A Partida
Mas o homem que começara a ter consciência, que adormeceu sonhando com o amanhã, não acordou.
Afinal, o seu amanhã tinha sido ontem. Tinha relembrado os rostos familiares que havia esquecido e com aquelas imagens tinha partido, com um sorriso de tranquilidade a bailar-lhe nos lábios.
Estava no outro lugar, cheio de luz e livre do pesadelo. Não tinha mais dúvidas angústias nem dor.
Mas num canto pequeno do seu cérebro ainda havia um vislumbre de vida, mas que escondia. Nele guardava os segredos, as carícias, o amor, o riso de crianças, o rumor do mar, o brilho do sol a alegria da madrugada. Apagara a mágoa e a desilusão, a injustiça e a traição, o choro e os gritos, a noite sem estrelas.
À sua volta sentia murmúrios sussurrados. No seu subconsciente, naquele pedacinho que ainda sobrevivia, tentava encontrar e dizer uma palavra. Mas ninguém ouvia, estava só naquele mundo em que mergulhara. E era só que queria ficar, em paz.
Finalmente, alguém desligou uma máquina e o Engenheiro que havia sofrido a humilhação do despedimento e constatado a traição da pessoa em que sempre confiara, partiu. Sem censuras, apenas com o desgosto de uma vida perdida.
Em vão, tinha lutado consigo próprio. Á beira do abismo ainda encontrara um rasgo de vida e de esperança. Mas tinha sido apenas um lampejo. O destino fora mais forte.
O FIM
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