sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – VIII – A DESILUSÃO

Pouco passava das 19,30 quando Paulo entrou no hotel onde a amiga estava alojada. Pediu para anunciarem ao quarto 314, mas na recepção informaram que o hóspede ainda não tinha chegado, porque a chave estava no cacifo. Procurou um sofá, num recanto do átrio, sentou-se e pegou numa ou duas revistas, já antigas, que foi folheando só para passar o tempo.
Deu pela entrada de Maria Teresa.
Ela subiu rapidamente para o quarto, demorou algum tempo, desceu e encontrou o amigo.
Estava distraído e não deu pela aproximação de Maria Teresa. Ela tocou-lhe no ombro, e com ar embaraçado, pediu desculpa pelo atraso.
Depois deu-lhe um beijo na face, comentando: Em França façamos como os Franceses. Chamaram o táxi e Maria Teresa deu a morada dum restaurante na Rive Gauche. Penso que irá gostar, É um restaurante genuínamente francês, simpático e acolhedor. Come-se bem, não é caro e ninguém anda a correr atrás de nós para dar lugar a outros. Podemos conversar o tempo que nos apetecer.
O restaurante tinha de facto um ambiente agradável. Escolheram uma mesa num canto da sala, longe do burburinho. Entregaram os impermeáveis ao empregado do bengaleiro e sentaram-se. Ao chefe de mesa que se apresentou com as ementas debaixo do braço, Maria Teresa encomendou para os dois. Deixe comigo, disse, vamos comer autêntica comida francesa e começamos por beber um vinho branco como aperitivo e que é excelente. Leve e saboroso.
Brindaram à amizade, tomaram um gole de vinho e Maria Teresa fixando o olhar no companheiro, exclamou:
- O Paulo disse-me que estava a mudar, lentamente, mas parece que a mudança foi profunda. E não estou a falar da sua roupa nova, que lhe assenta muito bem. Quando nos conhecemos a bordo, ainda era casado e hoje já é solteiro, ou escondeu a aliança?
Não esperava isso de si. Não ando à procura de uma aventura e o seu procedimento feriu-me. Talvez a culpa tinha sido minha e você interpretou a minha franqueza, com a disponibilidade de ir para a cama consigo, na primeira oportunidade. Enganou-se, confundiu amizade e simpatia com um vulgar engate, como vocês costumam dizer. Se não se importa fique para jantar sozinho ou procure outro tipo de companhia, porque eu vou voltar ao hotel. Durante a viagem , por simpatia, contei-lhe uma parte da minha vida. De si, recebi uma lição sobre Bancos e auditoria financeira. Fico agradecida.
Adeus, eu não merecia isso. Saiu porta fora.
Paulo, estremeceu, ficou perplexo e sem reacção. Culpava-se, porque não soubera e podias tê-lo feito, dizer que o seu casamento tinha acabado e reconhecer sua parte no final.
E agora, voltei a ficar só. Regressou penosamente ao hotel, deitou-se na cama olhando o tecto, como à procura de um sinal, ou de ideia que o fizesse reganhar a confiança perdida. Vou mandar um mail, e começou a escrever.
“Maria Teresa,
Não sei se irá ler esta mensagem até ao fim ou se, simplesmente, a apagará. Peço-lhe só dois minutos e depois decida, mas dê-me esta oportunidade. Eu tenho de lhe pedir desculpas pelo sucedido e contar-lhe a razão.
Sabe, o meu casamento já estava moribundo e eu não sabia. Pouco tempo antes da viajem, a Amélia, a minha ex- mulher, decidiu acabar, e seguir uma vida diferente. Foi tudo muito repentino. No fim de semana antes da viajem, passei o tempo a embalar as minhas coisas para poder abandonar a casa onde vivia. Fui literalmente posto na rua. Com tudo isso, nem me lembrei de tirar aliança. Tal como o meu relacionamento, a aliança era um hábito e nada significava. A minha ex-mulher acusou-me de ser casado, em part-time, e, embora me doa reconhecer, ela tinha razão. Poderia ter evitado aquela situação? Talvez, se tivesse observado os sinais, de que as coisas entre nós, não iam bem e tivesse mudado tanta coisa no meu comportamento. Não o fiz, a água não volta a passar duas vezes debaixo da mesma ponte, e por isso passado é passado.
Devia-lhe esta explicação. Não escondo que a Maria Teresa me fascinou. Tê-la conhecido foi uma lufada de ar fresco na minha vida. Não a irei esquecer. Paulo

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – VI - FASCÍNIO

Paulo ficou em silêncio e pensativo. Não se lembrava de algum dia se ter exposto quando agora o fizera.
Maria Teresa aproveitou para sair do lugar, comentando que precisava de se ir refrescar, porque tinham começado a descer para Paris.
Quando voltou ao lugar, a chefe de cabine anunciava o início da descida para o Aeroporto de Orly, recomendava a manutenção dos cintos de segurança apertados, e avisou que durante a descida iriam atravessar uma zona, com alguma turbulência.
Maria Teresa olhou para o companheiro do lado e murmurou: Não estranhe por agora seguir calada, mas este momento faz-me sempre medo. Vamos deixar a conversa onde estava. Fechou os olhos, apertou com força os braços da cadeira, estremeceu com a turbulência e só descansou quando sentiu o trem de aterragem a tocar a pista.
Recuperou o sorriso, pediu a Paulo que lhe desse a mala de mão que estava ao lado, abriu, retirou um cartão de visita, escreveu qualquer coisa e entregou-o dizendo: Guarde, não é provável que numa cidade como Paris nos cruzemos, mas se me quiser dizer alguma coisa no intervalo do seu trabalho, tem o telemóvel. Aliás quem sabe se um dia não lhe dá vontade, a si e à sua mulher, de irem até ao Porto e fazerem-nos uma visita. Garanto que seriam bem recebidos.
Paulo agradeceu, guardou cuidadosamente na carteira o cartão recebido, tirou um cartão do Banco, lamento este não é pessoal, salvo o telemóvel. Se precisar dos meus serviços, não hesite e telefone.
Com a agitação habitual dos desembarques Maria Teresa saiu primeiro para a manga e dirigiu-se ao tapete das bagagens, com o telemóvel ao ouvido.
Paulo chegou bastante tempo mais tarde, já havia malas a percorrer o tapete, mas não via a sua. Olhou mais além e viu que Maria Teresa, lhe acenava apontando para uma mala grande que se aproximava do lugar onde estava. Percebeu, retirou-a, e colocou-a no carro que Maria Teresa já empurrava.
Entretanto continuava a olhar para o tapete, cada vez mais vazio. Só a sua mala não aparecia. Só me faltava mais esta, murmurou, a minha mala foi parar não sei onde.
Maria Teresa não se apercebeu, acenou-lhe um adeus de despedida e seguiu para a fila de táxis.
Paulo corria o aeroporto à procura da mala. Acabou por se dirigir ao serviço de reclamações, esperou numa longa fila e lá deu nota do desaparecimento da bagagem. Disseram-lhe, que teria ficado retida em Lisboa e só viria no dia seguinte. Barafustando conseguiu deixar o endereço do hotel onde se iria hospedar para que lhe levassem a mala, logo que ela chegasse.
Não ficou muito convencido que o empregado tivesse percebido o que ele queria. Pensou, amanhã, falo com a incompetente da Secretária e digo-lhe para ela se ocupar do assunto, caso contrário tão depressa não iniciarei o meu trabalho.
Saiu para a zona de chegadas, percorreu alguns metros num sentido e noutro e lá encontrou uma loja onde comprou uma camisa, roupa interior, objectos de higiene pessoal, que lhe custaram os olhos da cara, e com o saco na mão lá foi tomar o táxi para o Hotel.
O trânsito estava infernal, era o pára arranca, mas estranhamente não se sentia revoltado como era costume. Aceitava as explicações do motorista, com um sorriso.
Pensava para si, afinal esta vida são dois dias porque é que eu hei-de andar sempre zangado? A viajem com Maria Teresa, tinha sido fascinante e reconheceu que acabara de conhecer uma mulher diferente. Esboçou um sorriso, não queria que o encontro já tivesse acabado.
A viajem foi demorada. O táxi chegou ao hotel já passava das 18,30. Paulo fez o registo, subiu ao quarto que lhe estava destinado. Gostou, era um hotel perto do local onde iria começar o trabalho e isso dava-lhe um certo conforto. Gratificou o criado, largou a bagagem que se reduzira a um pequeno saco de plástico,e uma mala de computador.
Estava com fome, pelo que foi a correr tomar um duche, teve de vestir a mesma roupa porque, desgraçadamente só tinha comprado uma muda de roupa e saiu à procura dum local para jantar.
Bem perto dos Campos Elísios encontrou uma brasserie, não lhe pareceu mal e jantou o tradicional bife grelhado, que acompanhou com salada e água. Declinou a ementa das sobremesas, arriscou beber um café, andou um bocado na avenida e recolheu-se ao hotel. Chovia bastante e as ruas estavam quase desertas.
Já estava instalado num sofá quando se lembrou e foi buscar o cartão que havia recebido. Era um cartão da Empresa, “ Ateliers MTA – Haute Couture” – com o endereço e o nome de Maria Teresa Almeida, Direction Internationale.
No verso, escrito à mão tinha uma pequena mensagem.
"Gostei da companhia. Obrigada. Teresa "
Que pena não ter visto o cartão antes, lamentou-se, senão já lhe teria telefonado. A companhia dela fez-me bem, e sinto um estranho fascínio pela pessoa e por o que ela representa.Eu preciso de deitar fora as frustrações, os complexos e os meus conceitos, sob pena de a vida se transformar num viver sem sentido, como a Amélia me avisou.
Amanhã telefono.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – V - PAULO

- Por quem é, esteja à vontade, sempre quero ver, diz Paulo com evidente alívio.
- Deixe-me olhar bem para si. Passados alguns minutos, durante os quais Paulo se sentia a ser desmontado, peça a peça, Maria Teresa chegou a uma conclusão.
Então é assim. Eu acredito que a maneira como as pessoas se apresentam no seu local de trabalho, no vestir e no comportamento, tem muito a ver com a profissão e arriscando um mais até podemos encontrar, igualmente, traços da personalidade.
No seu caso, o Paulo é quadro de um Banco, não é verdade?
- O que é que a leva a dizer isso, explique-me lá.
- Porque em Portugal quando entramos num banco , quase todos os funcionários se vestem da mesma forma. Um fato azul escuro, liso, gravata discreta, camisa branca, sapatos pretos. É assim ou não é? Mais parece um uniforme. Conheci alguns quadros bancários, desde quadros superiores a quadros intermédios e todos eles usavam o mesmo tipo de “uniforme”, e pior, é que a certa altura reparei, que também as mulheres, designadamente as que estavam em contacto com o público, vestiam no mesmo formato conservador e com alguma falta de gosto. Eram poucas as diferença dos colegas masculinos. Deve ser muito aborrecido, trabalhar uma série de horas num local onde quase todos, parecem quase todos.
- Nunca tinha pensado nisso, comentou Paulo. Mas também disse que o vestir, mostra a maneira de ser de cada um. O que é que as minhas roupas lhe dizem?
- Maria Teresa voltou a olhar com pormenor e respondeu: - Tenho alguma dificuldade, mas arrisco a dizer que é introvertido, conservador, pouco sociável e agarrado a preconceitos. Acertei?
Como começaram a servir uma refeição ligeira a conversa ficou por ali.Maria Teresa que apenas escolheu beber um sumo, aproveitou para espreitar o companheiro de viajem, com receio que as palavras que acabara de utilizar o tivessem magoado. Na realidade, receava ter falado de mais.
Todavia Paulo, ou não dera atenção ou não se sentira atingido, pois estava às voltas com a embalagem da refeição, enquanto a hospedeira lhe servia um copo de vinho tinto. Deu uma dentada na sandwich, e por azar deixou que uma parte do recheio lhe caísse sobre a gravata. Com o guardanapo de papel, começou, dissimuladamente, a esfregar a nódoa. Desistiu de comer a refeição, bebeu o vinho que havia pedido e arrumou as coisas no tabuleiro, e resolveu comentar as ideias da companheira de viagem.
Não me recordo se já lhe disse que acertou na minha profissão. Na realidade nem era um teste assim tão difícil. Pode parecer que todos os quadros bancários, designadamente os que têm contacto com o público, se vestem da mesma maneira. Não acho que tal seja tão evidente, pois há sempre algo que distingue um dos outros, por razões de bom pessoal. Reconheço que as pessoas agem de forma mais formal. Mas não se esqueça que os Bancos são entidades conservadoras por natureza. Pelo menos procuram fazer passar essa ideia aos seus clientes. Todavia não há actividade que eu conheça, continua Paulo, que seja mais inovadora, do que a actividade bancária, por vezes demasiado o que, normalmente, comporta riscos. O meu trabalho é de Auditor, aquele sujeito mal encarado, que mal entra no Banco, é imediatamente catalogado como o espião, que vem ver se descobre algum papel fora do lugar, ou para descobrir algum desvio. Mas não é assim, o meu trabalho não é espiar é confirmar a correcção das operações e o cumprimento das regras da boa e prudente gestão. E nisso, estamos a prestar um serviço, principalmente, aos clientes do Banco. Prevenir, corrigir, identificar e caracterizar riscos ou exposição ao risco, pouco prudentes é o que distingue um Banco sólido.
- Mas diga-me lá, o que é que um homem que vista com bom gosto e distinção é diferente?
Isso faria dele um mau auditor, perguntou Maria Teresa?
- Claro que não, mas se for ao Banco e lhe aparecer um tipo mal barbeado, jeans velhos e ténis, camisa fora das calças, também não iria confiar nele pois não?
Quanto a sua perspectiva sobre a minha personalidade acho que acertou. Sou introvertido na presença de quem não gosto, sou conservador no vestir e no comportamento, não sou de facto muito sociável, na medida em que não faço muitas amizades e terei, também reconheço, alguns preconceitos, que até já me causaram alguns dissabores.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – IV – A VIAJEM

Maria Teresa, nem esperou pela resposta e continuou. Desculpe, ainda estou a recuperar da correria para não perder este voo. O tempo no Porto estava horrível e parece que em Paris também chove com abundância. Afinal estamos a meio do Outono e se não chover agora quando é que chove?
- O senhor desculpe, eu tenho um defeito muito grande, não gosto de estar calada, principalmente, porque andar de avião me faz sentir sempre algo nervosa, mas se isso o incomodar, não tenha receio de mo dizer.
O avião deixou a pista sofreu algumas fortes rajadas de vento lateral, até entrar na altitude de cruzeiro. Estabilizou mas a luz avisadora de apertar os cintos de segurança continuava acesa. O Comandante, deu as boas vindas aos passageiros, pediu desculpa pelo atraso na partida, disse que o tempo em rota estava aceitável embora pudessem encontrar, perto do destino, alguma turbulência.
Maria Teresa tinha-se mantido em silêncio. Quando a luz dos cintos de apagou, respirou fundo, ajeitou-se na cadeira e virou-se para o companheiro sentado à janela dizendo:
- Parece que não vai confortável aí nesse lugar, pois não? Eu não me ofereço para trocar porque também detesto sentir-me presa. Mas experimente passar para o banco do meio, sempre é mais espaçoso, e eu não me importo que mude as minhas as coisas e as coloque no seu lugar da janela. Vai ver que se vai sentir mais confortável.
Paulo agradeceu, murmurou qualquer coisa como é uma boa ideia, levantou-se no banco para fazer a mudança. Mas tão desajeitadamente o fez que bateu com a cabeça na bagageira e, ficou de novo sentado no lugar da janela. Maria Teresa riu-se com a situação, enquanto Paulo, ferido no seu orgulho, parecia ter desistido.
Maria Teresa, confortou-o dizendo que aquilo poderia ter acontecido a qualquer um, que vá tão desagradado e incomodado, como me parece que o senhor vai, porque até se esqueceu de desapertar o cinto de segurança.
Paulo esboçou um sorriso amarelo, desapertou o cinto de segurança e com a falta de jeito que o caracterizava, lá conseguiu fazer a troca do lugar. Respirou de alívio, como se tivesse saído de um buraco.
- Ah aqui, estou bem melhor, obrigado pela sua ideia, conseguiu finalmente dizer.
Ainda não respondeu à minha pergunta, diz Maria Teresa, também vai em trabalho?
- Desculpe, com o desconforto que sentia até me esqueci. Sim, também vou em trabalho e o meu nome é Paulo.
- Paulo, permite-me que o trate assim, já percebeu que eu falo pelos cotovelos. Não consigo estar calada durante muito tempo. E continuou-o.
Sou designer de moda, estudei nas melhores casas que pude e trabalhei com excelentes estilistas em Portugal. Um dia, pensei porque não criar a minha própria marca? Em segredo, fui estabelecendo os contactos necessários, encontrei um economista amigo que me elaborou o plano de negócios, solicitei e obtive o financiamento, para colocar em marcha a minha ideia. Montei um pequeno atelier com duas excelentes profissionais que conhecia. Constituímos uma sociedade na qual eu sou responsável pela criação e pelo marketing e as minhas sócias pela produção.
Começamos a ter sucesso, depois de muito trabalho e investimento pessoal, junto das grandes marcas e hoje já temos o quadro de pessoal aumentado em mais dez colaboradoras e se esta visita correr bem, vamos ter de admitir mais gente.
O engraçado, é que eu só disse ao meu marido quando a nossa empresa estava a operar em ritmo de cruzeiro. Quis mostra-lhe do que era capaz.
Eu sei que ele não ficou aborrecido, e comentou com satisfação, com os amigos e colegas de trabalho a minha situação. Dizia, vejam lá, casei com uma mulher de negócios e não sabia. Vou avisar o chefe que ou revê as minhas condições ou largo o lugar e vou trabalhar com a minha mulher. Claro, isto dito em tom de brincadeira durante as pausas para o café, porque na realidade, ele é engenheiro de sistemas de informação e gosta imenso do que faz.
O Aníbal, o meu marido, é uma pessoa muito diferente de mim. É reservado, mas sabe sorrir, pode dizer talvez, mas raramente diz não. Nestas minhas andanças entre Porto, Lisboa, Paris e Milão, é ele que garante a assistência aos nossos dois filhos, embora, por vezes, tenha de recorrer à ajuda dos meus Pais, que moram bem perto da nossa casa.
Gosta sobretudo de ler, ouvir música e estudar desenvolvimento de software, de brincar e passear com os filhos. Mas não gosta nada da vida social que o meu negócio necessariamente implica. É nessas ocasiões, festas e cocktails, a que ele mais vezes se escusa a comparecer, mas ficará triste se eu não for. E eu vou, pois gosto de me divertir, sou uma pessoa alegre faladora e gosto de companhia. Disso já se apercebeu não é verdade?
Se me perguntar qual o segredo do sucesso, eu digo que talvez seja o desafio, que é o facto de sermos apenas mulheres a desenvolver e gerir o nosso negócio. O que muito nos orgulha.
Já percebeu, sou casada, tenho dois filhos a Madalena com 9 anos e o Filipe com 6 e moro em Gaia. Só não lhe digo a idade e não se atreva a perguntar.
Agora fale-me um pouquinho de si, se lhe apetecer, eu falo muito, mas também sei ouvir.
Paulo hesitou, pensava que história iria contar. Maria Teresa antecipou-se.
- Não me vai levar a mal, se eu tentar adivinhar o seu trabalho, pois não?

domingo, 26 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – III - MARIA TERESA

Enquanto revira momentos da sua vida recente, não lhe dera conta que bastantes passageiros já tinham entrado e ocupado a maior parte dos lugares que a sala de embarque. Mesmo assim, mas lá conseguiu arranjar um lugar para se sentar e o do lado para colocar o PC e a gabardina por cima.
Estava impaciente, por isso ficou pouco tempo sentado. Levantando-se o foi espreitar pela vidraça o movimento de um avião, que acabara de atracar.
Estava um dia ventoso e chuvoso e com forte neblina. Tudo se conjugava para um atraso do seu voo, mais do que o previsto. Tudo lhe parecia estar contra ele, o tempo sombrio, a chuva persistente, a partida retardada. Ele, que planeara dar um passeio por Paris, via-se agora confrontado com a alternativa de ficar confinado ao Hotel, fechado no quarto e vendo Televisão. Resignado, voltou para o lugar, que deixara livre, mas que entretanto já estava ocupado por outro passageiro.Encolheu os ombros, e continuou a andar de um lado para o outro, absorto nos seus pensamentos.
Deu pelo encosto do avião à manga, a saída dos passageiros, as operações de limpeza, verificação e abastecimento do aparelho. Pode ser que, afinal, seja um pouco mais rápido, pensou com alguma esperança.
Algum tempo decorrido, as hospedeiras deram início ao embarque dos passageiros.
Pegou nas suas coisas entrou, localizou o lugar que lhe estava destinado, arrumou a mala do Pc na bagageira e a gabardina e sentou-se. Era um lugar à janela o que ele detestava. Chamou a hospedeira e pediu-lhe para ver se havia possibilidade de trocar de lugar. Esta respondeu-lhe que não seria fácil, pois ainda faltavam entrar os passageiros vindos do Porto e cujo avião acabara de aterrar. Em princípio, poderá haver alguns lugares disponíveis, mas já sabe são lá para a cauda do aparelho e não lhe recomendo. Tente trocar de lugar, com outro passageiro. Há muita gente que prefere os lugares à janela. Pode ser que tenha sorte.
Entre dentes, chamou incompetente à Secretária, que nem se dera ao trabalho de lhe perguntar as suas opções.
Horas antes, no Aeroporto Sá Carneiro, Maria Teresa, procedia ao check in no avião para Lisboa com ligação a Paris. O marido apressava-a, pois ainda tinha de voltar à cidade, levar os filhos ao colégio e ir trabalhar, e com a chuva forte que caía, não augurava um retorno fácil.
- Eu bem te disse, que era melhor ter vindo de táxi, e assim não estavas nesse frenesim, mas foste tu que insististe em me trazer ao aeroporto. Por isso não te ponhas com queixinhas. Afinal só vou estar fora uma semana e vão ver que o tempo passa a correr. Aníbal, não te esqueças que a carrinha do colégio vai levar as crianças a casa da minha Mãe e depois tu passas por lá. Até te fica em caminho. Se estiveres atrasado telefona à minha mãe para ela dar o jantar aos miúdos. Quando chegar eu telefono.
Beijou e abraçou a filha de 9 anos e o filho de 6, deu um beijo apressado ao marido e, carregada com o casaco, a mala, uma maleta e o Pc mais a mala de cabine lá foi a correr para a sala de embarque.
Durante a viajem para Lisboa, apanharam vento forte, o que nunca é agradável. O comandante teve de mudar de pista de aterragem, perdeu mais algum tempo. Faltavam uns minutos para a partida do voo para Paris, de maneira que os passageiros em trânsito, tiveram de andar bem depressa e só quando entraram no aparelho puderam respirar de alívio.
Maria Teresa, com o cartão de embarque na mão e sobraçando a bagagem não encontrava o lugar. A hospedeira que estava mais perto, viu o número da cadeira, é o 8 F, minha senhora, fica ali ao lado daquele cavalheiro que está a ler o jornal. Venha comigo. Pegou na mala de cabine, abriu a bagageira, que como é habitual estava quase completa, deu um empurrão para um lado e para o outro e lá conseguiu encaixar o trolley. Pronto, minha senhora, o resto das coisas terá de as colocar no chão, debaixo do banco da frente.
Maria Teresa sentou-se, no lugar do corredor, viu que a cadeira do meio estava vazia e aproveitou para lá colocar a restante bagagem. Sentia-se afogueada pela corrida, respirou fundo, limpou algumas gotas de suor e preparou-se para a viajem.
Olhou em redor, com receio que o dono do lugar, onde colocara as suas coisas aparecesse e só ficou mais tranquila, quando assistiu ao fecho da porta. Ainda bem, pensou, não preciso de ir apertada.
O aparelho iniciou a descolagem o vizinho da janela, dobrou o jornal.
- Desejo-lhe boa viajem, disse-lhe Maria Teresa com um sorriso nos lábios.
-Ah desculpe, boa viajem igualmente para si, respondeu Paulo.
A propósito, o meu nome é Maria Teresa e vou em serviço. O senhor também?

sábado, 25 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPITULO – II – RECORDAÇÕES

No silêncio da sala de embarque, por enquanto quase vazia, Paulo ia procurando entender o terramoto que sacudira de forma tão dura a sua vida particular.
Lembrava-se da discussão, quase inofensiva que, após uma questão profissional com uma colega, tida tido com Amélia. Furioso, porque teria sido ultrapassado na carreira, e por uma mulher, que estava certo devia andar a dormir com o Chefe, o seu mal estar alastrou a casa, comentando que as mulheres em todas da mesma raça.
Quando acabou o desabafo, inoportuno e a despropósito e julgava que a questão teria morrido, Amélia, sem qualquer justificação, diz-lhe querer dar outro rumo à sua vida, e ter sido convidada para exercer funções em Madrid, convite que teria aceite.
De início, Paulo não lhe pareceu que a notícia pudesse significar um sinal de ruptura, na relação conjugal, afinal Madrid fica ao pé da porta e os fins de semana poderiam ser passados em conjunto, ora em Madrid, ora em Lisboa. E foi isso que transmitiu, ingénuamente, reconhecia agora, à mulher.
A resposta foi incisiva e não deixava margem para dúvidas.
–“ Nem penses nisso, ainda não percebeste que estou cansada de estar casada em part-time, e que a nossa relação se veio deteriorando até não passar de um equívoco? Tu não casaste comigo, casaste com a tua profissão e o que fazias comigo, podes fazer com qualquer mulher que se cruze no teu caminho. O meu amor morreu, e digo-te mais, só para que abras os olhos. Eu não fui convidada a ir trabalhar para Madrid, fui eu que me ofereci para o lugar, como forma de colocar ponto final à nossa vida em comum.
E acrescentara para dar mais força à sua decisão.- Quero encontrar alguém que me faça verdadeiramente feliz, com quem possa ter filhos, que partilhe comigo as coisas mais simples da vida, que coloque em primeiro lugar o nós e não o eu. A ti desejo encontres uma pessoa que se encaixe no teu perfil, mas receio que, se não modificares a tua maneira de ser, em vez duma companheira, venhas a encontrar uma mulher a dias com quem, por vezes, fazes sexo.
Depois continuou com o golpe final.
– “Como sabes, como estipulado no nosso casamento, a casa é minha assim como o seu mobiliário. Quer dizer, que já a aluguei e que tens um mês para retirares os teus pertences.
Já comuniquei ao nosso amigo e advogado Júlio Maria esta situação e ele ficou encarregue de formalizar, o necessário, para a celebração do divórcio. Espero sinceramente, que não te oponhas. Seria uma perda de tempo pois a minha decisão embora pensada há muito tempo foi tomada agora, e é irreversível.
Não te quero mal e acredita que durante algum tempo me fizeste feliz. Mas as coisas mudam e a vida é tão curta que tem de ser vivida na plenitude. É o que quero fazer.”
E foi assim, tão claro e transparente que tudo acabou. Na verdade, o que mais o magoava não era a separação, era ter sido a mulher a ter tido a coragem de se libertar do quotidiano igual e repetitivo, em que a vida a dois se tornara.
Tinha sido educado da forma tradicional, via a relação entre a Mãe e o Pai, o homem a mandar e a mulher a obedecer, como deve ser. Amélia nunca havia sido a mulher obediente e calada e nunca se coibira de dar as suas opiniões. Na questão sexual, Paulo sentia-se bem e nunca se interessou pelos sentidos, anseios ou desejos da mulher. Se para ele tudo estava certo, era porque tudo estava bem.
E agora, ali estava, a caminho da cidade sonhos, com o desafio profissional muito importante e que há tanto tempo desejara, mas carregando as recordações, boas e más, e os ressentimentos que fui acumulando. Pior que tudo, sinta-se extremamente vulnerável. Deixara de ter certezas e isso, era o que mais lhe doía.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO I – A PARTIDA

Sentado na sala de embarque do Aeroporto, Paulo, um homem de rosto fechado e melancólico, aparentando trinta anos de idade, aguardava a ordem de embarque do voo para Paris. A hora marcada para o embarque era às 11,50 com a partida do avião marcada para as 12,35.
Como lhe era habitual, chegara bem cedo, para evitar a confusão da última hora, coisa que abominava. Já estava na sala de embarque quando ouviu a informação de que, devido ao regresso tardio do aparelho, o voo se encontrava com atraso de 1 hora.
Uma hora, dizem eles, o que significa que este será um dia perdido.
Quando chegar a Paris, formalidades de desembarque, retirar a bagagem, apanhar um táxi, irei chegar ao hotel a horas de jantar. Fiz mal e despachei para seguir no porão, a mala de cabine, sem ter necessidade de o fazer, e tudo só para evitar andar a puxar o trolley. Que chatice, pensou, ao menos podia ter recebido a informação do atraso, antes de entrar na sala de embarque e poderia ter aguardado sentado, a uma mesa do bar, e aproveitar o tempo para rever alguns dos apontamentos, que tinha no portátil, e que lhe iriam facilitar o trabalho em Paris. Aqui na sala de embarque, que não tardará ficará cheia, não dá jeito.
Era uma viajem que fazia pela primeira vez, ao serviço do banco onde desempenhava funções de auditoria e, embora se encontrasse preparado para tal tarefa, não podia ignorar que havia colegas com sinais evidentes de frustração e inveja. Mas isso até lhe dera gozo.
Tinha sido uma surpresa a decisão do Administrador. Como o Auditor Internacional, reportara algumas questões delicadas nas contas do Banco no Brasil, o Presidente decidira que ele deveria lá ficar, até ao total esclarecimento das questões e devia ser escolhido outro Auditor para fazer o trabalho das Agências em Paris. E o Chefe de Departamento acabara por o escolher a ele, dado que se reconhecia qualidades, e vontade de progressão na carreira. Era uma oportunidade que lhe dava e só podia esperar o melhor, sublinhou.
Tomou conhecimento da decisão na sexta feira pela tarde.A Secretária da Administração, tratou de lhe marcar o voo e de lhe reservar o hotel. Ainda antes do fim do dia, entregou-lhe o envelope com o bilhete e o vocheur do hotel, dizendo-lhe que bastaria estar no Aeroporto, com 30 minutos de antecedência, pois ela se ocuparia de fazer pela Internet, o respectivo check in.
Paulo, era um quadro preparado mas ambicioso, pelo não gozava de muitas simpatias entre os colegas e, por isso tinha poucos a quem pudesse chamar amigos. Fechado no seu mundo, nem partilhara com eles o trabalho que iria devolver, ainda por cima na cidade dos seus sonhos.
A nomeação dera-lhe tanto prazer, que até o fizera esquecer os momentos menos bons, porque passava na sua vida particular.
No sábado,iria ocupar todo o dia a arrumar as suas coisas pessoais, para as retirar da casa que habitava; Teria de ir à procura de uma pensão para se alojar durante algum tempo e distribuir por familiares, as malas de roupa, as caixas com livros e outros artigos para lhos guardassem, até voltar e ter oportunidade de arranjar um apartamento. Tudo porque Amélia, com quem vivia há alguns anos, tinha exigido que abandonasse a casa e que o devia fazer , apenas em vinte e quatro horas. A casa era dela, como bem frisou, e não estava disposta a protelar uma decisão, que se arrastava.
Paulo lembrava que, há alguns meses atrás, tinha tido um conversa, dura e inesperada, com a mulher, que acabara em ruptura, mas a que, como era seu hábito, não dera grande importância. Mas Amélia não esquecera e como ele não se apressava a sair, apresentou-se um ultimato a que não pode fugir.