Num momento a inspiração voltou. Esqueceu
tudo, a doença que voltara a dar sinais e a saudade que lhe feria o coração.
Escrevia, páginas sobre páginas, palavras que
lhe saíam do peito sofrido. Percebera o que Joana lhe havia dito no primeiro
encontro, Aquele casa tinha uma história de amor,
E era essa história que ele bebia do álbum de
fotografias. E delas retirou a vida das personagens que fora o princípio, o
meio e o fim de uma história de amor.
Mal se deu conta que o verão tinha acabado. Sentado
e relendo o que havia escrito, os seus dias eram um suplício. Começara a ouvir a
voz do vento e o cantar das andorinhas que tinham sido a sua companhia, deixara
de se ouvir.
Tinha frio e começou a sentir que a cada dia
que passava sentado junto à azinheira, a força o ia deixando.
Espreitava, até onde a vista alcançava, procurando
seguir qualquer movimento que fosse o anúncio de que Joana voltara.
Esperou e sofreu a agonia da morte que se
aproximava.
Começou a deixar fugir a vontade de viver. Guardou
o livro que escreve no mesmo local onde encontrara as fotografias que lhe
haviam dado alento e o haviam ajudado a perceber o amor. Escreveu com as mãos
trémulas uma carta de despedida, que regou com as lágrimas que lhe fugiam:
“ Meu amor,
Eu vivi os melhores dias da minha infeliz
vida, partilhando os nossos momentos.
Sofri com a tua partida mas quero ser
sincero, já a receava. Para quem, como tu, acompanhou o drama duma história de
amor, seria o sacrifício final.
Mas eu ainda te espero e deixo-te o livro que
me ensinaste a escrever.
Eu fui feliz. Tudo valeu a pena.
Eu acredito que, um dia, irás voltar à casa
da colina. Afinal tu és como as andorinhas que voltam sempre ao mesmo beiral. E
eu estarei sempre contigo. Tu és a vida e eu o pó que restou.
Luís leu e releu a carta de amor que Joana lhe
havia deixado.
Não fora uma surpresa, nos momentos mais lúcidos,
ainda tinha alguns, já antevira que um dia Joana partiria evitando partilhar o
caminho curto e pedregoso que ele se poderia oferecer.
Sentiu que o destino o empurrava de novo para a
casa da colina. Era o lugar que escolhera para esconder as suas dores, as suas
angústias e quase se esquecera no turbilhão de sentimentos em que se deixara
cair.
Pois bem, iria continuar o sonho e, quem sabe,
talvez viesse a encontrar a paz.
Vivera quase sempre só. O seu casamento fora um
erro e durara pouco tempo. Depois o seu tempo passara-o entre o trabalho,
solitário e sem futuro e um ou outro encontro ocasional, escolhido nos anúncios
de encontros amorosos e o prazer de fumar, cigarro após cigarro enquanto
sentado num banco de jardim, assistia ao movimento apressado de pessoas que não
conhecia.
Agora era tempo de completar o único objetivo de
vida que lhe restara. Escrever o livro.
Decidido, acertou os pormenores com o Manuel, embalou
as suas coisas e voltou a subir a colina. Enquanto caminhava sentia renascer a
esperança. Afinal, fora lá que encontrara Joana, foi na colina que se deixara
enfeitiçar. Fora a primeira vez e acreditava que seria lá que se encontrariam
de novo ou se perderiam para sempre.
Cheio de energia começou a penosa subida. Foi
descansando ao longo do caminho e já o sol estava no seu zénite quando chegou
ao destino. Descansou um pouco e entrou em casa, ainda com alguma desconfiança.
Mas encontrou uma grande diferença. Não precisaria
mais de dormir ao relento pois a casa estava limpa, pintada e até tinha meia
dúzia de peças de mobiliário.
O quarto era amplo com vistas para os montes onde o
sol se punha. Sentado numa cadeira de braços, olhava para o vazio e sentiu a dor
da ausência.
Não conseguiu dormir. Levantou-se para ver o nascer
do sol e ficou admirando a cor das searas, prenúncio de que a época da ceifa se
aproximava. E com ela, talvez Joana regressasse.
Espreitava a chegada das máquinas aos campos de
trigo, acompanhava os trabalhos desde o nascer ao pôr-do-sol. O trabalho era
feito por homens que manobravam as debulhadoras e mulheres que ceifavam os
locais onde o acesso era mais difícil. O capataz era o Manuel mas da Joana nem
sinal.
O livro continuava uma página em branco. Escrevera,
apagara, voltara a escrever mas nada fazia sentido. A cabeça não estava ali.
Para esquecer começou a arrumar as coisas que
trouxera, mais algumas que mandara comprara. A casa tinha no quarto com vista
para o poente, um sólido armário de carvalho que não fora uma escolha sua. Foi
com surpresa que abriu as portas e encontrou caixas de cartão arrudas no alto
das prateleiras. Retirou uma delas que abriu e encontrou folhas manuscritas,
numeradas e com o título. “O DIÁRIO DA NOSSA PAIXÃO”.
Ali estava uma história de amor. Com frenesi
escolheu uma nova caixa e encontrou envelopes que guardavam fotografias.
Estavam organizadas por datas e por acontecimentos.
Fora o começo da história de amor de que Joana lhe havia falado. Mas era duas
pessoas que se olhavam com carinho sendo que a mulher estava numa cama do
hospital.
Encontrou mais vezes fotografias do casal, por
anos, tantos que o fizeram estremecer. É que Leonor estava deitada como na
primeira fotografia numa cama de hospital mas instalada na casa na colina.
Sempre viu o olhar terno duma mulher prisioneira do
destino.
Quase no final encontrou um álbum de fotografias. Ali
pode ver fotografias da Leonor e de António o seu companheiro para a vida. Havia
outra fotografia que lhe despertou a atenção. Era uma foto de uma jovem e, então,
Luís, percebeu. Joana fora a amiga e testemunha de um grande amor.
Aqui estava o momento que ansiava. Conseguia
escrever uma história de amor de uma jovem para com um casal que escolhera
partilhar os bons e os maus momentos até ao fim dos dias. Seria sim, a HISTÓRIA
DE JOANA.
Luís
sentiu que estava a mais. Nunca mais se atreveria a sonhar.
No
fundo, ele sabia que uma vez terminados os trabalhos da sua nova casa, a sua
vida e a sua relação com Joana teriam um novo sentido. Mas deveria voltar para
a casa que fora um sonho e um pesadelo e que, depois de uma desilusão seria o
final que, nunca quisera reconhecer como provável. Joana sabia que a sua saúde
era frágil, ele não lhe daria mais do que alguns meses de companhia e depois o
triste fim que se adivinhava. Olhou para o espelho e não gostou da sua imagem.
Brilho só nos olhos.
Não queria reconhecer, mas romper com os
hábitos a que se acostumara, deixar de sentir dia após dia um perfume de mulher,
deixar de se mirar nos olhos de Joana seria o regresso a um passado de solidão
que o apavorava.
Todavia
vivera momentos que valiam uma vida. Amara e sentira a paixão, ele que apenas
procurava um lugar afastado para terminar os seus dias. Como tinha sido feliz,
como se entregara, como vivera cada carícia, cada olhar.
Devia
a Joana os meses em que partilhara as feridas e os silêncios. Aprendera com ela
a viver os sons do campo, a inspirar o perfume das flores. Durante aquele tempo
Luís sentira-se livre como um pássaro que encontrou a companheira com que vai partilhando
momentos, olhares, silêncios e o gosto pela poesia. Já se habituara a passear
pelos caminhos do campo, ouvindo o canto das aves e acabando sentado na sombra
da árvore, onde Joana o iria encontrar pela tarde. Sentia-se feliz, Joana era
um lenitivo para as suas dores e o despertar do desejo que já julgara perdido.
Agora
sabia que mais tarde ou mais tarde voltaria e enfrentar o drama da solidão.
Talvez esse momento lhe desse a inspiração para escrever o livro pensado e
perdido, algures na voragem dos dias. Joana merecia lembrar-se do vagabundo que
fizera tão feliz e que conseguira transpor para as páginas todas as emoções que
ela, o fizera sentir.
Já
tinha combinado com o Manuel que gostaria de ver os trabalhos e assim fez numa
manhã luminosa de Julho. Gostou e nem nos seus melhores momentos se atreveria a
imaginar a transformação da casa na colina.
Voltara
para casa de Joana e ao entrar leu a carta que Joana lhe deixara:
“Luís
- Vivemos momentos em que o desejo,
tanto tempo reprimido, venceu a razão. Mas acredita que me entreguei com toda a
paixão que fui deixando crescer desde que te conheci. Mas não me leves a mal o
que eu disser, porque na verdade eu ainda não enfrentei os meus fantasmas.
Fazer amor contigo, foi como um grito, que precisava soltar, mas continuar esta
relação pode ser doloroso para ambos. E eu já sofri mais do que merecia.
O dia de ontem, não o esquecerei mais.
Nem as palavras que disseste me saem do pensamento. O nosso encontro pode ter
sido uma partida da vida. Juntar duas pessoas em ruína física e mental é cruel.
Mas também pode ter sido uma esperança.
Preciso de me encontrar, enfrentar os
meus fantasmas, e por isso decidi partir sem destino e sem prazo.
Não penses que eu fugi de ti, pensa
antes que uma pausa poderá ser bálsamo para as minhas feridas.
Acredita como eu, talvez algum Deus me
arraste de novo para os teus braços, pois eu sei que sempre te irei amar.
Adeus, não te esqueças de mim. Vai
visitar a casa na colina, talvez numa sombra, num raio de sol, num recanto
escondido, venhas a encontrar a alma daquela casa. E se sentires esse
sentimento, vê bem, talvez a alma seja a minha.
Os
corpos suados, esgotados naquele momento em que esqueceram o mundo, os
desgostos, as dúvidas, mostraram a força das mãos cravadas com desespero, quase
raiva.
Quase
sem se olharem, vestiram-se e estenderam na sombra da árvore que Luís havia
transformado no se refúgio.
Joana
viu o livro.
- Luís não quer ler para mim? Gostaria de o ouvir dizer
os versos da canção desesperada. Sim, porque uma canção desesperada, sobretudo dita
depois da loucura em que nos deixamos envolver, representará os gritos de
amargura que já soltei na minha vida.
-
Luís leu o poema e a cada estrofe, sentiu um arrepio como se cada estrofe fosse
uma ferida que teimava em não desaparecer.
Acabou sem dizer uma palavra. A canção
desesperada seria como um hino para duas vidas, desencontradas, cheias de
incerteza e de dor e que aproveitavam cada momento em que se amavam com o
estertor dos corpos e almas massacradas.
Sim,
Luís deixara de ter dúvidas. Ele sabia que carregava uma morte anunciada mas
Joana vivera o drama que a fizera esconder-se.
Ficaram
em silêncio. Joana fixava os olhos no sol que se começava a esconder,
levantou-se, deu uns pequenos passos, voltou-se e disse:
-
Luís quando é que me mostra o que já escreveu sobre “a casa na colina”?
-
É fácil, como pode ver apenas tenho o título e a dedicatória. Pode ler, não
perde nem um segundo, respondeu estendendo-lhe o bloco-notas.
Joana
hesitou mas acabou por rejeitar o caderno, dizendo-lhe com a voz sumida:
-
Vamos esquecer este momento, temos mais em que pensar e não estou muito segura
de vir a gostar da sua história. Eu não lhe vou contar os segredos escritos nas
paredes naquela casa. Quem sabe o Luís consiga construir uma história alegre e
que retrate momentos mágicos, com muito amor.
Já
chega de mágoas e de gritos de dor. É tempo de esquecer os nossos dramas e
viver a vida.
- Eu não sei como contar essa história sem a
sua ajuda. Quando me disse que aquela casa tinha alma, deixou-me a vontade
enorme de a contar, mas talvez você tenha razão. Algo me diz que a alma daquela
casa também será a sua. E isso apavora-me, concluiu Luís com a voz tremida.
Regressaram
a casa. Joana lembrou que as obras de recuperação da casa já estavam a decorrer
e, talvez fosse aconselhável ver com ele se tudo responde aos seus desejos. Entretanto,
com a chegada do calor de Julho que já se aproxima, começarão os trabalhos nas
searas. Também para mim.
Luís
sentiu que Joana lhe dizia para partir. Mas, para ele, partir era morrer um
pouco.
Foi
de mãos dadas que percorreram a praia. O mar subia par lhe acariciar os pés, o
vento soprava uma música que lhe perturbava os sentidos.
Foram
horas, quase em silêncio, que percorreram a areia da praia deserta. Sentia-se
nascer e crescer uma cumplicidade uma ternura e o desejo de partilha. Porém em alguns momentos sentiam a angústia duma vida sofrida.
Quando
regressaram a casa deixaram perder o encantamento daquele dia junto ao mar.
Afinal,
o medo venceu.
Luís
procurou na bagagem o livro que, tinham quase a certeza havia escolhido para a
viajem. E encontrou-o. “Vinte poemas de amor e uma cancão desesperada” de Pablo
Neruda. Naquele momento queria reler e reviver o poema vinte. Era a poesia que,
naquele momento, mais prazer lhe daria ler em voz alta. Ah se eu pudesse voltar
a viver um grande amor, exclamou com um suspiro. E a imagem que lhe ocupava a
cabeça era a de Joana, com os seus olhos tristes e os seus silêncios.
Sabia e sentia que podia dar todo o amor do
mundo, mas porquanto tempo?
Durante
alguns dias o relacionamento entre os dois passou a ser menos envolvente. Era
uma situação confusa, parece que ninguém queria dar o passo em frente.
Luís
começou a caminhar pelos campos, seguindo os carreiros que Joana lhe tinha
ensinado. O livro que sempre o acompanhava ficava por abrir, o caminho por entre
as árvores passou a ser o lenitivo para as suas mágoas. Abraçava as árvores,
acariciava as flores campestres que encontrava no caminho, num momento de
libertação e reconhecimento pela natureza.
Ficava fascinado com o intenso trabalho das
abelhas, e passava horas olhando e admirando o seu intenso labor, carregando o
pólen para a colmeia. Sabia pelos livros a importância que as abelhas têm sobre
a natureza, sobre o futuro do homem. Mas nunca imaginara estar horas a
testemunhar a organização da sociedade perfeita.
Voltou
à sombra que escolhera, sentou-se encostado ao velho tronco, e foi assaltado
pela dúvida. Afinal o que se estaria a passar na sua vida, perguntava-se:
-
Como é que tudo começara, e porque se encontrava, agora, só e perdido?
-
Afinal ele queria encontrar um local, para viver só, com os seus medos e angústias.
Mas o destino, quando nada esperava, levou-lhe ao encontro, uma mulher,
ainda jovem mas com uma forma de estar na vida tão diferente, que o perturbava.
Sentia que Joana escondia sentimentos e a sua solidão teria alguma coisa a ver
com um desgosto de amor. Porque percebera que ela era uma mulher que se dava e se escondia
dum momento para o outro. Como se a paixão fosse qualquer coisa que lhe
despertasse sensações, que queria esquecer. Joana vivera um sonho de amor, só podia
ser, e algo correra mal e a fizera descrer. De repente deixava o sonho de amor
e ficava com medo.
Ele
estava perdido num labirinto de paixões. Desejava Joana com todas as forças de
que ainda era capaz e estava disposto a enfrentar o futuro.
Mas
seria justo prometer algo que não se tem a certeza de cumprir?
Um
dia igual a tantos outros encontrou o paraíso na beira de uma pequena represa,
coberta de flores, estendida sobre uma pedra, oferecendo o corpo despido ao
calor do sol, encontrou a deusa dos seus sonhos. Joana estava ali, e pronta
para se entregar.
Sem
palavras… para quê? Luís tirou a roupa, nadou na lagoa e foi anichar-se junto
ao corpo que se lhe oferecia.
E
foi com a força da paixão quase esquecida, que se entregaram, gemendo de dor e
de prazer, juntos num momento sem fim, um momento em que repartiram o corpo e a
alma.
Joana
levantou-se, murmurou até amanhã, e desapareceu.
Luís ficou mais um pouco, reviveu o
momento em que, sem uma palavra se haviam juntado dois corações e dois corpos sedentos de carícias. Reganhou o
equilíbrio emocional, desceu a escada e deitou-se na cama. Teve alguma dificuldade
em adormecer. Tinha sido um dia cheio de sensações e de recordações. Tão
diferente do habitual que não conseguiu dar descanso à memória.
Apesar
da noite mal dormida, acordou bastante cedo, barbeou-se, tomou um duche rápido,
a água estava mesmo fria, limpou-se com energia e sentiu de novo o calor.
Vestiu uns calções e uma camisola leve, calçou ténis e desceu.
Joana
não estava na sala, mas tinha deixado uma chávena, pão e manteiga e no fogão a
cafeteira que ainda fumegava. Serviu-se, generosamente de café, comeu uma fatia
de pão com manteiga, e sentiu que a felicidade chegara.
Sentia-se
leve e sedento de companhia. A noite, aquela primeira noite, seria o prenúncio
do verão escaldante e sentiu voltar a energia e o vigor que julgara ter
perdido.
Ouviu
o ruído da motoreta, saiu à rua e Joana já o esperava sentada ao volante.
Esta
arrancou por uma rua, atravessou a praça vazia, avisando:
-
Hoje está um dia de sol que me despertou a vontade para me espreguiçar na areia
da praia. Há muito tempo que não faço embora o mar ser uma das minhas paixões. Não
é longe, vai ver como em pouco mais de uma hora chegamos a uma praia deserta.
Entretanto
vamos passando pelos meus refúgios campesinos. Espero que não se canse da
viajem.
Com
os solavancos a cumplicidade entre o corpo de Joana, e as mãos de Luís passou a
ser mais natural. Ele bem sentia a pele macia da companheira, por baixo dos
seios soltos. Isso excitou-o como há muito tempo se não sentia, e fazia-o
desejar que a viajem fosse até ao fim do mundo.
Mas
Joana parou à sombra de uma velha oliveira e explicou:
- Esta oliveira marca a separação de três propriedades.
Naquela encosta que se vê à esquerda, plantei um olival novo. São quatrocentas
oliveiras plantadas há dois anos e que são regadas num sistema gota a gota.
Pertencem-me e eu trato-as como se trata um filho. Dia sim, dia não, faço-lhe
uma visita, falo com elas, limpo algumas ervas e sento-me numa pedra que me
permite espraiar os olhos pelos campos e beber a vertigem dos campos mágicos do
meu Alentejo. E esqueço as desventuras e os desgostos, porque como Luís deve
calcular, também os sofri. Colho desde o primeiro dia o benefício da
tranquilidade e da beleza da natureza e espero e que daqui a dois anos já possa
colher o fruto do investimento, e que foi todo o dinheiro que tinha disponível.
A
seara que se estende daqui até aquele monte, e indicou uma elevação bem
distante é minha e de meu irmão. Foi a herança que recebemos dos nossos Pais.
Cultivamos o trigo ou outro cereal conforme o mercado ou se o ano for seco ou
chuvoso. É o Manuel quem toma as decisões. Este ano, como choveu bastante
semeamos trigo e é de esperar uma boa colheita.
Os
terrenos que não estão cultivados são de pouca qualidade, embora seja neles que
construímos duas pequenas barragens de terra, guardando a água das chuvas e de
um pequeno regato que por ai corre. É uma zona pedregosa, cheia de flores
selvagens, com o cheiro da alfazema e da esteva. Passo muito do meu tempo,
estendida numa rocha, molhando os pés na água, e ouvindo o chilrear da
passarada que aqui faz os seus ninhos.
Mas
hoje sinto o apelo do mar. Preciso de ouvir o murmúrio das ondas que ouço, como
um poema de amor.
Joana não escondeu
o sorriso, há tanto tempo que não ouvia um galanteio e, reconhecia, soube-lhe
bem.
Mas, como quase
tudo na vida o sorriso foi breve, a realidade duma vida que Joana escondia,
depressa a fez esquecer o sorriso. Não era uma jovem ansiando pelo amor, tinha
passado os trinta anos e muitas esperanças perdidas no nevoeiro dos dias. Mas
guardava para ela o passado, refugiando-se na natureza, bebendo o brilho das
flores e o cantar dos pássaros, espalhando o corpo no colorido dos campos, afogando
o desejo mergulhando nas águas frias da ribeira.
Nas noites em que
sentia a solidão, qual ferida que não cicatriza, tentava adivinhar o seu
destino lendo as estrelas do céu.
Agora olhava para
Luís e sentia-se inquieta, e só ao longe, como um murmúrio ouviu que Luís,
olhando no vazio, abria o coração.
- O apelo que me
fez vir para este lugar se foi escrito, não terá sido por mim. Todavia senti-o
à flor da pele, quando num momento de rotura com o passado, me deixei apaixonar
pela imagem da casa da colina. E, acredite, não me arrependo do caminho que
escolhi. Tomara eu ter coragem mas sobretudo talento para escrever uma história
de contornos ainda não claros mas a que já dei o nome. Irá chamar-se “A Casa na
Colina”.
Imagino a sua perplexidade. Então este
desconhecido, vindo sabe-se lá donde e por que razão, quer escrever um livro?
Não se assuste, para já apenas tenho o projeto, o nome para ser mais claro e
tenho dúvidas que passe do primeiro capítulo. Esse será o nosso encontro e as
suas palavras, perante um desconhecido, meio louco, que se encontrou, perdido e
desorientado na serra. Por fim, confesso-lhe, eu fugi do passado que quero
esquecer, lutando por viver na ilusão do futuro.
Vou tentar seguir o caminho que me propôs,
mas lembre-se, que em algum momento, eu poderei vacilar e não ter recuperado a
energia perdida. Nesse momento, esqueça-me.
Vou subir para o terraço para fumar um
cigarro. Já lá estive e pude ver que ele também é um refúgio para a Joana. Se
assim for e quiser partilhar o silêncio da noite, convido-a a subir comigo.
Luís ia a pegar numa cadeira, mas Joana,
disse-lhe:
- Não é preciso. Você senta-se no cadeirão e
eu no tamborete.
Assim fizeram, sem mais palavras e Luís
apenas não resistiu a uma carícia leve nos cabelos que Joana deixara ondular
pela brisa ligeira do entardecer.
Joana aninhou-se nos seus braços e, sem
palavras, deixaram que os corpos se procurassem, e fizeram amor, como se fora a
primeira vez.
Joana ficou serena e olhando para a estrela que
era a sua companheira nas noites de solidão, deixou que uma lágrima furtiva lhe
aflorasse aos olhos e percorresse o rosto afogueado.