terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES




ENCONTRO COM A HISTÓRIA

No princípio de 1965 encontrava-me na guerra colonial em Cabinda e na altura comandava um destacamento, um pelotão, instalado num monte sobranceiro ao rio, fronteira natural com o Congo Ex-Belga.
Era um local bonito e tranquilo. Na base do monte e junto ao rio havia meia dúzia de casas comerciais de brancos portugueses, que ali viviam e tinham constituído família, fazendo o seu negócio, comprando óleo de DENDÊ e peles de crocodilo, e vendendo às populações locais, peixe seco e alguns panos coloridos.
A fronteira não era um obstáculo. O comércio fazia-se nos dois sentidos.
 Na meia encosta, uma casa de arquitectura colonial, servia de posto e de residência ao Administrador, máxima autoridade civil naquela área.
Era um português de meia-idade, conversador e ao contrário do que se podia pensar, procurava administrar a justiça e cobrar o imposto mínimo sem usar da força e até com alguma parcimónia.
Numa certa manhã, estava eu a redigir um relatório para enviar para o comando da Companhia, quando a sentinela me chama porque o cipaio ao serviço do Administrador pedia para eu descer até ao posto pois ele tinha visitas.
E fui.
Sentados à volta da mesa no terraço estavam dois homens brancos, vestidos de camuflado mas desarmados, bebendo cerveja de garrafas de litro e meio, compradas no outro lado do rio. O meu amigo Administrador estendeu-me uma cadeira e apresentou os visitantes, como dois soldados ao serviço do exército Congolês.
O nome de um fixei, era francês e não me foi difícil entender e conversar; O outro entrou mudo, saiu calado e apenas abriu a boca para esvaziar cervejas.
O Administrador tinha alguma dificuldade em falar francês e eu fui o interlocutor privilegiado, até por ser o responsável militar naquela zona.
O francês era um homem de cerca de quarenta anos e apresentou-se como comandante Bob Denard. Chefiava um grupo de combatentes que, sob as ordens do primeiro-ministro Congolês, Moisés Tchombé, se dirigia para a cidade de Kisangani, antiga Stanleyville, que tinha sido ocupada por guerrilheiros maoístas.
O exército regular tinha fugido e os rebeldes controlavam a cidade onde mantinham cativos todos os estrangeiros que trabalhavam naquela zona, rica em minério.
A situação dos reféns era do conhecimento internacional assim como se sabia que a Bélgica, através da Companhia mineira que explorava as minas do Katanga, havia contratado mercenários para retomar o controlo da cidade.
O que eu não percebia era a razão duma visita tão inesperada.
Mas o comandante francês apenas me vinha informar que no caminho encontrara duas missões religiosas e que lhes tinha aconselhado a, ao menor sinal de aproximação dos simbas, assim se chamavam os guerrilheiros, atravessassem o rio e pedissem refúgio junto da tropa Portuguesa. E vinha pedir essa atenção.
Mais cerveja, nunca havia encontrado ninguém que bebesse tanto, e o comandante Denard falou um pouco da sua vida.
- Teria lutado na Indochina, depois na Argélia. Fora preso em França por suspeitas de envolvimento no golpe militar que os militares franceses haviam tentado para recusar a independência da Argélia. Agora era soldado da fortuna, ou por outras palavras, um mercenário.
Finda a visita e esgotadas as cervejas os dois combatentes desceram ao rio, tinham um pequeno bote amarrado na margem, pegaram nas armas e partiram ao encontro dos camaradas.
Do comandante Dénard, cujas aventuras me fascinaram, mesmo que algumas fossem exageradas ou inventadas, voltei a ouvir falar durante muitos anos, até à sua morte. Do seu colega, nunca soube o nome, mas só lembro ter notado que teria apagado alguma tatuagem no antebraço. Iria jurar que escondera os restos de uma cruz suástica.
Do momento guardei a lembrança de um encontro imprevisto com a história do coração da África negra. Uma tragédia que foi notícia pela sua violência e que ainda hoje faz correr rios de sangue.
O flme que escolhi, apesar de romanceado, tem algo a ver com o drama.




domingo, 26 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES


1 - UMA AMIZADE IMPROVÁVEL

De repente lembrei um amigo que perdi na guerra na Guiné.
Fora uma amizade nascida em Mafra, nas noites frias e chuvosas do começo do Inverno de 1963. O local, o quartel, a tapada, os montes e vales dos arredores, as praias agrestes, as marchas nocturnas encharcados pela chuva que não dava tréguas, tudo foi parte da especialidade de atirador de infantaria do curso de oficiais milicianos. No final cada um seguiria o seu destino e a direcção era apenas uma, a guerra colonial. Fora uma amizade improvável entre duas pessoas muito diferentes. O Mendonça, estudante universitário a frequentar o curso de medicina em Coimbra, recusara pedir mais um adiamento e fora incorporado no ano de 1963. Era um rapaz franzino, quase imberbe, apesar dos vinte e cinco anos de idade, mas de rosto triste e um sorriso amargo e descrente. Eu, pelo contrário, filho de gente humilde, soldado cadete apenas porque tinha sido considerado o melhor aluno da recruta dos sargentos milicianos, com apenas vinte um anos, apaixonado pela aventura da guerra, forte e resistente como um camponês, cumpridor da disciplina e apontado como exemplo de capacidade de comando e de liderança.
 E foi na famosa camarata quinze do Convento de Mafra, um espaço onde se amontoavam mais de duas centenas de soldados cadetes, local sem regras  nem lei, onde apenas uma vez o oficial de dia tentou entrar para recuar de imediato e desistir. A recepção fora de tal modo que nunca mais tivemos uma visita. Foi ali que o guerreiro sonhador e o Mendonça pacifista convicto escolheram ficar lado a lado, num canto próximo da porta de entrada da caserna.
No meu armário, para além de guardar a roupa que me fora distribuída e a velha espingarda Mauser e as cartucheiras correspondentes, guardava um pequeno garrafão de aguardente, destilada pelos meus Pais e que seria o aconchego contra a humidade e o frio que se aproximavam. Como reserva levara ainda meia dúzia de chouriços de excelente qualidade, não fora a minha terra a região que produzia os melhores enchidos do mundo. Aqueles eram caseiros, boas carnes e o segredo do tempero da Dona Ifigénia. Enquanto arrumava os meus pertences, o Mendonça continuava estendido sobre a cama, olhava para a minha azáfama e sorria.
- Sabes Barreto, qual é a diferença que nos separa? - É que eu estive a olhar para a tua alegria ao esvaziares a tua mochila e nos teus gestos pude encontrar o amor da tua família. Eu, pelo contrário, filho de gente rica trouxe a mochila vazia do mais importante. Nela não coube sequer uma palavra de conforto ou um gesto de ternura.
 - Olha, disse eu, quando a comida for intragável traz o pão e a fruta e partilharemos estes chouriços tão saborosos. Assim a minha Mãe também ficará feliz por eu dividir com um amigo os enchidos que ela foi comprando com o pouco dinheiro de que dispunha.
Certa noite, durantes uma operação nocturna, fomos escolhidos para montar  a segurança do acampamento, pequenas tendas expostas ao vento que sobrava na praia de Ribamar. Enquanto fumávamos um cigarro, o Mendonça falou um pouco mais de si.  Da família, da sua vida, dos seus medos e das suas angústias. Filho de gente rica, o Avô era um austero Professor de Medicina; O Pai conhecido advogado, muito ligado ao regime, Deputado e Governador Civil. A Mãe, senhora muito ligada às suas obrigações sociais, era fria e distante. Fazia a delícia dos convidados da melhor sociedade, que recebia numa casa apalaçada na alta de Coimbra.
O Mendonça confessava que nunca iria terminar o curso, mas não sabia o caminho a tomar para fugir do ambiente em que fora criado. Era rebelde, não aceitava as regras da tropa, andava provocatoriamente mal fardado e como tal os fins de semana ficava, quase sempre de castigo. Eu ainda não percebera a rebeldia do meu amigo e custava-me a acreditar que o jovem universitário de boas famílias e de posição social elevada andasse como eu à chuva e ao frio, esperando o destino. E disse que mais tarde ou mais tarde ele iria ser colocado numa repartição militar qualquer, daquelas que o podiam livrar da guerra. Como era hábito, aliás.
O meu amigo abanou a cabeça e decidiu contar a razão porque não havia fugido e nada faria para evitar a guerra.
- Sabes, tenho uma irmã gémea que teve a coragem de enfrentar a família e partir para Paris perseguindo o seu sonho.  Lançou-me o desafio para a acompanhar, mas eu hesitei e fiquei. Tenho outro irmão mais velho, o príncipe da família, educado para representar o símbolo dos valores tradicionais de uma família abastada e politicamente comprometida. Fora um atleta, comandante de bandeira da Mocidade Portuguesa, mas todavia, fraco aluno. Sabendo isso o meu Pai e o meu Avô decidiram que ele seria militar e daria o seu contributo para a causa nacional de defesa das nossas colónias. Mas o destino prega partidas que não se esperam. O meu irmão entrou na Academia Militar e quando estava prestes a terminar, recebeu do Pai um automóvel que fomos estrear, percorrendo a estrada da Beira. Insistiu para eu guiar e distraído como sou e sempre fui, tive um acidente. O meu irmão Luís ficou ferido e vive agarrado a uma cadeira de rodas, e eu que nas palavras dos meus Pais, bem que poderia ter morrido, não sofri feridas, salvo as da alma.
 Por isso aqui estou , a fazer tudo o que mais me dói e em que não acredito. Estou no lugar do meu irmão, não por respeito ou consideração pela família, que esqueci, mas porque tenho uma dívida e quero pagar. E será na guerra que ajustarei as contas.
Ficamos mais próximos, e os goles de aguardente que daquela noite, tão fria, fomos bebendo, foram como o brinde à nossa cumplicidade.
 Eu ajudei-o a ultrapassar as suas debilidades físicas, carregando durante as corridas a arma e puxando-o pelos ombros para continuar correndo. Dizia-lhe: - Ou ganhas força e resistência ou numa patrulha não terás capacidade de comandar os teus soldados. Ele sorria, abanava a cabeça mas lá ia tentando.
 A especialidade terminou nos finais de Dezembro. Era hora de regressar a casa e aguardar as instruções sobre o nosso destino. Mendonça deu-me um abraço prolongado e disse-me adeus. No meio da confusão não mais o vi.
 Em meados de 1964 fui mobilizado. Estava nos Açores e tive que me apresentar em Leiria, onde se encontrava em formação um batalhão que eu iria integrar para a guerra de Angola. Entre os colegas vi o Aspirante Loureiro, antigo conhecido da famosa caserna quinze. Era natural de Coimbra e conhecera o Mendonça e a família. Perguntei notícias do meu amigo.
 - Pensei que soubesses, disse o Loureiro. O Zé morreu numa emboscada trinta dias depois de ter seguido para a Guiné numa rendição individual. O corpo ficou irreconhecível e lá ficou sepultado nos confins da selva.
Fiquei com um nó na garganta e deixei cair uma lágrima.
Muitas coisas se passaram. Umas deixaram marcas outras o tempo foi apagando. Hoje, quase sem saber porquê, recordei aquela amizade improvável. E senti que afinal o meu amigo tinha acertado as contas pagando a dívida e ao mesmo tempo tinha encontrado a paz que procurara.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES

Andei afastado do computador. Resolvera parar porque o vício de escrever estava a dirigir o meu dia e a necessidade de alimentar o vício e, assim como um fumador que já fui, obriga a escrever não importa o quê, tornando-se uma necessidade absurda, quase uma dependência. Aproveitei algum mal-estar para repensar. Como os fumadores que tentam deixar o tabaco e não conseguem senão fumar ainda mais, também eu me deixei arrastar para o local do crime. Voltei ao computador. Aqui estou, confesso que receoso, porque não tinha uma ideia sequer, do que havia de dizer. Para recomeçar, escrevi um texto no meu outro blogue. Foi o caminho mais fácil, porque falar da política, dos políticos e de toda a gente que gravita em seu redor procurando umas migalhas, é sempre matéria que, apesar do nojo, do vómito e da raiva me deixa mais tranquilo. E é essa tranquilidade quase dormente que me cala a revolta. Depois fui rever pela terceira vez um filme que me marcou. A história falava de amor e de guerra. E foi um choque assistir ao drama daquela família, principalmente à destruição lenta dos sonhos de um Pai que vê desabar tudo em que acreditara. A colocação no mastro da Bandeira invertida soa como um grito de ajuda, que ninguém ouvirá. E então essa maneira subtil de abordar o tema da guerra do Iraque, trouxe-me à memória histórias esquecidas. Sim, histórias singulares de uma guerra que marcou a minha geração, e que eu vivi, quase cinquenta anos atrás. São esses fragmentos que vou tentar contar.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA e equívocos

Como todos os anos celebrou-se ontem a abertura do novo ano judicial. E como sempre foi a feira das vaidades e dos equívocos.
Nós os simples, olhamos para este cerimonial e ficamos com medo. Tanto Juiz, tanto Magistrado do Ministério Público, tantos advogados com nome ou à procura dele. Sim com medo porque a Justiça, que dizem ser cega na realidade é apenas vesga. Só vê o que lhe convém. E nós vamos de trela.
Discurso houve para todos os gostos.
O PGR assegurou que tudo vai bem no reino da Justiça, que todos os crimes têm sido investigados e todos os suspeitos foram ou serão presentes a Tribunal. Ele não precisou de que crime falava. Palpita-me que se referia ao caso Isaltino, um pobre homem que respira honestidade a cada baforada do charuto e tem sido injustamente perseguido por uma Juíza que cometeu o sacrilégio de o mandar prender para logo o mandar soltar, pois havia trezentos e noventa recursos pendentes de decisão. Um deles, talvez o mais bem elaborado, foi o de que todos os crimes de que fora acusado teriam prescrito. Também se poderia estar a referir ao sem abrigo que foi apanhado a roubar, coisa mais horrenda, um polvo e um frasco de champô e que vai pagar pelo crime. Ainda por cima roubou uma grande superfície onde quase todos já fomos roubados na qualidade e nos preços praticados. Ou talvez tenha para anunciar em breve a lista dos lambões que se abotoaram com o dinheiro dos submarinos, que roubaram seis ou sete milhares de milhões do BPN, que receberam as comissões do processo do abate dos sobreiros. Do caso Freeport já não vale a pena falar porque os ilustres Magistrados que investigaram o eventual suborno, como é costume, nada de substancial descobriram. Levaram tempo mas acabaram por produzir um despacho do qual deveriam ter vergonha. Já sei. O caso do momento é o FACE OCULTA. Giro este nome. Oculta, porquê? O sucateiro para obter contratos comprou favores? Qual é a novidade. Isso é o dia a dia de uma Empresa. E há sempre gente de mão estendida. E há mesmo, não duvidem! Depois foi importante a intervenção do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
Foi um belo discurso, acabou a citar o livro de John Steinbeck, O Inverno do nosso descontentamento. Falou do perigo de se espezinharem direitos adquiridos, e nas consequências daí resultantes. Estaria a pensar nos pobres Magistrados, presumo eu. Talvez por isso aquele Ministro dos Polícias anunciou já a admissão de mais de mil e quinhentos guardas. Talvez sejam precisos mais, mas sempre é um bom remedeio. A intervenção da Presidente da Assembleia da República foi um excelente momento. Percebi pouco, mas as palavras eram para os presentes da sala, gente de outro gabarito cultural.
Finalmente o que se esperava mas que ficou em meias tintas. O combate entre o Bastonário da Ordem dos Advogados e a Ministra da Justiça. Foi um combate que já não convence ninguém. Até parece daqueles com resultado combinado. Quando temos a honra de assistir a cerimónias como esta, desta vez sem pastéis de nata, o Álvaro esqueceu-se de os mandar comprar, percebemos porque as pessoas confiam, quase cegamente, na Justiça. Vão sair uma série de leis, reorganização dos Tribunais, encerrarão umas dezenas, sempre viveram sem Justiça, porque haveria agora de ser diferente? Toda a gente com umas luzes sobre o assunto não tem dúvidas que a justiça se rege por códigos, armadilhados, permitindo uma miríade de interpretações e sendo assim o verdadeiro ganha pão dos professores de Direito de cada especialidade que irão cobrar, e bem, pelos pareceres que lhe serão solicitados. Então alguém acha que os Códigos devem ser feitos de tal forma que se mate o direito aos professores de venderem a sua sapiência? Já chegamos à Madeira ou quê? As Leis devem ser elaboradas de forma a terem sempre um ou mais leituras e daí a importância que os Partidos dão à composição dos seus representantes na Assembleia da República. A maioria será eleita como dar emprego aos militantes anónimos que mesmo deputados nunca deixarão de ser anónimos, mas haverá sempre advogados mesmo que de segunda linha, que funcionarão como guardiães da conveniência de uma justiça, meio cegueta. Uma Lei bem feita é perigosa, é o seu lema. Por fim, a intervenção do senhor Presidente.
Outra vez meias palavras e espírito de compromisso. Não vê que isso não dá? Dê um murro da mesa e grite, basta! Eu apoio. Vamos lá investigar o tráfico de influências, o comércio da cocaína que a breve prazo ultrapassará o consumo de tabaco, a lavagem de dinheiro, a evasão fiscal, etc. Deixem-se de conversas e deitem mãos ao trabalho. Caso contrário, um dia, poderá ser tarde de mais.

domingo, 29 de janeiro de 2012

EM DEFESA DO PRESIDENTE

 Nem eu próprio queria acreditar quando me aventurei a escrever uma mensagem de apoio ao nosso Presidente. Como já disse em outro escrito, nunca votei nele, não lhe devo favores pelo que a minha opinião é pessoal e apenas a mim diz respeito. É fácil verificar que o Dr. Cavaco Silva passou de elo mais forte para elo mais fraco, parodiando aquela estopada com que a RTP nos castiga e onde è suposto avaliar o conhecimento dos Portugueses. O Dr. Cavaco Silva nunca foi homem de palavras, já sabíamos disso e também sei, ou sabemos, que o seu nome foi utilizado pelos que na sombra cresceram comendo as migalhas do Cavaquismo até poderem, como actual Primeiro Ministro disse um dia aos seus camaradas, meterem a mão no pote. E esse momento acabou por chegar.

Antes porém, pedimos aos nossos credores que nos ajudassem a arrumar a casa, e a receita desses economistas de serviço sabe-se lá a quem, foi subscrita por quase toda a gente no espaço Parlamentar, exceptuando, como é óbvio, aqueles que estarão sempre do contra. E Cavaco Silva, abençoou o feito. Estava tudo a correr bem. Tínhamos um governo para abanar a cabeça, capitaneado por dois líderes carismáticos de reconhecido valor. O Passos Coelho saído da arca dos barões do PSD, depois do Ângelo Correia ter aberto a porta e o Portas arquitecto e da sua própria imagem, que passou de feirante a diplomata. Mas ironia do destino o homem que de facto assumiu o poder foi um recatado e pouco falador Ministro das Finanças, um seguidor de uma doutrina económica falida enquanto as massas eram controladas pelo Ministro da Propaganda, personagem cinzenta e que se movimenta junto dos fazedores de opinião que passaram a ter lugar cativo nos meios de informação.



O que parecia ser um grupo de pouca valia, aprenderam que o poder reside no controlo dos meios de informação. E por isso o Presidente, endeusado pelos seus seguidores, mas com anticorpos no seu partido, provavelmente por não ter repartido com equidade as benesses, resolveu falar e deu um tiro num pé. Argumentando com a falta de equidade na distribuição dos sacrifícios exigidos, Cavaco foi infeliz quando ilustrou uma situação tão evidente e real com a sua própria situação. Não deixou de ter razão, mas pior foi que abriu o caminho para a demagogia de que é exemplo o comentário venenoso do Passos Coelho.

 Cavaco já devia ter aprendido que não pode falar de improviso. Terá que pedir apoio à mulher, pois os assessores não me parecem grandes espingardas. O que tiver a dizer sobre a falta de sentido de justiça do Governo quando à austeridade da troika, deve fazê-lo com cuidado e medindo as palavras. Porque o que disse ofendeu os pobres, classe média incluída, desviando as atenções do Povo do que é realmente importante que é o projecto de empobrecimento dos 99% da maioria a favor dos 1% que detêm o poder económico e financeiro. Cavaco Silva teve razão mas mais valia ter ficado calado. Se os que o criticam pela sua alegada pobreza, lhe fizerem a pergunta de quais são os seus rendimentos reais, não invente, aprenda com o mestre Professor Marcelo.
Eu tentei transcrever a resposta do ilustre comunicador, mas a minha cabeça não deu para tanto e perdi-me. Fiquei contudo com a ideia de que o Professor também será um candidato ao subsídio de inserção social. Deixo o endereço onde poderá ouvir o brilhantismo e o uso da arte das palavras. Mestre é Mestre e há muita gente que o ouve com a veneração devida aos eleitos.
Eu também, quer dizer.
Marcelo responde às perguntas dos leitores
Professor aceitou o desafio de um leitor e disse quanto ganha

http://www.tvi24.iol.pt/noticia.html?id=1319342&div_id=5796
No fim, se tiverem percebido alguma coisa da trapalhada em que ele se meteu, eu prometo dar a mão à palmatória.
Prometo que o farei, ou eu não me chame Zé.



sábado, 28 de janeiro de 2012

ESTA EUROPA

Quando a União Europeia foi pensada os Pais da ideia e os que lhe deram seguimento, pensaram uma coisa mas afinal, hoje é uma realidade diferente. Seria uma Europa de Pátrias, não haveria perdas de soberania, o objectivo seria a criação de um espaço de liberdade e de progresso. Fazia todo o sentido. A Europa atravessara na primeira metade do século vinte duas guerras mundiais terríveis pelo que urgia criar mecanismos para que a tragédia se não repetisse. E sob a direcção de políticos com prestígio, foram eliminando os azedumes e convergindo esforços.
Depois alargaram o seu projecto, aliciaram Países que não reuniam as condições para a adesão e que na mira de receberem os fundos estruturais, aldrabaram as contas, venderam a agricultura e as pescas, receberam rios de dinheiro que, no nosso caso encheram os bolsos de muita gente. Aliás os mesmos de sempre. Foram os anos de glória do Cavaquismo, e disso pouca coisa ficou. Que me lembre assim de repente, ficou o CCB e um bando de tesos que viraram ricos e anafados.
Depois foi a criação do Euro, e a contabilidade criativa foi de novo a porta de entrada. E um a um todos se foram sentar em Bruxelas ou e Estrasburgo. Dava para tudo. Até que um dia a bolha estoirou e a fraternidade e cooperação foram por água abaixo e cada um passou a olhar para o rabo a arder. Foi o salve-se quem puder e todos ficaram nas mão da Alemanha da senhora Merkel.
Agora já exige que a Grécia prescinda da soberania em termos orçamentais para receber a ajuda que a vai empurrar para o fundo do mar. Depois, daqui por algum tempo seremos nós e a Irlanda, depois a Itália que já está na corrida e a Espanha que se aproxima apoiada nos seus cinco milhões e trezentos mil desempregados. A França não ficará a rir por muito tempo, apesar do namoro Sarkozy/Merkel.
Quer dizer para que tudo se componha o Banco Central Europeu passa a ser Banco Central da Alemanha, poderá emitir moeda e títulos de dívida, mas os pedintes terão que aceitar ser uma um província ou uma freguesia da Grande Alemanha. Mas isso não era parecido com a doutrina do Adolf? Querem ver que ele já voltou e ninguém deu por isso? A nossa sorte e dos Países periféricos é que em Bruxelas existe uma Comissão Europeia, liderada por um mordomo bem-falante e que abre as portas e serve as bebidas, sempre que a chanceler alemã passa por lá. É fraco consolo, mas sempre poderá meter uma cunha a nosso favor. Os outros que se lixem. Em Estrasburgo temos a outra força de bloqueio, um Parlamento Europeu que aprova, o quê? Não percebi, peço desculpa.
Eu como se depreende não conseguia perceber para que servia a Comissão Europeia. Mas estava, mais uma vez, enganado. Reparam nesta notícia publicado no jornal Público, cito: A Comissão Europeia abriu um processo de infracção contra Portugal e outros 12 Estados membros pelo atraso na aplicação da legislação sobre as gaiolas das galinhas poedeiras. Até que enfim alguém se lembrou das pobres galinhas. Tenhamos esperança. Ainda um dia ouviremos a Comissão punir os Governos que têm maltratado os seus habitantes. Mas fica a pergunta. - Oh Ministra, então a senhora que tem no seu gabinete uma série de ajudantes sem nada para fazer, não acode às pobres galinhas? Olhe que elas não votam mas também têm cristas na cabeça. Pelo menos isso.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

INTERMEZZO


Sim fui buscar um estrangeirismo para título do pequeno texto que vou escrever.
Hesitei. Estou consciente de que tudo tem o seu tempo.
O tempo da esperança, do fracasso, da alegria e do desespero. Eu passei por todas essas fases, desde que decidi ocupar o meu tempo livre, cada vez mais solitário, a desenhar histórias, algumas sem eira nem beira, outras com tropeções aqui e ali, mas sempre com entusiasmo e vontade de seguir.
A cada história ou texto mal construído eu ia buscar forças para fazer melhor.
E foram essas forças que me disseram para não parar, escrever, escrever muito para que a solidão não matasse o pensamento.
Mas cada dia se torna mais difícil, é preciso aguardar que uma ideia ganhe forma e eu a consiga escrever.
Preciso de separar a esperança do desengano e a quimera da vida real.
Para isso terei que viver um intermezzo.
E escolhi momentos de rara beleza. A música de Prokofiev para o bailado Romeu e Julieta.
É um momento que espero ganhar a paz de que preciso.
Espero que este pedaço de sonho, também vos traga alguma tranquilidade, nestes tempos conturbados em que vivemos.