
15º. Episódio
Londres, Outubro 2008
Apesar da conversa que tivera com Madalena, Hugo voltou a refugiar-se no silêncio. Não lhe era fácil confessar o drama que vivera. A ferida voltara a sangrar, os temores tinham reaparecido e o trauma que o tinha deixado à beira da loucura, ameaçou regressar.
Sentia o desejo de se abrir e ao mesmo tempo receava as consequências. Mas, quase sem dar por isso, sem que Madalena lhe perguntasse nada, enquanto passeavam num domingo pelo”Regent’s Park”, Hugo falou como um sonâmbulo. E começou a contar o resto da sua história.
- Enquanto eu estive sequestrado, o Valdemiro, com os meus documentos, telemóvel e chaves deve ter aproveitado para assaltar a minha casa.
Beatriz a minha mulher, sem saber que fazer, era quase meia-noite e eu não respondia às chamadas, falou ao Pai a pedir ajuda, e ficou à espera.
Não sei e nunca se esclareceu como as coisas aconteceram. Só sei que meu sogro encontrou a porta entreaberta e foi encontrar a filha caída no chão, perdendo sangue, a cara pisada e sem dar sinais de vida.
Chamou por socorro e uma ambulância de emergência chegou em poucos minutos. Enquanto lhe faziam reanimação, levaram-na para o Hospital.
O comandante do posto da PSP onde eu estava, ao ouvir que me tinham roubado os documentos e as chaves de casa, falou para o posto mais próximo da minha residência. Os agentes foram à morada, mas só encontraram o meu sogro, desnorteado e lavado em lágrimas.
O graduado recebeu as notícias do piquete de Lisboa e mandou que um carro me levasse ao Hospital. Lá, um enfermeiro chamou-me e foi comigo ao gabinete do médico chefe. Soube então, que a Beatriz não tinha recuperado, tinha partido, e grávida de 4 meses, perdera também os bebés, eram dois. Eles fizeram a viagem com a Mãe.
Eu não recordo mais nada. Estive internado mas ainda tive forças para ir assistir ao julgamento dos suspeitos.
A sentença foi de três anos para o suspeito de sequestro e o Valdemiro, com mais antecedentes, mas como não foi dado como provado o homicídio, apenas foi condenado a quatro anos. O primeiro beneficiou de uma redução de pena e foi libertado este mês.
Valdemiro deve sair no final de 2009.
Eu contrariando a posição do advogado e dos amigos achei bem as sentenças. Na verdade eu até preferiria ouvir uma pena mais leve. Custa muito esperar o dia em que eu possa, finalmente, libertar o ódio que me consome. E o dia aproxima-se.
Respirou fundo. As palavras tinham sido proferidas sem emoção e nem um músculo da face se moveu. Hugo sabia que iria matar. E sabia como.
Madalena, com a voz dura que Hugo já ouvira, propôs:
- Vamos aproveitar a nossa estadia em Londres, para traçar um plano para eliminar os nossos alvos. Um plano detalhado com o rigor com que desenhamos os projectos na Universidade. Não será difícil e os dois em conjunto podemos fazê-lo. Proponho fazer justiça, mas quando for o momento oportuno. Aqui decidiremos o que fazer, como e quando. Em Portugal, apenas nos juntaremos para executar o que tem que ser feito. Será um dia ou uma noite, pouco importa.
Podes estar certo de que eu não irei vacilar, seja em que circunstância for.
Depois, cada um seguirá o seu caminho. Não nos conhecíamos antes, não nos conheceremos depois. Apagaremos da nossa memória o destino que nos juntou.
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