
18º. Episódio
Quarta-feira, 18 de Novembro 2009
O dia amanhecera chuvoso e o vento soprava com intensidade. Tinha sido assim desde as primeiras horas de manhã e não se esperava uma melhoria.
De tanta precipitação as ruas transformaram-se em pequenos rios e muitas poças de água, porque o escoamento não se fazia.
Andar nas ruas era uma aventura. Encharcados até aos ossos, os transeuntes que se aventuravam a tentar chegar a horas ao trabalho, protestavam contra tudo e contra todos.
Protestavam com a Câmara que não cuidara da limpeza das ruas nem do desentupimento das sarjetas, criticavam o Serviços de Meteorologia porque não avisaram o temporal que se aproximava, troçavam da eficiência dos Serviços de Protecção Civil que só servem para aparecerem nos telejornais. Enfim, para aquelas pessoas de mau humor, que tinham demorado duas horas no trânsito da IC 19, outro tanto na marginal, ou que tinham utilizados os comboios apinhados, tudo era culpa de alguém. Só eles não tinham culpa nenhuma.
A chuva persistia e o soar das sirenes dos Bombeiros eram a confirmação do caos no tráfego e o sinal de perigo de derrocadas ou de inundações. E o mau humor começava a transformar-se em preocupação.
Os mais antigos falavam das centenas de mortos vítimas das chuvas de 1968 e isso não tranquilizava as pessoas.
Foi neste ambiente que o Inspector chegou ao gabinete, depois de estar bastante tempo abrigado num café, cheio de gente receosa que aos seus ou às suas casas pudesse acontecer algo.
Despiu o impermeável ,mas a água tinha passado o casaco, bela gabardina pensou, as calças escorriam e os sapatos pareciam acabar de sair de um passeio sobre a água. Mas estava de mau humor, não apenas pela incomodidade, mas com um sentimento de frustração pela forma como as pessoas se escusam a colaborar com as autoridades, a não ser que o assunto lhes diga directamente respeito. E isso, porque no dia anterior, tendo pedido a um colega e amigo da cidade do Porto, que lhe obtivesse informações sobre a Dr.ª Madalena Matos Pires.
No aparelho de fax, tinha agora uma nota do colega, dando conta do que apurara.:
Caro Artur,
Tenho consciência que o que lhe vou dizer serão, apenas, informações irrelevantes. A Senhora é de uma família tradicional e considerada na cidade. É Consultora Financeira Sénior de um Banco estrangeiro, desempenhando funções de chefia, e por isso faz frequentes viagens em serviço.
Você conhece o drama da família, e sabe que a Dr.ª. Madalena é o suporte. Por isso alguns amigos, sentindo por ela uma verdadeira admiração, sabiam que ela não era pessoa para assistir impávida ao destroçar da família. Um colega de Faculdade que a conhecia bem, diz-me que ela era capaz de lutar contra quem lhe fizesse mal. Também referiu que, num círculo de amigos, foi falado que a Madalena teria tentado encontrar que, a troco de dinheiro, aceitasse eliminar o rufião que ela culpava, pela morte da irmã. E foram esses amigos que a teriam dissuadido da ideia.
Alguns dos vizinhos não quiserem sequer responder a perguntas simples, dizendo que a vida dos outros não lhe interessava e outros recusaram-se, liminarmente a responder fosse ao que fosse. O que soube pelos colegas no Banco vale zero.
Lamento a pouca ajuda que dei, mas como você sabe, as pessoas são muito renitentes a colaborar, mesmo possam desconfiar de qualquer coisa. Infelizmente, não se querem meter em trabalhos.
Um abraço do
Monteiro pensou para si, provavelmente a Dr.ª Madalena arranjou mesmo quem lhe fez o serviço. E provas?
Esperava que o Figueiredo e o Frederico lhe trouxessem algo sobre a outra pista que estavam a seguir. Se nada de concreto se apurar, vou falar com o Director para encerrar o gabinete e guardar os crimes do X, para melhor oportunidade.
Mas hoje é quarta-feira e eles ainda não deram notícias? Com este temporal deves estar atrasados, vou mandar uma mensagem.
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