terça-feira, 28 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – V - PAULO

- Por quem é, esteja à vontade, sempre quero ver, diz Paulo com evidente alívio.
- Deixe-me olhar bem para si. Passados alguns minutos, durante os quais Paulo se sentia a ser desmontado, peça a peça, Maria Teresa chegou a uma conclusão.
Então é assim. Eu acredito que a maneira como as pessoas se apresentam no seu local de trabalho, no vestir e no comportamento, tem muito a ver com a profissão e arriscando um mais até podemos encontrar, igualmente, traços da personalidade.
No seu caso, o Paulo é quadro de um Banco, não é verdade?
- O que é que a leva a dizer isso, explique-me lá.
- Porque em Portugal quando entramos num banco , quase todos os funcionários se vestem da mesma forma. Um fato azul escuro, liso, gravata discreta, camisa branca, sapatos pretos. É assim ou não é? Mais parece um uniforme. Conheci alguns quadros bancários, desde quadros superiores a quadros intermédios e todos eles usavam o mesmo tipo de “uniforme”, e pior, é que a certa altura reparei, que também as mulheres, designadamente as que estavam em contacto com o público, vestiam no mesmo formato conservador e com alguma falta de gosto. Eram poucas as diferença dos colegas masculinos. Deve ser muito aborrecido, trabalhar uma série de horas num local onde quase todos, parecem quase todos.
- Nunca tinha pensado nisso, comentou Paulo. Mas também disse que o vestir, mostra a maneira de ser de cada um. O que é que as minhas roupas lhe dizem?
- Maria Teresa voltou a olhar com pormenor e respondeu: - Tenho alguma dificuldade, mas arrisco a dizer que é introvertido, conservador, pouco sociável e agarrado a preconceitos. Acertei?
Como começaram a servir uma refeição ligeira a conversa ficou por ali.Maria Teresa que apenas escolheu beber um sumo, aproveitou para espreitar o companheiro de viajem, com receio que as palavras que acabara de utilizar o tivessem magoado. Na realidade, receava ter falado de mais.
Todavia Paulo, ou não dera atenção ou não se sentira atingido, pois estava às voltas com a embalagem da refeição, enquanto a hospedeira lhe servia um copo de vinho tinto. Deu uma dentada na sandwich, e por azar deixou que uma parte do recheio lhe caísse sobre a gravata. Com o guardanapo de papel, começou, dissimuladamente, a esfregar a nódoa. Desistiu de comer a refeição, bebeu o vinho que havia pedido e arrumou as coisas no tabuleiro, e resolveu comentar as ideias da companheira de viagem.
Não me recordo se já lhe disse que acertou na minha profissão. Na realidade nem era um teste assim tão difícil. Pode parecer que todos os quadros bancários, designadamente os que têm contacto com o público, se vestem da mesma maneira. Não acho que tal seja tão evidente, pois há sempre algo que distingue um dos outros, por razões de bom pessoal. Reconheço que as pessoas agem de forma mais formal. Mas não se esqueça que os Bancos são entidades conservadoras por natureza. Pelo menos procuram fazer passar essa ideia aos seus clientes. Todavia não há actividade que eu conheça, continua Paulo, que seja mais inovadora, do que a actividade bancária, por vezes demasiado o que, normalmente, comporta riscos. O meu trabalho é de Auditor, aquele sujeito mal encarado, que mal entra no Banco, é imediatamente catalogado como o espião, que vem ver se descobre algum papel fora do lugar, ou para descobrir algum desvio. Mas não é assim, o meu trabalho não é espiar é confirmar a correcção das operações e o cumprimento das regras da boa e prudente gestão. E nisso, estamos a prestar um serviço, principalmente, aos clientes do Banco. Prevenir, corrigir, identificar e caracterizar riscos ou exposição ao risco, pouco prudentes é o que distingue um Banco sólido.
- Mas diga-me lá, o que é que um homem que vista com bom gosto e distinção é diferente?
Isso faria dele um mau auditor, perguntou Maria Teresa?
- Claro que não, mas se for ao Banco e lhe aparecer um tipo mal barbeado, jeans velhos e ténis, camisa fora das calças, também não iria confiar nele pois não?
Quanto a sua perspectiva sobre a minha personalidade acho que acertou. Sou introvertido na presença de quem não gosto, sou conservador no vestir e no comportamento, não sou de facto muito sociável, na medida em que não faço muitas amizades e terei, também reconheço, alguns preconceitos, que até já me causaram alguns dissabores.

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