1º Capítulo – O Inverno
Era sábado, mas Maria Fernanda acordou cedo. Chegou à janela, era uma manhã de inverno, cinzento e chuvoso, um dia triste como triste era a sua vida.
Tinha trabalho para fazer mas que lhe ocuparia apenas algumas horas. Era a vantagem de ter uma profissão individual, trabalhava normalmente em casa, prestando serviços de consultadoria e tradução. A tarefa que tinha aceite, encomendada por uma firma de Advocacia, estava quase concluída, faltava apenas a revisão e o seu envio em ficheiro. Foi a primeira coisa que fez naquela manhã.
Depois, preparou um banho de imersão, água bem quente, banheira cheia de espuma e com um copo de vodka, a sua bebida favorita, deixou que o ambiente e a bebida lhe dessem mais calor à sua vida.
Enquanto massajava o corpo, acariciando os seios, sentia que tinha completado os trinta e seis anos de idade, mas que o corpo lhe cobrava emoções e desejos que, só ocasionalmente e sem grande intensidade, havia vivido.
Tinha perdido os melhores anos da vida, alimentando a sua necessidade de afectos com alguns encontros descomprometidos. Foram encontros ocasionais e fortuitos, resumindo-se a sexo sem paixão, relações sem futuro e dos quais, nem guardara recordações.
E enquanto tomava o pequeno almoço, sentada no sofá do escritório, recordou o passado e o seu percurso:
Desiludida com o ensino na Universidade que frequentara, faltava algumas cadeiras para concluir Direito, quando decidiu dar um novo rumo à vida. Tinha estudado na Escola Alemã em Lisboa e reconhecia que deveria completar os estudos numa universidade no estrangeiro. Conseguira o apoio do Pai, garantindo o dinheiro necessário para o caminho que pretendia seguir, mas a Mãe, personalidade muito forte, não aceitara de bom grado a decisão. Fizera, contudo uma exigência prévia, que era o seu regresso logo após terminar o curso.
Só que concluído o curso e tendo optado por ficar por lá, foi seleccionada para um estágio numa grande empresa e no fim, contratada.
O tempo ia passando, ano após ano, vinha de férias a casa no Natal e durante uma semana no verão, ouvia as reclamações da Mãe mas, voltava a partir. Era e reconhecia agora, a necessidade de se libertar da influência da Mãe.
A morte do Pai, ocorrida dois anos antes, tinha representado mais do que o seu desaparecimento. Tinha perdido o aliado e confidente, o ombro que sempre a suportara. Ficou fragilizada e não conseguiu resistir aos apelos da Mãe.
E regressara, mais de dez anos após ter partido, profissionalmente realizada mas vazia de emoções. Tinha aprendido muito, trabalhado ainda mais, mas esquecera-se de viver.
Era uma mulher só, triste e tímida. Escondia os sentimentos e vivia na ilusão de encontrar um grande amor. Mas o tempo escoava-se até que, súbitamente, a sua vida ganhou novo sentido.
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