segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

UMA NUVEM NEGRA

LE CORBUSIER
Les deux musiciens
MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE



CAPÍTULO IX

Quando Carlos entrou no restaurante e desceu as escadas viu numa mesa do fundo o Pedro e outro indivíduo que não conhecia.
Pedro fez as apresentações, o companheiro era o Inspector Florindo Matos da direcção de investigação de tráfico de estupefacientes.
Conversaram de tudo, de assuntos correntes, actualidades, da família mas ninguém tocara o assunto principal.
A certa altura, terminada a refeição, o Inspector Florindo pediu desculpa aos colegas e abeirou-se da mesa dum desconhecido sentado só, numa mesa do fundo da sala. Cumprimentou-o com deferência e a sinal do desconhecido sentou-se na mesa.
Pedro percebeu algo estranho na atitude do colega. Em surdina deu instruções a Carlos para que logo que o colega regressasse à mesa, arranjasse uma desculpa para sair mais cedo e seguisse o desconhecido que parecia estar a dar instruções. Depois se reuniriam no hotel e fariam o ponto da situação.
Aproveitando o regresso à mesa do Inspector Florindo, Carlos olhou para o relógio, riu dizendo que tinha um encontro marcado e não se podia atrasar. Despediu-se dos colegas e saiu.
Pedro encolheu os ombros e comentou para o Inspector Florindo:
- Você também deve ter na sua brigada colaboradores como o agente Carlos. É muito competente mas perde-se por um rabo de saias. E aí vai ele ao encontro de alguma amiga.
Este ficou mais relaxado, deu um gole no whisky velho que tinha pedido e comentou:
- Ai, esta juventude que nunca mais aprende!
Pedro pediu a conta mas o colega olhou-o avisando:
- Caro amigo, aqui quem manda sou eu, a despesa é por minha conta. Quando eu for a Lisboa será então consigo. Não leve a mal mas é assim.
- Eu compreendo meu amigo, mas fui eu que convidei e por isso devo ter o privilégio de pagar e insistiu com o dono do restaurante pela conta.
Foi o Senhor Rafael, patrão do restaurante quem com um sorriso confirmou que a conta já tinha sido paga.
Não foi com surpresa que Pedro ouviu a informação. O patrão ia dizer por quem, mas foi interrompido pelo Inspector Florindo que desviou a conversa.
Pedro percebeu o embaraço do colega. E confirmou a razão. A conta fora paga pelo desconhecido que entretanto já abandonara o restaurante.
Despediram-se com Pedro a agradecer os esclarecimentos que lhe tinham sido dados assim como a atenção com o colega o tinha recebido. Em jeito de despedida asseverou:
- Meu caro amigo e colega vou sair para Lisboa, convencido que você e os seus colegas sabem muito mais do que eu, que como lhe contei, tropecei neste mundo do dinheiro por mero acaso. E assim a minha investigação será limitada ao mistério da morte na praia do Guincho. Quase de certeza ali houve razões de ciúmes e traições entre um casal desavindo. Também é esta a sua opinião?
- Sim, claro nem poderia ser de outra forma. Nós controlamos o mundo da droga e estamos em contacto com o vosso Departamento em Lisboa e com a Interpol.
Asseguro-lhe que, como teve ocasião de verificar, nada escapa ao nosso controlo. É pena aliás, eu já sugeri ao nosso Director Geral que fosse a Direcção do Porto a superintender as questões da lavagem do dinheiro. Estamos mais avançados e o combate seria ainda mais eficaz.
De qualquer modo se precisar de alguma colaboração, já sabe, tem o meu número de telefone e basta ligar.
- Muito obrigado colega, não me esquecerei, respondeu Pedro enquanto se afastava na direcção do Hotel.
Atravessava a Avenida dos Aliados quando viu o Carlos, sentado num banco do jardim, folheando um jornal e fumando um cigarro. Não mostrou surpresa pelo encontro e continuou a caminhar para o Hotel.
Entrou, pediu a chave e aguardou no quarto, passeando de um lado para o outro. O que havia obtido do Inspector Florindo fora apenas palha. Nem uma ideia nem uma indicação ou informação pertinentes. Mas não subestimou o colega, ele saberia muito mais do que quisera dizer. Teria medo, tudo indicava que sim, ou então sentia-se comprometido e não pelas melhores razões.
Carlos entrou no quarto, estava visivelmente satisfeito e deixou-se cair no sofá.
Chefe, esta vida é na verdade cheia de surpresas, e a sorte também conta.
- Vá lá, já percebi que descobriste algo importante. Sou todo ouvidos.
- Sabe Inspector cada vez mais me convenço da sua razão, quando me falou que a nossa investigação poderia ser incómoda para muita gente. Eu tinha alguma dúvida que só há pouco tempo desapareceu.
Foi assim:
- Quando fui investigar o escritório do Dr. Bernardo dei com a porta fechada mas a caixa de correio, que eu consegui espreitar, estava vazia. Alguém se encarregava de retirar o correio. O prédio tem portaria e o porteiro é esperto e nada lhe escapa. Assim que me viu descer pelas escadas desde o quarto andar, perguntou-me se tinha encontrado o Dr. Bernardo.
Não me mostrei surpreendido mas sim algo desconfiado. E o Senhor Aurélio, assim se chama o porteiro, continuou, dizendo que eu já tinha visto muita gente a bater com o nariz na porta. E sem me dar tempo de dizer algo, precisou:
- O Doutor Bernardo, deixou o gabinete há mais de quinze dias. Na semana passada eu vi três indivíduos que não conhecia, a subirem ao quarto andar. Subi pelo elevador de serviço e vi que eles estavam a entrar no escritório do Dr. Bernardo. Fiquei de atalaia e dei por eles a descerem carregando umas malas que me pareciam cheias de papéis e cada um levava também um daqueles computadores portáteis. Voltaram de novo, demoraram mais tempo e quando desceram apenas levavam uma pasta de cabedal. Os indivíduos que fizeram a limpeza do escritório eram profissionais, mas não do serviço de mudanças. Estavam bem vestidos e não pareciam Portugueses, pelas poucas palavras que os ouvir dizer. Na rua transversal pude ver um Mercedes parado, com o sinal de stop aceso e ao volante uma loira que dava as ordens. Depois de carregado o Mercedes arrancou e rapidamente deixei de o ver. Era um carro grande e preto. a matrícula não reparei nela,  mas até me pareceu estrangeira.
Chamei a Polícia mas como a porta não tinha sido arrombada o Agente não deu muita importância.
O porteiro ficou a olhar para mim e eu tomei uma decisão. Mostrei-lhe a minha identificação dizendo:
- Senhor Aurélio, o outro Polícia não deu grande importância ao que me acabou de contar, mas eu dou, porque procuro os amigos do Dr. Bernardo, já que ele foi encontrado morto numa praia perto de Lisboa.
O porteiro lamentou a morte do inquilino:
- Ele era um senhor muito educado e generoso, eu sabia que ele tinha muito movimento no escritório e tinha uma secretária loira que se não era a condutora do Mercedes era uma sósia.
Senhor Inspector, eu gostaria que as pessoas que mataram o Dr. Bernardo fossem condenadas e se me prometer que eu não serei envolvido no inquérito, posso ajudar a Polícia.
- Fique descansado, nós sabemos proteger as nossas fontes.
- Então aguarde só um bocado que eu vou a casa e já volto.
O porteiro sabia o que fazia, admito até que ele conheceria visitantes, mas tive a maior das surpresas quando ele me entregou, disfarçadamente um pequeno embrulho, dizendo que sempre tivera o prazer da fotografia.
- Carlos deixa os pormenores, vamos é abrir o embrulho.
Não foi uma surpresa, lá dentro de um envelope castanho, havia algumas fotografias já reveladas e uma disquete de máquina fotográfica digital.
Das fotos reveladas duas sobressaíram à vista dos dois Polícias. Uma era o do Inspector Florindo a outra era do desconhecido que estava no restaurante e que o Carlos havia seguido.
- Carlos onde é que este cavalheiro foi parar? - Esta é a outra surpresa. O cavalheiro é quadro de uma Sociedade Financeira. Tenho anotado o nome e a morada.Carlos, foi óptimo. Confesso que depois de ter ouvido o Dr. Florindo falar tanto e não dizer nada, quando percebi que o amigo que ele cumprimentou no restaurante era uma pessoa importante, eu senti como uma força que empurrava uma nuvem negra para nos esconder o caminho. Amanhã eu vou tomar o comboio para Lisboa, desço em Aveiro e regresso ao Porto para outro hotel. Tu ficas e esperas que eu te ligue pelo telefone fixo. Nada de telemóveis. Temos que encontrar o cacifo a que esta chave corresponde. Quem sabe, lá estará parte mais importante desta história.





                                                             

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

UMA NUVEM NEGRA

                                            Desenho de Guilherme Camarinha
                                             Faculdade de Direito de Lisboa
                                 MANUFACTURA TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE


CAPÍTULO XVIII

Após ter confirmado a identidade do cadáver, Luísa, a viúva, respondeu a algumas perguntas do Subinspector Gonçalves.
O Ministério Público deu entretanto o acordo à retirada do cadáver e cumpridas as formalidades, Luísa e o irmão regressaram ao Porto, tendo previamente contratado uma Agência Funerária para o transporte para Braga, onde o cadáver deveria ser sepultado.
Pedro e Carlos tomaram o comboio do fim do dia e seguiram para a cidade do Porto.
No trajecto foram ligando os factos e delineando a estratégia de investigação. Sentiam que o corpo encontrado representaria apenas a ponta do iceberg e que porfiando na colheita de informações chegariam ao núcleo do que admitiam ser uma organização criminosa. Mas estavam no princípio e o caminho não seria fácil.
Dormiram num hotel do centro da cidade, bem perto dos serviços centrais do Banco onde o Bernardo trabalhava.
E começaram logo por obter a confirmação duma suspeita. O Director de Pessoal, consultou no computador os dados do registo de pessoal, imprimiu e foi lendo.:
- O Dr. Bernardo dos Santos, começou a trabalhar neste Banco no ano de 1996, numa agência em Matosinhos, deu provas de excelente desempenho, formou-se em Economia enquanto trabalhador estudante. Em 2003, assumiu funções da Direcção Financeira Internacional, sendo responsável por um dos Departamentos.
Sem que nada o fizesse supor, decidiu em Dezembro de 2008, portanto vai fazer três anos, pedir a rescisão do contrato. Lembro-me que o pedido foi analisado numa reunião do CA, que antes de decidir promoveu uma Auditoria exaustiva de todas as operações em que o Dr. Bernardo estivera ligado. No pedido de demissão o nosso colaborador não mostrara insatisfação, não constava ter sido aliciado pela concorrência. Perante a inexistência de actos ou situações menos claras no Departamento sob sua responsabilidade, o CA optou por convocar o colaborador e tentar perceber a razão da demissão.
Nessa reunião o Dr. Bernardo confirmou apenas que se sentia cansado, receava ter uma depressão e por isso, e só por isso, precisava de mudar de vida, dando mais apoio à família. E até se comprometeu por escrito, que não iria exercer a mesma actividade em qualquer outra instituição financeira em Portugal.
E a demissão foi assinada de comum acordo.
- Diga-me Dr. Joaquim Silvestre, o compromisso assinado pelo Dr. Bernardo referia a sua renúncia ao exercício da mesma actividade num Banco em Portugal, mas nada o impedia de prestar serviços de consultoria e não só, desde que em qualquer instituição financeira fora do País, é assim que devo entender, perguntou o Subinspector?
- Tem razão senhor Inspector, é assim. E então o Dr. Bernardo que dizia estar cansado foi trabalhar num fundo financeiro sediado num paraíso fiscal e com um simples escritório de representação em Portugal, mais propriamente aqui no Porto. Mas sabe como é, fomos enganados mas ninguém gosta de o reconhecer.
- Imagino que sim, disse o Inspector, e naturalmente ele aliciou clientes importantes do vosso Banco?
- Compreenda Inspector não lhe poderei dar essa informação, pois nem a posso garantir.
- Mas o senhor sabe o nome do Fundo e a morada aqui no Porto, não é verdade?
- O Dr. Silvestre, não respondeu. Hesitou um pouco, depois entregou à Polícia o documento que imprimira e no verso escreveu algumas palavras, dizendo:
- Lamentavelmente não poderei dar mais informações o que vos disse e escrevi é tudo quanto sei.
Pedro sorriu para o colega, despediram-se e saíram para a rua. Enquanto tomavam um café, Carlos comentou:
- A mim parece-me que o nosso amigo falou bem, mas o que disse não nos vai valer de nada, a não ser que o recado que ele escreveu no papel que te deu tenha algum interesse. Será assim?
- Amigo, não te escapou nada. O homem teve medo de falar, mas escreveu o caminho. Vais ver que ainda vamos colocar gente fina em sobressalto.
Vamos fazer assim, diz Pedro. Eu não acredito que o escritório do Bernardo ainda esteja aberto. Tu vais confirmar e tenta obter informações junto dos vizinhos. A morada está aqui escrita no papel. Inventa qualquer coisa mas não fales em Polícia. Eu aproveitarei e irei falar com os colegas do Porto, pode ser que eles saibam algo sobre a actividade do dito Fundo. Tenho aqui o nome que o nosso amigo escreveu.
Depois vamos almoçar a um restaurante que não visito há bastante tempo. É o restaurante o Buraco na Rua do Bolhão. Quem chegar primeiro reserva a mesa.




segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

UMA NUVEM NEGRA

PINTURA DE GUILHERME CAMARINHA
Exposta sala de sessões da Cãmara Municipal do Porto
TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE

CAPÍTULO VII

Passou a noite a desenhar esquemas, caminhos e a tecer conjecturas.
Tudo o que sabia, era tão pouco, passava em quadros que ia percorrendo num determinado sentido. O homem desconhecido fora executado.
Todavia  no seu subconsciente havia um sinal que lhe dizia que ele estaria a seguir o caminho errado, o homem ter-se-ia suicidado.
Hesitou, o raciocínio lógico não combinava com a hipótese suicídio, mas?  
Deixou pairar a dúvida, adormeceu e de manhã saiu de casa directamente para o Guincho. Preparou-se para esmiuçar o terreno e os arbustos e fendas rochosas das arribas. Não tinha equipamento de pesca mas convencera o Alfredo, um colega pescador, a emprestar-lhe o equipamento necessário. Pelo que na mala do carro levava os utensílios.
Chegou cedo, havia bastante movimento na Auto-estrada mas no sentido Cascais Lisboa e por isso apenas perdeu algum tempo a atravessar Cascais e encontrar da estrada para o Guincho.
Era uma manhã cinzenta e ventosa desagradável para quem se quisesse dedicar à pesca.
Montou a cana, lançou o fio com o anzol tão longe quanto foi capaz, mas não se saiu nada bem. O lançamento ficou curto, o anzol nem chegou à água, estava maré baixa, e ficou fixo numa fenda da rocha.
Sentou-se na beira da ravina. Só tinha dois caminhos, ou cortava o fio mas não tinha nenhum anzol suplementar ou teria que se aventurar a descer até à rocha ,onde o equipamento ficara preso. Optou por descer.
O local era mais agreste do que parecia. Escorregou algumas vezes e salvou-se agarrando a raiz de arbustos que, por sorte, resistiram ao seu peso. Desenvencilhou-se da situação e ao escalar a rocha que lhe prendia o anzol, pareceu-lhe ver  debaixo da água de numa cavidade da rocha, um objecto pequeno mas familiar. Pego nele e sorriu, acabara de encontrar uma chave típica de cacifo e tinha marcado o número B 45.
Voltou para trás, no preciso momento que uma forte e intempestiva chuvada se abateu sobre o local. A nuvem negra, como que lhe apressara a descoberta. A chuva pouco importava, cortou o fio de pesca, arrumou tudo no porta-bagagens do carro e regressou ao trabalho.  
Exultava, aquela chave abriria um cacifo que esconderia a verdade. Agora teria de que tentar reconstruir ou inventar o caminho que a vítima seguira, colando as poucas pontas que estavam completamente soltas para procurar num Aeroporto ou numa estação de caminhos de ferro o cacifo correspondente aquela chave.
Entrou no gabinete com um sorriso estampado no rosto. O agente que com ele trabalhava, tinha regressado de uma viajem de serviço e tinha novidades para lhe dar. Mas antes, riu-se com gosto da figura do colega, vestido de pescador, encharcado até aos ossos e comentou:
- Olha Pedro, para a pesca submarina o equipamento não é esse, foste enganado.
- Pois é, a pesca não é a minha especialidade, mas consegui pescar esta chave, mostrou, e que para mim vale mais do que um bom robalo. Mas vou ter de ir a casa mudar de roupa, pois apesar da excitação tenho frio.
- Vai e volta depressa, pois enquanto andaste a mergulhar nas ondas, uma senhora admitiu como possível que o cadáver fosse do ex-marido. Ela vive no Porto e calcula lá, o irmão é Polícia e mostrou-lhe a fotografia que enviaste para o comando da PSP. Ela e o irmão vieram a Lisboa e seguiram com o Diogo para a morgue. Ele telefonou há minutos e disse que a senhora identificara o cadáver.
Grande notícia Carlos, eu vou a casa mudar de roupa mas demorarei pouco tempo e não gostaria que ela prestasse declarações sem a minha presença, Tu e o Diogo esperem por mim, recomendou Pedro enquanto corria para tomar um táxi.
Pedro regressou depressa e encontrou sentada no cadeirão junto da sua secretária uma mulher lívida e com o rosto manchado de lágrimas.
-Lamento que a senhora tivesse que ver um cadáver, o que nunca é agradável, mais ainda tratando-se de alguém que conheceu bem, mas vou-lhe pedir que conte uma pouco da sua vida com o seu ex-marido, agora cadáver. É capaz de nos ajudar?
- Sim, contarei tudo que souber, mas é verdade que ver o corpo do meu marido, pai dos meus filhos me deixou arrasada. Já disse ao seu colega que reconheci o corpo que me mostraram é o do meu marido, Bernardo Augusto Esteves dos Santos.
Fomos casados quinze anos e comigo vivem os nossos dois filhos, Ana de doze e Jorge de oito anos.
Nunca nos divorciamos, mas durante mais ou menos um ano após a nossa separação, nunca mais o vi.  Bernardo deixou-se enfeitiçar por uma colega. Ficou de tal maneira fascinado que a nossa vida se tornou um inferno. Ela tomou conta do corpo e da mente do meu marido e ele passou a ser um joguete nos jogos de sedução. Esqueceu o nosso casamento e até os filhos de quem tanto gostava.
O meu marido, mesmo depois de casado e enquanto trabalhava no Banco, foi estudando e formou-se em economia. A Administração nomeou-o director dum departamento internacional, passou a ganhar muito dinheiro e a viajar pelo mundo acompanhado pela mulher que o seduziu.
Até que eu desisti. Custou-me muito, é verdade, mas não posso esquecer que quando lhe exigi que devia abandonar a nossa casa, vi no qualquer coisa nos olhos, uma sombra, uma dor, um lamento e algumas lágrimas lhe caíram. Mas ele não foi capaz ou não quis romper o encantamento em que se deixara enredar.




quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

UMA NUVEM NEGRA

                                              Lisboa   -    Original de Carlos Botelho
                                               TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE


CAPÍTULO VI

Pode ser importante senhor Manuel, respondeu o Inspector mostrando o saco de plástico.
Se tiver sorte talvez aqui possa encontrar uma história de vida e de morte.
- Mas Senhor Inspector, como é que aquilo que aí traz, parece um telemóvel quebrado, pode contar uma história?
- Pois, parece um telemóvel partido, até poderá nada ter a ver com o crime, mas na realidade é um aparelho novo que chamam i Phone. Nele haverá muito que descobrir.
Senhor Manuel, vou pedir-lhe um favor. Para seu bem e para ajudar a Polícia a descobrir quem matou e porquê o senhor não diga a ninguém que eu encontrei este aparelho. Mas mesmo a ninguém, ouviu?
Perante o ar preocupado do guarda, Pedro foi mais explícito:
- Nós nunca sabemos se não haverá gente perigosa a procura deste objecto perdido. Acredito que quem matou o fez por desconfiar que a vítima teria escondido informações neste pequeno aparelho. Não fale sobre este assunto, e mesmo se alguém, pode até ser um cliente conhecido, lhe fizer perguntas sobre a minha passagem por este lugar e se mostre curioso pela nossa conversa, o senhor diga apenas que eu lhe perguntei se o lugar das arribas era bom para a pesca e que espécies se podia encontrar.
Não lhe vou deixar o cartão, voltarei a passar por aqui amanhã e virei equipado como um pescador domingueiro. 
Tudo o resto esqueça. É muito importante para o meu trabalho e pode ser muito importante para a sua vida. Não arrisque a falar sobre o assunto e não dê a entender que esconde alguma coisa.
Eu vou seguir para Lisboa e não se admire que dentro em breve, um carro com um casal de namorados esteja parado por aqueles lados. Serão Polícias e quando partirem, algum tempo depois, serão substituídos por outro carro, que ficará até ao entardecer. Não preste atenção, finja que são os habituais namorados.
O guarda ficou assustado mas ao mesmo tempo pensou que o assunto iria morrer por ali.
O Inspector conduziu, calmamente o automóvel, como se estivesse de passeio. Só depois de cruzar Cascais tomou a direcção da auto-estrada, mantendo um andamento irregular, para despistar algum eventual perseguidor.
Nada aconteceu, chegou ao gabinete e seguiu de imediato para o Laboratório da Polícia Científica.
Entregou o saco com o aparelho quebrado, pedindo para que o mesmo fosse analisado e tudo fosse marcado com o número G nuvem negra, que passaria a ser a denominação do crime em investigação. Quero cópias de tudo o que for encontrado, quando é que pensa poder ter alguma coisa para me dar, perguntou?
O especialista riu-se, comentou que todos pediam resultados para o imediato mas ninguém lhe perguntava se tinham alguém que o pudesse ajudar.
E acrescentou:
 - Sabe Inspector o que me acaba de entregar, pode significar muita hora, muitos dias de trabalho e o resultado ser zero. Vamos ver como é que ele está. Abriu o aparelho, constatou que ele estava mesmo muito danificado, não tinha sinal, teria apanhado água e tinha a certeza que o mesmo estava protegido com chave.
Mostrou-o colega dizendo:
- Rica prenda Inspector, vai ser um tremendo desafio, vamos a ver se o consigo vencer.
- Se o senhor não conseguir, então a eventual prova foi ao ar e vou ter de começar tudo de novo, respondeu Pedro Gonçalves. E terei de mudar o nome do inquérito de G nuvem negra, para G noite cerrada. Não me faça isso amigo Dionísio. Você consegue descobrir uma agulha num palheiro.
Como tinha prometido acertou com o comando da PSP a vigilância do local. Depois abriu o correio electrónico na esperança que alguém tivesse apresentado o desaparecimento da vítima. Mas ninguém o fizera.
Todavia a GNR de Leiria informava que o rosto do morto aparentava alguma semelhança com um condutor que tinha sido controlado numa operação stop na A1, pelas quatro da manhã, quando conduzia um Mercedes a mais de duzentos quilómetros por hora. O teste de álcool dera negativo. Os documentos tinham sido apreendidos e ele notificado para comparecer no Tribunal do dia seguinte. Contudo não cumprira.
Em anexo enviavam cópia da carta de condução e do título de registo do automóvel.
O nome do condutor era Francisco Esteves Moreira e o automóvel, pertença de um rent-a-car, fora alugado no aeroporto Sá Carneiro, no Porto.
A cada momento o mistério se adensava. O nome seria autêntico? O retrato era apenas vagamente semelhante e a única certeza que  Pedro tinha era que estaria muito longe da verdade e muito dependente dos dados que o Dionísio conseguisse extrair do aparelho.
Na realidade, apenas sentia a convicção que a vítima teria sido executada nas arribas do Guincho, e antes teria conseguido atirar fora o i Phone.
Mas ali teria sido apenas o desenlace, a história viria de outros contactos, outros negócios. Temia não conseguir encontrar o fio à meada. Isso seria para ele, como se um manto de silêncio tombasse sobre o corpo de um desconhecido.


segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

                                      



                                                        Pintura de Graça Morais
                                                        Tapeçaria de Portalegre



CAPÍTULO V

Já o previa. O crime do Guincho seria apenas a parte visível de uma história bem mais complicada. Pedro gostava de desafios, saíra-se bem até aquele dia, mas este caso aparentava ligações perigosas. Estaria perante profissionais, que executariam ordens de uma estrutura mais escondida. Tinha essa convicção, sentia a adrenalina aumentar,mas tinha que começar quase do zero.
Tinha um corpo por identificar e dos assaltantes que foram envolvidos para desviar suspeitas um, talvez o mais importante, estava morto.
Pedro regressava ao gabinete, de transporte público e aproveitava esse tempo para recapitular.
Luís Tavares, o assaltante ferido estaria a falar verdade, dali não esperava saber mais nada. O Fernando assistira a qualquer coisa que o assustara. Porventura ter-se-ia apercebido que estava a ser conduzido para uma armadilha perigosa. Pressentiu ou viu algo que não devia, sentiu-se em perigo e conseguiu fugir, levando o companheiro. O acidente não fora um mero despiste, Fernando morrera em consequência do despiste, mas estaria condenado. O acidente apenas fora um acaso que servira aos envolvidos na trama. Mas que trama?
No gabinete já tinha o relatório do Laboratório. Apenas a confirmação que o envelope não tinha impressões digitais precisas e que os CD  virgens, nunca tinham sido utilizados e que o  CD do filme era mesmo uma cópia caseira, feita de um site clandestino, muito procurado por quem se dedicava a piratear filmes, principalmente para crianças, era o disfarce, mas na realidade contendo filmes para adultos. Nada de especial fora encontrado. Todavia o computador utilizado para copiar o filme não era um computador portável e pessoal. O técnico garantia que seria um computador ligado a um servidor, o que sugeria ter sido feito por alguém que trabalhava numa empresa com serviços informáticos, ligados a um computador central. Dava como exemplo uma Repartição Pública, um Banco ou uma Empresa prestadora de serviços.
O especialista, continuaria a tentar encontrar algum traço que pudesse seguir, até ao computador principal. Mas seria um trabalho difícil e com poucas garantias de sucesso.
O relatório da autópsia era mais preciso.
Pedro leu apenas as conclusões. O corpo apresentava ferida de bala no maxilar direito, a bala tinha sido retirada e o calibre era de 9mm. Uma arma de guerra, murmurou Pedro. E continuou lendo. O cadáver apresentava equimoses nos pulsos, bem marcadas, dando ideia de ter estado amarrado durante bastante tempo.
A hora da morte fora calculada entre as dezassete e as vinte horas.
Com toda a informação memorizada e com uma cópia do croqui do local onde o carro com a vítima fora encontrado, Pedro decidiu ir ver o local.
Ficava relativamente perto de um restaurante ladeado por uma área de areia, com arbustos em redor,que funcionava como parque de estacionamento. No restaurante não havia muito movimento, meia dúzia de carros parados e um guarda sentado numa cadeira, com o boné com o nome do restaurante.
Pedro dirigiu-se ao guarda e desafiou o guarda para uma conversa sobre o movimento daquele dia.
O Senhor Manuel não se fez rogado e confessou que o dia não estava a correr muito bem e até alguns clientes habituais ainda não tinham aparecido. É a crise, dizia ele.
Pedro acenou com a cabeça e olhando para as arribas onde o carro com o cadável tinha sido encontrado lembrou:
- É a crise, tem razão senhor Manuel, até não se vêm os carros  que ali costumavam estar estacionados a ver o mar.
- A ver o mar, aquilo são namorados e olhe que costumam ser bastantes. A semana passada, durante uma tarde, contei oito, mas ontem e hoje nem um, Sabe porquê?
- Não, não faço ideia, será da crise, e riu!
- O senhor não brinque, agora não têm aparecido tantos clientes porque esteve aí a Polícia e encontrou um carro com um homem morto. O senhor percebe, se aparece a Polícia os frequentadores daqueles locais desaparecem.
- Agora me lembro que ouvi falar desse caso. E o senhor Manuel não viu nada fora do normal?
- Sim, eu até comentei com um empregado o Jerónimo, que nunca tinha visto tantos carros encostados. Eram três. Depois dois saíram e mais tarde chegou um outro que estacionou ao lado. Passou pouco tempo, eu vi um homem a correr, ouvi um carro a arrancar e mais nada. Só soube do homem morto no carro que ficou, quando a Polícia aqui apareceu.
Entretanto do restaurante saíram dois casais que se dirigiram para o carro e o senhor Manuel lá foi a correr para ajudar a manobra e receber a gratificação.
Pedro aproveitou e foi caminhar ao longo das arribas, olhando para as marcas dos pneus e para os arbustos. Não procurava nada de especial mas quando regressava do passeio, viu qualquer coisa que brilhava nas escarpas. E foi remexer. Do bolso retirou um par de luvas, um saco de plástico, pegou no que achara, esboçou um sorriso e caminhou para o carro. O senhor Manuel estava por perto, assistiu a tudo e comentou:
- Então senhor Inspector, encontrou o que queria?

sábado, 17 de dezembro de 2011

UMA NUVEM NEGRA

                                                    NAU CATRINETA - Almada Negreiros
                                                     TAPEÇARIAS DE PORTALEGRE

CAPÍTULO IV

Logo pela manhã O Subinspector Pedro Gonçalves,  deslocou-se ao Hospital de Cascais e depois da necessária identificação, aguardou a autorização médica para interrogar o ferido Luís Tavares.
Quando entrou na enfermaria, abriu o cortinado que isolava a cama onde o ferido dormitava com a respiração tranquila.
Não esperava aquela surpresa, ele conhecia o doente, já o tinha encontrado num processo que havia investigado e lembrava-se de que ela fora condenado a cinco anos, mas pelos vistos ou fugira ou andaria em liberdade condicional.
Acordou abanando-lhe a cabeça e o Luís abrindo os olhos ia começar a protestar quando reconheceu o Polícia. Calou-se e ensaiou um gemido, que apenas fez rir o Subinspector.
- Então companheiro, a fingir que não sabes quem eu sou? Não vale a pena, eu nunca me esqueço duma cara  e tu também não.
O ferido continuava de olhos fechados mas parara os gemidos.
O Subinspector falou-lhe ao ouvido: - Tu tens uma folha de serviço bem recheada, já foste apanhado e condenado, mas talvez nunca te tivesses metido numa encrenca como a que agora arranjaste. Assassínio, com os teus antecedentes, vais ter uma estadia prolongada na prisão.
O ferido abriu de repente os olhos e fitou o interlocutor, dizendo numa voz sumida:
- Assassínio? O senhor Inspector sabe que eu nunca matei ninguém. Por favor não me acuse de um crime que não cometi. O meu sócio morreu, já soube, mas foi no acidente e até era ele que ia a conduzir. Eu não fui culpado.
- Olha lá,  tu pensas que eu estou aqui porque o teu sócio se espatifou no carro? Achas que eu não tenho mais nada que fazer? Ou estás a esquecer o desgraçado que ontem ao fim do dia, estava no carro parado no Guincho a ver o pôr do sol e vocês assaltaram e mataram?
- Garanto-lhe senhor Inspector, não sei de que crime fala. Nós vimos um carro parado, com um homem ao volante, não nos agradou o cenário e fugimos. Não roubamos nada.
-Pensas que eu vou acreditar nessa mentira? Pensa bem, é melhor contares a verdade, mas bem contada para eu ver o que posso fazer por ti. 
- Se eu contar o que se passou o senhor vai pensar que eu estou a inventar, diz o ferido com ar cada vez mais preocupado.
- Experimenta e logo te digo o que penso. Começa lá a contar a verdade, mas toda, ouviste?
- Então foi assim. E foi com os olhos nos olhos que começou a contar ao Polícia a sua aventura.
- O Fernando estava no exterior do Casino Estoril a ver se alguém se esquecia de fechar a porta do carro e fosse mais fácil roubar. Um dos porteiros começou a olhar desconfiado e ele foi ter comigo ao lado oposto ao parque de estacionamento.Acabara de chegar quando um automóvel preto,  parou para perguntar onde era a entrada para o parque.  O condutor era um homem ainda novo, forte e a seu lado uma mulher loira que dava nas vistas. O Fernando foi à frente do automóvel até à cancela do parque e quando se despediu o condutor perguntou-lhe se ele era homem para ganhar, sem perigo duzentos euros. O Fernando virou as costas e ouviu a mulher falar alto, protestando que o companheiro não servia para nada. Queres ver disse?
- Saiu do carro, e aproximando-se do Fernando refez a proposta. 
-  Ele falou no dinheiro mas não te disse que eu também sou parte do prémio. Assim já queres?
O Fernando aceitou, mas com a condição de que eu também faria parte do grupo e assim teria que ser prémio a dobrar. Ela aceitou.
Fernando seguiu do carro do casal enquanto que eu fui conduzindo o Honda  que tínha acabado de roubar. Chegados perto do Guincho,  o carro negro com o casal e o meu amigo, entrou num caminho de terra e foi parar aí a uns vinte metros de outro carro que lá estava parado. Eu  segui em frente e entrei no desvio um pouco mais além, apaguei as luzes e desliguei o motor. Depois ouvi barulho. Desci do carro e vejo o Fernando a correr na minha direcção. Foi ele a entrar para o lugar do condutor, arrancou com as luzes apagadas enquanto pela janela me chamava. Assim que me sentei, acelerou, ganhou a estrada de asfalto e de luzes apagadas acelerou tudo o que o carro foi capaz de dar. Vimos vir na nossa direcção um carro com os faróis no máximo, guiando a alta velocidade no meio da estrada e o Fernando para evitar o choque entrou na areia, despistou-se e ali acabou a nossa aventura.
Não sei mais nada, o Fernando enquanto guiava como um louco e só dizia entre dentes: Maldita a hora ou o momento em  que estes gajos nos encontraram. E depois foi o silêncio.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

UMA NUVEM NEGRA




JULIO POMAR
                                                         


3º. CAPÍTULO

Com o envelope endereçado à Polícia posto de lado, o Subinspector continuava a análise dos documentos da carteira encontrada no bolso do suicida.  
Retirara tudo, mas para além de papéis sem significado, apenas encontrara o Cartão de Cidadão. Nem um cartão bancário ou um cartão de visita. Nada, parecia que a carteira teria sido rebuscada.
Carta de condução também não tinha. Cada vez mais pressentia que o que parecia ser um simples suicídio era capaz de encerrar algum mistério.
Falou para a brigada que se ocupara da vistoria do carro para esclarecer se através da matrícula haviam conseguido identificar o proprietário. A resposta não o surpreendeu. O carro tinha sido dado como roubado nos arredores do Casino do Estoril e o proprietário já o tinha confirmado. A PSP acrescentou que o cartão de cidadão em nome Bernardo Augusto Lima dos Santos havia sido dado como perdido alguns dias atrás.
O Subinspector começou a desenhar o cenário. O homem encontrado morto dentro de um carro roubado teria sido assassinado e tudo o mais seria uma tentativa de camuflagem. Como e porquê é que tinha de descobrir!
Mas, perguntava-se, quem seria afinal o morto? Descobrir a identidade teria de ser o primeiro passo. Foi à Morgue apenas para confirmar que o rosto do cadáver correspondia ao retrato do cartão de Cidadão e como já esperava, não era da mesma pessoa.
Deu instruções para que fosse localizado o titular do cartão, queria ser ele a proceder ao interrogatório e mandou averiguar se em qualquer posto das Forças de Segurança ou nas urgências dos Hospitais de Lisboa, Porto, Coimbra e principalmente Braga, houvera alguma denúncia do desaparecimento de um homem que aparentava ter à volta de quarenta anos.
Mas o que mandara fazer era rotina, não esperava grandes resultados e tomou a decisão de abrir o envelope.
Admitiu que o referido envelope tivesse sido manuseado sem luvas, ninguém pensaria em crime quando tudo parecia ser evidente. Demasiado evidente, reconhecia agora. Calçou as luvas e com todo o cuidado abriu o sobrescrito. Retirou quatro CD embrulhados em papel branco de fotocópia. Franziu o nariz, algo lhe dizia que aqueles CD seriam apenas mais uma peça do mistério que se adensava minuto a minuto.
Escolheu um e introduziu no computador e esperou. Pensava que estivesse protegido com qualquer palavra-chave mas não, era um CD completamente inofensivo. Um filme da Pantera Cor-de-rosa. Ficou enfurecido alguém andava a brincar.
Voltou a guardar tudo no envelope, meteu num saco de plástico, fechou e foi levá-lo ao Laboratório da Polícia Científica. Ainda encontrou o colega responsável contou-lhe em resumo o que sabia e pediu a pesquisa de impressões digitais e a leitura por especialistas do conteúdo dos CD, não fosse haver alguma mensagem, disfarçada no meio de filme.
Foi para casa, a mulher percebeu que ele estava naqueles dias em que era insuportável e não fez muitas perguntas. Pedro sentou-se no sofá, fechou os olhos e rebobinou as horas recentes. De repente lembrou-se que alguém lhe falara de um acidente verificado perto do local e que desse acidente resultara um morto e um ferido. Tinha gravado o número do telefone do oficial da Polícia que lhe tinha comunicado o crime, ligou e quis saber mais pormenores.
O Comissário confirmou que o ferido Luís Tavares se encontrava no Hospital de Cascais, sob prisão porque era um foragido suspeito de envolvimento em assaltos a viaturas, designadamente, viaturas isoladas no eixo Estoril, Guincho.  
Pedro desanuviou o semblante e vislumbrou uma pequena luz, que talvez o ajudasse a explicar a nuvem negra que envolvia o crime.