quarta-feira, 2 de novembro de 2011

ENCONTRO COM O DESTINO







                                  
                                        PICASSO


5 – SEGUINDO O CAMINHO

Bárbara preparava a viagem. Já tinha o visto e o itinerário escolhido pela internet.
Faria Lisboa /Nova Iorque, ficaria uma semana na cidade que tanto desejava conhecer e só depois voaria para Seattle, atravessando o continente do Atlântico ao Pacífico.
O estágio, para além de estipular uma retribuição em numerário oferecia alojamento num apartamento perto do Instituto, que deveria partilhar com uma outra colega.
Não precisava de se preocupar com a logística o que lhe dava mais tranquilidade. Aproveitou os dias antes da partida para embalar livros, muitos livros e só depois as suas roupas que cabiam numa pequena mala. Aproveitaria a semana em Nova Iorque para comprar alguma roupa adequada ao inverno que se aproximava.
Para a bagagem de mão, escolhera uma mala com as dimensões autorizadas, onde iria levar a caixa de cartão com as memórias da Mãe, os seus objectos pessoais e pequenas recordações.
Olhava para a pequena mala e dava-se conta nela levava o passado que um dia teria e queria conhecer. Afinal uma parte da vida que não recordava, também seguia naquela pequena mala.
Quando esvaziava uma gaveta da mesa-de-cabeceira do quarto da Mãe, encontrou uma carta que lhe era dirigida. Tremeu, hesitou mas acabou por ler:
“ Minha filha,
Comecei a escrever esta carta quando senti que o destino se preparava para me dar o golpe final. Na verdade a minha doença não foi uma surpresa, já tinha recebido o aviso e só a minha vontade de te ver seguir o teu caminho me manteve lúcida. Mas sinto que se aproxima o fim da jornada. Deixo-te no limiar do teu futuro com a certeza que para os passos que faltam não precisarás do meu apoio. És uma mulher que se habituou a lutar.
Mas quero que saibas que todos os momentos contigo foram o sol da minha vida. Desde o primeiro choro, desde a primeira vez que te amamentei, que ouvi os teus gritinhos e senti as duas carícias de criança alegre e feliz, tu foste a razão, a única razão, do meu viver.
E tudo, cada minuto valeu a pena. Ter-te trazido dentro de mim foi o meu tesouro a minha alegria e a minha esperança no porvir. O passado ficara para trás o meu futuro foi o teu. E foste tudo.
É com dor que te vou deixar. Mas na hora da partida, que sinto breve, levarei no meu coração todo o amor que tu me deste e fico certa que como eu te ensinei, guardarás dentro de ti o carinho e o amor da tua Mãe.
Segue o teu caminho, não olhes para trás, o futuro será teu e o passado irá empalidecendo quando outras vozes te chamarem. Quando fores Mãe, fala da Avó que se ria e era alegre, Era assim que eu gostaria de ser lembrada.
Um dia, quando te sentires realizada e feliz, poderás abrir a minha caixa de recordações. Nela guardei entre outras pequenas coisas, um pequeno diário onde conto a minha vida passada. Não quero que isso te traga dor pois tudo o que vivi foi um pesadelo que o teu sorriso de criança ajudou a fazer esquecer.
E fui tão feliz ajudando a crescer a minha filha que até os desgostos antigos foram simples aguaceiros, que o sol depressa fez passar.
Agora, na partida, relembro-te as tuas promessas e junto mais uma. Procura a felicidade, não a deixes fugir.  Vai, segue o teu caminho. Eu estarei a teu lado.
Adeus,
Madalena.”
Bárbara não chorou, os olhos estavam secos por tanta lágrima que ela deixara fugir sentada junto ao leito de morte da Mãe.
Para sua surpresa encontrou também os certificados de uma conta poupança que a Mãe fizera em seu nome. Pobre Mãe pensou, quantos sacrifícios fizera para lhe deixar aquelas economias.
Sentiu-se cheia de coragem para percorrer o caminho.
E tinha a certeza que não o seguiria só.

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