CAPITULO – II – RECORDAÇÕES
No silêncio da sala de embarque, por enquanto quase vazia, Paulo ia procurando entender o terramoto que sacudira de forma tão dura a sua vida particular.
Lembrava-se da discussão, quase inofensiva que, após uma questão profissional com uma colega, tida tido com Amélia. Furioso, porque teria sido ultrapassado na carreira, e por uma mulher, que estava certo devia andar a dormir com o Chefe, o seu mal estar alastrou a casa, comentando que as mulheres em todas da mesma raça.
Quando acabou o desabafo, inoportuno e a despropósito e julgava que a questão teria morrido, Amélia, sem qualquer justificação, diz-lhe querer dar outro rumo à sua vida, e ter sido convidada para exercer funções em Madrid, convite que teria aceite.
De início, Paulo não lhe pareceu que a notícia pudesse significar um sinal de ruptura, na relação conjugal, afinal Madrid fica ao pé da porta e os fins de semana poderiam ser passados em conjunto, ora em Madrid, ora em Lisboa. E foi isso que transmitiu, ingénuamente, reconhecia agora, à mulher.
A resposta foi incisiva e não deixava margem para dúvidas.
–“ Nem penses nisso, ainda não percebeste que estou cansada de estar casada em part-time, e que a nossa relação se veio deteriorando até não passar de um equívoco? Tu não casaste comigo, casaste com a tua profissão e o que fazias comigo, podes fazer com qualquer mulher que se cruze no teu caminho. O meu amor morreu, e digo-te mais, só para que abras os olhos. Eu não fui convidada a ir trabalhar para Madrid, fui eu que me ofereci para o lugar, como forma de colocar ponto final à nossa vida em comum.
E acrescentara para dar mais força à sua decisão.- Quero encontrar alguém que me faça verdadeiramente feliz, com quem possa ter filhos, que partilhe comigo as coisas mais simples da vida, que coloque em primeiro lugar o nós e não o eu. A ti desejo encontres uma pessoa que se encaixe no teu perfil, mas receio que, se não modificares a tua maneira de ser, em vez duma companheira, venhas a encontrar uma mulher a dias com quem, por vezes, fazes sexo.
Depois continuou com o golpe final.
– “Como sabes, como estipulado no nosso casamento, a casa é minha assim como o seu mobiliário. Quer dizer, que já a aluguei e que tens um mês para retirares os teus pertences.
Já comuniquei ao nosso amigo e advogado Júlio Maria esta situação e ele ficou encarregue de formalizar, o necessário, para a celebração do divórcio. Espero sinceramente, que não te oponhas. Seria uma perda de tempo pois a minha decisão embora pensada há muito tempo foi tomada agora, e é irreversível.
Não te quero mal e acredita que durante algum tempo me fizeste feliz. Mas as coisas mudam e a vida é tão curta que tem de ser vivida na plenitude. É o que quero fazer.”
E foi assim, tão claro e transparente que tudo acabou. Na verdade, o que mais o magoava não era a separação, era ter sido a mulher a ter tido a coragem de se libertar do quotidiano igual e repetitivo, em que a vida a dois se tornara.
Tinha sido educado da forma tradicional, via a relação entre a Mãe e o Pai, o homem a mandar e a mulher a obedecer, como deve ser. Amélia nunca havia sido a mulher obediente e calada e nunca se coibira de dar as suas opiniões. Na questão sexual, Paulo sentia-se bem e nunca se interessou pelos sentidos, anseios ou desejos da mulher. Se para ele tudo estava certo, era porque tudo estava bem.
E agora, ali estava, a caminho da cidade sonhos, com o desafio profissional muito importante e que há tanto tempo desejara, mas carregando as recordações, boas e más, e os ressentimentos que fui acumulando. Pior que tudo, sinta-se extremamente vulnerável. Deixara de ter certezas e isso, era o que mais lhe doía.
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