domingo, 8 de abril de 2012

O ÚLTIMO VAMPIRO DE NOVA IORQUE

EM BUSCA DA CIDADE PERDIDA

Demorou dois dias para que Robert terminasse o que havia prometido. Levantou dinheiro que entregou ao seu jovem amigo, apresentou-o ao comandante do navio de cruzeiros que tinha acabado de atracar e conseguiu que Ruben fosse aceite não como passageiro, mas como empregado da copa.
Ruben estava contente, o seu caminho iria ser mais cómodo e, acima de tudo, mais económico.
Não sabia quando custaria a viajem por avião da cidade de Panamá para Nova Iorque, a cidade dos seus sonhos. Tinha pressa em chegar, arranjar trabalho e começar e enviar dinheiro para a Mãe e Irmãs.

Por sua vez, Robert seguiria pela manhã o caminho de regresso. Ruben assistiu à partida com uma lágrima rebelde e com uma sensação estranha que não conseguia explicar. O amigo decidira à última hora  esquecer o programa e visitar a montanha e a floresta que cercavam o lago Tikal, seguindo  todavia pelo caminho mais longo, e com uma parte quase desconhecida. Planeava contornar o lago Izabal,  embrenhando-se nas florestas à procura da cidade perdida.
Dissera a Ruben que em dado momento, abandonaria a carrinha e seguiria a pé, evitando os trilhos já assinalados nos mapas. Algo me diz que  só assim será possível alcançar o meu sonho, a cidade perdida.
Ruben que acreditava que a cidade era produto da imaginação dos camponeses que contavam histórias assombrosas, de florestas que escondiam tesouros e guardavam os segredos sentiu que o amigo acabaria perdido, algures num lugar inecessível. Segundo a crença dos mais velhos, as montanhas, os vulcões, as florestas era um mundo vivo que atraíam como um íman os aventureiros, mas que nunca um sequer, havia   regressado.

Ouvira o Pai  falar de um povo que ainda resistia ao avanço da civilização. Imaginara que esse povo viveria em  túneis escavados nas montanhas, protegendo-se do avanço da lava dos vulcões. Seria um povo de guerreiros, adoradores do fogo a quem sacrificavam  homens e animais em cerimónias de sangue e de magia.
Claro, ele sabia serem apenas histórias que foram passando de geração para geração, porque afinal, nunca ninguém encontrara rastos da cidade perdida.
O que o não conseguia entender era a febre que atacara o amigo americano. Afinal teria sido um chamamento? 
 E como a confirmar, olhava para Robert. Estava, impaciente e tinha um brilho estranho no olhar. Estava branco como se, de repente o sangue lhe tivesse desaparecido do corpo.
De facto Robert sofrera uma transformação. Agia agora como alguém que teme que a vida se esgote. Arrancou de imediato, sem um adeus ou um aceno.
O arqueólogo fascinado pelas civilizações desaparecidas, também interpretara o seu estado febril como um desafio, um aviso, talvez um apelo. Era estranho, a febre desaparecera logo que tomara a decisão de cancelar o retorno por barco e decidira voltar a perder-se nos caminhos do desconhecido.
 Não partiria de barco porque acreditava que num qualquer recanto perdido da floresta o destino esperava por ele. E não iria faltar ao encontro, nem que isso lhe custasse a vida.

Ruben ficou no meio do caminho, com o coração apertado. Estava só, sentia uma sensação de perda pois acabara de ver partir um amigo que o acaso lhe dera a conhecer e sentia um frémito só de pensar que talvez não o voltasse a encontrar.
Por momentos pensou em desistir, mas quando entrou no navio e se apresentou ao chefe cozinheiro que lhe entregou as fardas, atribuiu um beliche bem perto de uma vigia e lhe distribuiu trabalho, deixou para trás os seus receios, e subiu à coberta para espreitar a saída do navio.
E como era lindo o mar, azul e esverdeado, ondas leves que pareciam abrir-se para deixar que a quilha do navio as ultrapassasse. Estava tranquilo, o trabalho era o mesmo que já fizera no hotel, apenas o navio era um mundo que não esperava.
Regressou à zona da cozinha e da copa e começou o seu trabalho. De repente ficara alegre e determinado. Nada nem ninguém iria impedir que cumprisse o seu sonho. Devia isso ao amigo que partira buscando o sonho, assim como ele também perseguia a ilusão dum futuro melhor.
O navio de cruzeiros seguia cheio de homens e mulheres, turistas que regressavam de férias em Acapulco e haviam escolhido aquele cruzeiro para continuarem a usufruir do sol, do mar, e dos jogos de casino e do amor.
Ruben que ajudava ao serviço,  espreitou e ficou deslumbrado com o requinte com que os passageiros aguardavam a hora do jantar.  As mulheres que durante o dia vira em fatos de banho e ou em calções usavam agora vestidos compridos, decotes ousados e jóias reluzentes. Os homens de fato e gravata, pareciam estar a aguardar uma qualquer recepção oficial. O certo é que uns e outros estavam bem dispostos, riam e despejavam taças de champanhe. No Hotel onde trabalhara, Ruben nunca vira um jantar assim.
Enquanto caminhava pelo salão segurando uma bandeja com taças e copos cheios, o seu colega, um mexicano mais velho, convidava os passageiros a uma bebida que escolhiam de uma mesa farta. Ruben estava de olhos arregalados, nunca vira tanta mulher bonita e sentiu que algumas lhe sorriam de forma convidativa.  Algumas bem reparou que procuravam companhia e ele era um pouco atrevido. Mas o colega mexicano, já o avisara:

- Tem cuidado, sabes algumas procuram apenas uma aventura de uma noite, e o Comandante não admite que na sua tripulação haja envolvimentos com turistas. Olha o teu lugar era de um colega que se deslumbrou e ficou em Acapulco. A Companhia tem uma política muito exigente e basta um turista apresentar uma queixa para o trabalhador ser logo despedido. Se queres conservar o teu trabalho, finge que ignoras os convites mais ou menos descarados. E sobretudo, foge de homens e mulheres que beberam demais.
Ruben percebeu o aviso, não queria deitar por terra a confiança que outros tiveram nele, guardou distância.

O navio atracou no porto na Costa Rica de onde se via uma praia de areia dourada que se estendia ao largo da costa. O director do Cruzeiro confirmou aos passageiros que a praia  e o lugar eram seguros. O navio iria ficar atracado até ao meio dia do dia seguinte, hora a que regressaria ao mar para a última etapa do cruzeiro, o Canal do Panamá.
Porque alguém teria comentado que, teria havido uma invasão por tropas da Nicarágua, o Director explicou que tal se devera a um erro de satélite, na identificação da fronteira entre os dois Países, mas que, esclarecido o erro, tudo voltara a normalidade
Ruben ficou no navio, estava demasiado ansioso. Ficou no seu lugar lendo em voz alta, o poema de Ruben Dário, que o amigo americano lhe recomendara. E lembrou-se do amigo e sentiu frio e medo sem perceber porquê. Interrogou-se se o voltaria a ver?

segunda-feira, 2 de abril de 2012

O ÚLTIMO VAMPIRO EM NOVA IORQUE

DOIS CAMINHOS

Uma noite quente, num quarto de hotel, o amigo americano não conseguia dormir. Ardia em febre e o suor empapava a roupa. Levantou-se e apoiando-se pelo caminho, foi bater à porta do quarto onde o companheiro descansava, na primeira noite da sua aventura.
Ruben acordou sobressaltado, ficou inquieto e com receio que alguém o procurasse. Tinha medo da família da Mercê, estava com medo que eles já andassem à sua procura.
Prestou atenção e ouviu a voz do amigo americano que pedia ajuda.
Deu um salto, acendeu a luz e abriu a porta. Caído e encostado na parede do corredor, Robert quase a desfalecer, estendeu a mão murmurando:
- Preciso de ajuda, tenho muita febre.
 Ruben levantou-o e ajudou a que ele se deitasse da sua cama. Depois com uma toalha molhada em água fria ia limpando o suor fazendo com que a temperatura baixasse. No seu saco de viagem guardara uma caixa de comprimidos que a Mãe lhe dera, lembrando que eram aspirinas para combater a febre.
Deu dois comprimidos que Robert engoliu com um copo de água.
O amigo americano fechou os olhos, a temperatura descera e parecia descansar.
Ruben ficou sentado na beira da cama dormitando mas atento aos movimentos do doente. Era assim que se lembrava de ver a mãe fazer quando um dos filhos aparecia com febre alta, situação que era frequente naquele clima.
O dia nasceu, a luz entrou pela janela do quarto. Ruben abriu a janela e espreitou o sol que aparecia vindo do lado do mar. Era bonito, a luz do sol fazia dançar as ondas. Ruben via pela primeira vez o mar das Caraíbas. Por um momento sentia a nostalgia de uma paisagem única e imaginava quanto teria de andar para chegar à terra prometida.
O americano acordou fraco mas bem disposto. Olhou para o amigo e disse:
- Assustei-me já não me lembrava de ter uma crise como esta. Ajuda-me a voltar ao meu quarto, pede para nos servirem o pequeno almoço porque quero conversar contigo. Enquanto comiam, Robert olhava fixamente o rosto do amigo como se procurasse algum sinal de inquietação. Mas Ruben estava tranquilo embora receasse que a conversa do amigo, pudesse alterar o rumo da sua vida.

- Ruben, meu bom amigo, senta-te e ouve o que eu te quero contar. Tu já imaginaste a minha idade, estou certo, mas também julgo que andarás longe da realidade. Eu já dobrei os setenta anos e desde os trinta que percorro a América atrás dos mitos e dos sinais da civilização Maia.
Admito que no teu pensamento te interrogues o que faz com que um homem velho, gasto, sem família ande a correr mundo. Pois bem, fiquei doente e a medicina fez o seu diagnóstico e prescreveu a terapia. Deveria descansar, alimentar-me regularmente, dormir bem, fazer exames médicos frequentes, tomar uma série de medicamentos respeitando a periodicidade indicada e morrer um dia, no conforto da minha casa. Sim, confirmaram uma doença que não perdoa. Eu tomei consciência que ainda me faltava percorrer parte do caminho onde se sentia feliz. Decidi ignorar as recomendações da medicina e optei por procurar nas florestas, nos caminhos percorridos por civilizações destruídas o prazer da descoberta, respirando o ar puro da natureza. Foi o que me trouxe ao teu País.

Esta noite senti que já não me restará muito tempo e não consigo deixar de pensar que ainda me falta completar um ciclo. A minha saga só ficará completa se subir o caminho até ao lago e ruínas de Tikal. Sem essa visita o meu roteiro ficará incompleto. E, repara, esse lugar mítico é na tua terra.
Depois irei até Belize, um voo para Miami e o regresso a casa. Um mês, dois meses, talvez.

Porém para o teu destino será uma viagem desnecessária. Por isso te proponho o seguinte:
-Vais tomar o barco de cruzeiros até ao Panamá. Eu posso garantir a tua passagem sem qualquer problema, sou amigo do comandante do navio.

No Panamá vais contactar um outro amigo que trabalha no Consulado Americano. Procuras o Sr. Frank Perry e ele ajuda-te com um visto que te possibilita a entrada nos Estados Unidos. Será um visto temporário, um ano no máximo. Mas depois poderá ser prolongado. Eu vou-lhe enviar ainda hoje ou amanhã, por correio electrónico os teus dados e o meu pedido. A tua residência nos EUA será o meu apartamento em Nova Iorque e eu assumirei a responsabilidade.

 Hoje vamos ao Banco e eu procederei ao levantamento de dólares que te permitirão a compra das tuas passagens de barco e de avião e ainda ficarás com algum disponível até encontrares trabalho. Depois quando eu voltar pagas o meu empréstimo. Está bem assim?
Aceito a vontade de me ajudar e também compreendo o seu desejo de visitar Tikal. Sempre ouvi dizer que é um lugar mágico e que nunca se pode esquecer. Mas está doente, será um trajecto longo, até perigoso e ficarei preocupado. Porque é que eu não lhe faço companhia? É para isso que os amigos servem não é verdade?
- Sim é verdade, mas tens que compreender que é a minha última viagem e que, para mim é muito importante que a faça só. Aliás o que é que me pode acontecer? O pior será ficar sepultado numa floresta, quem sabe, protegido pelas nuvens. Confesso que se isso acontecer o risco terá valido a pena.
  
Mas fica tranquilo, eu não me vou esquecer de ti e prometo que vou voltar à minha casa e que tu lá estarás à minha espera. Não nos vamos despedir. Terei que escrever o livro que te prometi.


quinta-feira, 29 de março de 2012

O ÚLTIMO VAMPIRO EM NOVA IORQUE

3 –  UM POEMA

No caminho decidiram parar numa localidade considerada como o paraíso dos arqueólogos. Robert já conhecia os tesouros de Santa Lucía Cotzumalguapa mas aproveitou para mostrar a Ruben, dizendo:
- Vê meu amigo. Estas florestas, estes vales, montanhas, vulcões são o melhor que a tua terra tem para mostrar, lembrando que a civilização dos povos antigos foi mais espiritual e complexa do que os livros nos dizem. As palavras que nos deixaram estão nas estátuas e cada uma tem o seu significado.

É bom para o teu País que os turistas aqui venham mas para isso é preciso que eles se sintam em segurança, o que, como sabes, não é o caso.
Mas vocês, ao mesmo tempo que devem fomentar o turismo, que vos trará riqueza e trabalho, também devem defender o vosso património, a herança dos vossos antepassados. Porque se o não fizerem perderão a vossa identidade e as gerações futuras não vos perdoarão.
Aprende Ruben, a economia que vocês precisam não pode matar a vossa riqueza.
Tu, que vais procurar um futuro melhor para ti e para a tua família, sabes que não será fácil o caminho, não te iludas e nunca deves esquecer as histórias que o teu Pai te contou. Elas são a tua herança, a tua ligação à terra que te viu nascer.
Enquanto falava com o amigo, o arqueólogo examinava cada estátua, cada pedra, mesmo coberta por erva, tomava apontamentos no caderno que sempre trazia, desenhava o lugar e depois numerava os desenhos.
Ruben assistia impressionado. Robert falava com as estátuas que encontrara, que anotava como pertencendo a um templo a um monumento ou um túmulo. Estava ausente e fascinado e isso lia-se nos olhos.

Ruben estranhou a ausência de máquina fotográfica e falou disso. Robert abriu os olhos dizendo:
- Olha meu amigo, tirar fotografias como tiram os turistas, e apontou para um grupo que rodeava uma estátua no meio da selva, enquanto o guia fazia o enquadramento e tirava fotografias, para mim não é importante. Diz-me tu, aquelas pessoas, vão regressar a casa e mostrarão as fotografias aos amigos. Delas irão guardar os amigos, os passeios, mas as maravilhas da natureza e os tesouros deixados pelos antigos, estátuas, pedras, os buracos escavados nas rochas, as árvores milenares, serão apenas paisagem. Não serão sequer fotografias como obra de arte, o que eu compreendia, mas simples recordações de viagens, que o tempo apagará.
E o mistério, o encanto duma civilização desaparecida há muitos séculos, isso só poderás encontrar nos livros especializados e nas histórias contadas de geração em geração. E isso é que faz a história. E continuou:
- Um dia, ainda hei-de escrever um livro contanto a minha peregrinação pelas Américas. Guardarei um exemplar para ti, prometo.
 Por falar em livros, responde Ruben, eu tenho comigo um livro que o meu Pai me deixou como recordação ou herança. Ainda não tive tempo para o ler, mas estou certo que o Senhor o conhecerá!
- Pode ser, mas não me chames de senhor. Somos amigos ou não somos? Vá lá, mostra lá o livro!
Ruben com todo o cuidado desembrulhou o velho livro de Ruben Dário.
O amigo americano olhou para o livro, folheou e leu alguns poemas com ao mesmo entusiasmo de que falara da arqueologia. E disse:
-Ruben o teu Pai deixou-te um livro que é uma obra-prima de um dos maiores escritores da América Latina. Eu já o li, numa versão mais actualizada, pois aquele que tu trazes é bem antigo. Não me admiraria que ele já tivesse sido de um parente mais afastado, pois pareceu-me publicado respeitando a língua original. Mas o autor não é do teu País. É teu vizinho, nasceu na Nicarágua.
Aí está uma coisa que deves aprender. Ler um poema é viver cada palavra, com amor ou com raiva. Repara, eu vou dizer um poema que muitas vezes repito, nas noites em que estou só, olhando a magia das formas.
                                               NOCTURNO         (A Mariano de Cavia)
Los que auscultasteis el corazón de la noche,
los que por el insomnio tenaz habéis oído
el cerrar de una puerta, el resonar de un coche
lejano, un eco vago, un ligero rüido...

En los instantes del silencio misterioso,
cuando surgen de su prisión los olvidados,
en la hora de los muertos, en la hora del reposo,
sabréis leer estos versos de amargor impregnados...

Como en un vaso vierto en ellos mis dolores
de lejanos recuerdos y desgracias funestas,
y las tristes nostalgias de mi alma, ebria de flores,
y el duelo de mi corazón, triste de fiestas.

y el pesar de no ser lo que yo hubiera sido,
la pérdida del reino que estaba para mí,
el pensar que un instante pude no haber nacido,
¡y el sueño que es mi vida desde que yo nací!

Todo esto viene en medio del silencio profundo
en que la noche envuelve la terrena ilusión,
y siento como un eco del corazón del mundo
que penetra y conmueve mi propio corazón.

Ruben Dário

Olha Ruben,  vou mudar o programa. Pensei descer a costa do Atlântico, passar por Salvador, pela Nicarágua, Costa  Rica e depois o Panamá.  Mas nestes Países não espero encontrar grandes motivos de interesse para a minha pesquisa. O melhor, é na Nicarágua, mas tu já o tens. é o livro. Por isso vamos ficar uns dias  por aqui, eu quero visitar mais sítios que programei. Depois venderemos a carrinha e seguiremos a viajem num barco de cruzeiro.

No Panamá vamos tentar encontrar um barco que nos leve a Miami. Teremos que correr alguns riscos, principalmente tu, mas a vida sem riscos também não é vida.          
         

sábado, 24 de março de 2012

O ÚLTIMO VAMPIRO EM NOVA IORQUE


2 - A PARTIDA

Ruben estava ocupado com os preparativos para a viagem. Vivia com a Mãe numa casa muito simples nos arredores da cidade. Camponesa, trabalhara a terra alimentando os três filhos. O marido decidira procurar outra vida, soubera que no México teria oportunidade de trabalhar para um grande fazendeiro. Embarcou no sonho e não voltou.
 A Mãe continuara a regar a terra com o seu suor dela tirar o sustento da família. No meio da pobreza ela quis que Ruben tivesse acesso à escola e lutou para isso. Ele era o único filho varão e seria o seu amparo na velhice e o guia das irmãs mais novas.

Quando Ruben lhe contou a sua disposição de procurar o caminho que os tirasse da pobreza, a Mãe lembrou o marido e disse-lhe:
- Eu sempre acreditei que tu não pertencias a este nosso mundo. Saíste ao teu Pai que pagou com a vida ou nos esqueceu.Se acreditas no teu amigo vai, não te esqueças de nós, escreve quando puderes, eu ficarei a rezar por ti.
Ajudou o filho a preparar um saco com a roupa que tinha, um pão e uma garrafa de água. Depois foi à velha arca de madeira e tirou um livro. Toma meu filho, leva contigo. É a única recordação que o teu Pai nos deixou. Gostava de ler e foi em homenagem ao seu autor que tu recebeste o nome, Ruben. Não te separes dele, vai dar-te sorte.
Ruben abriu o livro cuidadosamente embrulhado em papel grosso. E leu o título  “Contos de Vida y Esperanza”  e o autor Ruben Dário.
Não conhecia, mas sentia que iria gostar do livro e talvez o amigo americano lhe explicasse quem fora o autor, ele não conhecia.

 A Mãe não se quis despedir do filho, pegou na enxada e partiu para o campo. Só lá longe chorou beijando um crucifixo que trazia no peito.
Era sábado, Ruben estava de folga enquanto Mercê, a namorada estava de serviço dia e noite. Melhor assim, Ruben receava não conseguir enfrentar o drama da partida. Pensou melhor e deixou uma carta de despedida.
Escrevera com sentimento, com ternura, com amizade e com amor.
Ela iria sofrer, mas Ruben não lhe pediu para esperar. Nem ele se atrevia a imaginar o seu futuro, pelo que não quis que Mercê se sentisse obrigada a esperar.
Tinham feito amor algumas vezes mas acreditava terem sido prudentes. Não partia com esse peso na consciência. Mercê era uma jovem bonita e não teria dificuldade em esquecer um amor que vinha da infância. Mas na carta deixou algumas lágrimas e um coração partido.
 Robert tinha combinado que sairiam na manhã de domingo. O local de encontro seria um hotel localizado na Avenida das Américas.
Era um lugar bom para iniciar a caminhada e Ruben esperou desde bem cedo. O amigo chegou conduzindo uma pequena camioneta de caixa aberta, parecia em bom estado, onde arrumara a bagagem, dois jogos de pneus e alguns bidões de gasolina.
Estava contente, acenou a Ruben para entrar dizendo, vem amigo vem, a estrada é longa mas o tempo é todo nosso.

Ruben despediu-se com um olhar para a montanha que o vira nascer. ´
-É bonito não é Ruben?
- Vivi parte da minha vida na sombra do vulcão. O meu Pai contava-me histórias das antigas civilizações. Falava em templos escondidos no meio da floresta, onde à noite se viam os antigos deuses fazendo sacrifícios. Contava coisas de arrepiar, como os vampiros que procuravam sangue dos pobres camponeses desprevenidos. Por isso a minha Mãe e as minhas Irmãs traziam ao pescoço crucifixos que as protegiam.

- O senhor acredita nestas histórias, perguntou Ruben?
- Sabes, as florestas, as montanhas e os vulcões da tua terra, encerram muitos segredos que ainda não foram desvendados. Eu acredito que os contos e as histórias que os povos foram contando ao longo dos séculos, terão  tido algum cunho de verdade. Mas há muitas formas de entender e aceitar a verdade.
 Vamos andando,  iremos visitando alguns lugares que a mim me interessam e ficaremos junto ao mar em Puerto Quetzal.


quarta-feira, 21 de março de 2012

O ÚLTIMO VAMPIRO EM NOVA IORQUE



Há muito tempo que pensava escrever uma história sobre este tema. Lembrei-me de uma pessoa, que me é muito querida, e que adora histórias de vampiros.
É para ela que vou tentar inventar uma história de arrepiar. Mas receio não  conseguir. Na verdade estou mais à vontade em temas que tragam alguns sentimentos de amizade, de amor, ainda que algumas histórias tenham também algum conteúdo melodramático, característica que raramente fui capaz de evitar.
Ao fim e ao cabo os vampiros existem, e para mal do mundo em que vivemos, toda a gente sabe onde os encontrar ou finge não saber.
Eles não são cegos, sabem bem sugar o sangue dos pobres e dos oprimidos. Têm-se multiplicado, são gordos e vorazes.
Mas não é desses que eu quero falar.
Eu quero contar uma história que encontrei no fundo das minhas memórias. É sobre um vampiro velho, quiçá, o último da sua espécie.
Esta é a sua história.


1 – Guatemala

Ruben Garcia nasceu na velha cidade de Guatemala, a antiga capital do País com o mesmo nome. A cidade foi berço de civilizações que os colonizadores destruíram. No meio da floresta, ficaram os restos, os túmulos, os segredos e alguns pobres indígenas que escaparam à escravatura.
Foram eles que se recolheram em locais quase inacessíveis mantendo as suas tradições e a sua liberdade.
Os exploradores vasculharam as ruínas de uma cidade próspera, roubando as esmeraldas e outras pedras preciosas. No final do saque ficaram ruínas, ossos, túmulos esventrados e segredos perdidos.
Ruben cresceu na velha cidade que se foi transformando em lugar de peregrinação turística dos turistas que procuravam sinais do seu passado.
A praça principal da velha cidade fora assim transformada num enorme bazar onde se vendiam como arte, artefactos feitos em qualquer fabriqueta, pedras preciosas, bonitas mas sem valor.

Os turistas mais ousados ficavam na cidade  admirando um dos mais aterradoras fenómenos de natureza. A poucos quilómetros da  capital, o fumo que saía das crateras dos vulcões, eram um aviso e um espectáculo para as máquinas de filmar e de fotografar.


                             


Foi no hotel onde trabalhava como porteiro, que Ruben encontrou um americano de quem se fez amigo. Chama-se Paul Roberts, seria homem para cinquenta anos de idade que dizia ser arqueólogo.
Ruben tinha pouco mais de vinte anos, trabalhava no hotel  mas sonhava com o desafio da América rica.
A pobreza se não o envergonhava mas roubava-lhe o futuro. Mercê a namorada, camareira no mesmo hotel, insistia no casamento mas Ruben encontrava sempre um obstáculo. Mas algo tinha que ser feito. Mercê disse-lhe que estava grávida e que a família não iria aceitar a sua situação. Os Pais e o rancho de irmãos eram um perigo e a Ruben só restavam dois caminhos. Ou casava ou fugia.
O americano a quem Ruben contara o seu problema sugeriu que o podia ajudar. Propunha o seguinte:
- Vais adiando um pouco mais a decisão enquanto eu preparo o meu itinerário.
Tenciono viajar por terra deste a tua terra até à cidade do Panamá. Tenho lá amigos que me ajudarão a fazer a viagem de regresso para Miami.
Vou alugar uma viatura e dentro de uma semana partiremos pela estrada que passa por
 Salvador, Nicarágua e Costa Rica. Programei oito dias para a jornada porque há lugares que tenciono visitar. Enquanto estiveres comigo não te deves preocupar. Algumas vezes eu poderei ter de me deslocar, só a uma casa ou lugar. Tu aguardarás sem fazer perguntas, que eu regresse e depois seguiremos viagem.
Pensa na minha proposta. Eu apenas te garanto o percurso até à cidade de Panamá. A partir daí, poderei ajudar mas sem garantias de te fazer entrar nos EUA.
Ruben deixou-se fascinar e em segredo preparou uma maleta e o pouco dinheiro que tinha amealhado e embarcou na aventura que o amigo lhe propusera.

terça-feira, 20 de março de 2012

PRIMAVERA

Quase sem se dar por isso, aí está a Primavera.
É por tradição a estação da alegria, do prazer dos campos verdes e das árvores em flor.
Hoje o céu está azul, lindo, o sol dá-nos o seu calor e a sua luz, mas a alegria anda esquecida.
Ontem, duas crianças, o Jorge e a Helena, irmãos gémeos, regressaram da escola trazendo com todo o cuidado o desenho em cartolina que haviam pintado na escola. Era a prenda para o dia do Pai.
Tinham desenhado um boneco colorido, gordinho, de riso aberto, segurando uma flor. Com a ajuda da Professora, escreveram no desenho,” Para o Pai” e concluíram a dedicatória desenhando dois corações bem juntinhos e uma flor que a Professora juntou. 
Estavam tão orgulhosos, não resistiram a mostrar à Mãe a prenda que tinham desenhado.
Com a inocência dos seus sete anos, nem se aperceberam que ao ver o desenho, a Mãe deixara escapar uma lágrima.
- Mãe achas que o Pai vai gostar da nossa prenda?
- Claro que vai, o Pai ficará orgulhoso por receber a vossa prenda. Mas hoje ele vai chegar mais tarde! Mas vocês vão deixar o desenho no vosso quarto, mesmo em cima da vossa mesita de cabeceira. Assim, quando regressar e vos for dar um beijo de boa noite, ficará feliz com a surpresa que vocês lhe vão guardar. É uma boa ideia, não acham?
O Pai chegou já a noite ia longa. As crianças dormiam e a mulher esperava-o com a esperança de ouvir as palavras mágicas.
Abraçaram-se sem palavras.  O dia do Pai tinha sido mais um dia sem trabalho, sem ganhar o sustento. Afinal a Primavera ainda não chegara. Talvez chegue amanhã, murmurou a mulher.
Pelos nossos filhos, não podes perder a esperança. Vai ao quarto e quando os beijares verás um sorriso feliz nos seus lábios. Estarão a sonhar imaginando a tua alegria com a prenda que com tanto carinho te guardaram.
E amanhã será um dia melhor, quem sabe, trará a primavera e a esperança.

domingo, 18 de março de 2012

DIA DO PAI

Alguém se lembrou de determinar que amanhã, dia 19 de Março, seria comemorado como o dia do Pai.
Não sei se a ideia nasceu na Igreja, ou se foi uma operação de marketing para aumentar as vendas daquelas coisas que, por norma não se compram.
E lá vemos os adultos percorrendo os centros comerciais, acompanhando as crianças na procura de uma oferta para o dia do Pai.
Percebe-se que uma criança sinta orgulho em entregar ao Pai um pequeno embrulho com um cartão bonito que a Mãe o ajudou a escrever. E o Pai ficará feliz.
Todavia eu, lembro com saudade o Pai que já perdi e a quem nunca dei um presente alusivo à efeméride. Nem sei se naquele tempo já havia dia do Pai, penso que se trata de uma invenção relativamente recente. Mas algo lhe dei sempre, porque não custava dinheiro. Dei-lhe amor e razões para se sentir orgulhoso do filho.
Certo dia, corria o ano de 1965, a guerra era o meu lugar, mas vim passar férias a Portugal, aproveitando a recente carreira da TAP mas com aviões a jacto, creio ter sido o famoso Boeing 707.
O meu Pai fez algo que na altura não gostei muito, mas que hoje, tantos anos passados, reconheço o carinho, o orgulho e o amor que o meu Pai sentiu, quando publicou na página pessoal dum jornal da cidade, uma notícia que dizia, qualquer coisa como isto:
“Encontra-se na nossa cidade, em férias da guerra em Angola, o Alferes Miliciano Joaquim Lameira, filho de António Ventura Lameira, guarda-portão da fábrica Robinson”.
Pois foi Pai, tiveste muito orgulho na visita do teu filho, que sabias estar na guerra, mas eu, peço-te perdão, durante a visita nunca andei fardado e tarde compreendi a desilusão que te dei.
Ficaste triste, eu sei, mas para um jovem de pouco mais de vinte anos, esses pequenos grandes gestos sem sempre colhem a atenção que mereciam.
Mas hoje penso em ti e sou eu que sinto orgulho em ter sido teu filho. E estas simples palavras serão a minha prenda do dia do Pai.