terça-feira, 19 de março de 2013

PEQUENO JORNAL


                                                     A LUZ E A SOMBRA

           

           

 

“HABEMUS PAPAM” , era a notícia  escolhida para a primeira página deste pequeno jornal, no dia 13 de Março de ano 2013, ano de todos os perigos.

O Conclave de Cardeais, uma espécie reunião de sábios da Igreja Católica ou como muitos pensam, o Conselho de Administração do Vaticano, surpreendera meio mundo com a escolha de um Cardeal desconhecido, vindo do outro lado do mundo, que se apresentou aos crentes e não só, como um homem simples, no gesto e nas palavras.

E Francisco, o nome que escolheu dizia alguma coisa sobre o seu pensamento.

Houve lágrimas de alegria, sorrisos de esperança mas também  o receio que o Papa Francisco não tenha força, coragem e vontade para limpar, profundamente os gabinetes do Vaticano.

Se o não fizer será apenas mais uma promessa esquecida e mais um degrau no declínio da Igreja Católica.

Mas tenhamos esperança que com sabedoria saiba rodear-se dos bons e dos puros, para que lhe não aconteça nenhum acidente, como a João Paulo I.

É contudo o primeiro Jesuíta a ocupar o lugar mais alto na Igreja.

A escolha de Francisco como nome de Papa, atenua a intranquilidade que o facto de ser da Companhia de Jesus, traz aos mais conhecedores da História das Religiões. Mas com esperança bebida na simplicidade do Papa Francisco, a história da evangelização e extermínio dos Povos nativos das Américas Central e do Sul, foi esquecida e, quem sabe, até perdoada.

Dia 13 de Março era, apesar de algumas reticências, um dia de esperança para o mundo. Um dia de sol.

 

A ÚLTIMA CONFERÊNCIA

Mas sobre nós caiu a sombra.

Este pobre e ignorado povo, desta língua de terra que o mar vai levando metro a metro, o sorriso do Papa Francisco depressa se iria esquecer. E foi logo numa sexta-feira, dia 15 do mesmo mês, que assistimos com o coração nas mãos e uma lágrima amarga, à leitura da uma penitência bem dura.

Quem nos ameaçou com o fim, foi um Ministro que com uma voz sem alma, acompanhado por um séquito de personagens que pareciam ter fugido de um qualquer lugar bem obscuro.
Mais uma vez a folha de Excel onde ele inventa as previsões económicas, por mais disparatadas que sejam, falhou. Mas tudo estava bem, a visita dos cavaleiros do Apocalipse tinha sido um sucesso. Faltava, contudo, completar a receita para o sucesso, escolhendo  os que deverão ser sacrificados a favor da insaciável besta negra do capital financeiro internacional e dos amigos do costume. Afinal era preciso mais vítimas, mais pobreza, mais miséria. Mais desemprego, oportunidade única para que os que ainda puderem andar, partirem à procura do sustento de cada dia. Como sempre o nosso Governo deu-nos a escolher. Ou morremos mais depressa ou morreremos mais devagar. 
O garrote que nos foi anunciado fará esconder o sol, oferece-nos a sombra escura do desespero. 

Todavia na mesa fúnebre onde Gaspar lia o livro dos castigos, dois dos principais personagens tinham fugido. Pedro, já não admirava. Não fora ele que na última ceia negara conhecer Jesus?

 E Paulo, o mais inteligente, prudentemente viajara para bem longe.

Assistimos mansos como cordeiros à degola dos inocentes. Entre tantos descamisados, por obra e graça do "Espírito Santo"  talvez alguém alcance a salvação.

Mas se os católicos olham para o Papa Francisco com esperança, nós vamos olhar para quem?

Os italianos votaram num grilo falante que promete por a cabeça em água aos seus parceiros Europeus. 
Nós não temos essa sorte. As formigas emigraram ficamos só as cigarras que já não sabem cantar.
 Assim nunca mais sairemos da cepa torta. Voltaremos a ser miseráveis e as trevas perdurarão por muitos anos.
 
          A punição não deixa de ser merecida, para quem tanto erro cometeu.



 

sexta-feira, 15 de março de 2013

PEQUENO JORNAL


A austeridade e as baratas

 

A austeridade também afetou este pequeno jornal. Teria que ser, os cortes levaram o resto da esperança e a vontade de resistir.

E tudo começou numa quarta-feira. Podia ter sido no sábado, era igual, mas foi numa quarta-feira que o computador se recusou a trabalhar.

Só faltava esta greve (?) para completar os problemas dum pequeno jornal, dando os primeiros passos num mundo hostil. O Editor e os jornalistas, que por razões de austeridade, partilhavam o mesmo e único computador, perderam vontade e deslumbraram-se com o espetáculo televisivo, fosse uma telenovela, um debate na Assembleia ou um jogo de futebol.

Foi um vírus, pensou-se, ou então o jornal havia sido condenado pela sempre atenta Autoridade para a Comunicação Social, por ter, inadvertidamente, violado alguma regra declarada nos dias anteriores.

Afinal fora apenas uma consequência da austeridade. Uma máquina velha, como velhas eram as palavras.

Um técnico ajudou a repor o velho computador e por isso aqui está a explicação para uma tão grande ausência.

E toda a gente lançou mãos à obra tentando dar força às palavras, mas faltava a Poesia. 

Porque a Poesia é uma arma, dizia o poema de Gabriel Celaya. Mas é uma tarefa ingrata.

 A luta pela sobrevivência levou a que milhões de pessoas, habituadas ao sofrimento, á pobreza, à incultura, ao egoísmo, vítimas dos oportunistas medíocres deixassem de ouvir as palavras dos Poetas.

Hoje é preciso acordar, gritar e ir à luta. De mãos livres e de coração fechado.

Terão razão os que esqueceram a força das palavras? Não, mas há que reconhecer que são uma arma desadequada para combater uma praga dos nossos dias.

A comissão europeia, é um ninho de baratas, disse Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia.

E custe o que custar, doa a quem doer, deve ser verdade.

As baratas, algumas serão tontas, mas todas conservam o instinto de sobrevivência que resistiu às transformações da terra, ocorridas num período que se estima em mais de quatrocentos milhões de anos.

Assim, enquanto houver lixo, continuarão a prosperar. A Comissão Europeia é o lugar indicado.

Todos já convivemos com baratas, grandes e pequenas, castanhas e encarnadas, cinzentas e pretas, com asas e rasteiras e por mais nojo, mais limpeza que façamos, elas continuam e ficarão mesmo depois de desaparecer o último ser humano.

Tenha atenção, quando pisar com asco uma barata poderá a atingir alguma barata tonta ou uma perigosa.

Poderá estar a esmagar uma “Blatella germânica” ou uma “Blatta orientalis”. Não corra riscos desnecessários, finja que não vê e assim talvez se safe.

E se conseguir resistir ao impulso não se esqueça de agradecer ao grande irmão que nos acompanha, ali pelos lados de Belém. Valha-nos isso.

 

 

sexta-feira, 1 de março de 2013

PEQUENO JORNAL


-O País reúne as condições para, no curto prazo, consolidar o regresso aos mercados.

Era uma pequena notícia, em jeito de rodapé, da pequena folha que a Junta de Freguesia costuma distribuir.

O senhor Francisco não deu grande atenção aquela afirmação nem às poucas notícias que o pequeno jornal trazia nas duas folhas habituais. Mas viu dois óbitos na freguesia. Da senhora Gertrudes, uma mulher que nunca casara, que nunca deixara a casa recebida dos seus Pais, uma casa tão velha como velha era a aldeia. Ninguém conhecia a sua idade nem família. Vivia do que a pouca e pobre terra lhe dava e a pobreza e a solidão tinham sida as suas únicas companheiras.

E o senhor Francisco não deixou de lembrar as histórias que sempre ouvira contar sobre a Senhora Gertrudes.

Ainda jovem perdera o Pai, diziam ter sido pela embriaguez que o levara a cair numa pequena represa de água. Depois perdeu a Mãe, que escolhera partir, baloiçando na ponta de uma corda.

Enfim, é a vida, murmurava o senhor Francisco.

Depois outra notícia, até com fotografia, que noticiava a morte do senhor Aníbal Espinha. Ele conhecia o defunto. Fora seu cliente durante mais de vinte anos.

Mas a doença tinha-o atirado para uma cama de onde apenas saíra no dia do funeral. E o senhor Francisco, com mão trémula, lá consultou o velho caderno onde assentava os movimentos da sua já reduzida clientela, que nos últimos anos tinham voltado a utilizar aquele meio de pagamento. É a crise, diziam todos de forma envergonhada, não há trabalho!  Afinal lá encontrou a dívida do senhor Aníbal. Era de cerca de cinquenta euros, que riscou, enquanto pronunciava, paz à sua alma.

O senhor Francisco, taberneiro e único merceeiro, espreitou da porta da taberna mas nem um cliente, um só que fosse, lhe aparecia para beber um copo ou um café.

Ficara só, sentia que algumas pessoas evitavam passar pela sua porta. Coitadas, tinham vergonha pelas dívidas que não conseguiam pagar..

Mas os tempos estavam difíceis e o seu pequeno negócio estava próximo do fim. Também já nada o preocupava. Tinha setenta e cinco anos de idade, vivera só desde que a mulher partira para a sua última e única viajem.

Naquela aldeia restavam poucas casas habitadas e quase só por velhos. Mas pouco a pouco algumas das velhas casas tinham ganho outra vida ouvindo-se de novo os gritos de crianças brincando. Era o regresso dos netos, crianças condenadas à pobreza e à escuridão.  Os Pais haviam perdido o trabalho, as casas e o futuro. Tiveram de partir à procura de trabalho e de sustento. Pais e Mães que vergados pela dor chegaram à aldeia pela noite e saíram pela madrugada.

 
O senhor Francisco sentado na soleira da porta voltou a olhar para o pequeno jornal. Aquela frase sobre o regresso aos mercados não lhe saíra do pensamento. Não sabia o que tal queria dizer, mas até podia ser uma notícia boa. Só não percebia porquê. E assim vergou os ombros vencido pelas mentiras e pelas promessas não cumpridas. 

Com os olhos húmidos deu pela entrada do Zé Manuel, um reformado da junta de Freguesia que era um dos seus principais clientes. E ao contrário da tristeza do senhor Francisco o senhor Zé parecia feliz.

-Oh amigo Chico não esteja assim, as coisas vão melhorar. Amanhã é dia de pagamento das pensões e ouvi dizer que todos irão receber um aumento. O Presidente da Junta afirmou que no cálculo da pensão seria também considerado o valor do mês anterior.

-Eu acredito do que ele me disse. Afinal talvez alguém se tenha condoído dos mais pobres, dos velhos, dos doentes e tenha decidido um aumento das pensões. E, senhor Chico, fique ciente que logo que eu receba o valor do aumento, virei a correr pagar a minha dívida.  E com os outros acontecerá o mesmo, estou certo.
Sirva-me aí um bagaço só para comemorar.

 O senhor Francisco ganhou a esperança perdida. Amanhã os clientes voltarão e, quem sabe, assim poderia ser o regresso ao negócio pequeno, mas que lhe tinha permitido viver, pensou enquanto os seus olhos já cansados percorriam as prateleiras quase vazias.

E fez-se luz no seu espírito. Compreendeu o que lera na pequena folha do pequeno jornal. Afinal era verdade, o regresso aos mercados era uma boa notícia. Porque os mercados são coisa boa, amigos dos mais  pobres.

 Ao contrário do que vinha sendo habitual, dormiu bem, levantou-se como de costume bem cedo, abriu a porta do estabelecimento e ficou à espera dos clientes.

Esperou e desesperou. Só perto do meio-dia o senhor Zé o procurou. Trazia um pequeno papel das mãos e mostrou ao amigo, enquanto desviava a cara para esconder a vergonha e as lágrimas que lhe corriam pelo rosto. E disse: Senhor Francisco veja o valor da minha reforma. Os benefícios que o Governo nos anunciou representaram para mim um aumento no valor na pensão de 1,80 Euros.

Olharam-se nos olhos. E uma nuvem negra ocultou o sol.

Sem mais palavras, cada um regressou às suas angústias pressagiando o único caminho, a única solução. Uma corda e uma árvore.
 
ANEXO
Hoje dia 2 de Março do ano da graça de 2013, um povo massacrado, sem presente e sem futuro, governado por" gauleiters" às ordens do capital financeiro, vai sair à rua, gritando que o Povo é quem mais ordena. Nada poderá parar um Povo que lute pela liberdade.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

PEQUENO JORNAL



 Uma pequena notícia, perdida nas páginas secundárias dum jornal sem dono, sem leitores e sem prosa, um pequeno texto que dá corpo a uma decisão. Afinal, pouco importante, era uma notícia igual a milhares de outras esquecidas.

1 - Eduarda Fragoso, professora de artes visuais, cansada de fazer e desfazer malas, correndo escolas por todo o País, sem presente e sem futuro, tomou uma decisão que de repente lhe pareceu o caminho certo.
Tinha trinta e cinco anos de idade, quinze de esperanças frustradas. Vivia num quarto rodeada dos seus pertences, não eram muitos, uma mala de viajem era suficiente para os guardar.
Naquele espaço simples com uma janela virada para o rio, ia perdendo, dia após dia a capacidade de sonhar.
Acabara de confirmar que não seria colocada. Nem reagiu, estava farta de promessas, via o tempo a correr vertiginosamente e ela sem forças para o agarrar.
Tomou uma decisão. Telefonou à amiga Margarida, licenciada em farmácia mas que acabara de ser despedida e aceitou o convite que ela lhe fizera. Abandonar o País sem futuro e correndo os riscos de quem escolhe outro destino, procurar em outro lugar uma oportunidade de dar sentido às suas vidas.
Margarida não demorou a juntar-se à amiga. Com ela levava um saco de viagem, umas centenas de Euros que recebera do subsídio de desemprego, e uma enorme força de lutar.
O destino? Nem tinham pensado bem, o fundamentar era deixar este País que as rejeitava, devastado pela incompetência, pelo compadrio, pela esperteza saloia, pela corrupção desenfreada. Partir deixando os sonhos que já não conseguiam sonhar. Partir é morrer um pouco, dizia o Poeta, mas para elas, duas mulheres esquecidas entre tantas, partir era um renascer. Algures no caminho, encontrariam alguém que as ajudaria a recuperar o tempo perdido. Ou então seria o fim da jornada.
Tinham um objectivo simples, sair e caminhar. Para já tinham comprado bilhetes baratos para viagem até Londres. Depois?
Sentiriam saudades do sol que teimava em brilhar, dos amigos que levavam no coração, e da família que iria sofrer mas aplaudiriam a sua decisão. Porque eles, os Pais choraram quando pediam perdão de não teres deixado para elas um mundo melhor. Tinham sofrido, trabalhado de sol a sol para lhe darem uma formação a que nunca tiveram acesso. Mas tudo fora em vão, como a esperança que deixaram morrer.
No silêncio daquele pequeno quarto, apesar da força que as animava, deixaram fugir uma lágrima. Para além do abandono, das desilusões, havia ainda dentro delas, aquele sentimento que não se explica, nem se compreende.
Por isso e em nome dessa força que receavam lhes faltasse durante o caminho, fizeram um juramento.
 -Mãos nas mãos, olhos nos olhos, tinham jurado, não mais voltar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

PALAVRAS

PASSADO
Quando o presente é triste e doloroso e o futuro uma miragem, volto ao passado. E tantos momentos vivi, tanto livro em que aprendi, tanto poeta que visitei, tanta música que me encantou.
E as minhas memórias são ricas porque guardei segredos, palavras, lágrimas e risos, amor e amizade.
Foi uma vida vivida, percorrendo o caminho que me levou aos lugares dos sonhos, dos perigos, da nostalgia. Regressei mais rico, eu que nasci pobre de posses, mas aprendi que a verdadeira riqueza, não estava no Banco. 
Sonetos do Regresso I

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

II

Acordar, acender
o rápido lampejo
na água escusa onde rola submersa
como o lodo no Tejo
a vida informe, peso dúbio
desse cardume denso ou leve
que nasce em mim para morrer
no mar da noite breve;
dormir o pobre sono
dos barbitúricos piedosos
e acordar, acender
os tojos caudalosos
nesta areia lunar
ou, charcos, nunca mais voltar.

Carlos de Oliveira, in 'Cantata'

E este meu regresso ao passado foi sempre acompanhado pelo período histórico que atravessei.
E que rico ele foi. Acompanhei o Maio de 68 em França e os sonhos impossíveis; O drama da emigração dos pobres que buscaram em outras terras o sustento que o País lhes havia negado; A guerra colonial com os seus dramas e feridas que ainda sangram, o mundo em turbilhão com os EUA mergulhados numa guerra no Vietname que tanta dor e lágrimas causou; Assisti ao ruir das ditaduras em Portugal e em Espanha.

Quis um mundo novo e no final ficaram as palavras, os poemas escritos e cantados. O resto foi uma nuvem passageira que depressa se desfez no ar.

E ficaram alguns ídolos.

           Che Guevara
Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo
                                                                  [dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de
                                                                [consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das
                                                                [igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
E as palavras ditas, acordaram consciências. A canção passou a ser uma arma carregada de futuro.




            PORTUGAL
Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga, in 'Diário X'
E o meu País cantou a alegria. Mas como escreveu o poeta:” E alegre se fez triste como se chovesse em pleno Agosto”.
Mas foi linda a festa pá.
Os Amigos
 Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

E nosso coração recebeu as alegrias e os desgostos do mundo à nossa volta.
Ouvimos cantar os poetas de Espanha







E as canções na língua irmã do outro lado do mundo.






Valeu a pena?
Sim as recordações são sinais de vida e se mais nada tivermos para deixar aos nossos descendentes, deixaremos lembranças dos tempos loucos e da esperança traída.
Afinal com o tempo tudo terminará.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

PALAVRAS

ILUSÃO
Abro a mão vazia, estendo-a ao meu amigo e dou o que já perdi. A ilusão.
Nada mais me resta senão alguns assomos de revolta, angústia e de dor.
O tempo não esperou que a construção do Portugal sonhado numa manhã de Abril ganhasse forma e resistência. Tudo não passou dum andaime que, ruídas todas as esperanças sobrou desenhado na memória.  
Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!·
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


E perdida a ilusão ficarão os sonhos, a recordação da juventude. E no meu caso fica a música de um filme.



JUSTIÇA
Cá nesta Babilónia
Cá nesta Babilónia, donde mana
            Matéria a quanto mal o mundo cria;
           Cá, onde o puro Amor não tem valia,
           Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

            Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
            E pode mais que a honra a tirania;
           Cá, onde a errada e cega Monarquia
           Cuida que um nome vão a Deus engana;

            Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
            O Valor e o Saber pedindo vão
            Às portas da Cobiça e da Vileza;

           Cá, neste escuro caos de confusão,
           Cumprindo o curso estou da natureza.
           Vê se me esquecerei de ti, Sião!

(Luís Vaz de Camões, in "Sonetos")
Justiça para os pobres, os deserdados, igual a justiça para os ricos e os poderosos. Assim devia ser numa sociedade que se tenha libertado dos seus preconceitos de classe. Mas não é assim. A Justiça não é cega e para ser JUSTIÇA, falta ser justa.
LISBOA
Todos temos lugares e cidades que nos encantaram. E que guardamos no baú das recordações.
Lisboa, cidade mágica, mulher embalada nos braços no Tejo, banhada por uma luz que nos encandeia é inesquecível.
A história mostra que Lisboa é uma das mais antigas cidades do mundo e sem dúvida a mais antiga da Europa Ocidental.
Com o rio Tejo foi porto de abrigo para os marinheiros Fenícios, recebeu Ulisses na sua viagem de regresso a casa depois da guerra de Tróia, depois as legiões de Júlio César, as invasões dos mouros do Norte de África que deixaram marcas nas pessoas e na língua Portuguesa.
 Lisboa foi sempre o ponto de partida e o ponto de chegada. Lisboa é como o primeiro amor que não se esquece.
Afinal, porque Lisboa é mulher.
Mas Lisboa é também o povo que a percorre, canta e ama. E esse Povo que vagueia nas ruas desta cidade, tem sombras no olhar, tem angústias no coração. O futuro é amanhã e nada traz de bom.
E eu, Lisboeta por adopção, sinto a nuvem negra que alastra no rosto de quem sofre a desesperança. Então subo ao castelo, ponho o cotovelo e deixo que as lágrimas lavem os meus receios.



sábado, 26 de janeiro de 2013

PALAVRAS

ALEGRIA
Era inevitável. O País, o meu País acordou mais alegre. Regressámos aos mercados e antes do tempo previsto pela troika. Foi uma explosão de regozijo com as ruas e avenidas e encherem-se de pessoas, velhos e novos cantando louvores ao rei mercado. E afinal tudo fora simples. A operação fora estudada ao mais ínfimo pormenor e deu certo, provando que quando o Governo é competente tudo se resolve. E competência é coisa que não falta a um Estado que tem como primeiro ministro a Senhora Merkel, como Ministro das Finanças o sr. Mario Draghi, como Ministro do Desemprego o Álvaro  dos pasteis de Belém e  como primus  inter pares o Miguel Relvas.  
E o País tem ainda estadistas de valor reconhecido, quer no Governo, não me lembro dos nomes, mas tem, e na oposição pronto a investir toda a sua sabedoria um político Seguro muito experimentado e com boa figura.
Voltámos aos mercados, não me canso de repetir. O País pode continuar a endividar-se porque os Bancos ainda estão em situação difícil e é preciso ajudar. Um dia alguém terá de pagar, mas não é difícil adivinhar quem.
Os desempregados, serão mais de um milhão ganharam mais confiança pois estão a receber reforços cada dia que passa. A coisa vai.
E até os velhos teimosos, admitem que o parecer do Ministro do Japonês sobre a política de controlo da longevidade, pode ser uma ajuda. E sei que muitos pensam emigrar para o País do Sol Nascente. E o Governo vai abrir uma linha de crédito para financiar a compra das viagens, mas só as de ida.
 Tudo se encaminha para um final feliz. A ver vamos como diz o cego.

FOLCLORE
Portugal é um País rico em manifestações culturais, entre as quais devo destacar a dança popular, que tem raízes profundas desde o Alto Minho e Trás os Montes, passando pelo Ribatejo e saltando para o Algarve.
E cada região era demarcada pela dança.
Quem não se lembra dos programas de TV, onde o Poeta Pedro Homem de Melo (não estou a brincar) fez a radiografia do País caracterizando as regiões pelas suas danças tradicionais?
E também neste aspecto fomos um País abençoado. As danças populares resistiram até ao aparecimento dos programas culturais das nossas estações de Televisão e algumas danças ultrapassaram o seu horizonte geográfico e demandaram outras paragens.
Por exemplo, a tradicional CHULA, embora com um ou outro acerto de pormenor, quer no movimento quer na ortografia, passou de dança regional a dança nacional, deixando a exclusividade dos Arrais Minhotos para os Salões da Aristocracia, designadamente para os Conselhos de Administração dos Bancos e de outras Sociedades de prestígio.
Ou também o VIRA, que desceu o País, criando o hábito de mudança de camisola sempre que tal fosse conveniente.
E até  o CORRIDINHO que com poucas raízes históricas, saiu do Algarve e é hoje dança fundamental em períodos pré-eleitorais.
Mas sendo o folclore uma riqueza nacional, deve ser aproveitada, e tem-no sido, convenhamos.  


DESNORTE

E o resultado de tanta alegria e alguma perplexidade é a ocorrência de derivas sensitivas. Porque muitas vezes é difícil distinguir o certo e o errado, a mentira e a verdade.  
E mesmo sem querer, acabamos perdidos, imaginando uma realidade que não existe.
E então o sonho acaba por ser um único refúgio.