quarta-feira, 14 de março de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES

O CAÇADOR

Estive algum tempo afastado da escrita. Desta vez não foi por doença, mas doeu-me como tal.
Não devia ter vasculhado os papéis e as fotografias da minha passagem pela guerra colonial. Remexer no passado pode trazer memórias que o tempo havia apagado.
Não foram as fotografias que me impressionaram, foi mais as reflexões, tipo diário, que de uma forma ocasional ia passando ao papel.
A guerra colonial foi uma guerra inútil e condenada à derrota. Os chefes militares nunca ousaram desafiar a doutrina Salazarista, da pátria do Minho a Timor, contra tudo e contra todos, até à última gota de sangue.
Só com teimosia, isolado do mundo, fechado no País de onde nunca saiu, liderando um povo de carneiros podia pensar que umas centenas de soldados mal armados e um velho navio de guerra, seriam suficientes para enfrentar o exército Indiano. E daí o desastre.
Depois assistiu-se à eclosão dos movimentos de libertação, que alastravam por toda a África as nossas colónias nunca poderiam ficar incólumes.
Quando em 1961 se dão os trágicos acontecimentos no norte de Angola, o País nada havia sido aprendido das lições bem recentes.
E foi uma tragédia.
Os generais a quem coube a tarefa de defender as colónias, definiram as linhas de orientação militar, modelo clássico, para combater uma guerra de guerrilha, que só poderia ser enfrentada politicamente.
A Salazar e aos seus seguidores ficará o ónus e a responsabilidade por uma geração destruída, por milhares de mortos e estropiados física e mentalmente, e também o drama vivido pelos colonos, que acreditaram no sonho e acordaram para um pesadelo.
Esta era a síntese que retirei os apontamentos escritos de forma revoltada. Os soldados que foram para a guerra estavam impreparados e fundamentalmente mal comandados por oficiais superiores, saídos do conforto das secretárias ou do comando de unidade territoriais onde, sabiamente, se haviam acoitado.
A história julgará, eu vou encerrar as minhas memórias, rasgando todos os apontamentos escritos durante a guerra e destruindo algumas das fotografias mais dolorosas.
Todavia, decidi terminar estas histórias com mais uma, verdadeiramente singular.

O CAÇADOR DE ELEFANTES


Conheci o mais velho dos velhos de uma numerosa tribo. encostada à floresta densa que anunciava o coração de África, o caminho das montanhas e dos lagos.
A floresta era o reino dos símios de grande porte mas principalmente o reino dos elefantes.
O chefe gostava de contar as suas façanhas de grande caçador de elefantes e de crocodilos e eu, já naquele tempo, gostava de ouvir os mais velhos.
Entre o sábio velho caçador e o militar de pouco mais de vinte anos, nasceu uma amizade que recordo.
O velho chefe gostava de mim, dizia ter visto nos meus olhos o respeito e a justiça.
Por isso quando ele me convidou para uma almoço à beira de uma bela lagoa, nem hesitei. Fui eu, o Administrador do Posto e o meu guarda-costas. Três brancos, rodeados de centenas de africanos.
Não foi um simples almoço, foi muito mais.
Provavelmente entre os presentes estariam guerrilheiros, mas ali, naquele momento eu e o Administrador, não estávamos em guerra mas em paz com a nossa consciência. A amizade do mais velho dava-nos tranquilidade.
Passeámos em ombros sentados em dois palanques transportados pelos homens enquanto as mulheres e as crianças cantavam acenando com folhas de palmeira.
Foi um momento que gostei de relembrar. Afinal mesmo no meio da guerra fora possível encontrar um amigo que me ensinou a respeitar os costumes e tradições.
O velho caçador de elefantes, chefe de uma tribo importante dera-me a sua amizade. Nada pediu em troca. Eu dei-lhe o meu respeito.
Apesar dos perigos da guerra, regressamos todos. Hoje pergunto-me se tal facto não teria sido o sinal da amizade do velho chefe, o caçador de elefantes.


terça-feira, 6 de março de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES

MEMÓRIAS PERDIDAS

Por razões que serão entendíveis, não gosto de comentar cenas da guerra colonial, situações que vi e vivi mas que guardei numa gaveta bem lá no fundo, no armazém que é a nossa memória.
Falo de algumas pequenas coisas mas tenho sempre evitado falar do drama, da dor e dos sacrifícios que foram parte naquela guerra.
Todavia e quase sem querer, abri umas caixas esquecidas, onde encontrei fotografias, cartas, relatórios e mais papelada sobre a minha passagem pela guerra.
Numa, encontrei um caderno diário, de folhas amarelecidas pelo tempo e a humidade de tantos anos passados, quase meio século.
Naquele caderno, com o entusiasmo da juventude, começara a escrever cartas que não mandei, textos com relatos de situações, bons e maus momentos, algumas reflexões e até críticas ao amadorismo com que fomos lançados naquela aventura.
Muito do que escrevi, não tem hoje sentido. Não é a História, seria quando muito a minha história pessoal, o meu testemunho.
Dei-me ao trabalho de reconstruir os escritos, mas foi uma tarefa quase inútil. Do caderno amarrotado, percebia pequenas frases, sem articulação nem continuidade.
Do que consegui irei dando nota se algo fizer sentido. Porque afinal, as palavras escritas foram folhas que o vento levou ou, talvez, pensamentos que o tempo apagou.
Hoje, em que enfrentamos desafios talvez mais exigentes, a guerra nas colónias ficou apenas para alguns estudiosos ou resumida a pequenas histórias que os que a viveram ainda tenham memória para contar.



 CARTA A UM AMIGO DESCONHECIDO

            Embarquei há dois dias para Angola a bordo do paquete Vera Cruz.
E é sentado numa mesa deste barco, que transporta mais de três mil jovens, empacotados, abraçados e inquietos, que estou a escrever a primeira carta.
Na realidade, não sei quando terei possibilidade de a enviar, mas, neste momento de despedida, escrever passa por ser uma forma de aliviar a tensão emocional, de um dia muito complicado.
Ao meu lado numa mesa de jogo, vários colegas estão a jogar poker de cartas. Também lá estive, mas com a sorte do costume, depressa fiquei depenado.
A excitação do dia de hoje não me vai deixar descansar e dormir, pelo que enquanto eles jogam e gritam, eu vou alinhavando estas palavras enquanto relembro o rosto dos que embarcaram, muitos onde a tristeza estava mal disfarçada, as lágrimas não contidas pelos abraços e beijos de familiares e depois, o mais doloroso de ver, o acenar dos lenços brancos, sinal de despedida.
Despedida, claro, apesar dos incitamentos, muitos daqueles jovens admitiam não voltar.
E até à saída da barra, lá ficaram aqueles vultos negros e tristes que continuavam a acenar. Naquela distância não se distinguia a família, e para nós já não era importante. Agora éramos irmãos que partiam ligados pela dúvida do regresso.
Á medida que o navio se afastava, uma estranha acalmia substituiu o riso, a bravata, o choro envergonhado. Cada um procurou o seu espaço, o seu beliche e nele se acolheu.
Só os olhos mostravam a inquietude, as palavras apenas serviam para esconder a dúvida ou fazer crescer a esperança. Uma palavra amiga, uma palmada nas costas, um sorriso e uma promessa. Tudo vai correr bem, vais ver, dizia eu a um soldado mais triste.
Ele olhou para mim, deu-me um abraço dizendo que tudo faria para regressar e ver o filho que ficara ainda no ventre da Mãe.
Não tive palavras mas o abraço tão fraterno, fez nascer uma luz nos olhos tristes daquele jovem Pai.
Interroguei-me se a preparação que dei aos soldados que iria comandar teria sido a mais adequada. Procurara sobretudo criar o espírito de solidariedade, repisando vezes sem conta, no final de cada hora de corrida e de cada marcha de dia e de noite, era sempre possível ir mais além, dar tudo, porque assim unidos, todos iriam resistir, porque todos teriam de voltar.
O mar está calmo, e o navio sulca as águas sem sentir grande dificuldade.
Ao longe, a luz da Lua reflecte-se nas águas, criando uma imagem de beleza e tranquilidade.
O barulho da mesa ao lado aumentou. As garrafas que vão despejando propiciam discussões acesas e mesmo alguma violência verbal. O oficial de serviço, um Tenente, teve de intervir e com muita dificuldade conseguiu acalmar os ânimos e o jogo acabou.
Na sua maior parte os oficiais, maioritáriamente, alferes milicianos, saíram para a coberta e ficaram na amurada fumando e em silêncio.
Amanhã vou ser eu o oficial de dia. Espero vir a encontrar os soldados perdidos no meio dos beliches que foram instalados em qualquer sítio livre. O meu colega que está hoje de serviço, já me avisou que não foi capaz de visitar algumas zonas do navio, pois o cheiro era nauseabundo. Pode ter exagerado e espero que sim.
 Encontramos muitos soldados cantando ao som de uma viola e de uma concertina e lá seguiam encafuados nos beliches, cantando e rindo.
Tive sorte, quando da elaboração do plano de embarque, tinha escolhido o melhor local para o alojamento dos soldados da Companhia, mantendo-os em espaços abertos mais arejados e perto uns dos outros. Não encontrei situações desagradáveis, e o enfermeiro que também me acompanhava na ronda, apenas teve de distribuir alguns comprimidos para  os que tinham mais dificuldade em suportar a ondulação do navio.
Estavam na maioria bem dispostos, alguns improvisaram um local para jogarem as cartas enquanto outros se tinham dedicado a visitar amigos ou conhecidos das outras unidades. E foi esse grupo que me pediu para ir ver as condições em que os camaradas de uma das companhias independentes estavam alojados. Fui com eles e fiquei impressionado. Pareceu-me que ocupavam um porão abaixo da linha de água, e de tal maneira se sentiam que uma grande parte nem tinha coragem para ir tomar as refeições. Comiam apenas o que os colegas mais afoitos e resistentes lhes conseguiam trazer.
Prometi-lhes que iria procurar a possibilidade de os realojar em melhores condições. E com alguma sorte e persistência fui descobrindo algum espaço onde ainda era possível montar mais um beliche. Ficaram apertados mas saíram da escuridão do porão.
Faltam cinco dias para o destino. A guerra estaria logo ali, à nossa espera.
Desembarcar e pisar terra firme será um momento único.
Até sempre. Adeus.
Algures, no Atlântico, em 1964,o ano de início de todos os perigos.

sábado, 3 de março de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES

Beber água do rio Bengo

A primeira vez que visitei Luanda, foi nos inícios do ano de 1962.
Foi uma viajem desportiva. Praticava a modalidade de remo no Clube Ferroviário de Portugal, fazia os treinos nos tanques em Xabregas orientados pelo saudoso mestre Acácio. Éramos 4 amigos, e estávamos no primeiro emprego. Foi a CP que, apesar do nosso destino ter sido já decidido, a guerra colonial, nos deu a primeira oportunidade de trabalho e com a garantia que, findo o período militar, podíamos regressar ao emprego.
Não éramos uma equipe muito competitiva. Trabalhadores de escritório, sem prática o que nos faltava em técnica e força sobrava-nos em vontade.
E foi com surpresa que o Clube TAP, secção de remo, nos convidou a partilhar uma viajem a Luanda para uma regata comemorativa do aniversário do Clube Nun’Álvares de Luanda.
Foi uma oportunidade imperdível. Seria a primeira vez que íamos andar de avião, e como era prática naquele tempo, lá seguimos bem vestidos e engravatados.
Foi no super-constellation,  da TAP e o tempo de voo, considerando escalas a que era obrigado foi de aproximadamente dezoito horas.

Muito tempo? Quando se tem vinte anos e se parte numa aventura, a distância não existe.
Foi com alegria que encontramos Luanda, alegre e bonita, já a recuperar dos primeiros meses da guerra, reafirmando a vontade de resistir, apesar dos massacres que a UPA havia praticado na sua descida da fronteira até bem perto da cidade.

Ouvimos contar as histórias mais horrendas de que não vale a pena falar.
Enquanto se aguardava o dia da regata, fomos visitar a famosa fazenda Tentativa, mais os campos de cana de açúcar que alimentavam a refinaria, e a Barragem das Mabubas que fornecia a energia eléctrica à cidade.
Fora ali, a apenas algumas dezenas de quilómetros de Luanda, que os soldados e a população em armas tinham conseguido parar o morticínio.
Foi durante essa visita que um Português, daqueles de antes quebrar que torcer, que sentia aquela África como sua, a exemplo dos antepassados que haviam lutado e sobrevivido nas terras duras do planalto Transmontano, olhou para mim e me avisou:
- Sinto que bebeste água do Bengo, irás voltar a esta cidade. Toma nota do que eu te digo. Nos teus olhos eu pressinto que vais gostar.
Não eram precisos grandes dotes de adivinhação. A guerra iria encarregar-se do caminho mas, mesmo assim respondi que sim, que gostaria de voltar.
Na verdade nunca esqueci as palavras daquele homem curtido pelo sol dos trópicos.
Um ano depois, era soldado e em meados de 1964 desembarcava com os meus companheiros em Cabinda, inesperadamente, pois o nosso destino era mesmo Luanda e depois o Norte de Angola.
Mas em Cabinda a guerrilha estava muito activa e o nosso destino foi mudado.

Mas Cabinda não era Luanda e eu sentia que tinha que cumprir a promessa que fizera ao meu amigo.
E numa oportunidade, havia alguma acalmia no teatro de operações, fui autorizado a passar uma semana em Luanda. O avião militar em que iria viajar teve de proceder à evacuação de feridos num ataque inesperado e fiquei sem transporte. Alguém me aconselhou um barco que iria partir ao cair do dia.
Não hesitei, corri para o porto, cheguei á justa, saltei para o barco que imediatamente começou a navegar.
Era um barco à vela apenas com um pequeno motor. Mal entrei fiquei doente com o balanço e sentado no chão junto à amurada, ia olhando o movimento das águas e as barbatanas de tubarões que costumam visitar aquela zona. Sujo e molhado, sem forças para me levantar, foi assim que o patrão do navio  me encontrou no meio da bagagem e caixas de mercadorias,que transportava. Viu os galões de oficial, alferes, e lá me conseguiu acomodar na minúscula cabine do leme.
E cheguei a Luanda. Como havia prometido, voltara.
O fascínio daquela cidade, não mais me largou. Voltei para passar férias em 1966.
Os tempos mudaram, muitas coisas aconteceram. Mas o efeito da água que bebi no primeiro dia que pisei a terra de Luanda, manteve-se. Voltei algumas dezenas de vezes, a partir de 1978.
A cidade não era a mesma, é certo, mas para mim o fascínio não desaparecera.

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terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES




ENCONTRO COM A HISTÓRIA

No princípio de 1965 encontrava-me na guerra colonial em Cabinda e na altura comandava um destacamento, um pelotão, instalado num monte sobranceiro ao rio, fronteira natural com o Congo Ex-Belga.
Era um local bonito e tranquilo. Na base do monte e junto ao rio havia meia dúzia de casas comerciais de brancos portugueses, que ali viviam e tinham constituído família, fazendo o seu negócio, comprando óleo de DENDÊ e peles de crocodilo, e vendendo às populações locais, peixe seco e alguns panos coloridos.
A fronteira não era um obstáculo. O comércio fazia-se nos dois sentidos.
 Na meia encosta, uma casa de arquitectura colonial, servia de posto e de residência ao Administrador, máxima autoridade civil naquela área.
Era um português de meia-idade, conversador e ao contrário do que se podia pensar, procurava administrar a justiça e cobrar o imposto mínimo sem usar da força e até com alguma parcimónia.
Numa certa manhã, estava eu a redigir um relatório para enviar para o comando da Companhia, quando a sentinela me chama porque o cipaio ao serviço do Administrador pedia para eu descer até ao posto pois ele tinha visitas.
E fui.
Sentados à volta da mesa no terraço estavam dois homens brancos, vestidos de camuflado mas desarmados, bebendo cerveja de garrafas de litro e meio, compradas no outro lado do rio. O meu amigo Administrador estendeu-me uma cadeira e apresentou os visitantes, como dois soldados ao serviço do exército Congolês.
O nome de um fixei, era francês e não me foi difícil entender e conversar; O outro entrou mudo, saiu calado e apenas abriu a boca para esvaziar cervejas.
O Administrador tinha alguma dificuldade em falar francês e eu fui o interlocutor privilegiado, até por ser o responsável militar naquela zona.
O francês era um homem de cerca de quarenta anos e apresentou-se como comandante Bob Denard. Chefiava um grupo de combatentes que, sob as ordens do primeiro-ministro Congolês, Moisés Tchombé, se dirigia para a cidade de Kisangani, antiga Stanleyville, que tinha sido ocupada por guerrilheiros maoístas.
O exército regular tinha fugido e os rebeldes controlavam a cidade onde mantinham cativos todos os estrangeiros que trabalhavam naquela zona, rica em minério.
A situação dos reféns era do conhecimento internacional assim como se sabia que a Bélgica, através da Companhia mineira que explorava as minas do Katanga, havia contratado mercenários para retomar o controlo da cidade.
O que eu não percebia era a razão duma visita tão inesperada.
Mas o comandante francês apenas me vinha informar que no caminho encontrara duas missões religiosas e que lhes tinha aconselhado a, ao menor sinal de aproximação dos simbas, assim se chamavam os guerrilheiros, atravessassem o rio e pedissem refúgio junto da tropa Portuguesa. E vinha pedir essa atenção.
Mais cerveja, nunca havia encontrado ninguém que bebesse tanto, e o comandante Denard falou um pouco da sua vida.
- Teria lutado na Indochina, depois na Argélia. Fora preso em França por suspeitas de envolvimento no golpe militar que os militares franceses haviam tentado para recusar a independência da Argélia. Agora era soldado da fortuna, ou por outras palavras, um mercenário.
Finda a visita e esgotadas as cervejas os dois combatentes desceram ao rio, tinham um pequeno bote amarrado na margem, pegaram nas armas e partiram ao encontro dos camaradas.
Do comandante Dénard, cujas aventuras me fascinaram, mesmo que algumas fossem exageradas ou inventadas, voltei a ouvir falar durante muitos anos, até à sua morte. Do seu colega, nunca soube o nome, mas só lembro ter notado que teria apagado alguma tatuagem no antebraço. Iria jurar que escondera os restos de uma cruz suástica.
Do momento guardei a lembrança de um encontro imprevisto com a história do coração da África negra. Uma tragédia que foi notícia pela sua violência e que ainda hoje faz correr rios de sangue.
O flme que escolhi, apesar de romanceado, tem algo a ver com o drama.




domingo, 26 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES


1 - UMA AMIZADE IMPROVÁVEL

De repente lembrei um amigo que perdi na guerra na Guiné.
Fora uma amizade nascida em Mafra, nas noites frias e chuvosas do começo do Inverno de 1963. O local, o quartel, a tapada, os montes e vales dos arredores, as praias agrestes, as marchas nocturnas encharcados pela chuva que não dava tréguas, tudo foi parte da especialidade de atirador de infantaria do curso de oficiais milicianos. No final cada um seguiria o seu destino e a direcção era apenas uma, a guerra colonial. Fora uma amizade improvável entre duas pessoas muito diferentes. O Mendonça, estudante universitário a frequentar o curso de medicina em Coimbra, recusara pedir mais um adiamento e fora incorporado no ano de 1963. Era um rapaz franzino, quase imberbe, apesar dos vinte e cinco anos de idade, mas de rosto triste e um sorriso amargo e descrente. Eu, pelo contrário, filho de gente humilde, soldado cadete apenas porque tinha sido considerado o melhor aluno da recruta dos sargentos milicianos, com apenas vinte um anos, apaixonado pela aventura da guerra, forte e resistente como um camponês, cumpridor da disciplina e apontado como exemplo de capacidade de comando e de liderança.
 E foi na famosa camarata quinze do Convento de Mafra, um espaço onde se amontoavam mais de duas centenas de soldados cadetes, local sem regras  nem lei, onde apenas uma vez o oficial de dia tentou entrar para recuar de imediato e desistir. A recepção fora de tal modo que nunca mais tivemos uma visita. Foi ali que o guerreiro sonhador e o Mendonça pacifista convicto escolheram ficar lado a lado, num canto próximo da porta de entrada da caserna.
No meu armário, para além de guardar a roupa que me fora distribuída e a velha espingarda Mauser e as cartucheiras correspondentes, guardava um pequeno garrafão de aguardente, destilada pelos meus Pais e que seria o aconchego contra a humidade e o frio que se aproximavam. Como reserva levara ainda meia dúzia de chouriços de excelente qualidade, não fora a minha terra a região que produzia os melhores enchidos do mundo. Aqueles eram caseiros, boas carnes e o segredo do tempero da Dona Ifigénia. Enquanto arrumava os meus pertences, o Mendonça continuava estendido sobre a cama, olhava para a minha azáfama e sorria.
- Sabes Barreto, qual é a diferença que nos separa? - É que eu estive a olhar para a tua alegria ao esvaziares a tua mochila e nos teus gestos pude encontrar o amor da tua família. Eu, pelo contrário, filho de gente rica trouxe a mochila vazia do mais importante. Nela não coube sequer uma palavra de conforto ou um gesto de ternura.
 - Olha, disse eu, quando a comida for intragável traz o pão e a fruta e partilharemos estes chouriços tão saborosos. Assim a minha Mãe também ficará feliz por eu dividir com um amigo os enchidos que ela foi comprando com o pouco dinheiro de que dispunha.
Certa noite, durantes uma operação nocturna, fomos escolhidos para montar  a segurança do acampamento, pequenas tendas expostas ao vento que sobrava na praia de Ribamar. Enquanto fumávamos um cigarro, o Mendonça falou um pouco mais de si.  Da família, da sua vida, dos seus medos e das suas angústias. Filho de gente rica, o Avô era um austero Professor de Medicina; O Pai conhecido advogado, muito ligado ao regime, Deputado e Governador Civil. A Mãe, senhora muito ligada às suas obrigações sociais, era fria e distante. Fazia a delícia dos convidados da melhor sociedade, que recebia numa casa apalaçada na alta de Coimbra.
O Mendonça confessava que nunca iria terminar o curso, mas não sabia o caminho a tomar para fugir do ambiente em que fora criado. Era rebelde, não aceitava as regras da tropa, andava provocatoriamente mal fardado e como tal os fins de semana ficava, quase sempre de castigo. Eu ainda não percebera a rebeldia do meu amigo e custava-me a acreditar que o jovem universitário de boas famílias e de posição social elevada andasse como eu à chuva e ao frio, esperando o destino. E disse que mais tarde ou mais tarde ele iria ser colocado numa repartição militar qualquer, daquelas que o podiam livrar da guerra. Como era hábito, aliás.
O meu amigo abanou a cabeça e decidiu contar a razão porque não havia fugido e nada faria para evitar a guerra.
- Sabes, tenho uma irmã gémea que teve a coragem de enfrentar a família e partir para Paris perseguindo o seu sonho.  Lançou-me o desafio para a acompanhar, mas eu hesitei e fiquei. Tenho outro irmão mais velho, o príncipe da família, educado para representar o símbolo dos valores tradicionais de uma família abastada e politicamente comprometida. Fora um atleta, comandante de bandeira da Mocidade Portuguesa, mas todavia, fraco aluno. Sabendo isso o meu Pai e o meu Avô decidiram que ele seria militar e daria o seu contributo para a causa nacional de defesa das nossas colónias. Mas o destino prega partidas que não se esperam. O meu irmão entrou na Academia Militar e quando estava prestes a terminar, recebeu do Pai um automóvel que fomos estrear, percorrendo a estrada da Beira. Insistiu para eu guiar e distraído como sou e sempre fui, tive um acidente. O meu irmão Luís ficou ferido e vive agarrado a uma cadeira de rodas, e eu que nas palavras dos meus Pais, bem que poderia ter morrido, não sofri feridas, salvo as da alma.
 Por isso aqui estou , a fazer tudo o que mais me dói e em que não acredito. Estou no lugar do meu irmão, não por respeito ou consideração pela família, que esqueci, mas porque tenho uma dívida e quero pagar. E será na guerra que ajustarei as contas.
Ficamos mais próximos, e os goles de aguardente que daquela noite, tão fria, fomos bebendo, foram como o brinde à nossa cumplicidade.
 Eu ajudei-o a ultrapassar as suas debilidades físicas, carregando durante as corridas a arma e puxando-o pelos ombros para continuar correndo. Dizia-lhe: - Ou ganhas força e resistência ou numa patrulha não terás capacidade de comandar os teus soldados. Ele sorria, abanava a cabeça mas lá ia tentando.
 A especialidade terminou nos finais de Dezembro. Era hora de regressar a casa e aguardar as instruções sobre o nosso destino. Mendonça deu-me um abraço prolongado e disse-me adeus. No meio da confusão não mais o vi.
 Em meados de 1964 fui mobilizado. Estava nos Açores e tive que me apresentar em Leiria, onde se encontrava em formação um batalhão que eu iria integrar para a guerra de Angola. Entre os colegas vi o Aspirante Loureiro, antigo conhecido da famosa caserna quinze. Era natural de Coimbra e conhecera o Mendonça e a família. Perguntei notícias do meu amigo.
 - Pensei que soubesses, disse o Loureiro. O Zé morreu numa emboscada trinta dias depois de ter seguido para a Guiné numa rendição individual. O corpo ficou irreconhecível e lá ficou sepultado nos confins da selva.
Fiquei com um nó na garganta e deixei cair uma lágrima.
Muitas coisas se passaram. Umas deixaram marcas outras o tempo foi apagando. Hoje, quase sem saber porquê, recordei aquela amizade improvável. E senti que afinal o meu amigo tinha acertado as contas pagando a dívida e ao mesmo tempo tinha encontrado a paz que procurara.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS SINGULARES

Andei afastado do computador. Resolvera parar porque o vício de escrever estava a dirigir o meu dia e a necessidade de alimentar o vício e, assim como um fumador que já fui, obriga a escrever não importa o quê, tornando-se uma necessidade absurda, quase uma dependência. Aproveitei algum mal-estar para repensar. Como os fumadores que tentam deixar o tabaco e não conseguem senão fumar ainda mais, também eu me deixei arrastar para o local do crime. Voltei ao computador. Aqui estou, confesso que receoso, porque não tinha uma ideia sequer, do que havia de dizer. Para recomeçar, escrevi um texto no meu outro blogue. Foi o caminho mais fácil, porque falar da política, dos políticos e de toda a gente que gravita em seu redor procurando umas migalhas, é sempre matéria que, apesar do nojo, do vómito e da raiva me deixa mais tranquilo. E é essa tranquilidade quase dormente que me cala a revolta. Depois fui rever pela terceira vez um filme que me marcou. A história falava de amor e de guerra. E foi um choque assistir ao drama daquela família, principalmente à destruição lenta dos sonhos de um Pai que vê desabar tudo em que acreditara. A colocação no mastro da Bandeira invertida soa como um grito de ajuda, que ninguém ouvirá. E então essa maneira subtil de abordar o tema da guerra do Iraque, trouxe-me à memória histórias esquecidas. Sim, histórias singulares de uma guerra que marcou a minha geração, e que eu vivi, quase cinquenta anos atrás. São esses fragmentos que vou tentar contar.



quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

POMPA E CIRCUNSTÂNCIA e equívocos

Como todos os anos celebrou-se ontem a abertura do novo ano judicial. E como sempre foi a feira das vaidades e dos equívocos.
Nós os simples, olhamos para este cerimonial e ficamos com medo. Tanto Juiz, tanto Magistrado do Ministério Público, tantos advogados com nome ou à procura dele. Sim com medo porque a Justiça, que dizem ser cega na realidade é apenas vesga. Só vê o que lhe convém. E nós vamos de trela.
Discurso houve para todos os gostos.
O PGR assegurou que tudo vai bem no reino da Justiça, que todos os crimes têm sido investigados e todos os suspeitos foram ou serão presentes a Tribunal. Ele não precisou de que crime falava. Palpita-me que se referia ao caso Isaltino, um pobre homem que respira honestidade a cada baforada do charuto e tem sido injustamente perseguido por uma Juíza que cometeu o sacrilégio de o mandar prender para logo o mandar soltar, pois havia trezentos e noventa recursos pendentes de decisão. Um deles, talvez o mais bem elaborado, foi o de que todos os crimes de que fora acusado teriam prescrito. Também se poderia estar a referir ao sem abrigo que foi apanhado a roubar, coisa mais horrenda, um polvo e um frasco de champô e que vai pagar pelo crime. Ainda por cima roubou uma grande superfície onde quase todos já fomos roubados na qualidade e nos preços praticados. Ou talvez tenha para anunciar em breve a lista dos lambões que se abotoaram com o dinheiro dos submarinos, que roubaram seis ou sete milhares de milhões do BPN, que receberam as comissões do processo do abate dos sobreiros. Do caso Freeport já não vale a pena falar porque os ilustres Magistrados que investigaram o eventual suborno, como é costume, nada de substancial descobriram. Levaram tempo mas acabaram por produzir um despacho do qual deveriam ter vergonha. Já sei. O caso do momento é o FACE OCULTA. Giro este nome. Oculta, porquê? O sucateiro para obter contratos comprou favores? Qual é a novidade. Isso é o dia a dia de uma Empresa. E há sempre gente de mão estendida. E há mesmo, não duvidem! Depois foi importante a intervenção do Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.
Foi um belo discurso, acabou a citar o livro de John Steinbeck, O Inverno do nosso descontentamento. Falou do perigo de se espezinharem direitos adquiridos, e nas consequências daí resultantes. Estaria a pensar nos pobres Magistrados, presumo eu. Talvez por isso aquele Ministro dos Polícias anunciou já a admissão de mais de mil e quinhentos guardas. Talvez sejam precisos mais, mas sempre é um bom remedeio. A intervenção da Presidente da Assembleia da República foi um excelente momento. Percebi pouco, mas as palavras eram para os presentes da sala, gente de outro gabarito cultural.
Finalmente o que se esperava mas que ficou em meias tintas. O combate entre o Bastonário da Ordem dos Advogados e a Ministra da Justiça. Foi um combate que já não convence ninguém. Até parece daqueles com resultado combinado. Quando temos a honra de assistir a cerimónias como esta, desta vez sem pastéis de nata, o Álvaro esqueceu-se de os mandar comprar, percebemos porque as pessoas confiam, quase cegamente, na Justiça. Vão sair uma série de leis, reorganização dos Tribunais, encerrarão umas dezenas, sempre viveram sem Justiça, porque haveria agora de ser diferente? Toda a gente com umas luzes sobre o assunto não tem dúvidas que a justiça se rege por códigos, armadilhados, permitindo uma miríade de interpretações e sendo assim o verdadeiro ganha pão dos professores de Direito de cada especialidade que irão cobrar, e bem, pelos pareceres que lhe serão solicitados. Então alguém acha que os Códigos devem ser feitos de tal forma que se mate o direito aos professores de venderem a sua sapiência? Já chegamos à Madeira ou quê? As Leis devem ser elaboradas de forma a terem sempre um ou mais leituras e daí a importância que os Partidos dão à composição dos seus representantes na Assembleia da República. A maioria será eleita como dar emprego aos militantes anónimos que mesmo deputados nunca deixarão de ser anónimos, mas haverá sempre advogados mesmo que de segunda linha, que funcionarão como guardiães da conveniência de uma justiça, meio cegueta. Uma Lei bem feita é perigosa, é o seu lema. Por fim, a intervenção do senhor Presidente.
Outra vez meias palavras e espírito de compromisso. Não vê que isso não dá? Dê um murro da mesa e grite, basta! Eu apoio. Vamos lá investigar o tráfico de influências, o comércio da cocaína que a breve prazo ultrapassará o consumo de tabaco, a lavagem de dinheiro, a evasão fiscal, etc. Deixem-se de conversas e deitem mãos ao trabalho. Caso contrário, um dia, poderá ser tarde de mais.