quarta-feira, 30 de março de 2011

ENCONTRO COM UMA MULHER SÓ

2º. Capítulo – A clareira

Quando aceitara regressar para junto da Mãe, pensara que, passado o período do luto, iria encontrar o seu canto, escolhendo um lugar distante da casa de família.
Todavia, mais uma vez transigiu, cedeu ao choro e às lamentações, esqueceu que nunca teria vida própria enquanto fosse tutelada pela forte personalidade da Mãe.
Maria Fernanda havia perdido as raízes e as amizades da juventude. Nunca fora uma pessoa muito sociável, tivera poucos amigos e os que agora tinha reencontrado, através da página do “ facebook” que criara, mas onde se resguardara, sendo muito exigente na selecção dos contactos propostos. Na realidade apenas cinco ou seis os reconhecera dos tempos do Liceu e dos primeiros anos da Faculdade. Os outros não eram mais de pessoas à procura de aventura.
Como o dia estava desagradável, vento e chuva, a Mãe escolhera ficar em casa, falando ao telefone com as amigas, convidando-as para se reunirem em sua casa para o chá das cinco.
Maria Fernanda ouviu, percebeu a tarefa que lhe incumbiria, fechou-se do escritório do Pai, o único lugar em casa onde lhe era permitido fumar e beber uma bebida, além do chá. Era ali que se recolhia, argumentando que precisava de silêncio para o trabalho.
Enquanto se reclinava na poltrona, abriu um álbum de fotografias que o Pai tinha guardado na secretária. Nele, era ela a personagem principal, desde o nascimento, ao baptismo, à comunhão, ao primeiro ano no Liceu, entrada na faculdade e depois fotos que mandara enquanto estivera no estrangeiro.
Com a letra inconfundível de médico, todas as fotos identificavam a ocasião e o ano correspondente.
Não escondeu uma lágrima de saudade e de gratidão pelo carinho com que o Pai organizara a sua história. Olhando as fotografias, reconheceu-se menina e moça, alegre, olhos vivos, rosto voluntarioso emoldurado por cabelos pretos. O álbum representava mais do que um caminho sinalizado por fotografias, representava o seu crescimento ao longo dos anos, visto pela pessoa mais importante que conhecera na sua vida. E que chorava agora.
Onde estará essa rapariga, hoje feita mulher que esqueceu o que o Pai muitas vezes lhe dissera? “Filha, vive a vida pois só se vive uma vez”.
Esta lembrança abriu uma clareira de luz naquele dia cinzento. Com determinação decidiu que ainda era tempo para recuperar a sua vida. Sentia que, algures, o Pai lhe acenaria que sim.

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