
17º - Episódio
Lisboa, Segunda-feira 16 de Novembro 2009
Quando entrou no gabinete o Inspector notou a ausência dos colegas. Já não era cedo, e ao contrário do que era habitual, tinha tido uma noite sossegada e dormido como já nem lembrava, ter acontecido.
Sentou-se no seu lugar, deu uma espreitadela ao quadro. Frederico levara a sua ideia avante e em letras gordas, dera o nome à investigação. Os crimes do X.
Monteiro sorriu e até achou que o título ficaria bom num filme policial. Mas, pensou, ou muito me engano ou será um filme de crimes calculados e de fim imprevisível.
Na realidade e com mais de uma semana de trabalho,após terem iniciado a investigação, não tinham uma pista sequer, que pudesse apontar para o autor ou autores dos crimes. Tudo o que tinham, se resumia a conjecturas, palpites, teorias de conspiração, isto é, caminhos sem saída.
Com tantos anos de experiência, via-se agora, e pela primeira vez, perdido sem norte e o receio de estar perante crimes perfeitos.
O seu percurso na Judiciária estava no topo e para além do amor-próprio nada teria a perder. Mas pensava dos colegas e esses tinham ainda muito para dar. Ele sentia que não os teria ajudado.
Aprendera com os seus mestres que não há crimes perfeitos, mas sim investigadores incompetentes. Como lhe doía, relembrar a lição.
Olhava para o painel na parede, com um náufrago olha para um ilha perdida, no meio do oceano.
O painel estava cheio de relatórios, fotografias, exames periciais mas, na maior parte os colegas tinham escrito SEM RESULTADO.
Todavia, em dois relatórios e recortes de jornais, nada estava escrito. Aproximou-se, e antes de ler os conteúdos, encontrou uma nota escrita pelo Figueiredo. Dizia:
- Chefe: Nós decidimos que valerá a pena investigar este crime de 2006. Fomos à procura de algumas pistas e só contamos voltar amanhã. Lê, pode ser te ocorra algum indício, que a nós passado despercebido.
A propósito, a tua pista era uma estampa de mulher. Onde anda o circunspecto Inspector Monteiro? A dormir melhor?
Artur riu-se, os colegas tinham sabido do seu encontro do Tivoli.
Começou a ler o relatório policial, que relatava um rapto com sequestro. A vítima conseguira fugir, deixara um assaltante amarrado e chegar ao posto da PSP da Caparica. O comando mandou sair um piquete, prendeu o assaltante fechado na garagem, montou o cerco ao local e às três horas da manhã prendeu o segundo assaltante, que entretanto tinha regressado. Foram incriminados e levados a julgamento.
Havia uma cópia da sentença, que apesar das dúvidas, resultou numa condenação dos dois arguidos a penas significativas.
O que Monteiro leu a seguir, como mais atenção, foi um artigo de jornal, sublinhado pelos colegas. E com igual estranheza, reteve a informação do repórter, de que a vítima só estivera presente na leitura da sentença, apresentando contudo, sinais evidentes de alheamento do que à sua volta se passava. O jornalista explicava que o queixoso teria saído há pouco tempo do Hospital, onde estivera internado, em consequência de graves problemas cardíacos, que se manifestaram, logo que soube do destino da mulher e dos filhos.
E o jornalista precisava, que fora enquanto estivera sequestrado, que alguém lhe teria assaltado a casa, maltratando a mulher, tão barbaramente, que lhe causara a morte. Mais trágico, continuava o artigo, era que a senhora estava grávida de gémeos, que também não resistiram.
O Ministério Publico e a Polícia tinham a convicção que fora o segundo assaltante o autor do homicídio, porque ele teria roubado os documentos e as chaves. Mas não conseguiram provar em Tribunal, sem margem para dúvida, o nexo de causalidade. O réu afirmava que tinha perdido as chaves e a carteira, objectos que nunca foram encontrados.
O mais estranho, relatava a notícia da altura, é que a vítima do rapto não quis recorrer da sentença, parecendo conformado com a decisão do Juiz.
Finalmente o artigo descrevia o queixoso, como um técnico qualificado de uma Instituição financeira. Nunca aceitara prestar declarações à Imprensa, e mesmo entre os colegas as suas conversas nunca ultrapassavam as relações profissionais. Vivia só, não lhe eram conhecidas relações sociais, apesar de ser um homem novo, na casa dos trinta anos e de excelente aspecto físico, apesar do cabelo precocemente branqueado. Teria, que se soubesse, uma única distracção. Frequentava o ginásio todos os dias, praticando técnicas orientais de meditação e auto domínio. E a notícia nada mais acrescentava.
Monteiro sentiu que aquele homem preenchia todas as condições para planear e executar uma vingança. Mas era pouco. Se houvesse algum indício mais consistente poderia solicitar autorização judicial para a realização de escutas telefónicas.
Mas reconhecia ser muito difícil convencer um Juiz a assinar, só com base em suspeitas não fundamentadas. No fundo ele até pensava, que um homem que tanto sofrera não mereceria ser importunado. Concluido dizendo: - Pode a Lei ser cega mas ele não sou.
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