeza que não o seguiria só.