(Julio Pomar)Insónia
O porquê da sua ausência, o receio de que o conhecimento da verdade lhe fosse doloroso não lhe saía da cabeça. Andava pela sala, em círculos cada vez mais apertados. Sentia como num carrocel. As tonturas eram fortes, foi obrigado a deixar-se cair no sofá e levando as mãos à cabeça, começou a bater com os punhos, em sinal de raiva e desespero. Nada parecia dar certo, nem conseguia articular uma ideia, gritava com amargura o desencanto.
Apeteceu-lhe sair, pegar no carro, passar pelo endereço que havia encontrado no BI, tinha a esperança de que o lugar, a casa, as pessoas, lhe desbloqueassem as memórias perdidas.
Mas qualquer lhe dizia para não o fazer, talvez porque ele no seu íntimo reconhecesse que não estaria ainda preparado para um despertar, eventualmente, doloroso. Seria um pressentimento, mas a dor que sentia e lhe esmagava o peito era um aviso.
Voltava a sentir o desejo de pôr fim a tudo. Qualquer coisa seria melhor do que aquela agonia que o golpeava.
O sono não ajudava e voltava a ver sombras, pareciam de um rio de lama viscosa a deslizar lentamente, engolindo tudo e todos e se aproximava de si. E ele esperava como se fosse a libertação.
Levantou-se, fez mais um esforço para afastar os pensamentos negros. Acendeu a luz, pegou nas fotografias que encontrara na carteira e esteve a olhar para elas, desejando que um raio de razão lhe explicasse o seu martírio.
Demorou horas, tantas, que já nem sabia se era dia ou ainda noite.
Saiu para a rua, precisava de encontrar alívio para calmar o fogo que o destruía. Cambaleando rua a baixo, noite escura, ouviu um automóvel accionando os travões com estrondo e de lá saírem dois homens que o pegaram por um braço, arrancando a toda a velocidade ao som estridente de uma sirene.
E depois a calma. A dor que lhe esmaga o peito atenuou-se e até as lembranças, pareciam ter voltado. Olhava a sua volta, agora procurava os rostos conhecidos, o da mulher Ana, da filha Carolina e do filho André. Eram as imagens que esquecera, por isso sentia que estava a recuperar. Amanhã vou acordar deste pesadelo, e perceberei tudo. Finalmente, amanhã, …. adormeceu.
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