
20º. Episódio
Quinta-feira, 19 de Novembro 2009
O Inspector passou a noite em claro. Fechava os olhos, as imagens da Madalena e do Hugo executando os crimes, apareciam-lhe, difusas e desfocadas,e até ouvia um sorriso que pouco a pouco aumentava, até se transformar em gargalhada. Abria os olhos para afastar as imagens que lhe ocupavam o pensamento, abria o livro de cabeceira e lia umas páginas que, quase de imediato, esquecia. Levantou-se, o leito estava a ser um suplício, preparou uma bebida que sorvia enquanto fumava um cigarro. Repetiu a dose, pois os efeitos de dormência que esperava, não se fizeram sentir.
Isso assim não pode continuar, murmurava enquanto espreitava pela janela, a noite escura e silenciosa. Viu as horas com a esperança do amanhecer, mas, para seu desespero, ainda eram só duas da manhã.
Um pouco mais tranquilo, coordenou as ideias focando-as no mistério dos “crimes do X”. E começou a rever os pontos chaves do processo:
- Tinha a certeza e provas que os crimes teriam sido realizados por duas pessoas;
- Percebia e tinha provas da maneira como foram cometidos;
- A frase " Vento Divino", deixada cravada nos corpos,representava uma mensagem para desviar atenções;
- Não duvidava que as execuções queriam chamar-lhe assim, teriam sido planeadas
com rigor e por pessoas muito inteligentes;
- Suspeitava de duas pessoas, que se conheciam, que tinham razões para fazerem justiça por suas próprias mãos e que tinham a frieza de o fazer.
Afinal o que sei é tudo e é nada. Se os crimes se repetirem na mesma cadência e da mesma forma, toda a argumentação cai pela base. Deixará de existir o factor vingança.
Voltará tudo ao princípio, em vez do foco incidir sobre os meus suspeitos, teremos de recomeçar, até que alguém cometa um erro.
No bloco de notas assinalou a suas convicções e dúvidas. E, de repente, a palavra vingança despertou-lhe atenção. Espera lá, pensou em tom angustiado, todo o meu raciocínio assenta numa premissa que não confirmei. Se Hugo foi raptado por dois assaltantes, os dois primeiros corpos, encontrados na outra margem, teriam de ser dos raptores de quem ele se quereria vingar. Mas não fiz essa confirmação,”Mea culpa”. É bem provável que o meu esquecimento tenha infestado toda a investigação. E se assim for, mostra que eu não fui competente e cometi um erro que nem num principiante se pode aceitar. Eu deixei-me envolver por razões sentimentais e o raciocínio frio objectivo e seguro, foi esquecido. Do facto terei de tirar as minhas conclusões.
Ficou mais tranquilo. Ele e só ele seria o único responsável pelo eventual insucesso.
Descansou umas horas e ainda não eram oito horas, já se encontrava no gabinete, aguardando o resultado das diligências dos colegas.
Hoje seria o dia D. A noite do caçador ou a noite do meu último caso.
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