sexta-feira, 17 de abril de 2015

A CASA NA COLINA





A CASA SE QUEDA SOLA


 
Foi uma subida difícil. Como Manuel previra o caminho estava quase intransitável o que lhe exigiu perícia, acelerações no motor, em alguns lugares mais íngremes foi necessário recorrer à força de braços para mover a composição. Manuel era um homem ainda jovem, criado no campo e, apesar do suor que lhe escorria pelas fontes não parou de empurrar. Luís também procurou ajudar, mas entre tropeções e escorregadelas a sua ajuda foi apenas cheia de vontade, porque força não tinha.


Mas conseguiram chegar ao terreiro em frente da casa. Manuel ajudou a descarregar a bagagem que ficou junto à entrada da casa. Por perto havia uma azinheira grande e frondosa e foi à sua sombra que Luís se sentou, arfando e limpando o suor.


- Então amigo, já chegamos, abra a aporta que eu ajudo a levar as suas coisas, propôs o motorista!


- Não se prenda comigo, vou descansar e logo irei levar as coisas com calma. Fico-lhe muito agradecido, sem a sua ajuda teria desistido pode crer, disse Luís com algum desalento na voz.


- Pronto eu não insisto, respondeu Manuel, mas lembre-se que a casa não estará preparada para o receber. Faça por descansar e amanhã eu ou o meu ajudante passaremos por aqui para ver o que será preciso.


- Sim obrigado, para esta noite tenho comigo o indispensável. Tenho roupa, água e comida e vontade de visitar a casa que me fascinou.


 Ajeitou-se no declive ao lado da azinheira, estendeu as pernas, acendendo um cigarro que saboreou com prazer e pensou que só aquele momento, admirando os campos que se estendiam por pequenos montes e vales até onde a vista alcançava, já teria pago o cansaço da sua aventura. Mas que estava ainda no começo.


 Decidiu ir ver a nova casa. Procurou a chave, abriu a porta e rapidamente voltou para a sombra da árvore. A casa exalava um cheiro pestilento, pútrido, carregado de odores de água podre. Ficou verde e as náuseas foram o prenúncio dum vómito seco, que após muitas convulsões conseguira expelir um líquido amarelo que lhe feria a garganta. Era o fígado a dar sinais que ele também conhecia e de que se esquecera. Na verdade, naquele dia ainda não comera nada. Abanou a cabeça, não conseguia esconder a sensação de desânimo. Aquilo não era uma casa, não podia ser a sua casa, mas parecia ser um túmulo que já cheirava a morte.


 Desistiu. A casa ficou vazia.

Para combater a angústia e o desespero voltou para debaixo da árvore e decidiu que ali ficaria pela noite até o sol raiar e escolher o caminho do regresso. A casa estava só como só e vazio estava o seu coração. 




Estava tão cansado que se deixou adormecer. Quando acordou, noite alta, sentiu frio e teve de procurar na mala alguma roupa mais quente. Por sorte, encontrou na mala, um velho blusão de cabedal, com o qual se aconchegou. Voltou a deixar-se dormir e só acordou ao raiar da aurora.


Inebriado com a beleza do nascer do dia, resolveu praticar os exercícios aprendidos, quando praticara artes marciais. Despiu-se e começou por fazer alguns exercícios, enchendo o peito de ar e tonificando todos os músculos. De seguida lembrou-se dos movimentos da arte marcial que praticara e exercitou-se até se sentir cansado. Para um primeiro dia, e para quem já não praticava há tanto tempo, o esforço tinha sido exagerado e o corpo pedia-lhe descanso.


Olhou em redor da casa e pareceu-lhe ouvir o correr de um pequeno regato. Foi ver e de facto, brotando de umas rochas na traseira da casa, corria um fio de água, depois retida num tanque de pequenas dimensões. Nem hesitou, saltou para dentro do tanque, esfregando-se com energia, a água ainda estava fria. Só aguentou uns breves minutos, saiu a correr à procura de uma toalha para se secar, quando ouviu o ruído da motoreta que acabava de parar mesmo junto da sua bagagem. Não era o Manuel que a conduzia, mas sim uma mulher, ainda jovem, que se ria da figura que ele fazia, tapando com as mãos os órgãos genitais, e batendo o dente com frio.


 
- Não fique assim envergonhado, já vi homens nus. Mas para ficar mais à vontade eu vou dar uma volta e volto já.


Luís vestiu-se, com a mesma roupa da véspera, sentou-se no lugar de eleição debaixo da árvore, e quando a mulher voltou já tinha recuperado da situação insólita que acabara de viver. Todavia havia nos seus olhos sinais evidentes de tristeza e desilusão.


E eram tão marcados que a mulher parou na sua frente e disse com voz triste:


- O meu nome é Joana e sou a irmã do Manuel. Ele contou-me que a casa da colina já tinha um novo proprietário e eu quis ver, com os meus olhos a pessoa que escolheu aqui viver.


Percebo que o meu irmão que está sempre muito ocupado, talvez não o tenha avisado do que iria encontrar, logo que abrisse a porta.
É evidente que sofreu uma desilusão, certamente não esperava encontrar uma casa em ruínas, mas acredite que a primeira impressão é para esquecer.
A casa precisa de ser recuperada depois de cinco anos abandonada, mas acredite, se há casas com história e com alma eu dir-lhe-ei que esta é uma delas.


Um dia alguém lhe contará que a casa da colina é um exemplo de amor, de amor quase intemporal. O casal que a construiu e nela viveu não eram camponeses, foi o sonho de amor que os fez deixar Lisboa, deixar o conforto de uma casa de família da alta burguesia e terem construído, nesta linda colina, a casa onde viveram o seu amor.


 


 


 







quinta-feira, 16 de abril de 2015

A CASA NA COLINA











PARA ALÉM DA SAUDADE


 


Passaram mais uns minutos, ouviu o abrir duma porta, mesmo ao seu lado. Um homem saiu, pendurou uma proteção de fitas coloridas contra as moscas e virando-se para o desconhecido disse:


-Vossemecê quer alguma coisa do meu estabelecimento? São horas de abertura, é só entrar e escolher, porque aqui não falta nada, e o que não houver hoje, posso garantir que será entregue amanhã à tarde, disse-lhe um homem ainda novo, e que pelos vistos, era o dono da mercearia.


Aliviado por encontrar alguém, Luís esboçou um sorriso e respondeu:


- Sabe, eu estava era admirado por não ver ninguém. Até pensava que me tinha enganado no destino. Eu ainda não sei do que vou precisar. Primeiro terei de chegar a casa, arrumar as minhas coisas ver então o que me faz falta.


-Então é o senhor o novo dono da casa da colina?


- Sim sou. Queria um lugar isolado, onde pudesse encher os pulmões de ar puro e beber a paisagem. Não encontrei nada melhor e por isso aqui estou, contente, mas embaraçado com tanta bagagem que não sei como transportar.


- Lá isolada a sua casa é. Respirar ar puro e admirar a paisagem também lhe vai ser fácil, mas a casa está desabitada há muito tempo, poderá encontrar algumas limitações ao conforto em que terá vivido. Nada, porém, que não possa ser resolvido. Mas, acredite o que lhe digo, os primeiros tempos não serão fáceis. O acesso também não o será, pois se bem me recordo, existe apenas um carreiro, que deve estar em mau estado, e que era utilizado, por uma carrocita pequena, puxada por um burro, quase tão velho como o casal que lá habitava, e lá morreu. Não o quero desmoralizar, o sítio é muito bonito, de verdade, mas também vai encontrar dificuldade, que não previu. Por exemplo o abastecimento. Aqui não há rede de telemóvel. A energia elétrica está desligada à tanto tempo, mais de cinco anos, que terá que ser feita a sua revisão. O abastecimento de água é feito de um reservatório no telhado e, naturalmente deverá se limpo e testado.Terá a solidão como companheira. Para qualquer coisa que precisar terá que contar comigo. E apenas lhe posso garantir que, pela manhã eu ou o meu ajudante, passaremos pela sua nova casa. Pode contar com a ajuda possível. Mesmo hoje, para o ajudar a transportar as suas coisas, irei precisar da minha motoreta e do atrelado, pois não me atrevo a utilizar a carrinha de caixa fechada com que me desloco.


Mas espere mais um pouco, logo que o rapaz que me ajuda na loja se digne aparecer, faremos a mudança.


- Oh meu amigo, nem imagina o meu alívio. Por isso esperarei o tempo que for preciso. Na verdade, talvez eu tenha sido imprudente ao escolher a casa, como o refúgio que precisava para descansar, mas agora não me resta outra alternativa que não seja a de contar com a sua amabilidade e simpatia. Por isso lhe agradeço e esperarei o tempo que for necessário.


- Então eu já volto. Já agora apresento-me:


O meu nome é Manuel Carvalho e aqui nas redondezas toda a gente me conhece pois, além de comerciante, sou também o Presidente da Junta da Freguesia em que esta pequena e quase esquecida aldeia está incluída.


 


Luís respirou fundo e recostou-se no assento. Finalmente a aventura estaria a ter sentido numa altura em que ele já sentia alguma desalento.


 


Entretanto, começou a notar algum movimento na praça, meia dúzia de pessoas que regressavam a casa depois de um dia de trabalho no campo e dois homens, já trôpegos que aparando-se aos cajados, caminhavam na direção do banco que ele ocupava. Luís apressou-se a afastar a bagagem para libertar lugar para os seus novos companheiros.


Perante o olhar intrigado dos velhotes, Luís feliz por ter encontrado companhia saúda-os com um sorriso, desejando-lhe uma boa tarde.


Os velhotes olharam com desconfiança para o forasteiro, e Luís apresentou-se:


- Não se admirem, sou o vosso novo vizinho, e vou morar na casa na colina.


Os seus novos companheiros não mostraram qualquer emoção, murmurando apenas um cumprimento que Luís nem percebeu. Coitados, pensou enquanto os olhava com mais atenção. Viu homens cansados, de olhos mortiços e faces descarnadas, como se aguardassem o fim.


 Ficou impressionado, não deixou de pensar se aquele retrato seria o seu espelho no futuro não muito distante. E tremeu.


Salvou-o dos pensamentos, o ruído estridente de um motor. Era o amigo Manuel Carvalho que se aproximava, montado na motocicleta, ligada a um pequeno atrelado, dizendo:


- Vamos embora amigo, vamos lá subir a encosta. A casa na colina espera por si.


Enquanto o seu recente e prestável amigo enchia o atrelado com a bagagem Luís olhou de novo para os velhos habitantes que já conhecera, começou a recear que, para além da saudade que não morrera. A aventura que ia iniciar lhe poderia trazer mais dor e sofrimento. A solidão mata e ele já fizera uma parte do caminho.


 


 


 


 


 









sábado, 11 de abril de 2015

A CASA NA COLINA









O CANTE ALENTEJANO




Ainda estava a viver a sentir o poema do fado da saudade, quando ao aproximar-se da cidade de Beja se lembrou a história singular de um povo que cantava, sem música nem instrumentos e com vozes masculinas, melodias e poemas tradicionais, herança dos seus antepassados, cuja memória se perdia no tempo.


O seu sangue alentejano lembrou-lhe a nostalgia dos que sempre permaneceram nas suas aldeias vilas e cidades sem nunca terem esquecido serem um Povo diferente, triste e solidário, rebelde e imune aos atropelos que os senhores feudais  os haviam sempre praticado. Era um Povo que não se revia das doutrinas da Igreja, que noutros tempos, fora sempre uma aliada, de peso, dos donos da terra. Enquanto que a eles apenas era reconhecido o direito de a trabalhar até morrer. 


A camioneta de passageiros, velha e gasta, continuava a rolar por estradas que mais pareciam veredas, atravessando a planície indiferente à luz do sol que crestava o rosto dos trabalhadores.


Luís ansiava por chegar à aldeia que havia escolhido e já se imaginava a ouvir o cantar do Alentejo.


Como companheiros de viajem apenas um casal de velhotes, que dormitava, e um jovem que de sacola ao ombro regressava da escola.


Foram duas horas de solavancos, de silêncios até que a pobre camioneta parou numa pequena praça, que circundava um pequeno canteiro, com uma oliveira de tronco gasto pelos anos.


Nem uma pessoa conseguiu ver, apenas casas, poucas e pequenas, caiadas de branco e rodapés de azul vivo. O sonho de ouvir o cantar do seu Alentejo iria morrer por ali. 


Enquanto o motorista o ajudou a retirar a sua bagagem, malas e sacos onde guardara a sua riqueza, o casal de velhos e o jovem estudante, companheiros de viajem meteram-se ao caminho por uma ruela próxima e, num segundo ,desapareceram.


Ficou sentado numa parede do canteiro e à sombra da oliveira fechou os olhos e por breves instantes, dormiu.


E foi ali, naquela praça vazia, duma aldeia perdida, que esbarrara com o destino. Olhou para o monte na sua frente, viu no seu alto a casa da colina. Estava no sítio certo, aquela casa seria o seu refúgio. Só não sabia como lá chegar, nem via caminho e, na verdade, não teria já forças para carregar a bagagem.


Estava tão perto e ao mesmo tempo tão longe.


Desistiu de começar a caminhada, não seria capaz de a fazer, olhou em busca de auxílio e o melhor que encontrou foi um banco de pedra, acostado à parede de uma casa da esquina, lugar que lhe pareceu o paraíso. O sol ainda queimava, eram duas horas da tarde, mas o banco estava protegido por videiras suspensas que lhe davam a sombra. Fez dois ou três transportes das malas e do resto dos sacos que trouxera, ficou alagado em suor e deixou-se cair no banco de pedra, aproveitando para fumar um cigarro. Tempo, era tudo o que tinha de esperar até a aldeia dar sinais de vida.


Cerrou os olhos e descansou. 















quarta-feira, 8 de abril de 2015

A CASA DA COLINA







2 – A DOR DA SAUDADE


 


 


Foi através de uma Agência de Beja, via internet, que encontrou uma casa velha, isolada no alto de um monte. Deixou-se contagiar com as imagens da planície alentejana, banhada pelo sol que se estendia até onde o céu tocava a terra, naquele horizonte feito de cor e luz e decidiu comprar a casa da colina. E até o nome lhe trazia a paz que precisava. Quem sabe, pensou, “casa da colina” até poderia ser o título do livro que iria escrever.


 Nada mais o preocupou, nem se inteirou do estado em que a casa se encontrava. Ficara apaixonado pela localização e tudo o mais esqueceu. O pessoal da agência, ainda lhe dissera que a casa precisaria de pequenas reparações, mas que seria fácil e económico encontrar quem as fizesse.


 Assinou o contrato, pagou e deixou a questão da reparação para decidir à vista da casa.


Era pouco exigente, não queria uma mansão, uma casa de novo-rico, com uma arquitetura que até ofenderia o lugar. Para ele, a casa seria sempre e só a casa da colina, o espaço para aguardar com tranquilidade o fim do caminho.   


Na publicidade, e nos contactos com o vendedor, foi sabendo que a casa se encontrava a uma distância não superior a um quilómetro de uma pequena aldeia, onde iria encontrar mercearia, padaria, uma taberna para afogar em vinho as suas mágoas. Aos sábados a povoação animava-se com uma feira onde poderia conhecer pessoas simples, camponeses que aproveitavam para o seu comércio e até alguma distração com os desafios lançados pelos habituais vendedores, apregoando a excelência dos produtos e o seu preço de saldo. Eram feirantes habituais em todas as aldeias, vilas e até cidades do interior cada vez mais deserto do País e faziam parte do colorido que ainda restava no interior do País, cada vez mais esquecido.  


 


O entusiasmo do vendedor apregoando a oportunidade de um bom negócio, deu para o convencer. Um sítio calmo, onde poderia isolar-se quando lhe apetecesse, ou encontrar alguma convivência, quando para isso estivesse disposto.


Emalou as coisas indispensáveis, carregou-se de livros, principalmente de poesia, um saco com os medicamentos, toda a roupa que encontrou, os sapatos que utilizava, roupa de cama e pretendeu encheu uma mala de viagem de bom tamanho. Enganara-se, nem metade cabia, teve que juntar mais um saco, uma mochila dos tempos em que fizera campismo e mais dois ou três sacos com compras de supermercado, que admitia iria precisar nos primeiros dias.


 


O transporte seria um autocarro expresso que o levaria até Beja. Depois uma única ligação diária até ao destino. Partiu de táxi até ao terminal dos autocarros e teria que utilizar idêntico transporte da povoação até à casa da colina.


Estava tudo em ordem, confirmou, agora era apenas o primeiro passo e o desafio de enfrentar o cansaço dum dia de viagem.


 


Mas, apesar da esperança de uns dias diferentes, havia sempre o medo da saudade. Já sentira um frémito quando do barco em que atravessou o rio Tejo, olhou para a cidade que iria deixar. Lisboa era a sua cidade, sê-la-ia sempre, com o rio, a luz, e as suas colinas. Dizia adeus a Lisboa e essa seria sempre mais uma dor que o acompanharia na partida.


 


 


 





segunda-feira, 6 de abril de 2015

A CASA DA COLINA






1 – O DESCONHECIDO


 


 


A camioneta da carreira, embora com significativo atraso, acabara de estacionar no largo da pequena povoação, algures perdida no Baixo Alentejo.


Saíram dois miúdos, com as sacolas ao ombro, viriam da escola que frequentariam na cidade, presumiu o desconhecido e mais dois casais curvados pelo peso da idade e pelo trabalho de uma vida.


Ele foi o último a abandonar o transporte, ajudando o motorista a retirar as suas coisas, bastantes, que quase enchiam o porta-bagagens da pequena e já cansada, camioneta.


O motorista esboçou um sorriso, arrancou e num instante o largo ficou vazio.


No meio, sem saber bem o que fazer, ficara o passageiro desconhecido, um homem da cidade, que se sentia perdido, rodeado por malas e sacos que nem sabia como e para onde transportar.


Sentou-se na mala, puxou dum cigarro e deleitou-se com o fumo que inspirava. Estava só e cansado. Apesar de ter tentado deixar o vício do tabaco, voltara a ele, pois reconhecera que deixar de fumar seria abandonar um dos últimos prazeres que lhe restariam até ao fim da vida.


 Olhou para todos os lados, não viu ninguém. Mas acabou por reparar que, não muito longe do sítio onde se encontrava, havia uma casa com um banco corrido ao longo da parede, protegido do sol pela sombra de algumas videiras que se estendiam por sobre uma armação feita de madeira. Ali estava a primeira coisa boa que aquele dia lhe trouxera, um lugar à sombra.


Começou a carregar as suas coisas e depois de três ou quatro idas conseguiu terminar a tarefa e sentar-se no banco, encerrar os olhos e recuperar do cansaço. Já o sabia, mas aquele pequeno esforço mostrara a sua debilidade. O corpo já não lhe respondia como antigamente, mais o pior cansaço era a sua luta entre a mente que resistia e a desesperança que pouco a pouco ia vencendo.


 Estava um dia quente, nem uma leve aragem lhe trazia algum descanso.


Talvez tivesse subestimado o calor da planície alentejana quando decidira procurar um lugar isolado e calmo, onde pudesse fazer uma vida tranquila, e eventualmente, acabar o livro que havia recomeçado a escrever sem nunca chegar conseguir dar corpo à história que havia imaginado. Acabar de escrever um livro, sorriu, aquele fora o pretexto para explicar aos amigos a sua decisão de mudar de vida.


 


Porém a realidade era muito diferente. Bem que gostaria de ser capaz de escrever um livro, ou dois ou três, mais teria tempo ou talento para tal empreitada?


É que o diagnóstico, feito após uma série de exames, confirmava que ele sofria de uma doença incurável e já em estado avançado, pelo que a esperança de vida não seria muito longa. O médico que lhe deu a notícia fora muito direto. Dissera-lhe, palavras que nunca mais esqueceria:


 


- Meu caro, podia arranjar promessas de que a sua doença poderá ter cura. Mas eu não acredito em milagres embora já tenha sido surpreendido com situações inexplicáveis. Os cuidados que o hospital lhe poderá assegurar serão, apenas, cuidados paliativos. Pense se opta por alimentar uma ilusão ou se prefere enfrentar o caminho, vivendo cada dia como sendo o último e aproveitar para fazer alguma coisa que lhe dê prazer. Eu já lhe disse que devia deixar de fumar, é verdade o fumo faz-lhe mal, mas não será também importante o alívio que sente quando inspira o fumo do cigarro?


Mas deixo à sua vontade. Marco-lhe uma consulta para dois meses e leva medicamentação que deverá tomar diariamente e alguns para enfrentar dias mais difíceis. Tem o meu telefone, utilize-o sempre que precisar de mim.


 


E foi assim que Luís Freitas, quarenta e oito anos de idade, divorciado sem filhos, se encontrou naquela praça vazia.


Cansado da profissão que escolhera, trabalhava num serviço público sem prazer e sem esperança de futuro, não demorou muito a escolher. O passado ficaria esquecido na vida sem grandes memórias, o presente seria o caminho do regresso ao Alentejo onde nascera e o futuro, bem o futuro seria o que vivido dia a dia. Sem preocupações, sem esperanças, mas com a convicção de que seria ele a mandar no resto da sua vida.


 


Com base no relatório médico conseguira a reforma antecipada, vendeu o seu ativo, apenas um apartamento na periferia da grande cidade, encontrou uma garagem que alugou para guardar os livros, mais algumas recordações de família, móveis que herdara dos Pais e só por isso lhe eram importantes e preparou a bagagem para a viagem que tinha decidido fazer.


 


Guardara para si o seu estado de saúde e mentiu para que não pudesse ver no rosto dos poucos amigos, a surpresa e as manifestações de pesar, acompanhadas pelas palavras de circunstância e os olhares que não gostaria de enfrentar. O pretexto era o cansaço, a solidão e o apelo que confessara sentir para escrever um livro e foi com a frieza de que se revestiu que se separou dos vizinhos e dos colegas.


 


A ideia de escrever um livro até a ele lhe pareceu boa, por isso na bagagem juntara o pequeno computador portátil onde iria escrevia, de vez em quando, pensamentos, angústias e o medo de não conseguir resistir à ruína de um corpo já doente e cansado. Mas precisava de mudar de vida. Esquecer a televisão, a leitura dos jornais, os comentários políticos e do futebol, as intrigas entre colegas, as traições, a eterna disputa entre os condóminos e procurar um lugar onde pudesse conviver com o sol, ouvir o vento e o canto dos pássaros, a água das fontes e regressar às origens. No Alentejo nascera e lá procuraria as memórias perdidas.


 


 


 

domingo, 8 de março de 2015

Cântico Negro











Hoje vou tentar contar uma história. Uma história que começa lá longe, nos primórdios da civilização ocidental e que se acaba, nos nossos dias.


É uma história escrita pelo sangue, dum povo que, partiu nas caravelas procurando e encontrando outros povos, outras terras. E deu a vida ao mar em que navegou.


X. Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu.


(Mensagem de FERNANDO PESSOA)


E esse povo que ficou para sempre ligado ao mar, de costas voltadas para a Europa, que sempre nos viu como um povo de servos bem comportados.


E este povo de servos que foi conquistado por Reis valentes e destemidos, mas que até teve um Rei que escrevia poesia, foi perdendo a sua valentia, esqueceu a coragem dos seus antepassados e deixou-se capturar pelos medíocres que durante dezenas de anos prosperaram à sombra dum ditador, que convivia com o Franco e fazia por ignorar os horrores da nazismo e da sanha sanguinária de Hitler e dos seus comparsas.


E este Povo resistiu à pobreza, à ignorância, mas que guardou sempre o orgulho duma nação de Navegadores e também de Poetas.


E fez uma revolução cujo emblema foi uma flor no cano de uma espingarda e o olhar terno de uma criança.


Pois foi assim a gesta, o triste fado deste País de brando costumes que, sem um grito deixou que tudo fosse vendido, as fábricas, a Banca, as redes de energia, que ainda acabará por vender a água dos rios que nos percorrem. E até para maior vergonha, vendeu a pobre língua.


Hoje o Português já não é a língua de Camões, de Pessoa, de Herculano, de Régio, de Torga, de Saramago e de todos os outros que escreveram os livros e os poemas que os que nos (des) governam, já esqueceram ou nunca souberam.


Que mais teremos de vender? Talvez uma mão cheia de políticos, haja quem os queira comprar, pois o mundo está cheio de vendilhões do templo.


Eu não sei por onde ir, sei que o caminho se vai estreitando, mas grito pela voz de um grande Actor e faço minhas as palavras dum grande poeta.


NÃO VOU POR AÍ.

























segunda-feira, 2 de março de 2015

It's Not Goodbye - Sweet November MV









Não gosto do mês de Novembro dizia um companheiro de café.


 Porquê era a pergunta óbvia que ficou no ar?


“ Não sei. Nem consigo explicar, mas durante os anos que levo de vida sempre consegui encontrar motivos para ligar momentos importantes e prazerosos todos os meses do ano mas Novembro ficou e ainda hoje fica sempre em branco. Melhor, Novembro apenas me ocorre quando relembro uma dor profunda, uma ausência difícil, um encontro que se transformou em desencanto, um adeus, um beijo negado, um abraço falso, uma promessa quebrada.


 Calado e pensativo o “filósofo” ocasional olhou para os ouvintes acidentais, como a pedir desculpa pelo seu tom inflamado da condenação do pobre mês de Novembro, apenas culpado pelos seus humores e desamores.


Perante a indiferença dos ouvintes, pagou o café e saiu para a rua e para a chuva que caia com intensidade.


O empregado de mesa sorriu e comentou em voz alta:


“ Coitado do Senhor Manuel, esqueceu-se do chapéu-de-chuva. E logo agora que ela cai com intensidade. Vai chegar a casa encharcado e com mais uma razão para oi seu mau humor. Eu até compreendo o seu desabafo, continuou o empregado. Para quem vive só, rodeado apenas por recordações dos que já partiram o mês de Novembro será sempre um mês triste, sem sol e sem luz.”


 Mas afinal o mês de Novembro, digo eu, testemunha do desespero do senhor Manuel, é apenas em mês igual aos outros, com os mesmos dramas, as mesmas queixas, a mesma dor. Como na vida, mesmo na solidão dos dias mais tristes, poderá haver momentos de amor. Foi isso que recordei ao ver um filme que, ironicamente tem por título, “Sweet November”. É uma história de dor e ao mesmo tempo um hino ao amor. E é deste filme que vos deixo algumas imagens e uma melodia com um belo poema.