quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

PEQUENO JORNAL



 Uma pequena notícia, perdida nas páginas secundárias dum jornal sem dono, sem leitores e sem prosa, um pequeno texto que dá corpo a uma decisão. Afinal, pouco importante, era uma notícia igual a milhares de outras esquecidas.

1 - Eduarda Fragoso, professora de artes visuais, cansada de fazer e desfazer malas, correndo escolas por todo o País, sem presente e sem futuro, tomou uma decisão que de repente lhe pareceu o caminho certo.
Tinha trinta e cinco anos de idade, quinze de esperanças frustradas. Vivia num quarto rodeada dos seus pertences, não eram muitos, uma mala de viajem era suficiente para os guardar.
Naquele espaço simples com uma janela virada para o rio, ia perdendo, dia após dia a capacidade de sonhar.
Acabara de confirmar que não seria colocada. Nem reagiu, estava farta de promessas, via o tempo a correr vertiginosamente e ela sem forças para o agarrar.
Tomou uma decisão. Telefonou à amiga Margarida, licenciada em farmácia mas que acabara de ser despedida e aceitou o convite que ela lhe fizera. Abandonar o País sem futuro e correndo os riscos de quem escolhe outro destino, procurar em outro lugar uma oportunidade de dar sentido às suas vidas.
Margarida não demorou a juntar-se à amiga. Com ela levava um saco de viagem, umas centenas de Euros que recebera do subsídio de desemprego, e uma enorme força de lutar.
O destino? Nem tinham pensado bem, o fundamentar era deixar este País que as rejeitava, devastado pela incompetência, pelo compadrio, pela esperteza saloia, pela corrupção desenfreada. Partir deixando os sonhos que já não conseguiam sonhar. Partir é morrer um pouco, dizia o Poeta, mas para elas, duas mulheres esquecidas entre tantas, partir era um renascer. Algures no caminho, encontrariam alguém que as ajudaria a recuperar o tempo perdido. Ou então seria o fim da jornada.
Tinham um objectivo simples, sair e caminhar. Para já tinham comprado bilhetes baratos para viagem até Londres. Depois?
Sentiriam saudades do sol que teimava em brilhar, dos amigos que levavam no coração, e da família que iria sofrer mas aplaudiriam a sua decisão. Porque eles, os Pais choraram quando pediam perdão de não teres deixado para elas um mundo melhor. Tinham sofrido, trabalhado de sol a sol para lhe darem uma formação a que nunca tiveram acesso. Mas tudo fora em vão, como a esperança que deixaram morrer.
No silêncio daquele pequeno quarto, apesar da força que as animava, deixaram fugir uma lágrima. Para além do abandono, das desilusões, havia ainda dentro delas, aquele sentimento que não se explica, nem se compreende.
Por isso e em nome dessa força que receavam lhes faltasse durante o caminho, fizeram um juramento.
 -Mãos nas mãos, olhos nos olhos, tinham jurado, não mais voltar.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

PALAVRAS

PASSADO
Quando o presente é triste e doloroso e o futuro uma miragem, volto ao passado. E tantos momentos vivi, tanto livro em que aprendi, tanto poeta que visitei, tanta música que me encantou.
E as minhas memórias são ricas porque guardei segredos, palavras, lágrimas e risos, amor e amizade.
Foi uma vida vivida, percorrendo o caminho que me levou aos lugares dos sonhos, dos perigos, da nostalgia. Regressei mais rico, eu que nasci pobre de posses, mas aprendi que a verdadeira riqueza, não estava no Banco. 
Sonetos do Regresso I

Volto contigo à terra da ilusão,
mas o lar de meus pais levou-o o vento
e se levou a pedra dos umbrais
o resto é esquecimento:
procurar o amor neste deserto
onde tudo me ensina a viver só
e a água do teu nome se desfaz
em sílabas de pó
é procurar a morte apenas,
o perfume daquelas
longínquas açucenas
abertas sobre o mundo como estrelas:
despenhar no meu sono de criança
inutilmente a chuva da lembrança.

II

Acordar, acender
o rápido lampejo
na água escusa onde rola submersa
como o lodo no Tejo
a vida informe, peso dúbio
desse cardume denso ou leve
que nasce em mim para morrer
no mar da noite breve;
dormir o pobre sono
dos barbitúricos piedosos
e acordar, acender
os tojos caudalosos
nesta areia lunar
ou, charcos, nunca mais voltar.

Carlos de Oliveira, in 'Cantata'

E este meu regresso ao passado foi sempre acompanhado pelo período histórico que atravessei.
E que rico ele foi. Acompanhei o Maio de 68 em França e os sonhos impossíveis; O drama da emigração dos pobres que buscaram em outras terras o sustento que o País lhes havia negado; A guerra colonial com os seus dramas e feridas que ainda sangram, o mundo em turbilhão com os EUA mergulhados numa guerra no Vietname que tanta dor e lágrimas causou; Assisti ao ruir das ditaduras em Portugal e em Espanha.

Quis um mundo novo e no final ficaram as palavras, os poemas escritos e cantados. O resto foi uma nuvem passageira que depressa se desfez no ar.

E ficaram alguns ídolos.

           Che Guevara
Contra ti se ergueu a prudência dos inteligentes e o arrojo
                                                                  [dos patetas
A indecisão dos complicados e o primarismo
Daqueles que confundem revolução com desforra

De poster em poster a tua imagem paira na sociedade de
                                                                [consumo
Como o Cristo em sangue paira no alheamento ordenado das
                                                                [igrejas

Porém
Em frente do teu rosto
Medita o adolescente à noite no seu quarto
Quando procura emergir de um mundo que apodrece

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "O Nome das Coisas"
E as palavras ditas, acordaram consciências. A canção passou a ser uma arma carregada de futuro.




            PORTUGAL
Avivo no teu rosto o rosto que me deste,
E torno mais real o rosto que te dou.
Mostro aos olhos que não te desfigura
Quem te desfigurou.
Criatura da tua criatura,
Serás sempre o que sou.

E eu sou a liberdade dum perfil
Desenhado no mar.
Ondulo e permaneço.
Cavo, remo, imagino,
E descubro na bruma o meu destino
Que de antemão conheço:

Teimoso aventureiro da ilusão,
Surdo às razões do tempo e da fortuna,
Achar sem nunca achar o que procuro,
Exilado
Na gávea do futuro,
Mais alta ainda do que no passado.

Miguel Torga, in 'Diário X'
E o meu País cantou a alegria. Mas como escreveu o poeta:” E alegre se fez triste como se chovesse em pleno Agosto”.
Mas foi linda a festa pá.
Os Amigos
 Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

Eugénio de Andrade, in "Coração do Dia"

E nosso coração recebeu as alegrias e os desgostos do mundo à nossa volta.
Ouvimos cantar os poetas de Espanha







E as canções na língua irmã do outro lado do mundo.






Valeu a pena?
Sim as recordações são sinais de vida e se mais nada tivermos para deixar aos nossos descendentes, deixaremos lembranças dos tempos loucos e da esperança traída.
Afinal com o tempo tudo terminará.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

PALAVRAS

ILUSÃO
Abro a mão vazia, estendo-a ao meu amigo e dou o que já perdi. A ilusão.
Nada mais me resta senão alguns assomos de revolta, angústia e de dor.
O tempo não esperou que a construção do Portugal sonhado numa manhã de Abril ganhasse forma e resistência. Tudo não passou dum andaime que, ruídas todas as esperanças sobrou desenhado na memória.  
Andaime
O tempo que eu hei sonhado
Quantos anos foi de vida!
Ah, quanto do meu passado
Foi só a vida mentida
De um futuro imaginado!·
Aqui à beira do rio
Sossego sem ter razão.
Este seu correr vazio
Figura, anónimo e frio,
A vida vivida em vão.

A ‘sp’rança que pouco alcança!
Que desejo vale o ensejo?
E uma bola de criança
Sobre mais que minha ‘s’prança,
Rola mais que o meu desejo.

Ondas do rio, tão leves
Que não sois ondas sequer,
Horas, dias, anos, breves
Passam — verduras ou neves
Que o mesmo sol faz morrer.

Gastei tudo que não tinha.
Sou mais velho do que sou.
A ilusão, que me mantinha,
Só no palco era rainha:
Despiu-se, e o reino acabou.

Leve som das águas lentas,
Gulosas da margem ida,
Que lembranças sonolentas
De esperanças nevoentas!
Que sonhos o sonho e a vida!

Que fiz de mim? Encontrei-me
Quando estava já perdido.
Impaciente deixei-me
Como a um louco que teime
No que lhe foi desmentido.

Som morto das águas mansas
Que correm por ter que ser,
Leva não só lembranças —
Mortas, porque hão de morrer.

Sou já o morto futuro.
Só um sonho me liga a mim —
O sonho atrasado e obscuro
Do que eu devera ser — muro
Do meu deserto jardim.

Ondas passadas, levai-me
Para o olvido do mar!
Ao que não serei legai-me,
Que cerquei com um andaime
A casa por fabricar.

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"


E perdida a ilusão ficarão os sonhos, a recordação da juventude. E no meu caso fica a música de um filme.



JUSTIÇA
Cá nesta Babilónia
Cá nesta Babilónia, donde mana
            Matéria a quanto mal o mundo cria;
           Cá, onde o puro Amor não tem valia,
           Que a Mãe, que manda mais, tudo profana;

            Cá, onde o mal se afina, o bem se dana,
            E pode mais que a honra a tirania;
           Cá, onde a errada e cega Monarquia
           Cuida que um nome vão a Deus engana;

            Cá, neste labirinto, onde a Nobreza,
            O Valor e o Saber pedindo vão
            Às portas da Cobiça e da Vileza;

           Cá, neste escuro caos de confusão,
           Cumprindo o curso estou da natureza.
           Vê se me esquecerei de ti, Sião!

(Luís Vaz de Camões, in "Sonetos")
Justiça para os pobres, os deserdados, igual a justiça para os ricos e os poderosos. Assim devia ser numa sociedade que se tenha libertado dos seus preconceitos de classe. Mas não é assim. A Justiça não é cega e para ser JUSTIÇA, falta ser justa.
LISBOA
Todos temos lugares e cidades que nos encantaram. E que guardamos no baú das recordações.
Lisboa, cidade mágica, mulher embalada nos braços no Tejo, banhada por uma luz que nos encandeia é inesquecível.
A história mostra que Lisboa é uma das mais antigas cidades do mundo e sem dúvida a mais antiga da Europa Ocidental.
Com o rio Tejo foi porto de abrigo para os marinheiros Fenícios, recebeu Ulisses na sua viagem de regresso a casa depois da guerra de Tróia, depois as legiões de Júlio César, as invasões dos mouros do Norte de África que deixaram marcas nas pessoas e na língua Portuguesa.
 Lisboa foi sempre o ponto de partida e o ponto de chegada. Lisboa é como o primeiro amor que não se esquece.
Afinal, porque Lisboa é mulher.
Mas Lisboa é também o povo que a percorre, canta e ama. E esse Povo que vagueia nas ruas desta cidade, tem sombras no olhar, tem angústias no coração. O futuro é amanhã e nada traz de bom.
E eu, Lisboeta por adopção, sinto a nuvem negra que alastra no rosto de quem sofre a desesperança. Então subo ao castelo, ponho o cotovelo e deixo que as lágrimas lavem os meus receios.



sábado, 26 de janeiro de 2013

PALAVRAS

ALEGRIA
Era inevitável. O País, o meu País acordou mais alegre. Regressámos aos mercados e antes do tempo previsto pela troika. Foi uma explosão de regozijo com as ruas e avenidas e encherem-se de pessoas, velhos e novos cantando louvores ao rei mercado. E afinal tudo fora simples. A operação fora estudada ao mais ínfimo pormenor e deu certo, provando que quando o Governo é competente tudo se resolve. E competência é coisa que não falta a um Estado que tem como primeiro ministro a Senhora Merkel, como Ministro das Finanças o sr. Mario Draghi, como Ministro do Desemprego o Álvaro  dos pasteis de Belém e  como primus  inter pares o Miguel Relvas.  
E o País tem ainda estadistas de valor reconhecido, quer no Governo, não me lembro dos nomes, mas tem, e na oposição pronto a investir toda a sua sabedoria um político Seguro muito experimentado e com boa figura.
Voltámos aos mercados, não me canso de repetir. O País pode continuar a endividar-se porque os Bancos ainda estão em situação difícil e é preciso ajudar. Um dia alguém terá de pagar, mas não é difícil adivinhar quem.
Os desempregados, serão mais de um milhão ganharam mais confiança pois estão a receber reforços cada dia que passa. A coisa vai.
E até os velhos teimosos, admitem que o parecer do Ministro do Japonês sobre a política de controlo da longevidade, pode ser uma ajuda. E sei que muitos pensam emigrar para o País do Sol Nascente. E o Governo vai abrir uma linha de crédito para financiar a compra das viagens, mas só as de ida.
 Tudo se encaminha para um final feliz. A ver vamos como diz o cego.

FOLCLORE
Portugal é um País rico em manifestações culturais, entre as quais devo destacar a dança popular, que tem raízes profundas desde o Alto Minho e Trás os Montes, passando pelo Ribatejo e saltando para o Algarve.
E cada região era demarcada pela dança.
Quem não se lembra dos programas de TV, onde o Poeta Pedro Homem de Melo (não estou a brincar) fez a radiografia do País caracterizando as regiões pelas suas danças tradicionais?
E também neste aspecto fomos um País abençoado. As danças populares resistiram até ao aparecimento dos programas culturais das nossas estações de Televisão e algumas danças ultrapassaram o seu horizonte geográfico e demandaram outras paragens.
Por exemplo, a tradicional CHULA, embora com um ou outro acerto de pormenor, quer no movimento quer na ortografia, passou de dança regional a dança nacional, deixando a exclusividade dos Arrais Minhotos para os Salões da Aristocracia, designadamente para os Conselhos de Administração dos Bancos e de outras Sociedades de prestígio.
Ou também o VIRA, que desceu o País, criando o hábito de mudança de camisola sempre que tal fosse conveniente.
E até  o CORRIDINHO que com poucas raízes históricas, saiu do Algarve e é hoje dança fundamental em períodos pré-eleitorais.
Mas sendo o folclore uma riqueza nacional, deve ser aproveitada, e tem-no sido, convenhamos.  


DESNORTE

E o resultado de tanta alegria e alguma perplexidade é a ocorrência de derivas sensitivas. Porque muitas vezes é difícil distinguir o certo e o errado, a mentira e a verdade.  
E mesmo sem querer, acabamos perdidos, imaginando uma realidade que não existe.
E então o sonho acaba por ser um único refúgio.

domingo, 20 de janeiro de 2013

PALAVRAS


PÁTRIA
Eu sinto orgulho de ser aqui nascido.
Nesta terra que o sol teima em vir beijar deixando a pele escura como a terra para que nos faça lembrar que dela nascemos e a ela havemos de voltar.
Corremos mundo, desbravamos o mar desconhecido, espalhando o nosso suor que fez o mar salgado.
Nada nos restou da glória dos nossos antepassados. Por excepção, ficou-nos a poesia e a Língua Portuguesa.
Os tempos mudaram e de um povo de marinheiros sem medo, sobrou um povo de pedintes, alunos cumpridores dos ditames dos senhores do mundo. Que acreditou nas promessas e se curvou perante outros que nos tratam com desdém e comiseração.
Chegamos aqui por culpa própria. Deixamos que outros nos guiassem.
E a Pátria onde está?
Vamos ter que a encontrar nos versos dos nossos maiores. E é bom ler em voz alta as estrofes do poema épico que Camões nos legou. Assim, enquanto gritamos as palavras, sentimo-nos vivos e voltaremos a soletrar " Esta é a ditosa Patria minha amada".
Luís de Camões
OS LUSÍADAS ( canto terceiro – estrofes 20 e 21)
20

"Eis aqui, quase cume da cabeça
De Europa toda, o Reino Lusitano,
Onde a terra se acaba e o mar começa,
E onde Febo repousa no Oceano.
Este quis o Céu justo que floresça
Nas armas contra o torpe Mauritano,
Deitando-o de si fora, e lá na ardente
África estar quieto o não consente.

21

"Esta é a ditosa pátria minha amada,
A qual se o Céu me dá que eu sem perigo
Torne, com esta empresa já acabada,
Acabe-se esta luz ali comigo.
Esta foi Lusitânia, derivada
De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
Filhos foram, parece, ou companheiros,
E nela então os Íncolas primeiros.

SAUDADE
Esta será uma das mais belas palavras da Língua Portuguesa.
Uma palavra que nos acompanhou pelas andanças pelo mundo e que floresceu e feneceu nos nossos corações.
É um sentimento mais do que uma palavra, que fere e faz sangrar. “Saudade, gosto amargo de infelizes…) já escreveu Almeida Garrett, escritor, dramaturgo e poeta do século dezanove.
Saudade é a palavra intraduzível porque só a sente um Português em viajem. E assim é algo que se entranhou e se moldou no nosso coração. Faz parte do nosso destino e como tal é ainda mais bela quando partilha o nosso fado.



 
MAR
Percorrer os caminhos do mar, navegando entre os Oceanos foi o nosso destino enquanto Povo. Foi o nosso Fado.
Foi nos veleiros que cruzámos os oceanos, encontrámos novos mundos, e pudemos dizer com orgulho mal contido, nos locais mais distantes da terra, aqui esteve um Povo de marinheiros e de poetas. Um Povo valente e pobre que pouco mais tinha para dar, do que a coragem.
Enfrentrámos o desconhecido, dobrámos o cabo Bojador, indo para além da dor, e desafiamos o cabo das tormentas, os seus mitos e lendas. Demos a volta ao mundo.
O mar está à nossa porta. Mas já não temos marinheiros e sobretudo capitães que nos guiem no caminho.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

PALAVRAS

TERNURA

Quando menos esperava, um dia em que lia o jornal com a televisão aberta, fui despertado por uma frase dita por um entrevistado, num qualquer naqueles programas matinais. Não posso precisar o programa nem recordo o entrevistado que proferiu uma frase, que me ficou gravada.
Dizia, e espero não andar longe, o seguinte:
“ Deus como não pode estar em todos os lugares, inventou os Avós”.
Fiquei com esta frase, que não precisei de descontextualizar, pois era evidente o seu significado.
O nosso pequeno País anda perdido, de pernas para o ar e com uma tentativa de inversão de valores que é recorrente nos discursos ou intervenções da nossa classe política. Esse propósito, com raízes ideológicas que já se encontraram na história recente, assenta no conflito de gerações, nos slogans que os problemas da economia são fundamentalmente criados pelos reformados e pensionistas, duma Segurança Social que, pouco a pouco deixará de o ser, sendo entregue a um alto dignitário do regime, que se encarregará das políticas adequadas para encontrar a solução final.
Para aqueles que acreditaram que vivíamos num estado sério, dirigido por gente honesta e capaz, devem reconhecer que andaram toda a vida a ser enganados.
“Deus inventou os Avós”, aqueles que depois de um vida de trabalho, de privações, fizeram todos os sacrifícios para proporcionaram educação e formação aos filhos, para que eles pudessem seguir um caminho melhor, são agora a mão de Deus para acolher os filhos desempregados e os netos sem futuro.
Não sou religioso, não tive o privilégio de conhecer os meus Avós e, também não sou Avô. Mas em nome daqueles Avós, e muitos são, que têm partilhado a comida e o tecto com os descendentes, atrevo-me a gritar:
- Se Deus existe, será na face enrugada dos Avós que o poderemos encontrar.
E valha-nos o Senhor.



CAMINHO

Chamo um Poeta para me ajudar a escolher o caminho. Um velho professor de Liceu que eu ainda conheci na minha terra e que agora, mais do que antes, sinto a força das suas palavras. 
E como de empurrão em empurrão nos querem conduzir por um túnel escuro com a promessa de que um dia veremos uma réstia de luz e vinte anos mais tarde, os que resistirem à jornada, entrarão no Paraíso, recuso-me a aceitar o chamamento e como diz o Poeta.” E NUNCA VOU POR ALI…”
Cântico Negro
"Vem por aqui" - dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...

A minha glória é esta:
Criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe

Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...

Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...

Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tectos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura !
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...

Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
- Sei que não vou por aí!

José Régio, in 'Poemas de Deus e do Diabo'



GREED
Julgo que a palavra ganância tem um efeito mais devastador quando pronunciada em língua Inglesa. E foi por isso que escolhi.
Poderão pensar que ao fazer esta escolha estou a tentar minimizar a ganância lusitana dos que se venderam e fizeram fortuna abocanhando tudo e todos, compararam respeitabilidade utilizando os políticos menores que se sentaram à mesa das migalhas.
Foi a ganância descontrolada dos banqueiros que arrastaram o mundo para um período de incerteza, de recessão, de desemprego e de pobreza. Mas os ricos ficaram mais ricos e como era de esperar, 1% da população é senhora de 99% da riqueza de qualquer Nação.
Nós, aqui na “Jangada de Pedra” como escreveu Saramago, também tivemos alguns efeitos dessa ganância. Mas a Justiça aqui funcionou e os malfeitores que roubaram estão todos presos e os bens desviados, foram recuperados. Pelo menos julgo que assim terá sido, mas como apenas me lembro do Vale e Azevedo sou capaz de estar equivocado. Mas enfim, se não foram condenados um dia, quem sabe quando, serão presentes no Juízo Final.
Que a ganância corrompe uma sociedade, basta estar atentos ao dia a dia mas também podemos rever um filme muito antigo de que vos deixo a sugestão. O nome “ CREED” é uma realização de Erich Von Stroheim, um dos maiores actores e realizadores que a sétima arte já conheceu

sábado, 12 de janeiro de 2013

PALAVRAS

DOR

Devo reconhecer. A minha tentativa de contar histórias foi isso mesmo, uma tentativa.
Pela minha cabeça perpassam fragmentos, pensamentos soltos, e não sou capaz de construir uma história que valha a pena contar.
Aliás tenho algum fastio, desengano e não consigo afastar os fantasmas que ocupam o meu pensamento e como um veneno insidioso me vai lentamente destruindo.
Os sonhos morreram. Em seu lugar ficou a realidade. Fria e suja, onde posso encontrar aqueles que me não despertam interesse. Nem respeito.
E os dias continuaram a sua marcha inexorável a caminho do abismo. Por cada um, juntaremos mais algumas centenas de desempregados, que se vão arrastando pelas esquinas ou nos recantos tentando ocultar o estigma da pobreza, que se cola ao corpo e corrompe a vontade.
Enquanto se esquecem direitos e se entregam vidas para que alguém possa apregoar a nobre atitude da caridade.
E as palavras soam frias como se ditas por um robot programado.
O poder apresenta-me um cálice de fel que devo beber.
Mas alguém me ajude, porque  só resistirei até acreditar que ser feliz, é possível.



BELEZA

Desliguei do mundo real, dos dias de revolta e desesperança e procurei refúgio junto daqueles que nunca me traíram. Os livros das minhas memórias, os Poetas que me preencheram os sonhos.
Faço-o com certeza que as palavras terão outra beleza e, mesmo que tristes, serão sempre belas, como a poesia.
Serão momentos em que ficarei feliz. Efémeros mas mesmo assim, ou ainda assim, são a água fresca que me lava a alma.
                                  
                                              
      CONDIÇÃO

Constrói ao menos
                                    qualquer coisa efémera
                                    Por mais não podes ser,
                                    sê ao menos efémero

Grava os passos na areia,
                                   desenha sobre  estrada
                                   teu vulto.
                                   É melhor do que nada.
                       
                       

A desfazer-te o rastro
                                   virá o Mar, é certo.
                                   Virá, é certo, a Noite
                                   beber a tua sombra.
                                  
Efémero? Serás…
                                   Mas presente
                                   no Mar, eternamente;
                                   na noite, para sempre.

  (CAMPO ABERTO-  Poemas de SEBASTIÃO DA GAMA)


3 – SENTIMENTO

Liberto do veneno do dia a dia, e para completar o prazer que um livro de poesia me tinha dado, procurei um filme para um fim de tarde sem queixume.
E quase por acaso peguei no último DVD que me haviam oferecido pelo Natal e que esquecera. Fiquei feliz, o filmeSciuscià" dirigido por Vittorio De Sica era um dos poucos daquele grande realizador que não me lembrava de ter visto.
E lembrei-me de um documentário assinado por Scorsese“ A minha viajem a Itália”, uma viagem pela época de ouro do cinema italiano do pós-guerra, a evocação nostálgica dos grandes filmes de Federico Fellini, Roberto Rosselini,
Vittorio de Sica e Luchino Visconti.
Mas Scorsese não mencionara este filme “Sciusciá”o que me deixou ainda mais interessado.
Mas foi uma bela surpresa. É um filme com uma bela história de amizade entre jovens, quase crianças, num Roma destruída e numa sociedade sem valores para além da sobrevivência.
Chorei no final, mas valeu a pena. Porque chorar mitiga a dor e deixa um sentimento que talvez só vendo e revendo o filme, se possa explicar.