quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

UMA AVENTURA NOUTRA CIDADE

CAPÍTULO – VI - FASCÍNIO

Paulo ficou em silêncio e pensativo. Não se lembrava de algum dia se ter exposto quando agora o fizera.
Maria Teresa aproveitou para sair do lugar, comentando que precisava de se ir refrescar, porque tinham começado a descer para Paris.
Quando voltou ao lugar, a chefe de cabine anunciava o início da descida para o Aeroporto de Orly, recomendava a manutenção dos cintos de segurança apertados, e avisou que durante a descida iriam atravessar uma zona, com alguma turbulência.
Maria Teresa olhou para o companheiro do lado e murmurou: Não estranhe por agora seguir calada, mas este momento faz-me sempre medo. Vamos deixar a conversa onde estava. Fechou os olhos, apertou com força os braços da cadeira, estremeceu com a turbulência e só descansou quando sentiu o trem de aterragem a tocar a pista.
Recuperou o sorriso, pediu a Paulo que lhe desse a mala de mão que estava ao lado, abriu, retirou um cartão de visita, escreveu qualquer coisa e entregou-o dizendo: Guarde, não é provável que numa cidade como Paris nos cruzemos, mas se me quiser dizer alguma coisa no intervalo do seu trabalho, tem o telemóvel. Aliás quem sabe se um dia não lhe dá vontade, a si e à sua mulher, de irem até ao Porto e fazerem-nos uma visita. Garanto que seriam bem recebidos.
Paulo agradeceu, guardou cuidadosamente na carteira o cartão recebido, tirou um cartão do Banco, lamento este não é pessoal, salvo o telemóvel. Se precisar dos meus serviços, não hesite e telefone.
Com a agitação habitual dos desembarques Maria Teresa saiu primeiro para a manga e dirigiu-se ao tapete das bagagens, com o telemóvel ao ouvido.
Paulo chegou bastante tempo mais tarde, já havia malas a percorrer o tapete, mas não via a sua. Olhou mais além e viu que Maria Teresa, lhe acenava apontando para uma mala grande que se aproximava do lugar onde estava. Percebeu, retirou-a, e colocou-a no carro que Maria Teresa já empurrava.
Entretanto continuava a olhar para o tapete, cada vez mais vazio. Só a sua mala não aparecia. Só me faltava mais esta, murmurou, a minha mala foi parar não sei onde.
Maria Teresa não se apercebeu, acenou-lhe um adeus de despedida e seguiu para a fila de táxis.
Paulo corria o aeroporto à procura da mala. Acabou por se dirigir ao serviço de reclamações, esperou numa longa fila e lá deu nota do desaparecimento da bagagem. Disseram-lhe, que teria ficado retida em Lisboa e só viria no dia seguinte. Barafustando conseguiu deixar o endereço do hotel onde se iria hospedar para que lhe levassem a mala, logo que ela chegasse.
Não ficou muito convencido que o empregado tivesse percebido o que ele queria. Pensou, amanhã, falo com a incompetente da Secretária e digo-lhe para ela se ocupar do assunto, caso contrário tão depressa não iniciarei o meu trabalho.
Saiu para a zona de chegadas, percorreu alguns metros num sentido e noutro e lá encontrou uma loja onde comprou uma camisa, roupa interior, objectos de higiene pessoal, que lhe custaram os olhos da cara, e com o saco na mão lá foi tomar o táxi para o Hotel.
O trânsito estava infernal, era o pára arranca, mas estranhamente não se sentia revoltado como era costume. Aceitava as explicações do motorista, com um sorriso.
Pensava para si, afinal esta vida são dois dias porque é que eu hei-de andar sempre zangado? A viajem com Maria Teresa, tinha sido fascinante e reconheceu que acabara de conhecer uma mulher diferente. Esboçou um sorriso, não queria que o encontro já tivesse acabado.
A viajem foi demorada. O táxi chegou ao hotel já passava das 18,30. Paulo fez o registo, subiu ao quarto que lhe estava destinado. Gostou, era um hotel perto do local onde iria começar o trabalho e isso dava-lhe um certo conforto. Gratificou o criado, largou a bagagem que se reduzira a um pequeno saco de plástico,e uma mala de computador.
Estava com fome, pelo que foi a correr tomar um duche, teve de vestir a mesma roupa porque, desgraçadamente só tinha comprado uma muda de roupa e saiu à procura dum local para jantar.
Bem perto dos Campos Elísios encontrou uma brasserie, não lhe pareceu mal e jantou o tradicional bife grelhado, que acompanhou com salada e água. Declinou a ementa das sobremesas, arriscou beber um café, andou um bocado na avenida e recolheu-se ao hotel. Chovia bastante e as ruas estavam quase desertas.
Já estava instalado num sofá quando se lembrou e foi buscar o cartão que havia recebido. Era um cartão da Empresa, “ Ateliers MTA – Haute Couture” – com o endereço e o nome de Maria Teresa Almeida, Direction Internationale.
No verso, escrito à mão tinha uma pequena mensagem.
"Gostei da companhia. Obrigada. Teresa "
Que pena não ter visto o cartão antes, lamentou-se, senão já lhe teria telefonado. A companhia dela fez-me bem, e sinto um estranho fascínio pela pessoa e por o que ela representa.Eu preciso de deitar fora as frustrações, os complexos e os meus conceitos, sob pena de a vida se transformar num viver sem sentido, como a Amélia me avisou.
Amanhã telefono.

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